Acidentes domésticos e de lazer

  • View
    150

  • Download
    0

Embed Size (px)

Transcript

DOSSIERSEGURANA INFANTIL

Acidentes domsticos e de lazer na infncia uma revisoRUI SOUSA SANTOS*

RESUMO Procede-se a uma reviso dos dados disponveis sobre as causas, a mortalidade e a morbilidade decorrentes de acidentes domsticos e de lazer na infncia, com particular nfase no escalo 0-14 anos. So analisados dados disponveis relativos aos pases integrantes da Unio Europeia e a Portugal. Aborda-se a problemtica da pobreza na sua relao com o aumento de risco e prope-se uma listagem de procedimentos preventivos a abordar com os pais na prtica clnica. Fornecem-se referncias de consulta para recolha de informao.

A SITUAO NA EUROPA EDITORIAISConveno Internacional dos Direitos da Criana afirma que a criana tem direito ao melhor nvel de sade que possa ser atingido, bem como direito a um meio ambiente to seguro quanto possvel1. So muitos os factores que tornam o atingimento deste desiderato muito difcil, ou, por vezes, mesmo impossvel e a pobreza no ser, de todo, o menos relevante. O nvel socio-econmico determinante na qualidade de vida da criana e no grau de segurana que lhe possvel desfrutar, uma vez que pais com parca disponibilidade econmica tm menos acesso informao e muito menor capacidade de escolha da zona de habitao, das caractersticas da casa, dos locais onde os seus filhos brincam e, at, das escolas que frequentam. Mesmo quando o acesso informao possvel, a plena utilizao dessa informao proporcional ao grau de educao e a evoluo tecnolgica torna cada vez mais difcil a compreenso da totalidade das implicaes para a segurana dos mltiplos produtos que, quotidianamente, utilizamos2. A segurana das crianas e dos jovens dever ser, assim, considerada como

A

*Chefe de Servio de Clnica Geral Centro de Sade de Beja

um direito fundamental. Segundo a Organizao Mundial de Sade (OMS)3 morreram em todo o mundo, devido a acidentes das mais diversas origens, cerca de 5.800.000 pessoas, apenas durante o ano de 1998 e esse nmero dever subir, em 2020, para cerca de 8.400.000 pessoas. Na Europa, os acidentes so responsveis por cerca de 200.000 mortes por ano e muito mais pessoas sofrem incapacidades temporrias ou permanentes em consequncia desses acidentes. No escalo etrio 1-14 anos a mortalidade por acidente o dobro da mortalidade por causas oncolgicas e oito vezes superior mortalidade decorrente de patologia respiratria. Significa isto que, em cada semana, morrem, em toda a Unio Europeia, mais 100 crianas por causas, na grande maioria das vezes, evitveis. Um estudo efectuado na Holanda4 mostra que, por cada criana que morre em consequncia de uma acidente domstico ou de lazer, outras 160 crianas so objecto de internamento hospitalar devido a leses traumticas severas e cerca de 2.000 so observadas nos diferentes tipos de servios de urgncia. A estes nmeros impressionantes h que adicionar os muitos milhares observados pelo pediatra ou pelo mdico de famlia em consequncia de ferimentos ou leses de menor importncia (ver Fig. 1). Para alm da morbilidade e da mortalidade relacionadas com os acidentes na infncia e na juventude, h que ter em conta os custos directa e indirectamente delasRev Port Clin Geral 2004;20:215-30

215

DOSSIERSEGURANA INFANTIL

Figura 1. Fonte: Consumer Safety Institute, 2000decorrentes. Esto em curso estudos para essa quantificao, mas estima-se j que os custos globais relacionados com os acidentes se aproximem dos quatrocentos mil milhes de euros anuais, ou seja, quatro vezes o oramento anual da prpria Unio Europeia5. A todos estes valores crescem ainda os custos dos anos de vida perdidos e os seus reflexos directos e indirectos, para no falarmos das consequncias especficas das mortes ou das incapacidades ao nvel das estruturas familares. As principais causas de morte por acidente so idnticas, no seu conjunto, nos estado membros, apenas variando a distribuio por categorias (ver Fig. 2).

Figura 2. Principais causas de morte por acidente no intencional nas crianas entre os 0 e os 4 anos na UE (Fonte: OMS, 2000)mortalidade de 28,4 (por 100.000 crianas 0-14 anos) no perodo 1971/75 para uma taxa de 8,3 no perodo 1991/95, nmeros a que corresponde uma melhoria dos indicadores de 70,8%, Portugal figura em 15 lugar, conseguindo melhorar os seus indicadores em cerca de 42,8%, passando de uma taxa de 31,1 para cerca 17,8 (Ver Quadro I). Numa anlise das taxas estandartizadas de mortalidade por acidentes/ /100.000 habitantes no escalo 1-14 anos, efectuada pela OMS3 e referente a 1994/95, por tipo de acidente e referente aos 15 pases que, at h pouco, integravam a EU, Portugal ocupa o 15 e ltimo lugar no que respeita aos acidentes rodovirios (8,03) e s intoxicaes (0,55), o 9o lugar no captulo das vtimas de incndios (0,44), o 11o em matria de afogamentos (1,04) e o 13o no que respeita s vtimas de quedas (0,62). Desde 1987 que existe em Portugal um sistema de registo dos acidentes domsticos e de lazer (ADL). At 2000 da responsabilidade do Instituto do Consumidor (IC), com o acrnimo EHLASS (European Home and Leisure Surveillance System) e, desde ento, promovido pelo Observatrio Nacional de Sade (ONSA) sob a designao ADELIA (Acidentes Domsticos E de Lazer Informao Adequada), este

A SITUAO EM PORTUGAL EDITORIAISChalmers e Pless6 estudaram a evoluo da melhoria dos indicadores relativos mortalidade por acidente nas crianas e jovens entre os 0 e os 14 anos em 19 dos 25 pases que actualmente integram a EU (no estudo no foram includos dados relativos aos trs pases blticos, Eslovquia, Eslovnia, a Malta e a Chipre), comparando dados dos quinqunios 1971/75 e 1991/95 e medindo a velocidade da diminuio desses indicadores. Se a Alemanha, o pas europeu com melhores resultados, passou de uma taxa de216Rev Port Clin Geral 2004;20:215-30

DOSSIERSEGURANA INFANTIL

QUADRO I MELHORIA DA MORTALIDADE POR ACIDENTE NA EUROPA (POR 100.000 CRIANAS ENTRE OS 1 E OS 14 ANOS)

Pas Alemanha Holanda Finlndia Noruega Itlia ustria Sucia Dinamarca Reino Unido Sua Blgica Frana Irlanda Grcia Portugal Espanha Polnia Rep. Checa Hungria

Taxa 1971-75 28,4 20,1 24,7 21,6 16,3 23,7 13 19,9 14,3 22,5 20 19,4 17,2 13,5 31,1 13,7 22,5 19,6 16,1

Taxa 1991-95 8,3 6,6 8,2 7,6 6,1 9,3 5,2 8,1 6,1 9,6 9,2 9,1 8,3 7,6 17,8 8,1 13,4 12 10,8

% Melhoria 70,8 67,2 66,8 64,8 62,6 60,8 60,0 59,3 57,3 57,3 54,0 53,0 51,7 43,7 42,8 40,9 40,4 38,8 32,9

Velocidade de Melhoria 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19

Fonte: adaptado de Chalmers and Pless, Injury Prevention, 2001 in ECOSA. Priorities for Child Safety in the European Union: Agenda for Action, Amsterdam, 2001

sistema, baseado nos registos fornecidos por um conjunto de Centros de Sade e de Hospitais distribudos pelo conjunto do territrio nacional e que exclui os acidentes rodovirios, classifica os acidentes segundo a data e hora e local da ocorrncia, o mecanismo da leso, a actividade exercida no momento do acidente, o tipo de leso, a parte do corpo lesada e a descrio do acidente. Os ltimos dados disponveis, relativos ao ano de 2002 apontam para um total de 21.711 ADL registados, dos quais 9.477 (43,6%) respeitam a crianas e jovens entre os 0 e os 14 anos, havendo uma maior frequncia de ocorrncias no escalo de idade igual ou inferior a quatro anos, seguido pelo grupo 10-14 anos (ver Fig. 3) Os locais onde ocorrem os acidentes com mais frequncia so, por ordem decrescente, a habitao, a escola e o meio exterior, sendo o mecanismo da leso mais

frequente a queda (66,7%), seguida pelo atingimento por objecto estranho (15,6%) e a compresso/corte (6,5%) (ver Fig 4). O tipo de leso mais frequente, em cer-

Figura 3. Acidentes domsticos e de lazer em Portugal em 2002 em crianas e jovens entre os 0-14 anosRev Port Clin Geral 2004;20:215-30

217

DOSSIERSEGURANA INFANTIL

Figura 4. Acidentes em jovens e crianas entre os 0-14 por local de ocorrncia e por grupo etrio (ADELIA 2002)

Figura 5. Distribuio dos acidentes por parte do corpo lesada (ADELIA 2002)ca de 49,7% dos casos a contuso/hematoma, seguida pela leso no especificada (22,2%) e pela ferida aberta em 16,3% das situaes registadas. A parte do corpo mais afectada varia significativamente com a idade, invertendo-se as posies relativas do atingimento da cabea, mais frequente nos mais pequenos e do atingimento dos membros, principal parte afectada nos mais crescidos (ver Fig. 5). bilidade na criana e no jovem, decorrente de causas externas, tem a ver com os acidentes rodovirios. Se bem que no includos em estudos sistemticos como o EHLASS e o ADELIA, merc das suas caractersticas prprias, os acidentes rodovirios respeitam no s os passageiros de veculos motorizados, como tambm os ciclistas e os pees. Assim e embora a preveno rodoviria assuma, nesta rea, o grande protagonismo, papel dos profissionais de sade reforarem, junto dos pais, das crianas e dos jovens, a necessidade de utilizao de capacetes de proteco para ciclistas, de uso de cintos de segurana e de cadeiras seguras e outros dispositivos de reteno nos au-

OS DIFERENTES TIPOS DE ACIDENTES E SUAS CARACTERSTICASACIDENTES RODOVIRIOS

A grande fatia da mortalidade e da mor218Rev Port Clin Geral 2004;20:215-30

DOSSIERSEGURANA INFANTIL

tomveis e autocarros, bem como de obedincia s limitaes de velocidade e s restries circulao. A adopo de limites de velocidade para cerca de 50 km/h no interior das localidades conduziu, s no Reino Unido7, a uma diminuio de cerca de 48% dos acidentes envolvendo crianas e jovens ciclistas e de cerca de 70% nas mortes de pees. As restries de circulao (e.g as bandas sonoras) conduziram a uma diminuio de acidentes de cerca de 60% nos locais onde foram adoptadas e o uso correcto de dispositivos de reteno e cintos de segurana levaram a uma diminuio de cerca de 90 a 95% de leses quando se trata de cadeiras de transporte viradas para trs em relao ao sentido de marcha e de