A legião estrangeira clarice lispector

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    02-Jun-2015

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  • 1. H neste livro uma parte significativa da ampla potica de Clarice Lispector.Conforme afirma quem conduz a narrao no primeiro dos admirveis e extasiantes contos aquidispostos por orgnica sabedoria - as palavras me antecedem e ultrapassam, elas me tentam e memodificam, e se no tomo cuidado ser tarde demais:as coisas sero ditas sem eu as ter dito.Dessa prova de poder e de relativa independncia da lngua, extrai-se a prpria substncia deuma arte verbal capaz de articular diferentes tipos de registros, que obedecem variedade emutao dos estados de esprito, bem como variedade e mutao das experincias (observadasou imaginadas, sempre intensamente vividas).Precaver-se ante a palavra e a ela entregar-se, eis o modo possvel e laborioso de escrita - ajustarlngua, conhecimento, percepo e disponibilidade. Infiltrar, assim, no espao do habitual,oraes complexas, desdobrveis, provocadoras de grandes distrbios de rumos e deexpectativas, ao lado de frases retas, curtas, certeiras e velozes.Feitas, por vezes, de um fervor s encontrvel nos grandes textos msticos. Todo um mundo desegredos e de revelaes. Aqui est a vida - pela palavra - sendo gerada aos nossos olhos, comseus contrastes de foras, seu regredir e avanar, a conquista da soberania e da humildade. Como esforo e a destreza exigidos, surpreende-se o que se processa com inteligncia arqueolgicaat surgir como se nascesse do puramente espontneo, acompanhando, portanto, os inmerosclculos necessrios para que se construa a longa e quase atemporal histria dos corpos. Esculpe-se, nas sentenas, a alma. Posta-se vida e paciente em face daquilo que, estando guardado,escandalosamente se recobre de finssima pelcula, como a do ovo - alimento, gestao, forma. Etempo. A natureza milagrosamente esttica: economia, gasto e esmero; voracidade e equilbrio;urgncia e design. A romper-se. Por fim, uma expresso colhida (sem o medo havia o mundo) eoutra, assinalada, quanto importncia, para a vida e para a arte, de incluir em sua bagagem devirtudes o imprescindvel peso de um erro grave, que tantas vezes o que abre por acaso umaporta.ROBERTO CORRA DOS SANTOSProfessor de Teoria da Literatura e de Semiologia do cursoDe graduao e de ps-graduao em Letras da UFRJCLARICE LISPECTORA LEGIO ESTRANGEIRAContos1964, by Clarice Lispector,1978 by Paulo Gurgel Valente e Pedro Gurgel ValenteNOTA PRVIATodo texto com tradio tomada a palavra no sentido que a Crtica Textual lhe empresta tende a apresentar, nas reprodues que dele so feitas, um maior ou menor nmero dealteraes que vo, desde os erros cometidos por distrao de digitadores at as "correes" bem

2. intencionadas de revisores ou copidesques. Por isso, necessrio que se proceda aoestabelecimento desse texto, procurando, no confronto com as edies publicadas em vida doautor, restituir-lhe sua fidedignidade e genuinidade.Clarice Lispector escrevia e reescrevia seus textos, mas no se preocupava em guardarmanuscritos e originais, como se pode verificar no arquivo que se encontra na Fundao Casa deRui Barbosa, cujo inventrio foi organizado por Eliane Vasconcellos, e publicado em 1994. Detoda sua obra ficcional, s restou um original datilografado: o de gua viva, a propsito do qualfala em carta a Olga Borelli, mostrando como trabalhava exaustivamente o texto: "...No pude teesperar: estava morrendo de cansao, porque estou trabalhando ininterruptamente desde ascinco da manh. Infelizmente eu que tenho que fazer a cpia de Atrs do pensamento, semprefiz a ltima cpia dos meus livros anteriores porque cada vez que copio vou modificando,acrescentando, mexendo neles, enfim".No entanto, depois de encaminhar o texto editora, Clarice no se interessava mais por ele,conforme declara em entrevista concedida a Affonso Romano de SantAnna e Marina Colasanti,para o Museu da Imagem e do Som, em 20 de outubro de 1976: "Affonso Voc tem os seustextos escritos na cabea. E uma vez voc me disse uma coisa impressionante: voc nunca relum texto seu.Clarice No. Enjo. Quando publicado, como livro morto. No quero mais saber dele. Equando eu leio, estranho, acho ruim. A no leio, ora!"Olga Borelli, grande amiga e companheira de Clarice Lispector, com quem conversamosrecentemente, nos assegurou que, de fato, Clarice no revia seus textos depois que encaminhavaos originais editora.Assim, no possvel trabalhar com textos de Clarice Lispector, ignorando-se o fato de que noos revia e, portanto, no fazia mudanas de uma edio para outra. Inicialmente constitudo deduas partes, A legio estrangeira s teve uma edio em vida da autora, publicada em 1964, pelaEditora do Autor. Alguns contos que compem a primeira parte foram republicados, commodificaes, em Felicidade clandestina, cuja 1 - edio de 1971. Na pgina que precede asegunda parte, intitulada Fundo de gaveta, l-se:"Esta segunda parte se chamar, como uma vez me sugeriu o nunca assaz citado Otto LaraResende, de Fundo de gaveta. Mas por que livrar-se do que se amontoa, como em todas as casas,no fundo das gavetas? Vide Manuel Bandeira: para que ela me encontre com a casa limpa, amesa posta, com cada coisa em seu lugar. Por que tirar do fundo da gaveta, por exemplo, apecadora queimada, escrita apenas por diverso, enquanto eu esperava o nascimento do meuprimeiro filho? Por que publicar o que no presta? Porque o que presta tambm no presta. Almdo mais, o que obviamente no presta sempre me interessou muito. Gosto de um modocarinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno vo e caisem graa no cho."Em 1978, esta segunda parte passou a constituir o livro Para no esquecer, publicado pela tica.Nas edies que se seguiram, incorporaram-se incorrees que procuramos corrigir nesta edio,cuidadosamente confrontada com a primeira. 3. SUMRIOOs desastres de SofiaA repartio dos pesA mensagemMacacosO ovo e a galinhaTentaoViagem a PetrpolisA soluoEvoluo de uma miopiaA quinta histriaUma amizade sinceraOs obedientesA Legio EstrangeiraOS DESASTRES DE SOFIAQualquer que tivesse sido o seu trabalho anterior, ele o abandonara, mudara deprofisso, e passara pesadamente a ensinar no curso primrio: era tudo o que sabamosdele.O professor era gordo, grande e silencioso, de ombros contrados. Em vez de nna garganta, tinha ombros contrados. Usava palet curto demais, culos sem aro, comum fio de ouro encimando o nariz grosso e romano. E eu era atrada por ele. No amor,mas atrada pelo seu silncio e pela controlada impacincia que ele tinha em nos ensinare que, ofendida, eu adivinhara. Passei a me comportar mal na sala. Falava muito alto,mexia com os colegas, interrompia a lio com piadinhas, at que ele dizia, vermelho: Cale-se ou expulso a senhora da sala.Ferida, triunfante, eu respondia em desafio: pode me mandar! Ele no mandava,seno estaria me obedecendo. Mas eu o exasperava tanto que se tornara doloroso paramim ser o objeto do dio daquele homem que de certo modo eu amava. No o amavacomo a mulher que eu seria um dia, amava-o como uma criana que tentadesastradamente proteger um adulto, com a clera de quem ainda no foi covarde e vum homem forte de ombros to curvos. Ele me irritava. De noite, antes de dormir, ele meirritava. Eu tinha nove anos e pouco, dura idade como o talo no quebrado de umabegnia. Eu o espicaava, e ao conseguir exacerb-lo sentia na boca, em glria demartrio, a acidez insuportvel da begnia quando esmagada entre os dentes; e roa asunhas, exultante. De manha, ao atravessar os portes da escola, pura como ia com meucaf com leite e a cara lavada, era um choque deparar em carne e osso com o homemque me fizera devanear por um abismai minuto antes de dormir. Em superfcie de tempofora um minuto apenas, mas em profundidade eram velhos sculos de escurssimadoura. De manh como se eu no tivesse contado com a existncia real daquele que 4. desencadeara meus negros sonhos de amor de manh, diante do homem grande comseu palet curto, em choque eu era jogada na vergonha, na perplexidade e naassustadora esperana. A esperana era o meu pecado maior.Cada dia renovava-se a mesquinha luta que eu encetara pela salvao daquelehomem. Eu queria o seu bem, e em resposta ele me odiava. Contundida, eu me tornara oseu demnio e tormento, smbolo do inferno que devia ser para ele ensinar aquela turmarisonha de desinteressados. Tornara-se um prazer j terrvel o de no deix-lo em paz. Ojogo, como sempre, me fascinava. Sem saber que eu obedecia a velhas tradies, mascom uma sabedoria com que os ruins j nascem aqueles ruins que roem as unhas deespanto , sem saber que obedecia a uma das coisas que mais acontecem no mundo,eu estava sendo a prostituta e ele o santo. No, talvez no seja isso. As palavras meantecedem e ultrapassam, elas me tentam e me modificam, e se no tomo cuidado sertarde demais: as coisas sero ditas sem eu as ter dito. Ou, pelo menos, no era apenasisso. Meu enleio vem de que um tapete feito de tantos fios que no posso me resignar aseguir um fio s; meu enredamento vem de que uma histria feita de muitas histrias. Enem todas posso contar uma palavra mais verdadeira poderia de eco em eco fazerdesabar pelo despenhadeiro as minhas altas geleiras. Assim, pois, no falarei mais nosorvedouro que havia em mim enquanto eu devaneava antes de adormecer. Seno eumesma terminarei pensando que era apenas essa macia voragem o que me impelia paraele, esquecendo minha desesperada abnegao. Eu me tornara a sua sedutora, deverque ningum me impusera. Era de se lamentar que tivesse cado em minhas moserradas a tarefa de salv-lo pela tentao, pois de todos os adultos e crianas daqueletempo eu era provavelmente a menos indicada. "Essa no flor que se cheire", comodizia nossa empregada. Mas era como se, sozinha com um alpinista paralisado pelo terrordo precipcio, eu, por mais inbil que fosse, no pudesse seno tentar ajud-lo a descer.O professor tivera a falta de sorte de ter sido logo a mais imprudente quem ficara sozinhacom ele nos seus ermos. Por mais arriscado que fosse o meu lado, eu era obrigada aarrast-lo para o meu lado, pois o dele era mortal. Era o que eu fazia, como uma c