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18 Congresso Brasileiro de Sociologia

26 a 29 de Julho de 2017, Braslia (DF)

Grupo de Trabalho: Ocupaes e Profisses

Ttulo do Trabalho:

Categorias socioprofissionais e representao poltica:

uma relao ambivalente

Rodrigo da Rosa Bordignon (UFSC)

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Categorias socioprofissionais e representao poltica: uma relao

ambivalente

Rodrigo da Rosa Bordignon1

Resumo

O presente trabalho centra-se no exame das relaes entre categorias socioprofissionais e representao poltica, acentuando a objetivao social de determinadas classificaes e as hierarquias sociais subjacentes competio eleitoral. Os dados utilizados referem-se a totalidade dos candidatos nas eleies gerais de 2010, cujas propriedades sociais so comparadas aos microdados do censo, visando discutir a ambivalncia das classificaes socioprofissionais frente a esfera poltica e os esquemas de percepo que esto na base das formas de apresentao de si. Palavras-chave Categorias socioprofissionais, Representao poltica, Formas de classificao, Hierarquias Introduo

Lembrando das indicaes de Weber (1982) sobre as relaes entre

ocupaes e poltica, fica evidente a configurao de uma dinmica especfica

que conecta as exigncias tcnicas e as caractersticas da atividade exercida

s probabilidades diferenciais de ingresso e dedicao aos cargos de

representao nas democracias modernas. Hipoteticamente, as afinidades

eletivas entre as duas esferas da vida social, no entanto, no se do por algum

vnculo substancial, mas sim pela variao de determinados atributos,

destacando-se, em especial, a situao econmica e as condies de exerccio

das atividades profissionais. Ampliando as proposies de Weber, possvel

definir as relaes que permitem especificar os modos de associao entre as

situaes de classe e as oportunidades especficas de vida enquanto relaes-

fins que tem seus meios na forma pela qual a propriedade material

distribuda (Weber, 1982, p. 212). Neste quadro de referncias, encontra-se a

possibilidade de no consumir total ou predominantemente sua capacidade e

pensamento na aquisio dos meios de subsistncia.

1 Departamento de Sociologia e Cincia Poltica UFSC.

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Isso significa, para seguir a trilha desenvolvida por Bourdieu (2007a),

que as chances de tomar parte nas lutas polticas dependem da desigual

distribuio dos instrumentos materiais e culturais necessrios participao

ativa na poltica (Bourdieu, 2007a, p. 164). Trata-se, aqui, de um

desdobramento especfico das premissas weberianas, em especial daquelas

que se referem ao alargamento da dicotomia contida na definio das

situaes de classe, tendente a separar entre os que possuem propriedades e

os que no as possuem. De tal modo, opera-se uma diferenciao interna aos

dois polos: i) entre os que possuem propriedades, faz-se necessrio saber os

tipos de propriedades utilizveis para o lucro; ii) entre os que no as possuem,

resta-lhes oferecer servios no mercado. No caso destes ltimos, a

segmentao interna ocorre pelo tipo de servios que oferecem, e pelo modo

em que se utilizam dos servios oferecidos por outros (Weber, 1982, p. 213-

214). No centro das distines entre as atividades oferecidas no mercado esto

as formas de especializao tcnica, sua legitimao, codificao e decorrente

incidncia sobre a regulao dos servios e de seus ofertantes reconhecidos,

elementos fundados na relao entre o sistema econmico e o sistema de

ensino (Bourdieu e Boltanski, 2007).

A objetivao histrica e social dos diplomas enquanto elementos que

garantem o acesso aos cargos compensadores pblicos e privados (Weber,

2004a, p. 150, 2004b, p. 540), est no centro dos debates sobre as relaes

entre a escolarizao e os processos de estratificao e fechamento social. No

entanto, as implicaes disso para o objeto do presente texto resumem-se aos

seus efeitos para a diviso do trabalho poltico entre agentes politicamente

ativos e agentes politicamente passivos, fenmeno que direciona a ateno

para duas variveis especficas: 1) tempo livre, e 2) capital cultural. Contudo, a

identificao dos elementos variantes e seu impacto nas possibilidades

diferenciais de participao poltica implicam mais do que uma simples

constatao lgica ou procedimental, direcionando o debate para o

enfrentamento de um problema terico especfico: o grau de autonomia

pressuposto ou atribudo esfera da poltica, e o fato disso ser ou no tomado

como algo a ser analisado. neste sentido que se considera, ou no, nas

relaes entre a ocupao de origem e a participao poltica, o processo

histrico e social de constituio e diferenciao de esferas de atuao

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especficas e seus impactos para os modos e chances de interao entre

agentes sociais e determinados domnios de atividades. O reconhecimento

deste fenmeno implica na apreenso dos graus diferenciais de objetivao

social da esfera poltica, e nas consequncias disso para a constituio de um

domnio especfico de atividades que impem seus critrios de entrada e

modos legtimos de apreenso, acionando determinadas disposies e

competncias.

Em grande medida, as controvrsias fundamentais sobre as condies

sociais e institucionais de se viver da e para a poltica, residem na formulao

de Weber sobre a constituio do domnio da poltica profissional enquanto um

dos processos que marcam a consolidao dos Estados Modernos. Naquele

contexto, tratava-se de evidenciar a constituio da poltica enquanto

organizao que exigia o treinamento na luta pelo poder, e nos mtodos desta

luta, cujo resultado prtico se apresenta na transio entre tipos polticos e na

consolidao do demagogo como lder poltico tpico do Ocidente (Weber,

1982, p. 111). Evidentemente, tal proposio destaca o processo histrico e

social de diferenciao das esferas de atuao e seu progressivo fechamento

social. Nestes termos, a historicidade da afirmao da poltica como uma

esfera de atividades especficas que exige e impem a posse de um conjunto

de atributos e o domnio de cdigos de significado, marca o centro das

controvrsias sobre as relaes entre estrutura social e chances diferenciais de

investimento em carreiras polticas.

O ponto chave do debate encontra-se na afirmao da disponibilidade

econmica acompanhada da necessria dispensabilidade do trabalho , e

das conexes tcnicas entre o exerccio de determinadas atividades

profissionais e o da poltica. A averiguao das associaes entre estes

elementos tem sido operacionalizada pela formalizao nas variveis: 1)

ocupao prvia; e 2) escolaridade do pretendente ao cargo de representao

poltica. Isso tem levado identificao da centralidade da posse diferencial de

escolarizao, e de ocupaes (brokerage occupations) que permitam

segurana financeira, flexibilidade de tempo e reduzido custo de reinsero

profissional (Norris and Lovenduski, 2004, p. 247). Igualmente e ao lado dos

elementos mais facilmente quantificveis nos estudos de recrutamento, tem-se

apontado para as afinidades eletivas entre as denominadas talking professions

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fontes de habilidades polticas teis , e o exerccio das atividades

parlamentares, alm de destacarem o peso do status e das redes ligadas a

determinadas ocupaes como elementos facilitadores das carreiras polticas

(Ibidem, p. 110-113).

O fato mais marcante que o conjunto destas constataes decorrentes

de estudos sobre recrutamento poltico em diferentes contextos nacionais, tem

destacado as asseres de Weber como uma quase profecia auto-realizvel,

notadamente quando se trata de descrever as associaes entre a formao

jurdica e a poltica: o moderno jurista e a moderna democracia associam-se

absolutamente (Weber, 1982, p. 115). necessrio notar, porm, que esta

afirmao vem acompanhada daquela de que os juristas, enquanto grupo de

status, so um produto histrico especfico deste processo de constituio dos

Estados modernos. De modo geral, a afinidade entre a advocacia e a poltica

atribuda a trs elementos centrais: 1) ao controle dos cdigos lingusticos

ligados ao manejo da jurisprudncia e sua centralidade na constituio das

instituies que marcam a transio para os Estados modernos no ocidente; 2)

as habilidades de defesa de causas enquanto um ethos profissional; 3) a

dispensabilidade do trabalho. Tomando por referencia estes elementos, outras

ocupaes so identificadas como caminhos privilegiados para o Parlamento,

tais como os jornalistas, os consultores financeiros, os pesquisadores e os

professores, por vezes enquadrados na classificao geral de classes mdias

urbanas (Norris and Lovenduski, 2004, p. 113)2.

O fato dos debates encaminharem para um acordo sobre as

interpenetraes ou osmoses, na definio de Dogan (1999) entre

determinadas ocupaes e a esfera da poltica representativa assenta-se em

uma constatao: a sobrerepresentao de determinadas classificaes

socioprofissionais entre os ocupantes de cargos pblicos eleitoralmente em

disputa. Neste ponto reside um dos problemas centrais. A realidade3 de um

domnio evidenciado pela e