A ROTINIZAÇÃO DA INFÂNCIA NA CRECHE - ?· Prosseguimos o diálogo com conceitos a respeito da palavra…

  • Published on
    24-Jan-2019

  • View
    212

  • Download
    0

Embed Size (px)

Transcript

A ROTINIZAO DA INFNCIA NA CRECHE

ABREU, Maritza Dessupoio de1 - UFJF

SCHAPPER, Ilka2 - UFJF

Grupo de Trabalho Educao da Infncia

Agncia Financiadora: PPGE CAPES/REUNI

Resumo Este artigo tem por objetivo propor uma reflexo crtica a respeito da rotina que imposta/vivida pelas crianas das creches, por meio da apresentao de alguns conceitos dessa categoria pedaggica entrelaando com os significados produzidos nas respostas apresentadas pelas educadoras e coordenadoras pedaggicas de creches municipais de uma cidade da Zona da Mata Mineira em um questionrio para uma pesquisa de mestrado em desenvolvimento e intitulada Significados da rotina na creche: com a palavra educadores, coordenadores e pesquisadores, do Programa de Ps-Graduao em Educao da Universidade Federal de Juiz de Fora. Com tal intuito, iniciamos apresentando algumas concepes de infncia baseadas em autores como Manoel Pinto, Maria Isabel Edelweiss Bujes, Peter N. Stearns e Ren Schrer. Prosseguimos o dilogo com conceitos a respeito da palavra rotina, significadas em alguns documentos oficiais da rea de Educao da Infncia como os Critrios para um Atendimento em Creches que Respeite os Direitos Fundamentais das Crianas (BRASIL, 2009) e o Referencial Curricular Nacional para a Educao Infantil (BRASIL, 1998), alm de autores como Maria Carmen Silveira Barbosa e Rosa Batista, entre outras importantes leituras realizadas a respeito do tema. Continuamos apresentando a anlise e o entrecruzamento desses conceitos construdos e os significados trazidos por dez educadoras e doze coordenadoras pedaggicas de creche seguinte pergunta no referido questionrio: Qual a ROTINA de trabalho dirio com as crianas da sua creche?. Encerramos com a proposta de mais reflexo e produo de outros significados sobre o tema, principalmente de forma a pensar na constituio das rotinas escolares e a que infncia desejamos por meio delas, sendo preciso, estranhar o conhecido, o que pode j ser habitual e ressignificar as rotinas escolares, fazendo dessas prticas educacionais que, mesmo recorrentes, sejam variveis e mltiplas. Palavras-chave: Infncia. Rotina. Creche.

1 Mestranda em Educao pela UFJF. Especialista em Alfabetizao e Linguagem e graduada em Pedagogia pela mesma instituio. Supervisora Pedaggica do Estado de Minas Gerais - SREJF. Pesquisadora do grupo LEFoPI (Linguagem, Educao, Formao de Professores e Infncia). E-mail: maritzaabreu@gmail.com 2 Doutora em Lingustica Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUCSP. Mestre em Educao pela PUCRJ. Graduada em Pedagogia e Letras pela UFJF. Professora Adjunta II da UFJF. Coordenadora do Grupo de Pesquisa LEFoPI. E-mail: ilkaschapper@gmail.com.

23984

O porqu do presente dilogo

A proposta deste artigo surgiu com a unio da disciplina Infncias e Linguagens do

Programa de Ps-Graduao em Educao da Universidade Federal de Juiz de Fora

PPGE/UFJF e as discusses de investigao de mestrado em andamento a respeito da rotina

na creche.

Concomitante ao perodo de estudos da referida disciplina foi realizada a pesquisa de

campo para o projeto de mestrado e um dos instrumentos de investigao utilizado foi a

entrega de um questionrio para as dez educadoras de uma creche e outro questionrio, bem

similar ao anterior, para doze coordenadoras de creches, todas municipais e de uma mesma

cidade da Zona da Mata Mineira.

Dentre as vinte e cinco e trinta e seis questes (questionrio das educadoras e das

coordenadoras, respectivamente) havia a seguinte questo: Qual a ROTINA de trabalho

dirio com as crianas da sua creche?. As respostas dadas a essa interrogao so

apresentadas e analisadas neste artigo relacionando-as com o que autores como Maria Carmen

Silveira Barbosa e Rosa Batista, alm de documentos oficiais da rea de Educao da

Infncia, dizem a respeito da rotina e as diferentes infncias trazidas por Manoel Pinto, Maria

Isabel Edelweiss Bujes, Peter N. Stearns e Ren Schrer.

O objetivo entrelaar os diferentes significados e concepes de rotina e infncia com

o que vivido pelas crianas por meio do relato dado pelas educadoras e coordenadoras de

creches a respeito do dia a dia nessas instituies, buscando a reflexo sobre os tempos e

espaos da infncia na creche.

O prximo passo dessa caminhada reflexiva trazer algumas ideias sobre a infncia,

pautadas nas seguintes questes: (1) O que a Infncia? (2) Quem a constitui? (3) Como ela

se compe? (4) Por que e quando ela ocorre?

A(s) Infncia(s)

Os significados de criana e de infncia que guiam os nossos atos cotidianos so construdos nos jogos de linguagem e os vocabulrios que utilizamos para express-los no tm a capacidade de descrev-las fiel e transparentemente. (BUJES, 2005, p.189).

A epgrafe acima nos traz uma ideia do quo complexo falar de crianas e infncias.

Mesmo que tentamos, dificilmente conseguimos abranger todas as concepes possveis a

23985

esse respeito. Nessa seo, propomos destacar algumas das formas como ela foi e vem sendo

compreendida, assunto importante quando pretendemos dizer sobre a rotina das crianas de

creche.

A constituio da infncia como uma etapa da vida do ser humano no existiu

anteriormente ao sculo XVIII. As escolas medievais, como destacado por Pinto (1997, p.36),

por exemplo, permaneceram indiferentes distino e separao das idades.

Apenas na segunda metade do sculo XVIII h a inveno da infncia, que passa de um

perodo de no reconhecimento para objeto especfico de ateno social: a infncia comea a

ocupar um campo social bem delimitado que impe, aos responsveis por essa faixa etria, o

que devem ou no, dizer e fazer. (SCHRER, 2009, p.18).

Durante o Iluminismo ocorre um movimento intelectual e filosfico e a infncia

enunciada como objeto de pedagogizao. Nesse sentido, Schrer faz uma crtica a essa

pedagogizao dizendo que ela:

produz um efeito de compensao, ela problematiza o adulto relativamente aos valores que ele encarna: se fsica ou intelectualmente ele continua sendo superior aos seus pequenos interlocutores, existe algo que tem relao com o sentimento, e no com o intelecto, um charme particular que emana da infncia inventada e acaba por contagi-lo (SCHRER, 2009, p.20).

A criana e sua infncia apesar de reconhecidas como diferentes do adulto continuam

sendo subordinadas e, de certa forma, definidas por ele. Sua constituio e tempo de durao

dependem das concepes e crenas do adulto. Assim, quem define o que infncia no a

criana, mas o adulto de sua poca.

A concepo de infncia que perpassa o Iluminismo da criana como um ser

inocente, receptculo do saber e instrumento do progresso: o devir criana pensando na

infncia como um vir a ser, um adulto do futuro, um estar em formao e construo, um ser

incompleto, em falta.

Schrer (2009, p.207) critica esse devir por no acreditar, entre outras coisas, na

existncia do devir homem o que significa para ele que o homem no pode ser considerado

num devir, limitando-se a ser. Dessa mesma forma ocorreria com a infncia que deveria ser

vivida como uma etapa presente e no preparatria para o futuro.

No sculo XX, o desenvolvimento da Alemanha proporciona o foco na infncia por

meio da pedagogia libertria, questionada tambm por Schrer (2009, p.30) como um espao

de liberdade vigiada, no qual a prpria criana deveria atingir os objetivos de sua educao.

23986

Outro autor que apresenta a constituio da infncia Peter N. Stearns (2006). Para ele

a infncia depende tambm do sistema econmico em que est presente. Destaca que na

sociedade agrcola a infncia teve influncia dos hbitos da caa e coleta para a subsistncia,

j na contemporaneidade temos a globalizao e a pobreza/riqueza como bases de sua

constituio.

Do perodo da sociedade agrcola at os dias atuais tivemos muitos ganhos para as

crianas e reconhecimento de seus direitos como sujeitos, contudo criamos tambm outras

questes sociais problemticas que influenciam o ser criana na atualidade como: o

consumismo, a anorexia, a bulimia e a obesidade infantil. Nas palavras de Stearns (2006,

p.202) o caleidoscpio das infncias no mundo contemporneo oferece uma variedade quase

infindvel com conjuntos de oportunidades e problemas impressionantemente distintos.

Assim, pensar infncia reconhecer que existem infncias constitudas socialmente e

que se modifica historicamente, como aconteceu desde a passagem da sociedade agrcola para

a industrial e mais recentemente com o fenmeno da globalizao, acelerao das interaes e

do consumismo.

Nesse sentido, Stearns (2006) defende uma concepo de infncia que refletida,

constitui, modifica e constituda pela sociedade em que se encontra. A infncia no um

perodo nico e universal e sim definida scio, histrico e culturalmente.

Sendo uma concepo diferente do devir criana, uma ideia da criana que

alicerada pelo presente, constituda e constituidora dele. No se tratando apenas de ser

criana, mas ser um indivduo dentro de uma sociedade, cultura e ocupante de um tempo e

espao histrico, uma criana que uma pessoa no seu hoje.

Percebermos, ento, diferentes formas de concebermos a infncia, podemos valorizar

o que a criana j e o que a faz ser, de fato uma criana; ou, pelo contrrio, enfatizar o que

lhe falta e o que ela poder (ou dever) vir a ser (PINTO, 1997, p.33). Essas diferenas esto

nas nossas atitudes e crenas, na forma de ns, adultos, concebermos a infncia.

Outra questo que perpassa a infncia, alm de suas diferentes concepes

adultocntricas, histricas e socialmente constitudas que existem diversas formas de viver a

infncia por parte das crianas, suas culturas e poderes econmicos.

Talvez a infncia pensada e vivida por uma criana no seja a concebida e idealizada

pelo adulto. Temos na modernidade as crianas dos pases desenvolvidos, em

desenvolvimento, das cidades, dos campos, dos bairros ricos, das periferias, de diferentes

23987

constituies familiares e crenas religiosas... diferentes infncias, diversas vivncias de uma

mesma etapa da vida.

Dessa forma precisamos que ter cuidado com a naturalizao de conceitos como no

caso da infncia, destacado por Bujes (2005), uma vez que ao contrrio dessa constituio

natural, ela uma categoria social, estabelecida em cada poca e uma construo dos adultos

que se modifica e pode ser ressignificada.

Indo ao encontro dessas reflexes, Schrer (2009) traz uma crtica para a existncia da

escola como algo natural ao ser humano e, principalmente, para a infncia. Assim como

questionamos as rotinas nas creches para a infncia, se ao invs de naturaliz-las e

transform-las em significados cristalizados a compreendermos como uma construo

humana e que temos domnio sobre ela, ento seremos capazes de modific-la conforme

nossas concepes.

Em se tratando das instituies para a infncia, Schrer (2009, p.96) destaca a famlia e

a escola e as define como um conjunto de enunciados e regras prescritas que definem um

lugar muito restrito, no espao social, para as crianas, e, principalmente, distriburam, de

maneira imperativa, os papis e os poderes dos adultos sobre elas.

H uma ideia de controle e poder dos adultos sobre as crianas e as infncias por meio

das instituies. Ressaltado e comparado com as escolas o conceito de panptico como uma

priso circular, com sua torre central de observao, no qual o vigilante v tudo e aplica a

coao da lei (SCHRER, 2009, p. 34).

Assim devemos refletir quando pensamos em infncia, criana e na educao para e

com elas, a qual concepo acreditamos e estamos nos referindo? A seguir apresentamos

alguns significados a respeito da rotina para posteriormente pensarmos sobre a mesma e sua

relao com a educao das crianas na creche e quais concepes esto baseadas.

A(s) Rotina(s)

Eu no amava que botassem data na minha existncia. A gente usava mais era encher o tempo. Nossa data maior era o quando. O quando mandava em ns. A gente era o que quisesse ser s usando esse advrbio.[...] (BARROS, 2008, p.113).

O poema Tempo de Manuel de Barros nos traz a ideia de tempo e como ele

vivido/percebido, no apenas pelo poeta em sua segunda infncia, como destacado no livro

Memrias Inventadas: As Infncias de Manoel de Barros, mas por muitas outras infncias.

23988

Contudo ser que as crianas tm esse tempo de viver o quando nas rotinas das creches?

A dificuldade dessa experincia de vivncia do tempo baseada, possivelmente, na

institucionalizao do tempo infantil em locais prprios e com a disciplina de horrios fixos

para sua educao. O valor do tempo modificou-se a partir do sculo XIX, com o crescimento

da nova ordem econmica, o Capitalismo, com a acelerao do processo de industrializao e

formao de linhas de produo nos quais o tempo passou a valer dinheiro.

Na Educao no ocorreu de forma diferente, a ocupao constante do tempo com

tarefas representou um exerccio de disciplina e um antdoto contra a perda de tempo, a ordem

na sala de aula passou a ser acima de tudo uma forma de antecipar o tempo do trabalho sem

porosidade (BATISTA, 1998, p.34-35).

Assim, os significados atuais de rotina perpassam por essa ideia de tempo e de seu

deslocamento do campo social para o institucional, contudo essa palavra tem sua origem bem

antes do Capitalismo.

Segundo Cunha (1982 apud BARBOSA 2006), a palavra rotina surge no francs antigo

como route, um derivado do latim vulgar rupta (rota), e seus primeiros registros aparecem na

alta Idade Mdia, no sculo XV. Por volta do sculo XVII esta expresso passou a fazer parte

da linguagem cotidiana e sua significao se tornou presente em diversas lnguas como latim,

francs, ingls e portugus com uma noo espacial vinculada a um caminho, direo, rumo.

Esse mesmo significado aparece, ainda hoje, no dicionrio Aurlio Eletrnico do Sculo

XXI, onde rotina o caminho j percorrido e conhecido, em geral trilhado maquinalmente.

Sequncia de atos ou procedimentos que se observa pela fora do hbito e no Dicionrio

online de Portugus3, no qual rotina o caminho utilizado normalmente; itinerrio habitual.

Hbito de fazer uma coisa sempre do mesmo modo, mecanicamente; repetio montona das

mesmas coisas.

Nesse ltimo conceito dicionarizado, a palavra rotina alm da relao com rota,

caminho, tem ligao com a repetio, com o fazer habitual. A repetio montona, mecnica

uma caracterstica das rotinas rgidas, robotizadas e rotineiras que veremos seus conceitos a

seguir.

Contudo, a estabilidade (e no rigidez) , ao nosso entender, uma vantagem na

organizao dos tempos e espaos, principalmente nas instituies infantis, por trazer mais

3

...

Recommended

View more >