Almeida Faria - O Murmúrio Do Mundo

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    o murmriodo mundo

    Almeida Faria

    Desenhos deBrbara Assis Pacheco

    coordenador da coleocarlos vaz marques

    A ndia Revisitada

    l i s boa :tinta da china

    MMX I I

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    2012, Almeida Fariae Edies tinta da china, Lda.Rua Joo de Freitas Branco, 35A,1500 627 LisboaTels: 21 726 90 28/9 | Fax: 21 726 90 30E mail: info@tintadachina.ptwww.tintadachina.pt

    Ttulo: O Murmrio do Mundo. Andia Revisitada. Autor: Almeida FariaDesenhos: Brbara Assis PachecoPrefcio: Eduardo LourenoCoordenador da coleo: Carlos Vaz MarquesReviso: Tinta da chinaComposio e capa: Tinta da china

    1. Edio: fevereiro de 2012

    isbn 9789896711115Depsito Legal n. 339145/12

    ndice

    PrefcioA Dupla Viagem 7

    Partida 19Goa 37

    Cochim 97Regresso 141

    Notas finais 145Nota biogrfica 147

    A viagem do autor e da ilustradora foi realizadae suportada financeiramente no mbito do cicloOs Portugueses ao Encontro da Sua Histria,da responsabilidade do Centro Nacionalde Cultura, no ano de 2006.

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    prefcioA Dupla Viagem

    Trouxe comigo um bloco confusamente escrevinhado, uma curiosidade acrescentada, uma crescente descrena na elegncia da descrena.

    Almeida Faria

    A viagem ndia para ns portugueses uma viagem a nenhuma outra comparvel. Para ns inaugurou um tempo para sempre fora do tempo. Um tempo destinado a ser o nico tempo da nossa Histria com a configurao de mito universal. Foi o na hora mesma em que l chegmos. Como a viagem lua, h meio sculo. Foi no crculo desse acontecimento que nos demos ento um passado grego e romano idealizado que nunca tnhamos tido. Aquele que um poema converteu na nica memria que, desde ento, nos serve de presente imemorvel e eterno, ao mesmo tempo.

    Toda a viagem viagem ndia, exigindo nos que a refaamos perpetuamente como para nos convencermos que a mais onrica das nossas peripcias de pequeno povo do Ocidente no foi o puro sonho que tambm foi. No vamos l procura de um continente de fbula onde a imaginao e seus delrios so a prosa mesma da realidade, como o autor deste Murmrio do Mundo to bem sublinha. Por sua vez,

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    almeida faria o murmrio do mundo

    essa fantstica realidade no s uma tapearia fantasmagrica sem igual mas, ao mesmo tempo, uma alegoria vivida de uma viagem como procura de ns mesmos. No de ns e do passado antes de l termos aportado, mas de ns para sempre outros e nicos, por esse encontro com um mundo que nada tinha a ver connosco mas que logo nos deslumbrou pelo espectculo da sua irrealidade, como se fosse um outro mundo (e era e ainda o ), um mundo que, como por magia e sem nada nos dar de visceralmente seu, nos deu uma outra existncia e, sem o sabermos, uma outra alma.

    Com a chegada e a estadia de sculos na ndia comeava ento a mais paradoxal metamorfose que a histria do Ocidente conhecer. Por misteriosa alquimia a nossa ocidental praia lusitana conhecer, um dia, o mais paradoxal destino, o seu destino lvaro de Campos, a de ser por dentro e, pessoanamente, um Oriente a oriente do Oriente.

    J era um pouco assim que a Lisboa do sculo xvi podia ser vivida pelos nrdicos que nos visitavam e vinham pelo cheiro da canela que perfumava as nossas ruas que pareciam sonhos. Mas s o tempo faria dessa exterior impregnao oriental essa espcie de segunda natureza nossa de retornados de uma ndia e dos seus fumos de cobia e esttica existncia. Com o tempo, os fumos evaporaram se, ficou apenas o perfume e a nostalgia de uma glria longnqua, menos no espao que na memria. E quando de todo os ltimos ecos de uns e de outros se extinguiram, ficou a lembrana nunca extinta desse momento imperial exigindo de ns a repetio simblica da viagem das viagens num

    mundo onde a viagem s quase imagem potica ou mesmo anacrnica.

    A singular Viagem ndia do autor de A Paixo e de Lusitnia no nem uma coisa nem outra. De algum modo, e como no poderia deixar de ser, antes uma espcie de peregrinao de dupla face ndia real, agora sada, espectacularmente, do seu adormecimento mtico. a mesma das evocaes clssicas do antigo continente dos marajs e dos prias e agora extremamente ps moderna, se o tempo indiano consente esta inveno europeia, dinmica, inovadora, que espanta o mundo e simultaneamente ndia da nossa memria de portugueses. Destes dois tempos, Almeida Faria comps um s texto de original potica interseccionista. No precisamente a sua India Song mas uma partitura ficcional que cruza os nossos textos imemoriais de Quinhentos com o texto da realidade da ndia de hoje, to outra daquela que os nossos cronistas do Oriente, olhos ainda virgens de ocidentais, podiam reflectir realisticamente.

    Pela sua estranheza absoluta e mau grado as vagas de ocidentalizao, a comear pela nossa, perifrica, e a acabar na inglesa interna e duradoura o encontro com a ndia continua a surpreender, a interpelar pelos seus contrastes que tm a espessura de sculos. uma terra que logo nos envolve, de um envolver que Almeida Faria assimila a uma dissoluo.

    Talvez no seja por acaso que Almeida Faria, apenas desembarcado e confrontado com a ndia real, a caoticidade humana, para ns ocidentais, de uma cidade como

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    almeida faria o murmrio do mundo

    Bombaim, antiga terra da presena lusitana oferecida de graa nossa aliada Inglaterra, recebe no corpo e na alma essa mensagem que j em si a quinta essncia do continente indiano.

    Longnqua filha da ndia e no apenas da sia como miticamente a viram os gregos e todos somos gregos at Valry a Europa somos ns de olhos no menos miticamente abertos por nos crermos eternos. Tudo se passa como se a sia e a ndia no centro dela fosse o espao matricial do nosso inconsciente onde os deuses, e Buda que o no era, so pintados ou esculpidos de olhos cerrados. Desde Alexandre que uma Europa ainda busca de si mesma sonhava com essa me desde sempre perdida. O que um dia se chamar misticismo a tem a sua fonte: o antigo, que Plotino inventaria como viso e discurso de um Uno inacessvel e s pensvel por negao, e o moderno, que Eckhardt cristianizar como um paradoxal budismo sem morte nem dissoluo no nada.

    Como europeus, todas as viagens ndia, desde a nossa de primeiros buscadores por mar das suas maravilhas de engenho, de raridades naturais para ns desconhecidas, so sempre regresso ao que no sabamos que ramos e nos esperava sem nos esperar. No foi s Alexandre que sonhou a ndia para a se coroar simbolicamente como soberano universal, Imperador do Mundo. Para ns, portugueses, a chegada ndia, o deslumbramento que nos causou, a dimenso onrica que nos conferiu para sempre tanto como o futuro fascnio ingls por esse imprio de sonho que eles

    converteram em imprio da realidade, fizeram da ndia o smbolo mesmo da vida como fantasma e fantasmagoria do Ocidente. Uma das mais fascinantes novelas de Kipling converter o mito do homem ocidental encarnado em Alexandre, ilustrando o sonho imperialista do Ocidente na sua hora culminante mas em mito do homem como rei de si mesmo. Coroado de nada, como a essncia da ndia, reino da Iluso o reclamava.

    Uma viagem ndia, real ou suposta, sempre da ordem da fico superlativa, um desafio nico nossa tradio ficcional de europeus que s por excepo de recorte fantasmagrico. Filhos de Ulisses e de Homero que o evocou, ns sempre nos quisemos confrontar com os obstculos e monstros da realidade e venc los para ns prprios existirmos como deuses. Ningum o sabe melhor que um herdeiro dessa qute de realidade do que aqueles que nasceram para a ficcionar. Ir ndia, reevoc la, d la a ver aos que no fizeram essa viagem pleonasticamente inicitica nesse Oriente onde, como Pessoa imagina que Cristo talvez ainda hoje viva, / Onde Deus talvez exista realmente e mandando tudo, defrontar e confrontar se com um desafio ficcional em estado puro. A simples evocao da aparncia desse continente de gentes inumerveis que vivem como quem morre e morrem como quem nunca viveu como ns ocidentais, inscritos e definidos pela Morte incontornvel ou do seu mistrio sem leitura, uma experincia espiritual e vital, em sentido prprio, indescritvel. Mesmo a esse nvel, que o do normal peregrino turista, nenhuma

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    almeida faria o murmrio do mundo

    vivncia dos outros labirintos ocidentais, mesmo os de Borges e seus mil caminhos que bifurcam, se pode comparar viso naturalmente catica daquele continente em perptuo acto de se manifestar terrfica e sumptuosamente, dessa espcie de caos original da vida e da humanidade dela.

    A essa espcie de tapearia irreal tecida de todas as letras vivas dos actos mais extravagantes do que chamamos, ns ocidentais, a cultura humana, a sua fosforescncia contnua de gestos, de actos que relevam para ns dum colossal circo mgico ao ar livre contrape o autor de A Paixo, filho de um mundo de silncio e luminosidade grega, uma leitura visual, sensvel, sensual, em pginas repassadas de muito visvel assombro, de natural fascnio pelo encontro com o diferente que nenhum conhecimento prvio da ndia, da sua paisagem, das suas imagens mticas, dos seus dolos literrios ou polticos, pode antecipar. Esse choque cultural, mesmo numa poca j sem lugar para a surpresa absoluta dos outros, ningum o pode evitar. Talvez seja uma das razes que temos para demandar a ndia como lugar por excelncia de uma civilizao, uma sociedade, uma cultura que mais do que qualquer outra to autocentrada, to densa de temporalidades diversas, to unificadas por dentro como se sozinha fosse para ela mesma e, sobretudo, para ns, um outro planeta. Sem verdadeiro exterior. Ou um exterior que somos ns.

    Como se no bastasse, esse choque cultural que ser para todos os que visitam a ndia mais ou menos o mesmo, ou idntico, para ns, ou evoca para ns, um espelhismo

    singular. Singular e capital para a conscincia e a leitura do nosso destino de portugueses na histria do Ocid