“AlmadeCôrno”Revisited:& - brown.edu ?· Pittella-Leite “Alma de Côrno” Revisited Pessoa Plural:…

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    08-Nov-2018

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  • Alma de Crno Revisited: mais fragmentos malditos de Fernando Pessoa

    Carlos Pittella-Leite*

    Keywords

    Fernando Pessoa, Profane Poetry, Sonnet, Scorn, Slander, Alma de Crno, Jos Fialho de Almeida, Gaudncio Nabos, Francisco Pa, O Palrador.

    Abstract

    Two unpublished fragments are hereby reproduced and connected to the controversial sonnet Alma de Crno by Fernando Pessoa, published in the first issue of the Granta magazine in Portugal, in June 2013. Both fragments are dedicated to a J. F., possibly a reference to J[os] F[ialho] de Almeida. The identification of these fragments as drafts of Alma de Crno has implications regarding the study of the profane in Pessoan works. The presentation of these documents includes: 1) a summary of the controversy following the publication of the sonnet Alma de Crno and its state of the arts; 2) an investigation of the causes and consequences of this controversy; 3) an answer to the doubts of attribution and authorship of the sonnet; 4) an appraisal of the occurrences of the name Fialho within the Pessoan works already published; and 5) a conclusion about the relevance of the discovered drafts, when considered together with the poem Alma de Crno.

    Palavras-chave

    Fernando Pessoa, Poesia Profana, Soneto, Escrnio, Maldizer, Alma de Crno, Jos Fialho de Almeida, Gaudncio Nabos, Francisco Pa, O Palrador.

    Resumo

    Reproduzem-se aqui dois fragmentos inditos relacionados ao controverso soneto Alma de Crno de Fernando Pessoa, publicado no primeiro nmero da revista Granta em Portugal, em junho de 2013. Ambos os fragmentos so dedicados a um J. F., possivelmente uma referncia a J[os] F[ialho] de Almeida. O reconhecimento desses fragmentos como rascunhos de Alma de Crno traz implicaes para o estudo do profano na obra pessoana. A apresentao dos novos documentos inclui: 1) um resumo da controvrsia subseqente publicao do soneto Alma de Crno e o estado dessa questo; 2) uma investigao das causas e conseqncias dessa controvrsia; 3) uma resposta s dvidas de atribuio e autoria do soneto; 4) um balano das ocorrncias do nome Fialho na obra pessoana j publicada; e 5) uma concluso sobre a relevncia dos rascunhos descobertos, quando tomados em conjunto com o poema Alma de Crno.

    * Pesquisador associado ao Global Citizenship Institute, Chicago.

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    1. Apresentao

    Dois incuos papelitos (ou, antes, dois pedaos de papel) escritos apenas de um lado e rasgados numa das margens (como se tivessem sido arrancados de um caderno ou calendrio); uma escrita bastante ilegvel, feita caneta preta muito ligeira; nenhuma assinatura ou data; nove versos ao todo (um deles completamente riscado); muitos espaos em branco (um poema sem o meio, o outro s com o meio); um total de cinqenta e duas palavras, ou cinqenta e quatro se contarmos as iniciais J. F. que servem de ttulo a ambos os fragmentos; dentre essas palavras, pelo menos trs palavres impublicveis; muitas indicaes de que os fragmentos representam rascunhos do soneto completo Alma de Crno; e, enfim, perguntas...

    Quem seria este J. F. que intitula os fragmentos? Quem seria o F. P. que assina o poema Alma de Crno na verso

    posterior desses rascunhos (publicada no primeiro nmero da revista Granta em Portugal)?

    Por que F. P. estaria xingando J. F.? Seria mesmo Fernando Pessoa capaz de xingamentos to brutais, feitos

    sem a mscara protetora de um heternimo? Quo bem realmente conhecemos Fernando Pessoa? O mais completo, mais complexo e mais harmnico foi como o

    heternimo lvaro de Campos qualificou o ideal de super-homem, na concluso do seu Ultimatum (PESSOA, 1917). Tal qualificao muito bem se aplica ao super-poeta Fernando Pessoa, um fenmeno semitico que cresce exponencialmente para fora e para dentro, como um labirinto cada vez mais complexo, em que se descobrem mais e mais caminhos possveis.

    Cada vez conhecemos mais personagens, idiomas e estilos pessoanos e os conhecemos melhor. Por exemplo, a magnitude da obra inglesa do poeta apenas agora se vislumbra (FERRARI & PITTELLA-LEITE, 2014). Outras facetas pessoanas, talvez menos nobres, mas no menos interessantes, emergem dessa investigao in fieri. Uma dessas (chamemo-la faceta profana) pode ser simbolizada pelo contro-vertido soneto Alma de Crno (in PIZARRO & PITTELLA-LEITE, 2013: 102-103).

    Alma de crno isto , dura como isso; Cara que nem servia para rabo; Idas e intenes taes que o diabo As recusou a ter a seu servio lama feita vida! trampa em vio! Se pra ti todo o insulto cheira a gabo do Hindusto da sordidez nababo! Universal e essencial enguio!

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    De ti se suja a imaginao Ao querer descrever-te em verso. Tu Fazes dr de barriga inspirao. Qur faas bem ou mal, hyper-sabujo, Tu fazes sempre mal. s como um c, Que ainda que esteja limpo sempre sujo!

    F. P. (BNP/E3, 36-10r)

    Incluindo, no verso 13, o palavro-mor da lngua portuguesa em posio de

    rima, este soneto chulo assinado por F. P. gerou polmica ao ser publicado em 2013. Embora j conhecssemos violentos xingamentos dispersos pela obra do heternimo lvaro de Campos (PESSOA, 1999 & 2015), desconhecamos casos de severo escrnio e maldizer atribuveis ao ortnimo.

    Alguns hesitaram em reconhecer Alma de Crno como um poema legtimo de Fernando Pessoa; a pesquisadora pessoana Teresa Rita Lopes, entrevistada a respeito dos sonetos publicados na Granta, declarou: Tudo o que h de poemas do Pessoa j foi editado. Pode haver um verso solto, mas os poemas j esto fixados (in FAGGIANI & COSTA, 2013). Tomando conhecimento dessa declarao, o editor da Granta lanou, nas mdias sociais, um desafio pblico para que se provasse o no-ineditismo dos poemas, caso j tivessem sido de fato publicados. Estava formada a polmica.

    Independentemente dos mritos dessa controvrsia, ela parecia apontar para uma interessante sensao de desconforto causada pela introduo de Alma de Crno no legado pessoano: como poderia um poema to chulo coexistir ao lado da espiritualidade de Mensagem, da grandiosidade de Tabacaria, da filosofia de O Guardador de Rebanhos?

    Entretanto, a Revista Mrio de Andrade (RMA), em edio especial com o ttulo Obscena, convidou-me a escrever um artigo acadmico defendendo o soneto Alma de Crno como parte legtima da obra de Fernando Pessoa. Num texto sobre a coexistncia do sagrado e do profano na poesia pessoana, desenvolvi o raciocnio de atribuio do poema, respondendo s dvidas a respeito de sua autenticidade (dvidas que decerto tambm tive, quando encontrei o manuscrito de Alma de Crno pela primeira vez, durante minha pesquisa de doutoramento; cf. PITTELLA-LEITE, 2012).

    Na defesa para a RMA, discuti a possibilidade de atribuirmos o poema (com sua assinatura F. P.) no ao ortnimo, mas ao pouco conhecido Francisco Pa (que compartilha as iniciais do ortnimo). Pa, diretor da seo humorstica do jornal (fictcio) O Palrador, plausivelmente estaria a dirigir invectivas ao patro Gaudncio Nabos (outra personagem pessoana), diretor do mesmo jornal. Um suporte para essa hiptese, levantada pelo prof. Jernimo Pizarro, est na

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    existncia das ridicularizantes rimas em -abo do soneto (rabo, diabo, gabo e nababo), a escrachar os sobrenome Nabos do fictcio patro.

    Por outro lado, este dilogo entre personae , evidentemente, um dilogo de um autor consigo mesmo; de modo que tambm seria produtiva uma leitura psicolgica do soneto, atribuindo-se a assinatura F. P. ao prprio Fernando Pessoa. Teramos, assim, uma interpretao sensivelmente mais dura, qui sombria... tal como se poderia ler o soneto de auto-escracho de Mrio de S-Carneiro, intitulado Aquele Outro, em que o amigo real de Pessoa brutalmente se auto-qualifica o Esfinge gorda dois meses antes de suicidar-se (S-CARNEIRO, 2001).

    O suposto problema de adequao de um soneto chulo na obra pessoana parecia, pois, estar em nossa prpria interpretao do que seria apropriado (simplesmente in the eye of the beholder, para usar a expresso inglesa). Ao consagrar o grande poeta portugus, teramos promovido uma imagem certamente incompleta de uma obra incompletamente publicada. Nossa ignorncia diante do todo da obra gerara, assim, a incompatibilidade de uma parte mais profana at ento desconhecida.

    Nesse sentido, foi preciso perguntar: como um soneto completo e bastante legvel de Fernando Pessoa poderia ter ficado indito por tanto tempo? Talvez nosso prprio pudor tenha retardado a publicao, visto que praticamente todos os manuscritos mais legveis da poesia portuguesa de Pessoa j tinham sido publicados.

    Aps a defesa do poema Alma de Crno publicada na RMA, o pesquisador Jos Barreto descobriu, no esplio pessoano guardado na Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), dois fragmentos (BNP/E3, 66C-45 & 66C-46) que constituem rascunhos do soneto maldito uma descoberta com implicaes para a polmica do profano em Pessoa. Embora sem data e sem assinatura, ambos os documentos encontrados apresentam o ttulo J. F.. Barreto imediatamente levantou a hiptese de que seriam poemas dedicados (maliciosamente dirigidos) no a uma personagem pessoana, mas sim ao escritor de carne-e-osso J[os] F[ialho] (de Almeida), sobre quem Pessoa como lembrava Barreto tinha maligna opinio.

    Logo, alm de Gaudncio Nabos (personagem) e do prprio Fernando Pessoa (ortnimo), agora o poema Alma de Crno ganhava um terceiro possvel destinatrio: Fialho de Almeida, uma pessoa real para alm do universo pessoano.

    Quem foi Fialho de Almeida? E, que opinio concreta Pessoa tinha dele? Ora, sabemos que Fialho foi um clebre escritor portugus contemporneo de Pessoa, ainda que trinta anos mais velho e, portanto, representante de uma gerao literria anterior. A fim de responder segunda pergunta, podemos consultar algumas referncias a Fialho na obra pessoana, avaliando se constituem apreciaes positivas ou no. Localizamos sete ocorrncias do nome Fialho na

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    obra pessoana j publicada: num poema solto, no Dirio de Vicente Guedes, numa reflexo sobre a ternura, em duas cartas a Adriano del Valle e, por fim, em duas passagens do Livro do Desasocego (LD).

    Apresentamos, a seguir, excertos desses textos pessoanos, em ordem cronolgica; os colchetes indicativos de data, espaos em branco e supresses de citao, assim como os grifos do nome Fialho so todos nossos; a ortografia a original de Pessoa, presente nos testemunhos. [Janeiro de 1909]

    Um serralheiro chamado Fialho Tinha uma chave que [ ] Com ella muita porta abria. . . Aqui a historia principia. Tanta porta abriu o senhor Fialho Com a tal chave que era caralho Que a chave alfim se escangalhou E aqui o conto acabou.

    (BNP/E3, 56-18r; cf. LOPES, 1990: 217) [11 de Maio ou 22 de Agosto de 1914]

    Vieram dar-me hoje a noticia de que morreu Fialho de Almeida. Foi ha 3 annos, parece, mas quem, como eu, no vive annexo s variaes da immoralidade do meio, pouco ou nada sabe, seno por accaso, respeito das fluctuaes, como [ ] e mortes, no mercado dos pederastas. Em todo o caso, como elle morreu, e era collega, porque escrevia, no quero deixar de pr aqui umas notas dignas delle, e tanto quanto possivel maneira delle, tratando-o como elle tratou os mortos. Assim estas minhas palavras sero como que uma continuao da attitude delle, fal-o-ho ressuscitar temporariamente, parecer (salvo o melhor do estylo, sobretudo quanto a decencia e linha) que elle proprio que, desdobrado, acordou, e me escreveu sobre /o conhecer de/ si-proprio. A figura de Fialho de Almeida forma-se de 3 elementos: era um homem do povo, um pederasta e um grosseiro, creatura da steppe alentejana, com callos na sensibilidade humana, e uma depresso onde devia ter a bossa da delicadeza. Tirante o amr paysagem e aos homens, nada o attrahia para nada, mettido sempre na

    (Diario de V[icente] G[uedes] BNP/E3, 14C-8; cf. LOPES, 1990: 230) [1915?]

    O costume de definir o portuguez como essencialmente lyrico, ou essencialmente amoroso absurdo, porque no ha povo quasi nenhum que no seja estas duas cousas. Ao mesmo tempo v-se que, ainda que a expresso falhe, h qualqur cousa de verdade, que no chega a descobrir-se, nestas phrases. O que que ha de quasi-indefinivelmente portuguez, de portuguezmente commum excepto a lingua, a Bernardim Ribeiro, Cames, Garrett, Anthero de Quental, Antonio Nobre, Junqueiro, Corra dOliveira, Pascoaes, Mario Beiro? Em primeiro logar, uma ternura. Mas o que uma ternura?

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    Ternura vaga [ ] em Bernardim Ribeiro, ternura que rompe a casca de estrangeirismo de Cames, no seu auge ternura heroica [ ], ternura metaphysica em Anthero (curiosssima phase da ternura que d corpo ao abstracto, e pode amar realmente um Deus que seja realmente uma formula mathematica); ternura por si-proprio e pela sua terra *esquiva, espontanea e com o lado-tristeza accentuado, em Antonio Nobre, ternura pela paysagem em Fialho, ternura que chega a assomar s janellas da alma de Ea de Queiroz

    (A Ternura Lusitana ou A Alma da Raa; BNP/E3, 19-107; cf. BOTHE, 2013: 143) [14 de Setembro de 1923]

    Querido amigo: Para no demorar mais a remessa de algum dos livros dos prosadores portuguezes, envio-lhe hoje, registado, o Sero Inquieto do Antonio Patricio. um dos mais perfeitos livros de contos que se teem escripto em Portugal. Creio que appareceu cerca de 1909 ou 1910. Mesmo a segunda edio (identica primeira), que a que lhe envio, me custou bastante a encontrar, pois est, pode dizer-se, exgottada. [...] Tem algum livro de contos de Fialho de Almeida? Se no tem, h que conhecel-os, e j fico sabendo que lhe devo enviar esses tambem. No seu pedido, relativo a novellistas portuguezes, ha duas difficuldades para a realizao. Em primeiro logar, no ha muitos novellistas (isto , contistas) portuguezes, mesmo relativamente ao numero de e...