8. Salto triplo para queda em falso - Machado de Assis. ?· das obras de valor no tema da decadência…

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    08-Nov-2018

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<ul><li><p>Machado de Assis em linha ano 3, nmero 5, junho 2010 </p><p> http://machadodeassis.net/revista/numero05/rev_num05_artigo08.asp Fundao Casa de Rui Barbosa R. So Clemente, 134, Botafogo 22260-000 Rio de Janeiro, RJ, Brasil. </p><p>(p.95-110) 95 </p><p>SALTO TRIPLO PARA QUEDA EM FALSO: UMA LEITURA DE "AURORA SEM DIA", </p><p>DE MACHADO DE ASSIS On ne tombe jamais que du ct o l'on penche. </p><p>Franois Guizot </p><p>Na introduo ao livro de Srgio Miceli Intelectuais e classe dirigente no </p><p>Brasil (1920-1945), Antonio Candido comenta: </p><p>Sempre me intrigou o fato de num pas novo como o Brasil, e num sculo como o nosso, a fico, a poesia, o teatro produzirem a maioria das obras de valor no tema da decadncia social, familiar, pessoal. Assim vemos em Graciliano Ramos, Jos Lins do Rego, rico Verssimo, Ciro dos Anjos, Lcio Cardoso, Nelson Rodrigues, Jorge Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade. Cheguei a pensar que este 'estigma' (para usar uma palavra prezada por Miceli) seria quase requisito para produzir obras valiosas, e que portanto os rebentos das famlias mais velhas estariam no caso em situao favorvel.1 </p><p>As palavras de Antonio Candido me fizeram lembrar de duas cenas de </p><p>romances brasileiros contemporneos em que personagens da classe dirigente ambos </p><p>decadentes literalmente caem ao cho, como se lhes faltasse sustentao e como se </p><p>tais episdios fossem o pice de um processo supraindividual, histrico. Esses dois </p><p>personagens, Heldio, de O nome do bispo, e o velho narrador de Leite derramado, </p><p>coincidentemente fragilizados por problemas de sade, pertencem a uma certa elite que </p><p>se mantm s custas de compensaes ilusrias bero, endereo, cultura, fineza, bom </p><p>gosto e graas a uma estrutura socioeconmica peculiar. Vivem de brisa, como se </p><p>costuma dizer. Mas brisa que vai perdendo sua fora e por isso eles vm a cair, como se </p><p>l nos trechos que transcrevo a seguir: </p><p> 1 CANDIDO, Antonio. Introduo. In: MICELI, Srgio. Intelectuais e classe dirigente no Brasil (1920-1945). So Paulo: Difel, 1979. p. vii. </p></li><li><p>Machado de Assis em linha ano 3, nmero 5, junho 2010 </p><p> http://machadodeassis.net/revista/numero05/rev_num05_artigo08.asp Fundao Casa de Rui Barbosa R. So Clemente, 134, Botafogo 22260-000 Rio de Janeiro, RJ, Brasil. </p><p>(p.95-110) 96 </p><p>Arlindo breca subitamente, Heldio salta, verga o corpo para trs o que diminui o impacto da queda mas no o impede de ser despejado da cadeira como o contedo de um pacote que se suspende por cima mas se rompe por baixo e vai todinho para o cho. Ali, luz daquele dia que se anuncia rosado e pacato. Os culos de dois graus de miopia em cada lente, coisa pouca, partidos, apertados contra seu corao assustado e o cho duro. A cabea de lado, a face direita recebe um pouco o calor do sol da manh, o ouvido esquerdo est colado ao cho. [...] </p><p>De bruos. Todo o ridculo do mundo empilhado em cima. Exibido visitao pblica.2 </p><p>Mas sim, eu era de novo o rei do mundo, eu era quase o meu pai, e me joguei contra a argamassa da parede como se Matilde estivesse ali para me amparar. Abracei-me parede espera, me esfreguei nela, com gosto me escalavrei nela, e me lembrei de Matilde tremendo inteira, cheguei mesmo a escutar sua voz um pouquinho rouca: eu vou, Eullio. Ento patinei no cimento, e antes de descamar ouvi um estalo, senti a dor de um osso a se partir com sua medula, estendido no cho vi minha perna direita retorcida. Lancina minha carne, Senhor, os fiis cantavam, e eu s tinha um co para escutar minhas lamentaes. Mas em vez de latir para alertar algum vizinho, o idiota pegou a lamber a minha cara. Inerte, eu j no sentia dor alguma, acho at que adormeci naquele piso encharcado, e tomei um susto quando minha filha empurrou a porta do banheiro. A ambulncia s veio com o dia claro, de noite ningum se aventura naquelas bandas.3 </p><p>Caem esses personagens como metaforicamente caiu o Paulo Honrio de So </p><p>Bernardo, cuja trajetria apoiada na brutalidade dramatizada sem a ptina do humor. </p><p>Nessa linhagem, pode-se lembrar ainda Ana Baldochi e seus descendentes em Resumo </p><p>de Ana4, obra que apresenta o movimento pendular de ascenso e queda social de toda </p><p>uma famlia, percorrendo como um bumerangue o arco que vai do lavrador </p><p>empobrecido ao vendedor ambulante, passando pela "filha de criao" que, no entanto, </p><p>chega em certo momento a ocupar posio na burguesia endinheirada do incio do </p><p>sculo XX. </p><p>Evidentemente, a elite desossada que nesses romances beija a lona no forma </p><p>uma massa homognea; mesmo assim, parece-me que de sua complexa figurao </p><p>literria podem-se extrair pontos de interseco e quem sabe alguns antecessores </p><p> 2 TAVARES, Zulmira Ribeiro. O nome do bispo. So Paulo: Brasiliense, 1991. p. 178-179. 3 BUARQUE, Chico. Leite derramado. So Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 181. 4 CARONE, Modesto. Resumo de Ana. So Paulo: Cia. das Letras, 1998. </p></li><li><p>Machado de Assis em linha ano 3, nmero 5, junho 2010 </p><p> http://machadodeassis.net/revista/numero05/rev_num05_artigo08.asp Fundao Casa de Rui Barbosa R. So Clemente, 134, Botafogo 22260-000 Rio de Janeiro, RJ, Brasil. </p><p>(p.95-110) 97 </p><p>ilustres. No difcil associ-la, por exemplo, ao Brs Cubas, que, depois de cair por </p><p>conta de um golpe de ar, em um salto espetacular transforma-se em defunto escritor, </p><p>posio de onde pode continuar alimentando sua suposta superioridade em relao ao </p><p>resto da humanidade. Mas esses personagens de posses e ralo estofo me fizeram lembrar </p><p>tambm Luiz Tinoco do conto "Aurora sem dia", de Machado de Assis. A esse </p><p>personagem machadiano tambm lhe falta um slido e comprometido enchimento, e, se </p><p>seu projeto de enriquecimento logrou, ele pode ser um fssil que testemunha a formao </p><p>problemtica dessa inconsistente classe abastada de onde surgiu gente como Heldio e o </p><p>narrador de Leite derramado. </p><p>Em "Aurora sem dia", publicado no Jornal das Famlias em novembro e </p><p>dezembro de 1870 e posteriormente reunido, com importantes alteraes, em Histrias </p><p>da meia-noite (1873),5 o narrador nos apresenta Luiz Tinoco, jovem que vive </p><p>modestamente, com o ordenado de pequeno empregado da Justia, na casa de </p><p>Anastcio, o padrinho aposentado. Apesar de sua condio social e da origem familiar, </p><p>obliterada pelo narrador, mas certamente humilde, o moo julgava estar "fadado para </p><p>grandes destinos". Luiz Tinoco, sem motivo aparente, se cr poeta, seduzido pelos </p><p>"louros alheios". Da noite para o dia, eis que lhe brota, escrito ardentemente em apenas </p><p>trs horas, um soneto de mtrica bastante irregular. As falhas da composio no o </p><p>impediram de public-la na seo "a-pedidos" do Correio Mercantil. </p><p>Dois dias depois, novo poema, de feitio ultrarromntico, que a interveno de </p><p>um amigo conseguiu que se publicasse em jornal. O padrinho, pego de surpresa e </p><p>convencido de que poesia significa misria, ope-se s pretenses literrias do afilhado </p><p>e pede ao amigo Dr. Lemos que aconselhe o rapaz. No entanto, nada fez Tinoco desistir: </p><p>procurando a aclamao pblica, ele inundou os jornais de suas insignificantes e </p><p>repetitivas produes e, mais tarde, publicou Goivos e Camlias, livro de duzentas </p><p>pginas que obteve como crtica apenas "algumas linhas que fizeram rir a toda gente". </p><p>J se v a figura: a falta de talento proporcional arrogncia, e ambas </p><p>multiplicadas pela averso ao trabalho paciente e ao estudo dedicado. Os poemas de </p><p>Luiz Tinoco eram "de uma tristeza que fazia sorrir, e de uma alegria que fazia bocejar". </p><p>Neles o poeta misturava, em versos desmazeladamente escandidos, referncias mal 5 A edio de Histrias da meia-noite adotada como base deste trabalho ser a organizada por Hlio de Seixas Guimares, para a Martins Fontes (2007). </p></li><li><p>Machado de Assis em linha ano 3, nmero 5, junho 2010 </p><p> http://machadodeassis.net/revista/numero05/rev_num05_artigo08.asp Fundao Casa de Rui Barbosa R. So Clemente, 134, Botafogo 22260-000 Rio de Janeiro, RJ, Brasil. </p><p>(p.95-110) 98 </p><p>digeridas, de Shakespeare, de Dante, de Baslio da Gama. V-se a claramente o verniz </p><p>trincado da ilustrao superficial, refinamento de vitrina to familiar na nossa cultura </p><p>bacharelesca, que se alimenta "de doutrinas dos mais variados matizes e com que </p><p>sustentam, simultaneamente, as convices mais dspares".6 </p><p>Os leitores no apareceram, e Luiz, convencido de que poderia fazer "da sua </p><p>pena uma enxada", descuidou do trabalho e perdeu o emprego. Dr. Lemos, assumindo o </p><p>papel de protetor, prope nova ocupao para o desempregado Luiz Tinoco, em casa do </p><p>"ex-deputado Z", advogado e integrante de certo crculo de homens pblicos de </p><p>oposio. O jovem Luiz, no princpio a contragosto, aceita a indicao. </p><p>Ento, da mesma maneira abrupta que um dia despertou poeta, Tinoco decidiu </p><p>de repente que "os seus destinos eram polticos". Era ainda o mesmo Luiz: movido por </p><p>um idealismo inconsistente, fazia brotar no campo da poltica as mesmas frases mal </p><p>pensadas e pior formuladas de sua produo potica. O que parece ser uma escolha mais </p><p>ao rs-do-cho, do ponto de vista dos eventuais benefcios que da pudessem advir, </p><p>guardava ainda os fumos de uma vaidade divorciada de verdadeira vocao e, </p><p>sobretudo, de paciente preparo, como se nota na passagem que segue: </p><p> Ele [Tinoco] respigava nas alheias produes uma coleo de aluses e nomes literrios, com que fazia as despesas de sua erudio, e no lhe era preciso, por exemplo, ter lido Shakespeare para falar do to be or not to be, do balco de Julieta e das torturas de Otelo. (p. 146-147)7 </p><p>Da a pouco, Tinoco faz-se candidato e derrotado. O poltico-poeta acaba </p><p>sendo enviado pelo advogado Z para a provncia, onde novamente se candidata a </p><p>eleies, saindo desta vez vencedor. Mantm-se o mesmo incorrigvel fabricante de </p><p>frases feitas e passa a ser ridicularizado pelos seus pares. O narrador, por sua vez, </p><p>quem continua cantando em contraponto8 ao sublinhar as fragilidades do protagonista: </p><p> 6 HOLANDA, Srgio Buarque de. Razes do Brasil. Rio de Janeiro: Jos Olympio, 1983. p. 113. 7 Interessante notar que este trecho no consta da primeira verso do conto, o que sugere que Machado pretendeu no trabalho de reescrita destacar o trao atabalhoado e superficial de Luiz Tinoco. 8 Roberto Schwarz entendeu a perturbao do curso da narrativa pelo narrador em primeira pessoa de Memrias pstumas de Brs Cubas como "estilizao de uma conduta prpria classe dominante brasileira". "Importuno e sem credibilidade", esse narrador "a todo momento [...] exibe o figurino do gentleman moderno, para desmerec-lo em seguida". (SCHWARZ, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo. So Paulo: Duas cidades; Editora 34, 2000. p. 19) Essa astuta estratgia machadiana no </p></li><li><p>Machado de Assis em linha ano 3, nmero 5, junho 2010 </p><p> http://machadodeassis.net/revista/numero05/rev_num05_artigo08.asp Fundao Casa de Rui Barbosa R. So Clemente, 134, Botafogo 22260-000 Rio de Janeiro, RJ, Brasil. </p><p>(p.95-110) 99 </p><p>"o advogado achou defeitos no trabalho; apontou-lhe demasias e nebulosidades, </p><p>frouxido de argumentos, mais ornamentao que solidez". </p><p>Passados trs anos, Dr. Lemos vai encontrar Luiz Tinoco ainda na provncia, </p><p>onde se tornara um "honrado e pacato lavrador", casado, pai de dois filhos: segundo o </p><p>narrador, "uma criatura muito outra e muito melhor". </p><p>O conto nos conduz por uma rota cindida: o personagem Luiz Tinoco imagina </p><p>percorrer uma trilha ascendente pretensamente impulsionada por sua genialidade </p><p>incompreendida e por um destino glorioso escrito nas estrelas; j o narrador em terceira </p><p>pessoa e o Dr. Lemos rebaixam constantemente o personagem ao sugerir o carter </p><p>ridculo do desastrado poeta. O resultado que o leitor acompanha a queda gradual de </p><p>um personagem que voa descolado da realidade. </p><p>Essa duplicidade de perspectivas que sustenta a narrativa faz de Luiz Tinoco </p><p>mais um daqueles "pobres diabos" da literatura brasileira, com sua "vocao para o </p><p>fracasso", nas felizes expresses de Jos Paulo Paes. Dr. Lemos, de fato, parece em tudo </p><p>manter em relao a Tinoco aquele sutil equilbrio entre interesse e distncia que a </p><p>compaixo paternalista institui. Ainda segundo Jos Paulo Paes: </p><p>Compadecer-se , etimologicamente, padecer junto, mas ateno em posio de superioridade. Magnanimamente abdicamos, por um momento, do nosso conforto de no-sofredores para, sem risco pessoal, partilhar o sofrimento de algum menos afortunado e por conseguinte inferior a ns, de algum a quem possamos entre depreciativa e compassivamente chamar de "pobre diabo".9 </p><p> primeira vista, pode-se pensar que "Aurora sem dia" apenas reproduz esse </p><p>discurso paternalista, moralista e retrgado, reconduzindo com alguma simpatia o </p><p>protagonista do desvario "justa medida" de seu talento e de seu lugar social. O conto </p><p> poderia operar da mesma forma em um narrador em terceira pessoa como o de "Aurora sem dia", at porque Luiz Tinoco no tem, no campo cultural, o mesmo domnio e a mesma desenvoltura de Brs Cubas; mas a tenso criada entre a imagem que Luiz Tinoco quer produzir de si e a imagem desabonadora resultante da perspectiva do narrador cria efeito algo semelhante, ainda que muito menos engenhoso e impactante. 9 PAES, Jos Paulo. O pobre diabo no romance brasileiro. In:______. A aventura literria. So Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 39-40. </p></li><li><p>Machado de Assis em linha ano 3, nmero 5, junho 2010 </p><p> http://machadodeassis.net/revista/numero05/rev_num05_artigo08.asp Fundao Casa de Rui Barbosa R. So Clemente, 134, Botafogo 22260-000 Rio de Janeiro, RJ, Brasil. </p><p>(p.95-110) 100 </p><p>funcionaria ento como a reiterao da moral da formiga contra os sonhos da cigarra10. </p><p>Pode-se at subentender a a mensagem reacionria de que essas outras opes arte e </p><p>poltica deveriam ficar a cargo dos poucos verdadeiramente talentosos e socialmente </p><p>bem posicionados. Aos despossudos, restaria alguma insero na cadeia produtiva. </p><p>Pode bem ser que muitos leitores do Jornal das Famlias assim tenham </p><p>compreendido o conto em 1870. Como lembra Hlio de Seixas Guimares, esse jornal </p><p>carioca "prometia aos seus leitores 'a mais escrupulosa moralidade', confiando sua </p><p>redao literria 'aos homens que ocupam a primeira plana na literatura ptria'".11 </p><p>O pblico potencial do conto, portanto, deveria ser predominantemente </p><p>conservador e talvez desejasse uma histria esquemtica, sem meias tintas, que alertasse </p><p>contra as errticas ambies de um "pobre diabo" metido a sebo como Luiz Tinoco. </p><p>Isso talvez explique algumas solues narrativas encontradas por Machado na </p><p>primeira verso do conto, na revista de 1870. L, a narrativa conduzida em primeira </p><p>pessoa pelo prprio Dr. Lemos, e os pargrafos finais apresentam uma avaliao sobre a </p><p>trajetria de Luiz Tinoco seguida de comentrio do Dr. Lemos, de modo que no sobra </p><p>espao para ambiguidade: a concluso de Lemos, que est em posio social simtrica </p><p>dos leitores e acim...</p></li></ul>

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