Artigo Liderança - Poder e liderança

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  • 1. RedalycSistema de Informao CientficaRede de Revistas Cientficas da Amrica Latina o Caribe, a Espanha e Portugal Sanches Amorim, Maria Cristina; Martins Perez, Regina Helena Poder e Liderana: as contribuies de Maquiavel, Gramsci, Hayek e FoucaultRevista de Cincias da Administrao, vol. 12, nm. 26, enero-abril, 2010, pp. 221-243Universidade Federal de Santa Catarina Santa Catarina, BrasilDisponvel em: http://www.redalyc.org/src/inicio/ArtPdfRed.jsp?iCve=273519428009Revista de Cincias da AdministraoISSN (Verso impressa): 1516-3865revista@cse.ufsc.brUniversidade Federal de Santa CatarinaBrasil Como citar este artigoNmero completoMais informaes do artigo Site da revista www.redalyc.org Projeto acadmico no lucrativo, desenvolvido pela iniciativa Acesso Aberto

2. Empresa Doente, Funcionrio Estressado: analisandoLiderana:organizacional comoMaquiavel, Gramsci,stress no trabalhoPoder e a sade as contribuies de influenciadora do Hayek e FoucaultPoder e Liderana: as contribuiesde Maquiavel, Gramsci, Hayek e Foucault Maria Cristina Sanches Amorim1 Regina Helena Martins Perez2ResumoLiderana um campo amplo no universo do comportamento organizacional.Os conceitos so problemticos, no sentido da delimitao do objeto de estudo,ainda controversa. A maior parte da literatura origina-se na psicologia social,enquanto que a teoria poltica pouco explorada na construo dos conceitos.Contribuies dos autores oriundos da psicologia social, quando traduzidaspara o grande pblico disseminaram o surgimento de esteretipos e frmulas,marcados pelo vis do chamado politicamente correto e pela despolitizao dotema. Objetivo: mostrar que a cincia poltica pode ampliar o debate, propondo oestudo das relaes entre poder e liderana nas organizaes. Metodologia: revisobibliogrfica multidisciplinar, compatvel com o ensaio terico. Concluses: acincia poltica permite definir liderana como exerccio de poder nasorganizaes, contornando o problema conceitual do tema; poder no temconotao negativa ou positiva, tais juzos respeitam as formas e objetivos dopoder; exercer o poder uma contingncia da liderana.Palavras-chave: Comportamento organizacional. Liderana. Poder.1 Introduo A literatura sobre liderana constituda principalmente pelascontribuies da psicologia e, em segundo plano, da sociologia (ROBBINS,2005). H pouca influncia da cincia poltica e esta, por sua vez, quandoutilizada, o em sentido restrito, pois o poder considerado apenas naacepo negativa de opresso e conflito. O objetivo do artigo contribuirpara a discusso sobre o tema liderana, luz da cincia poltica, tendo comoreferncia os clssicos da poltica, Maquiavel, Gramsci, Hayek e Foucault.1Doutora em Cincias Sociais. Economista. Professora titular de departamento de economia e do programa de ps-graduao em administraoda PUC/SP Endereo: Rua Ministro Godoy, 969 4 andar, bloco A, sala 4E04, CEP: 05.015-000. So Paulo SP Brasil. E-mail:.cristina.amorim@attglobal.net.2 Doutora em Cincia Sociais pela PUC/SP Psicloga. Professora da Escola Superior de Propaganda e Marketing ESPM. Endereo: Rua Ministro.Godoy, 969 4 andar, bloco A, salal 4E04, CEP: 05.015-000. So Paulo SP Brasil. E-mail: mhm1@uol.com.br.Revista de Cincias da Administrao v. 12, n. 26, p. 221-243, jan/abril 2010Revista de Cincias da Administrao v. 12, n. 26, p. 189-220, jan/abril 2010 221 3. Maria Cristina Sanches Amorim Regina Helena Martins PerezO foco escolhido a liderana associada ao posicionamento do indivduona hierarquia, a chamada liderana formal, ainda que na acepo de Foucault,influenciar pessoas independentemente do cargo tambm seja uma formade exercer o poder.Este artigo nasceu dentro do grupo de pesquisa sobre organizaes esistemas de sade, constitudo por professores, mestrandos, doutorando ealunos de especializao. Em dado momento, foi necessrio agregar apesquisa ao estudo sobre liderana, em virtude da necessidade decompreender, no nvel do desempenho das pessoas, as diferenas entre asorganizaes de sade. No primeiro estgio da pesquisa, percebeu-se aexistncia de interesses divergentes em todos os elos da cadeia produtiva.No segundo, foram estudadas as relaes entre interesses organizadoscorporativamente e poder, desaguando na anlise das aes dos indivduoscomo agentes dos blocos de interesse. Para entender as questes colocadaspelo segundo estgio da pesquisa, foi necessrio estudar liderana e podernas organizaes o artigo resulta dessa reflexo sobre a teoria da lideranae a teoria poltica.A produo terica sobre liderana ampla (BERGAMINI, 2004), aschamadas escolas, organizadas em torno de caractersticas e papis sosobejamente conhecidas e, por esse motivo, no se apresenta exaustivareviso bibliogrfica dos ttulos e escolas, mas privilegia-se o menosexplorado, as contribuies vindas da cincia poltica.Enquanto a academia e os pesquisadores tm importantes e pertinentesreticncias tericas, os executivos consomem vorazmente a literatura voltadapara o grande pblico que, muitas vezes, de qualidade discutvel. O discursohegemnico das revistas de negcio voltadas para o grande pblico marcadopelo que se supe politicamente correto. Nos limites desse artigo, opoliticamente correto significa a assuno de discursos esvaziados doscontedos originais, utilizados para evitar conflitos com o pblico, na tentativade despolitizar os debates. Em outros termos, no lugar da imprescindveldiscusso sobre tica e moral nas organizaes surgem os clichs recomendandocondutas quanto aos relacionamentos entre gneros, s religies, aossubordinados, s caractersticas tnicas e particularmente, quanto ao poder.Na literatura para o grande pblico, a despolitizao resulta nacaracterizao do lder ideal como um indivduo virtuoso, acima do bem edo mal. O estudo da poltica o convida a repolitizar o debate, sugerindo quese o poder se expressa tambm por meio da liderana, conveniente investigaras relaes entre o primeiro e a segunda.222 Revista de Cincias da Administrao v. 12, n. 26, p. 221-243, jan/abril 2010 4. Poder e Liderana: as contribuies de Maquiavel, Gramsci, Hayek e Foucault2 LideranaA psicologia organizacional, pioneira no estudo sobre liderana, deunotveis contribuies ao debate e, ao mesmo tempo, propiciou abordagensdicotmicas, demarcando a discusso entre a corrente behaviorista e afenomenolgica, sugerindo que uma das correntes correta e a outra, errada.Bergamini (1994, p. 84), provavelmente a autora nacional mais lida, adverteo leitor sobre as diferenas irreconciliveis entre as duas correntes, de sorteque [...] no se pode aceitar a ambas correntes ao mesmo tempo para explicarum mesmo tipo de comportamento. A autora prossegue na demarcao entreos dois campos conceituais ao citar Milhoan e Forisha, autores de [...] uma obra de divulgao em psicologia, no muito so- fisticada, mas escrita dentro de aceitveis critrios cient- ficos, prope [...] a diferena entre a viso comportamental e fenomenolgica do ser humano: a orientao comportamentalista considera o homem como um orga- nismo passivo, governado pelos estmulos fornecidos pelo meio ambiente; o homem pode ser manipulado, o que sig- nifica que seu comportamento pode ser controlado. [...] a corrente fenomenolgica considera o homem como fonte de todos os seus atos, [...] essencialmente livre para fa- zer escolhas em cada situao (BERGAMINI,1994, p. 85). Desde as crticas do indutivismo por autores como Popper (1980), Kuhn(2003) e Lakatos (1983), a cincia no mais se arvora em verdade nica. Ascontribuies da teoria do caos, por sua vez, incumbiram-se no s deaprofundar as crticas, como de mostrar que, se no h a verdade absoluta,ento, a regra passa a ser a complementaridade entre os saberes (PRIGOGINI;STENGERS, 1991). Se concordarmos com os autores da teoria do caos e dacomplexidade, temos mais um motivo para olhar a liderana por outrosenfoques, como por exemplo, o do poder, ancorando-nos na teoria poltica. Percebe-se na citao da dupla de autores Milhoan e Forisha (apudBERGAMINI,1994), de sorte repetida exaustivamente na literatura, umevidente julgamento das duas teorias. Dado que na sociedade ocidental,fortemente marcada pela cultura liberal (como se ver adiante, com Hayek),controlar ou ser controlado so categorias negativas, o behaviorismo e tudoque deriva dele, transformou-se em condutas pejorativas: arcaicas,Revista de Cincias da Administrao v. 12, n. 26, p. 221-243, jan/abril 2010 223 5. Maria Cristina Sanches Amorim Regina Helena Martins Perezequivocadas e, at mesmo, perversas. Por isso a literatura sobre liderana terfundado dois tipos clssicos de executivos. De um lado, o chefe, associado administrao cientfica no incio do Sculo XX e ao behaviorismo, talhadopara gerir processos, de outro, o lder, ligado corrente da escola de RecursosHumanos e ao comportamentalismo, voltado para funes menosestruturadas (na vertente popular, o ser carismtico, visionrio e,principalmente, um exemplo de virtudes a servio dos interesses do grupo).Distante da economia e da poltica, as teorias sobre Recursos Humanosabsorveram as contradies estruturais do capitalismo na forma deposicionamento militante, caracterizado pelo dilema quanto ao papel dosestudos sobre comportamento organizacional. Ou se produzia saberes pr-capitais, procurando aumentar a produtividade do trabalho, ou se tratava daproduo intelectual para a defesa do trabalhador, protegendo-o da lgicacapitalista da busca pelo lucro crescente.Com relao a tal debate, as transformaes no mundo do trabalho emcurso desde os anos de 1980 incumbiram-se de solapar a pertinncia dodilema. O aumento da precariedade das relaes de trabalho, diante da qualo emprego formal quase um privilgio (DOWBOR, 2002), ou, a ideologiadominante da globalizao segundo a qual os benefcios conquistados pelostrabalhadores so resqucios de administrao paternalista (TODD, 1999)cumpriram a funo de inutilizar o posicionamento dito pr-trabalhador.A popularidade da expresso colaboradores para designar o que j foidenominado de fora de trabalho, trabalhadores ou funcionrios evidencia aobsolescncia do velho dilema e