análise de textos, diversos

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    04-Jul-2015

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OI na TV A lngua rola solta Por Lilia Diniz em 25/5/2011Desde a semana passada, a imprensa abre amplo espao para a polmica em torno do livro didtico Por uma vida melhor, da professora Helosa Ramos. Trechos como "ns pega os peixe", "os menino pega o peixe" entre outras expresses mostradas na publicao, que integra a coleo Viver, Aprender, da editora Global, foram intensamente discutidas pela mdia de todo o pas em reportagens, colunas e artigos. A celeuma foi causada pela distino que a autora estabelece no livro entre a norma culta e a linguagem falada. Em uma das passagens mais criticadas do captulo "Falar diferente de escrever", Helosa Ramos diz: "Voc pode estar se perguntando: Mas eu posso falar os livro? . Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situao, voc corre o risco de ser vtima de preconceito lingustico".

Distribuda a mais de 480 mil alunos pelo Programa Nacional do Livro Didtico para a Educao de Jovens e Adultos, a obra foi adotada por escolas pblicas em todo o territrio nacional. Em meio ao barulho da mdia e ao debate levantado na comunidade acadmica, a autora garante que obedece aos Parmetros Curriculares Nacionai s estabelecidos em 1997 pelo Ministrio da Educao (MEC) para o ensino fundamental e para a educao de jovens adultos. E defende que o conceito de "correto e incorreto" no uso da lngua portuguesa seja substitudo por "adequado e inadequado". O MEC afirmou que no ir recolher os exemplares j fornecidos aos alunos mas, aps os protestos, a autora disse que pode rever alguns trechos da publicao em uma nova edio. O Observatrio da Imprensa exibido ao vivo na tera-feira (24/05) pela TV Brasil analisou a cobertura da mdia no episdio. Para discutir este tema, Alberto Dines recebeu no estdio do Rio de Janeiro os professores Srgio Nogueira e Deonsio da Silva. Em Braslia, participou o tambm professor Marcos Bagno. Deonsio da Silva, colunista deste Observatrio, doutor em Letras pela Universidade de So Paulo, escreveu mais de 30 livros e assina colunas sobre Lngua Portuguesa na imprensa. pr-reitor de Cultura e Extenso da Universidade Estcio de S. Srgio Nogueira formado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Assina a coluna "Dicas de Portugus" no portal G1, o boletim "Lngua Solta" na Rdio Bandeirantes de So Paulo, consultor de Lngua Portuguesa do Jornalismo do sistema Globo. Marcos Bagno professor do Instituto de Letras da Universidade de Braslia (UnB). Autor premiado, Bagno tem se dedicado produo de obras voltadas para a educao. Seus estudos no campo da Lingustica se concentram nas

questes da crtica ao ensino da lngua portuguesa nos moldes tradicionais. Norma culta e lngua falada Em editorial, Dines sublinhou que a lngua portuguesa falada no Brasil est cada vez mais distante da escrita. Para o jornalista, o debate em torno do livro salutar e deveria tornar-se constante, uma vez que "a prpria mdia tenta usar a norma culta quando escreve, porm mostra-se indulgente e at relapsa ao usar os meios eletrnicos". Dines ressaltou que, em Portugal a diferena entre a norma culta e a lngua falada nas ruas, mesmo entre as camadas mais populares "quase inexistente": "Isso nada tem a ver com o poeta Cames e o padre Vieira, que tambm so cultuados por aqui. que na escola ou no liceu portugus investe-se na correo do idioma, porque l a gramtica vista como ferramenta para tornar a comunicao mais efetiva. Esta a questo: "os livro" no fere apenas a concordncia, fere a compreenso". A reportagem exibida antes do debate ao vivo ouviu a opinio de especialistas no assunto. Para Maria do Pilar Lacerda, secretria de Educao Bsica do MEC, muitos jornalistas que criticaram enfaticamente a obra sequer leram a publicao. "Quando as pessoas comearam a ler o livro, comearam a entender que o livro no defende que se fale errado, mas explica que existe uma forma coloquial dali, daquela comunidade, daquela cultura, de se falar, e que existem outras formas". O livro, na avaliao da representante do MEC, conduz o aluno neste caso, um jovem ou um adulto a refletir sobre a sua forma de falar sem humilhar, discriminar ou excluir o estudante que cometa erros de portugus. A representante do MEC sinalizou que parte da mdia afirmou de forma equivocada que o MEC pretendia "que todos os brasileiros falem errado". "Eu posso dizer, como cidad, que este um jornalismo que no contribui para melhorar a informao das pessoas", avaliou a secretria. "Cinismo" social Helosa Ramos constatou que a mdia "estranhou" o trecho do livro onde afirma que a concordncia nominal e verbal nem sempre observada na sua totalidade na linguagem popular. "No dissemos, em nenhum momento, que para escrever assim [errado] na norma culta. Ns no estamos ensinando a escrever assim, estamos admitindo que, na fala, exista esta possibilidade, esta variante", assegurou a autora. O escritor e colunista Affonso Romano de SantAnna ponderou que todos cometem erros gramaticais, inclusive os jornalistas. Atualmente, na avaliao do escritor, h uma espcie de "cinismo" na sociedade: "Na cultura contempornea, a exceo virou a norma. A ruptura virou a norma. E isto, claro, acontece na gramtica tambm". Para SantAnna, o livro mostra as duas vertentes a falada e a escrita mas ensina, de fato, a norma culta. "Existe um sistema, uma ordem na sociedade. Todo este papo de que no h limite, no h ordem, no h fronteira, no h reg ras, um papo da moderna contemporaneidade que deixa as pessoas confusas", analisou. A imprensa, para Affonso Romano, amplificou opinies sem fundamento: "Eu voltei um pouco s fontes para ver o texto, o que tinha sido dito e, na verdade, so coisas que esto sendo ditas na lingustica

h muito tempo". Norma culta para todos Joo Ubaldo Ribeiro, autor consagrado e colunista do jornal O Globo, defendeu que se mostre ao usurio da norma "no-culta" que a lngua falada por ele tem tanta dignidade quanto qualquer outra, mas que o ensino da norma culta prevalea: "No apenas como privilgio de alguns, mas que a norma culta seja compreensvel, acessvel e utilizvel por todos os brasileiros, que continuaro a falar seus outros dialetos", disse Ubaldo. Para o advogado Srgio Bermudes, a linguagem de um livro didtico tem que ser correta. Embora a sociedade hoje no viva mais sob padres lingusticos rgidos, preciso manter o hbito de falar com correo. "Quanto mais correta a linguagem, mais ela traduzir o pensamento e efetivar a comunicao. Se ns comearmos a esparramar um linguajar diferente, ns teremos uma outra lngua", alertou Bermudes. Linguista e professor, funes diferentes O professor Evanildo Bechara, autor de uma das mais importantes gramticas adotadas no pas e integrante da Academia Brasileira de Letras (ABL), avaliou que o livro Por uma vida melhor ensina boas lies aos alunos, mas comete erro ao confundir a funo de linguista com a de professor: "O linguista estuda a lngua como a lngua funciona naquela regio, naquele meio social, naquele momento histrico. J o professor de portugus, no. O professor de portugus estuda a lngua na sua produo ou na sua norma culta". Bechara avaliou que a imprensa se ateve apenas a um aspecto da obra. "Foi apresentada a frase ns pega o peixe, que a professora declara linguisticamente correta e que uma frase correta porque aparece em um determinado momento. Mas em um livro didtico aquilo soou como se fosse a lio permanente, em lugar de a imprensa ter mostrado que aquilo foi um momento, por sinal, ao meu ver, um momento infeliz, na hora de escrever um captulo muito bem escrito sobre lngua padro", disse Bechara. bom falar de livro No debate no estdio, o professor e escritor Deonsio da Silva disse que acha "bonito" a mdia tratar de "livros e autores" porque, de maneira geral, os jornais promovem um "ocultamento" deste tema. Na avaliao de Deonsio, o professor que usa o j restrito espao da aula de Lngua Portuguesa para tratar de questes da Lingustica, disciplina que no pertence ao Ensino Mdio, presta um desservio ao povo brasileiro. Deonsio acredita que preciso democratizar a norma culta e no promover a incluso na lngua sem o esforo do aluno para aprender o correto: "A gente no se inclu na lngua culta sem estud-la. E est faltando muito no Brasil a relao bunda-cadeira-hora. Ns queremos facilitar, mas aprender difcil". A trajetria do escritor Machado de Assis (1839-1908), fundador da ABL, foi lembrada pelo professor como um exemplo de incluso na norma culta. De origem humilde, negro, gago e portador de epilepsia, Machado de Assis precisou se adaptar a rgidos padres gramaticais para ingressar na sociedade literata de sua poca. "Ele teve que aprender

aquela lngua que no era a dele. Ele era l do morro", sublinhou Deonsio. Machado de Assis "se apropriou" da norma que no conhecia e acabou por se converter em mestre daqueles que usavam a lngua culta para exclu-lo da sociedade. "Esta a verdadeira incluso: voc tirar o sujeito da ignorncia", declarou. Deonsio da Silva ressaltou que o professor de Lngua Portuguesa pago pelo Estado ou pela iniciativa privada para ensinar este disciplina aos que precisam aprend-la. O escarcu da mdia A atuao da imprensa neste episdio foi duramente criticada por Marcos Bagno. O professor da UnB chamou a ateno para a "leviandade gigantesca" da mdia e a "profunda ignorncia" jornalistas e fontes que tm comentado o teor deste livro didtico nos jornais. "As pessoas esto falando sem ter lido e sem saber o que acontece na educao brasileira h mais de 20 anos, quais so as diretrizes da nossa educao hoje em dia e, principalmente, o que ensinar Portugus hoje em dia. As pessoas esto ainda no sculo XIX, fazendo comentrios do sculo XVIII, enquanto a educao brasileira, o Ministrio da Educao e os livros didticos j esto no sculo XXI", censurou Bagno. A mdia, na avaliao de Bagno, age como se tivesse "descoberto a plvora", quando o tratamento da variao lingustica em sala de aula ab