Alexandre Herculano - O castelo de faria

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    10-Mar-2016

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Este monte, ora ermo, silencioso e esquecido, j se viu regado de sangue: j sobre ele se ouviram gritos de combatentes, nsias de moribundos, estridor de habitaes incendiadas, sibilar de setas e estrondo de mquinas de guerra. Claros sinais de que ali viveram homens: porque com estas balizas que eles costumam deixar assinalados os stios que escolheram para habitar na terra. (1373)

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  • O CASTELO DE FARIA

    Alexandre Herculano

    (1373)

    A breve distncia da vila de Barcelos, nas faldas do Franqueira, alveja ao longe um conventode Franciscanos. Aprazvel o stio, sombreado de velhas rvores. Sentem-se ali o murmurardas guas e a bafagem suave do vento, harmonia da natureza, que quebra o silncio daquelasolido, a qual, para nos servirmos de uma expresso de Fr. Bernardo de Brito, com asaudade de seus horizontes parece encaminhar e chamar o esprito contemplao dascoisas celestes.

    O monte que se alevanta ao p do humilde convento formoso, mas spero e severo, comoquase todos os montes do Minho. Da sua coroa descobre-se ao longe o mar, semelhante amancha azul entornada na face da terra. O espectador colocado no cimo daquela eminnciavolta-se para um e outro lado, e as povoaes e os rios, os prados e as fragas, os soutos e ospinhais apresentam-lhe o panorama variadssimo que se descobre de qualquer ponto elevadoda provncia de Entre-Douro-e-Minho.

    Este monte, ora ermo, silencioso e esquecido, j se viu regado de sangue: j sobre ele seouviram gritos de combatentes, nsias de moribundos, estridor de habitaes incendiadas,sibilar de setas e estrondo de mquinas de guerra. Claros sinais de que ali viveram homens:porque com estas balizas que eles costumam deixar assinalados os stios que escolherampara habitar na terra.

    O castelo de Faria, com suas torres e ameias, com a sua barbac e fosso, com seus postigose alapes ferrados, campeou a como dominador dos vales vizinhos. Castelo real da IdadeMdia, a sua origem some-se nas trevas dos tempos que j l vo h muito: mas a febre lentaque costuma devorar os gigantes de mrmore e de granito, o tempo, coou-lhe pelosmembros, e o antigo alccer das eras dos reis de Leo desmoronou-se e caiu. Ainda nosculo dezessete parte da sua ossada estava dispersa por aquelas encostas: no sculoseguinte j nenhuns vestgios dele restavam, segundo o testemunho de um historiador nosso.Um eremitrio, fundado pelo clebre Egas Moniz, era o nico eco do passado que a restava.Na ermida servia de altar uma pedra trazida de Ceuta pelo primeiro Duque de Bragana, D.Afonso. Era esta ljea a mesa em que costumava comer Salat-ibn-Salat, ltimo senhor deCeuta. D. Afonso, que seguira seu pai D. Joo I na conquista daquela cidade, trouxe estapedra entre os despojos que lhe pertenceram, levando-a consigo para a vila de Barcelos, cujoconde era. De mesa de banquetes mouriscos converteu-se essa pedra em ara docristianismo. Se ainda existe, quem sabe qual ser o seu futuro destino?

  • Serviram os fragmentos do castelo de Faria para se construir o convento edificado ao sop domonte. Assim se converteram em dormitrios as salas de armas, as ameias das torres embordas de sepulturas, os umbrais das balhesteiras e postigos em janelas claustrais. O rudodos combates calou no alto do monte, e nas faldas dele alevantaram-se a harmonia dossalmos e o sussurro das oraes.

    Este antigo castelo tinha recordaes de glria. Os nossos maiores, porm, curavam mais depraticar faanhas do que de conservar os monumentos delas. Deixaram, por isso, semremorsos, sumir nas paredes de um claustro pedras que foram testemunhas de um dos maishericos feitos de coraes portugueses.

    Reinava entre ns D. Fernando. Este prncipe, que tanto degenerava de seus antepassadosem valor e prudncia, fora obrigado a fazer paz com os castelhanos, depois de uma guerrainfeliz, intentada sem justificados motivos, e em que se esgotaram inteiramente os tesourosdo Estado. A condio principal, com que se ps termo a esta luta desastrosa, foi que D.Fernando casasse com a filha del-rei de Castela: mas, brevemente, a guerra se acendeu denovo; porque D. Fernando, namorado de D. Leonor Teles, sem lhe importar o contrato de quedependia o repouso dos seus vassalos, a recebeu por mulher, com afronta da princesacastelhana. Resolveu-se o pai a tomar vingana da injria, ao que o aconselhavam aindaoutros motivos. Entrou em Portugal com um exrcito e, recusando D. Fernando aceitar-lhebatalha, veio sobre Lisboa e cercou-a. No sendo o nosso propsito narrar os sucessos destestio, volveremos o fio do discurso para o que sucedeu no Minho.

    O Adiantado de Galiza, Pedro Rodriguez Sarmento, entrou pela provncia de Entre-Douro-e-Minho com um grosso corpo de gente de p e de cavalo, enquanto a maior parte do pequenoexrcito portugus trabalhava inutilmente ou por defender ou por descercar Lisboa.Prendendo, matando e saqueando, veio o Adiantado at as imediaes de Barcelos, semachar quem lhe atalhasse o passo; aqui, porm, saiu-lhe ao encontro D. Henrique Manuel,conde de Ceia e tio del-rei D. Fernando, com a gente que pde ajuntar. Foi terrvel o conflito;mas, por fim, foram desbaratados os portugueses, caindo alguns nas mos dos adversrios.

    Entre os prisioneiros contava-se o alcaide-mor do castelo de Faria, Nuno Gonalves. Saraeste com alguns soldados para socorrer o conde de Ceia, vindo, assim, a ser companheiro nacomum desgraa. Cativo, o valoroso alcaide pensava em como salvaria o castelo del-rei seusenhor das mos dos inimigos. Governava-o em sua ausncia, um seu filho, e era de crerque, vendo o pai em ferros, de bom grado desse a fortaleza para o libertar, muito maisquando os meios de defenso escasseavam. Estas consideraes sugeriram um ardil a NunoGonalves. Pediu ao Adiantado que o mandasse conduzir ao p dos muros do castelo,porque ele, com as suas exortaes, faria com que o filho o entregasse, sem derramamentode sangue.

    Um troo de besteiros e de homens d'armas subiu a encosta do monte da Franqueira,levando no meio de si o bom alcaide Nuno Gonalves. O Adiantado de Galiza seguia atrscom o grosso da hoste, e a costaneira ou ala direita, capitaneada por Joo Rodrigues deViedma, estendia-se, rodeando os muros pelo outro lado. O exrcito vitorioso ia tomar possedo castelo de Faria, que lhe prometera dar nas mos o seu cativo alcaide.

  • De roda da barbac alvejavam as casinhas da pequena povoao de Faria: mas silenciosas eermas. Os seus habitantes, apenas enxergaram ao longe as bandeiras castelhanas, queesvoaavam soltas ao vento, e viram o refulgir cintilante das armas inimigas, abandonando osseus lares, foram acolher-se no terreiro que se estendia entre os muros negros do castelo e acerca exterior ou barbac.

    Nas torres, os atalaias vigiavam atentamente a campanha, e os almocadens corriam com arolda 1 pelas quadrelas do muro e subiam aos cubelos colocados nos ngulos das muralhas.

    O terreiro onde se haviam acolhido os habitantes da povoao estava coberto de choupanascolmadas, nas quais se abrigava a turba dos velhos, das mulheres e das crianas, que ali sejulgavam seguros da violncia de inimigos desapiedados.

    Quando o troo dos homens d'armas que levavam preso Nuno Gonalves vinha j a poucadistncia da barbac, os besteiros que coroavam as ameias encurvaram as bestas, e oshomens dos engenhos prepararam-se para arrojar sobre os contrrios as suas quadrelas evirotes, enquanto o clamor e o choro se alevantavam no terreiro, onde o povo inerme estavaapinhado.

    Um arauto saiu do meio da gente da vanguarda inimiga e caminhou para a barbac, todas asbestas se inclinaram para o cho, e o ranger das mquinas converteu-se num silncioprofundo.

    - "Moo alcaide, moo alcaide! - bradou o arauto - teu pai, cativo do mui nobre PedroRodriguez Sarmento, Adiantado de Galiza pelo mui excelente e temido D. Henrique deCastela, deseja falar contigo, de fora do teu castelo."

    Gonalo Nunes, o filho do velho alcaide, atravessou ento o terreiro e, chegando barbac,disse ao arauto - "A Virgem proteja meu pai: dizei-lhe que eu o espero."

    O arauto voltou ao grosso de soldados que rodeavam Nuno Gonalves, e depois de brevedemora, o tropel aproximou-se da barbac. Chegados ao p dela, o velho guerreiro saiudentre os seus guardadores, e falou com o filho:

    "Sabes tu, Gonalo Nunes, de quem esse castelo, que, segundo o regimento de guerra,entreguei tua guarda quando vim em socorro e ajuda do esforado conde de Ceia?"

    - " - respondeu Gonalo Nunes - de nosso rei e senhor D. Fernando de Portugal, a quem porele fizeste preito e menagem."

  • - "Sabes tu, Gonalo Nunes, que o dever de um alcaide de nunca entregar, por nenhumcaso, o seu castelo a inimigos, embora fique enterrado debaixo das runas dele?"

    - "Sei, oh meu pai! - prosseguiu Gonalo Nunes em voz baixa, para no ser ouvido doscastelhanos, que comeavam a murmurar. - Mas no vs que a tua morte certa, se osinimigos percebem que me aconselhaste a resistncia?"

    Nuno Gonalves, como se no tivera ouvido as reflexes do filho, clamou ento: - "Pois se osabes, cumpre o teu dever, alcaide do castelo de Faria! Maldito por mim, sepultado sejas tuno inferno, como Judas o traidor, na hora em que os que me cercam entrarem nesse castelo,sem tropearem no teu cadver."

    - "Morra! - gritou o almocadem castelhano - morra o que nos atraioou." - E Nuno Gonalvescaiu no cho atravessado de muitas espadas e lanas.

    - "Defende-te, alcaide!" - foram as ltimas palavras que ele murmurou.

    Gonalo Nunes corria como louco ao redor da barbac, clamando vingana. Uma nuvem defrechas partiu do alto dos muros; grande poro dos assassinos de Nuno Gonalvesmisturaram o prprio sangue com o sangue do homem leal ao seu juramento.

    Os castelhanos acometeram o castelo; no primeiro dia de combate o terreiro da barbac ficoualastrado de cadveres tisnados e de colmos e ramos reduzidos a cinzas. Um soldado dePedro Rodriguez Sarmento tinha sacudido com a ponta da sua longa chua um colmeiroincendiado para dentro da cerca; o vento suo soprava nesse dia com violncia, e em breveos habitantes da povoao, que haviam buscado o amparo do castelo, pereceram juntamentecom as suas frgeis moradas.

    Mas Gonalo Nunes lembrava-se da maldio de seu pai: lembrava-se de que o viramoribundo no meio dos seus matadores, e ouvia a todos os momentos o ltimo grito do bomNuno Gonalves - "Defende-te, alcaide!"

    O orgulhoso Sarmento viu a sua soberba abatida diante dos torvos muros do castelo de Faria.O moo alcaide defendia-se como um leo, e o exrcito castelhano foi constrangido a levantaro cerco.

    Gonalo Nunes, acabada a guerra, era altamente louvado pelo seu brioso procedimento epelas faanhas que obrara na defenso da fortaleza cuja guarda lhe fora encomendada porseu pai no ltimo trance da vida. Mas a lembrana do horrvel sucesso estava semprepresente no esprito do moo alcaide. Pedindo a el-rei o desonerasse do cargo que to bemdesempenhara, foi depor ao p dos altares a cervilheira e o saio de cavaleiro, para se cobrir

  • com as vestes pacificas do sacerdcio. Ministro do santurio, era com lgrimas e preces queele podia pagar a seu pai o ter coberto de perptua glria o nome dos alcaides de Faria.

    Mas esta glria, no h hoje ai uma nica pedra que a ateste. As relaes dos historiadoresforam mais duradouras que o mrmore.

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