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APRENDIZAGEM COLABORATIVA: TEORIA E PRTICA

Patrcia Lupion Torres Esrom Adriano F. Irala

A aprendizagem colaborativa e a aprendizagem cooperativa tm sido frequentemente defendidas no meio acadmico atual, pois se reconhece nessas metodologias o potencial de promover uma aprendizagem mais ativa por meio do estmulo: ao pensamento crtico; ao desenvolvimento de capacidades de interao, negociao de informaes e resoluo de problemas; ao desenvolvimento da capacidade de autorregulao do processo de ensino-aprendizagem. Essas formas de ensinar e aprender, segundo seus defensores, tornam os alunos mais responsveis por sua aprendizagem, levando-os a assimilar conceitos e a construir conhecimentos de uma maneira mais autnoma.

Tais propostas trazem intrinsecamente concepes sobre o que ensino, aprendizagem e qual a natureza do conhecimento. Uma das ideias fundamentais que elas encerram a de que o conhecimento construdo socialmente, na interao entre pessoas e no pela transferncia do professor para o aluno. Portanto, rejeitam fortemente a metodologia de reproduo do conhecimento, que coloca o aluno como sujeito passivo no processo de ensino-aprendizagem. Em oposio a essa abordagem tradicional de ensino, que ainda est fortemente arraigada no cotidiano das escolas, essas propostas reconhecem o conhecimento prvio de cada estudante, sua experincia e seu entendimento de mundo. O processo ensino-aprendizagem no est mais centrado na figura do professor e o aluno exerce nele papel fundamental. O professor atua na criao de contextos e ambientes adequados para que o aluno possa desenvolver suas habilidades sociais e cognitivas de modo criativo, na interao com outrem.

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A aprendizagem colaborativa ou a cooperativa no so prticas recentes e resultam de diversas correntes do pensamento pedaggico. Para Arends, a origem da aprendizagem cooperativa remonta Grcia Antiga e os desenvolvimentos contemporneos comeam com os primeiros psiclogos educacionais e tericos da pedagogia do incio do sculo xx. (1995, p. 365)

Desde o sculo XVIII, educadores utilizaram-se e tm se utilizado da filosofia da aprendizagem colaborativa, cooperativa e de trabalho em grupos, pois acreditavam em seu potencial de preparar seus alunos para enfrentar a realidade profissional.

O professor George Jardine da Universidade de Glasgow, entre os anos de 1774 e 1826, pretendendo preparar os discentes para a plena participao na sociedade britnica, empregou tcnicas de composio de textos em colaborao e o ensino de tcnicas de comunicao e de trabalho em grupo (GAILLET, 1994). J na educao formal, no incio do sculo XIX, destacam-se as experincias de aprendizagem colaborativa da Lancaster School e da Common School Movement. Ainda do final do sculo XIX, ressalta-se a experincia do Coronel Francis Parker, que desenvolve atividades de aprendizagem em grupo em algumas escolas pblicas dos Estados Unidos (JOHNSON & JOHNSON, apud GILLIAM, 2002).

No sculo XX, na Inglaterra, as escolas de artes e ofcios, os institutos artesanais e outras escolas especializadas, implementaram propostas pedaggicas de cooperao escolar. O mesmo aconteceu na Alemanha, na Arbeikschule (escola do trabalho) de Kerschensteiner, e na Itlia com a utilizao de princpios da cooperao pelo Movimento di Cooperazime Educativa (LAENG, 1973, p. 102).

Em 1916, John Dewey, ao escrever o livro Democracia e Educao, prope que em ambiente escolar sejam reproduzidas situaes sociais que preparem o aluno para exercer a democracia. Arends afirma que Dewey e seus seguidores, ao apresentarem os procedimentos de sala de aula de suas propostas, enfatizavam a organizao de pequenos grupos de resoluo de problemas,constitudos por alunos que procuravam as sua prprias respostas e aprendendo os princpios democrticos, atravs da interao diria de uns com ou outros. (1995, p.365)

Depois da Primeira Guerra Mundial, na Frana surge ainda experincias de Profit e Celestin Freinet. (LAENG, 1973, p. 102).Tambm na Frana destacamos o trabalho do discpulo de Dewey, Cousinet. Maria Montessori e Ferrire, educadores da Escola Nova que desenvolveram atividades de cunho cooperativo, como parte de seus mtodos.

Alguns pressupostos tericos das propostas de colaborao e cooperao foram apresentados pelos psiclogos da Gestalt, Kurt Koffka e Kurt Lewin, que desenvolverem a teoria da Interdependncia social e Dinmica de Grupo, e por Jean Piaget e Lev Vygotsky, precursores do Construtivismo e do Sociointeracionismo.

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Na dcada de 1930, de acordo com Marrow (1969), Kurt Lewin e seus discpulos Lippit e Witte elaboraram os primeiros estudos sobre a influncia do trabalho em grupo para o aprendizado de crianas. Os resultados de tais estudos apontam para um melhor desempenho escolar das crianas que trabalharam com um lder democrtico do que as que trabalharam sem um lder ou com um lder autocrtico (apud FREITAS e FREITAS, 2003, p 12).

H uma influncia psicanaltica nos trabalhos de Lewin e seus seguidores, fato que proporciona uma aura mais afetiva ao grupo. No grupo abre-se espao para a convivncia, o reconhecimento, o respeito e a felicidade. Tambm em Freinet e Claperde aparece o esforo pela busca da felicidade no grupo e pelo grupo (ARENILLA et al., 2001).

Freitas e Freitas afirmam que

Mais tarde, na esteira de Lippitt e White, um dos alunos de Kurt Lewin, Morton Deutsch, que no final da primeira metade do sxulo xx trabalhava no Rosearch Center for Group Dynamics no MIT (Massachusetts Institute of Technology), promoveu uma investigao com vista ao seu doutoramento que consistiu em comparar os efeitos da cooperao e da competio nos grupos. (2003, p 12)

Nos anos 60 do sculo passado, Herbert Thelen props novas maneiras de trabalho discente em grupo. Thelen, assim como Dewey, afirmava: que a sala de aula devia ser um laboratrio ou uma democracia em miniatura, com o objetivo de se fomentarem o estudo e a pesquisa de problemas interpessoais e sociais importantes. (ARENDS, 1995, p. 365)

Ainda nos anos 60 merecem referncia os trabalhos de investigao de Brunner e Skyner, que influenciaram as discusses sobre cooperao e colaborao. Freitas e Freitas afirmam que se distinguiram entre os pioneiros

como promotores dessa nova idia os irmos Johnson (David e Roger), da Universidade de Minnesota, e Robert Slavin, da Universidade Johns Hopkins; mas tambm podem ser considerados caboqueiros: Elliot A Robson (Universidade da Califrnia, em Stanford), Spencer Kagan (Universidade da Califrnia, em Riverside), Noroeen Webb (Universidade da Califrnia, em Los Angeles) e Sholomo Sharan (Universidade de Tel-Aviv, Israel). (2003, p.13)

Muitas das propostas atuais de aprendizagem colaborativa e cooperativa surgem do interesse de estruturar a sala de aula e os processos de ensino, para superar preconceitos raciais e tnicos, principalmente nos Estados Unidos e Israel. Jonhson e Jonhson (ARENDS, 1995) tambm procuram estudar como os ambientes das turmas cooperativas podem levar superao de preconceitos com alunos com deficincias, integrados em turmas regulares, e a uma melhor aprendizagem. Gilliam (2002, p.45), na sua dissertao de mestrado, apresenta um quadro da cronologia da aprendizagem cooperativa/colaborativa, baseado em pesquisas de Johnson e Johnson (1992, 1998).

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O QUE APRENDIZAGEM COLABORATIVA?

Um conceito simples de aprendizagem colaborativa apresentado por Dillenbourg (1999) que essa uma situao de aprendizagem na qual duas ou mais pessoas aprendem ou tentam aprender algo juntas. De acordo com o autor, esse conceito geral pode ser interpretado de vrias maneiras: o nmero de sujeitos pode sofrer grande variao, podendo ser duas ou milhares de pessoas; aprender algo tambm um conceito muito amplo, pois pode significar o acompanhamento de um curso ou ainda a participao em diversas atividades como, por exemplo, as de resoluo de problemas; o aprender em conjunto pode ser interpretado de diversas maneiras, como situaes de aprendizagem presenciais ou virtuais, sncronas ou assncronas, esforo totalmente em conjunto ou com diviso de tarefas. Assim sendo, a prtica de aprendizagem colaborativa pode assumir mltiplas caracterizaes, podendo haver dinmicas e resultados de aprendizagem diferentes para cada contexto especfico.

Em uma viso mais ampla do que significa aprender colaborativamente, pode-se dizer que, de maneira geral, espera-se que ocorra a aprendizagem como efeito colateral de uma interao entre pares que trabalham em sistema de interdependncia na resoluo de problemas ou na realizao de uma tarefa proposta pelo professor. Segundo alguns estudiosos desse tipo de aprendizagem, a interao em grupos reala a aprendizagem, mais do que em um esforo individual. Uma aprendizagem mais eficiente, assim como um trabalho mais eficiente, colaborativa e social em vez de competitiva e isolada. A troca de ideias com outras pessoas melhora o pensamento e aprofunda o entendimento (GERDY, 1998, apud WIERSEMA, 2000).

Na formao de grupos de estudos e tambm de trabalhos colaborativos, o que se busca uma parceria entre os indivduos participantes que v alm da simples soma de mos para a execuo de um trabalho. Na colaborao, h a soma das mentes dos envolvidos (MORRIS, 1997).

Em um contexto escolar, a aprendizagem colaborativa seria duas ou mais pessoas trabalhando em grupos com objetivos compartilhados, auxiliando-se mutuamente na construo de conhecimento. Ao professor no basta apenas colocar, de forma desordenada, os alunos em grupo, deve sim criar situaes de aprendizagem em que possam ocorrer trocas significativas entre os alunos e entre estes e o professor.

Em relao diviso de tarefas em um grupo de trabalho colaborativo, h uma engajamento mtuo dos participantes em um esforo coordenado para a resoluo do problema em conjunto. (ROSCHELLE e TEASLY, apud DILLEMBOURG, 1996, p. 2). Dessa maneira, h a res