revista digital FOTO grafia nº09 / setembro / 2012

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    05-Sep-2014

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Perodico digital sobre Fotografia

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  • Alexandre Severo Anna Kahn Breno Rotatori Cssio Vasconcellos Claudio Edinger Pedro Motta # f o t g r a f o s 09 b r a s i l e i r o s
  • revista digital foto grafia acesse leia contribua divulgue www.revistafotografia.com.br
  • #09 / setembro / 2012 EXP. / COLABORADORES DESTA EDIO / Alexandre Severo Anna Kahn Breno Rotatori Cssio Vasconcellos Claudio Edinger Pedro Motta / EXPEDIENTE / Responsveis: Felipe H. Gallarza Sergio Antonio Ulber / Conselho editorial: Felipe H. Gallarza Sergio Antonio Ulber Vitor Ebel / Diretor de arte: Felipe H. Gallarza / Diretor de redao: Sergio Antonio Ulber / Programador: Iacami Enapup Gevaerd / Jornalista: Gustavo Zonta / Reviso: Sergio Antonio Ulber Vitor Ebel / COLABORADORES DO BLOG / Caroline Santos Diogo Carreira Euclydes da Cunha Neto Vitor Ebel / Capa: Felipe H. Gallarza / Ilustrao p. 07: Sergio Antonio Ulber PRODUO INDEPENDENTE E COLABORATIVA contato@revistafotografia.com.br ISSN: 2178-8596 A produo total ou parcial de qualquer texto ou imagem, por qualquer meio, sem autorizao dos autores ou da revista totalmente proibida. Para colaborar conosco confira as instrues no site da revista (www.revistafotografia.com.br/colabore). A revista Foto Grafia um projeto de fomento produo fotogrfica, produzido de maneira independente e colaborativa. A Equipe agradece a todos que colaboram com a Foto Grafia, tornando possvel a realizao desta. p [4]
  • p. 20 p. 42 Breno Rotatori Alexandre Severo Fotos e A histria contra-fotos do contrrio de minha av p. 30 Anna Kahn Ausncia p. 08 que inquieta p. 56 Claudio Edinger A Serra Catarinense no foco seletivo de Claudio Edinger Cassio Vasconcellos Vises areas do caos e ordem coletivos p. 64 Pedro Motta Natureza sobreposta
  • feito para ler por Sergio A. Ulber Voyeurs, somos todos voyeurs, gostamos de 50 imagens. Um livro, um ensaio, uma histria olhar, de observar, espiar... melhor ainda ver contada. com as mos. A fotografia nos sacia esta von- A narrativa fotogrfica to comum que s ve- tade, em pequenas janelas vemos algo que zes passa despercebida, esquecemos que est no mais nos pertence, ou ento o que nunca presente em lbuns de famlia, de casamento, nos pertenceu, mas no importa, gostamos de redes sociais. Impressionante quem con- de olhar; e isto nos transporta, como num livro segue narrar para a massa, conquistar o p- bom, conforme lemos nos despertam senti- blico, plantar uma ideia, fotografar o novo, mentos. reinterpretar, inventar novos conceitos, mudar Como bons voyeurs que somos, nossa imagi- a cabea de algum utilizando somente ima- nao aguada, damos imagem movi- gens. A fotografia tem poderes precisamente mento, vemos a continuidade do instante, ou funcionais quando bem utilizada. ento que teria acontecido antes, enxergamos Impossvel no citar Susan Sontag neste breve uma cena opaca, um pouco esbranquiada, texto construdo com base em suas reflexes. enevoada. Mas vemos, e vemos alm: senti- Se, para ela, o conhecimento adquirido por mos, interpretamos, questionamos, discutimos, meio de fotos ser sempre um sentimentalis- aprendemos. mo, estes ensaios esto aqui como prova, em Existem histrias que para serem contadas bas- uma edio especialmente dedicada a eles. ta uma imagem, como na literatura, quando A eles e aos seus autores, que conseguem dar no necessrio mais do que uma pgina voz ao que est mudo, beleza ao grotesco ou para escrever um conto. Algumas pedem mais, ateno ao despercebido. Aos que conse- exigem a construo e o desenvol-vimento de guem despertar em ns um sentimento. uma narrativa, 100, 200, 500 pginas, 10, 20, p [6]
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  • Cassio Vasconcellos Vises areas do caos e ordem coletivos Observar o mundo por uma nova perspec- Estas imagens feitas por Cssio so criadas tiva, de cima, e mostrar as paisagens que a partir de centenas de outras fotografias. A dificilmente o olhar humano, que fica rente imagem area do aeroporto, por exemplo, ao cho, poderia ver. Este tem sido o foco do resultou de registros feitos no sobrevo de he- trabalho recente do fotgrafo paulista Cssio licptero em 8 aeroportos: 5 no estado de Vasconcellos, que tem dedicado seu tempo So Paulo e 3 nos Estados Unidos. Ele registrou tomada de cenas areas. Ver o mundo do todos os tipos de avies e a movimentao alto faz parte da rotina de Cssio, que tirou que h nestes lugares. As fotografias foram o brev e tambm pilota helicpteros, um recortadas e os elementos que compem a sonho que alimentou desde que era menino. imagem final foram recolocados um a um. A L de cima, o fotgrafo consegue fazer re- ideia do trabalho mostrar as conexes que gistros inusitados e, atravs da manipulao existem entre estes lugares em uma forma e da montagem destas capturas, compe que se assemelha a neurnios, um desenho cenas panormicas que formam grandes quase orgnico, explica Cssio Vasconcel- painis. So mosaicos fotogrficos impres- los. sionantes, que mostram desde o caos das De longe, a imagem at parece uma foto- grandes cidades, como o acmulo de mi- grafia abstrata, mas, no tamanho em que foi lhares de pessoas (caso da imagem NIS, pensada para impresso (2 metros de largura que ilustra esta pgina) ou o trfego de por 5 metros de comprimento), permite que, veculos (nas fotos feitas sobre o Ceasa, em de perto, possam ser vistos todos os detalhes So Paulo, p. 18-19), at a estranha ordem captados pela lente do fotgrafo. existente em uma praia ou em avies esta- Trabalho semelhante, Cssio fez no projeto cionados em um aeroporto. intitulado Coletivo, de 2008, que teve grande
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  • repercusso no pas. O artista criou um mo- Aqui, ao contrrio, o painel opera por modu- saico fotogrfico, de 12 metros de extenso lao, engendrando uma superfcie que se por 2,20 metros de altura, formado por 50 configura em variao contnua. mil carros colocados lado a lado. De longe, Cssio Vasconcellos nasceu em So Paulo, a impresso de estar vendo uma enorme em 29 de setembro de 1965. Iniciou sua tra- tapearia cheia de pontos coloridos. De per- jetria na fotografia em 1981, na escola Ima- to, possvel ver os detalhes de cada veculo, gem-Ao. Durante sua carreira, seu trabalho um mar de carros fotografados em sobrevos pessoal, sempre voltado a projetos artsticos, feitos em grandes ptios de recolhimento de percorreu muitas galerias e museus no Brasil veculos apreendidos ou abandonados. e pelo mundo, participando de mais de 130 Como afirma Nelson Brissac, professor do Pro- exposies em 18 pases. Neste perodo, o grama de Ps-Graduao em Tecnologias fotgrafo paulista foi agraciado com o Pr- da Inteligncia e Design Digital da PUC-SP, no mio Nacional de Fotografia da Funarte, na texto de apresentao do projeto, o painel categoria Arte, em 1995, com o Prmio Porto fotogrfico est ancorado nesse dispositivo Seguro de Fotografia, em 2001, e o Prmio de mobilizao do observador, de desloca- de Melhor Exposio de Fotografia do Ano, mento do ponto de vista. O quadro fotogrfi- da Associao Paulista de Crticos de Arte de co clssico em geral opera como um molde, So Paulo, em 2002. formatando a composio da paisagem.
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  • Alexandre Severo A hist ria do contrri A chance dos trs irmos terem nascido ciais, vivem correndo para se esconder albinos na mesma famlia era de uma do sol. O jeito brincar dentro de casa. em um milho, mas aconteceu. Kauan, A dura rotina destas crianas foi 5 anos, Ruth Caroline, 10, e Esthefany registrada pelas lentes do fotojornalista Caroline, 8, nasceram brancos em uma pernambucano Alexandre Severo. O famlia de negros na cidade de Olinda, projeto, intitulado Flor da Pele, nasceu em Pernambuco. A me, Rosemere Fer- de uma reportagem feita para o Jornal nandes de Andrade, 27, negra, o pai do Commercio, com texto do jornalista moreno. Pobres, eles moram em uma Joo Valadares. O trabalho, realizado favela chamada V-9 e, sem recursos em agosto de 2009, foi mundialmente para comprar protetores solares espe- reconhecido. p [ 20 ]
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  • A agncia Reuters elegeu a foto O gato como uma das Imagens do Ano (Pictures of the Year). A foto mostra os irmos albinos Esthefany e Kauan brincando com a prima negra Taina tendo o testemunho de um gato siams. O projeto tambm foi selecionado para a mostra Descubrimientos, do PhotoEspaa 2009/2010. No trabalho, Alexandre busca registrar o difcil dia-a-dia das trs crianas albinas p [ 22 ]
  • e como elas convivem com o defeito dedos cruzados so sempre para cho- gentico que as deixou brancas. So ver. o convite para o banho de mar na imagens belas, doces, at ingnuas, Praia Del Chifre, em Olinda. Rezam para mas, ao mesmo tempo, duras e con- espantar o domingo de sol. S assim, testadoras. A condio social desfa- com o cu pintado de preto, so crian- vorvel o principal agravante da as, relata Joo Valadares. doena. Sem ter como se proteger do s vezes, Kauan, o mais novo, desafia o sol, as crianas ficam trancadas den- maior inimigo. Fecha os olhos e corre no tro de casa, grudadas na televiso, em meio da rua gritando com o sol. Ele sorri cima da cama com as janelas fecha- e ouve os gritos da me para voltar logo das, sentadas diante do ventilador. Os para dentro de casa. Severo p [ 23 ]
  • captura com maestria este belo mo- isso seguem todos de mos dadas. mento em que Kauan volta a ser uma Apesar de tantas dificuldades as trs criana normal. crianas sonham com o futuro: Ruth A ida para a escola, a 200 m de casa, quer ser policial, Kauan, bombeiro ou tambm vira um martrio. De bons, dentista, e Esthefany, modelo. So os camisetas de mangas longas, eles anjinhos da mame Rosemere que tentam se proteger da luz para evitar as ganharam cores e vida nas fotografias noites diante do ventilador e as feridas de Severo. Como pontua o jornalista pelo corpo. A doena tambm compro- Joo Valadares, esta a histria do mete a viso, os trs culos esto que- contrrio. brados. As quedas so constantes, por Alexandre nasceu em 1978, em p [ 24 ]
  • Recife, e comeou a fotografar em O fotgrafo ainda ganhou diversos 2002. Trabalhou nos principais jornais prmios de fotojornalismo e tem obras de Pernambuco, com destaque para o no Museu da Abolio Centro de Jornal do Commercio, onde passou 7 Referncia da Cultura Afro-Brasileira, Re- anos. Hoje, mora em So Paulo e cife, e na Galeria Arte Plural (PE). fotgrafo independente. Publicou Tambm teve trabalhos expostos no trabalhos na Revista Time, Revista S/N, Kaunas Photo Festival (Litunia), Paraty Sueo de la Razn, Folha de So Paulo, em Foco 2009, FestFotoPoA 2009, Tate no livro Melhor do Fotojornalismo 2010, Modern (Londres), Galeria Arte Plural dentre outros veculos nacionais e (Recife) e no Museu do Homem do internacionais. Nordeste (Recife). p [ 25 ]
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  • p [ 30 ] Maria, 29 anos, empregada domstica.Na Cidade de Deus, falando ao telefone
  • Anna Kahn ausncia que inquieta Fotografar o ausente, aquilo que no est mais bala perdida a levou. E assim foi com Maria, 29 aqui, o que foi tirado. O ensaio Retratos da anos, empregada domstica, com Andr, 23 ausncia, da fotgrafa carioca Anna Kahn, anos, estudante, com Maria de Ftima, 64 anos, lana um novo olhar a respeito das vtimas de dona de casa e com outras milhares de pessoas balas perdidas no Rio de Janeiro. Ao contrrio vtimas de balas perdidas. Elas foram, ficaram das imagens explcitas da violncia das grandes apenas os lugares. metrpoles, que quase sempre mostram de- So esses locais vazios, esses espaos no mais mais, os registros feitos por Anna causam inqui- ocupados, que aparecem no trabalho de Anna etao e angstia por aquilo que no mostram. Kahn. As fotografias so noturnas, pouco ilumi- Ctia, de 32 anos, dona de casa, no est mais nadas e misteriosas. As cenas desertas passam l. Restou apenas a Praia de Copacabana, toda a solido, o luto e a dor causados pela fal- onde ela estava com amigos e a filha de oito ta de quem ali estava e foi levado. A ausncia e anos quando foi atingida por uma bala per- o silncio nos conduzem a uma ampla reflexo dida. Alice, de 3 anos, tambm no est mais sobre a violncia e a vida. na Cidade de Deus. Ficou apenas a calada O ensaio um dos mais expressivos trabalhos da pouco iluminada onde ela brincava quando a fotgrafa Anna Kahn. A exposio deste trabapor Sergio Antonio Ulber p [ 31 ]
  • lho foi mostrada no Instituto Moreira Salles, de novembro de 2007 a fevereiro de 2008, e faz parte tas e jornais brasileiros de 1999 a 2007. Hoje, da coleo do Instituto. Foi tambm includo na representada pela Galeria Tempo, em Copaca- programao do PhotoIrelands Projections, em bana. Dublin, em julho de 2010, e do Fest Foto POA, Alm do projeto Bala Perdida, Anna tambm re- em abril do mesmo ano. O ensaio ainda foi sele- alizou trabalhos importantes como o vdeo-insta- cionado pelo Festival Paraty em Foco, em 2010, lao Pourquoi faut-il toujours avoir un sens?, para ocupar a Galeria O cubo, transformado sobre a imobilidade, que foi exibido no Centro n...