ARGAN,Giulio Carlo

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    25-Jul-2015

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<p>I TAREFA E SIGNIFICADO DA CRITICA</p> <p>Na cultura moderna, a arte objecto de estudo por parte de uma disciplina autnoma e especializada, a crtica de arte, que opera segundo metodologias prprias, tem como fim a interpretao e avaliao das obras artsticas e, ao longo do seu desenvolvimento, deu origem no s a terminologias apropriadas como a uma autntica "linguagem especial", que "recorre com inslita frequncia a uma dada seco do lxico e, relativamente ao uso corrente, rica em termos que derivam de diversas nomenclaturas tcnicas e cientficas" (De Mauro, 1965, p. 1). As obras artsticas foram sempre objecto de juzos de valor e consideradas como componentes de um patrimnio cultural que exigia atenes particulares por parte da sociedade e dos seus rgos representativos, interessados em conserv-las e em transmiti-las (mas tambm, no poucas vezes, em se desfazer delas, em destru-las, em substitu-las); desde a Antiguidade, desenvolveu-se em torno da arte uma vasta literatura, de carcter diversificado: cronstico ou memorialstico, terico e preceituai, histrico-biogrfico, erudito e filolgico, interpretativo ou de comentrio. Todavia, foi s a partir do sculo XVIII e da poca do Iluminismo que a literatura sobre a arte tomou a forma de disciplina crtica, desenvolvendo-se a diversos nveis: filosfico, literrio, historiogrfico, informativo, jornalstico, polmico. O alto grau de especializao e o peso cultural cada vez maior da crtica de727</p> <p>arte, na segunda metade do sculo passado e especialmente no nosso, demonstram que esta responde a uma necessidade objectiva e no pode ser considerada uma actividade secundria ou auxiliar relativamente prpria arte. , efectivamente, impossvel entender o sentido e o alcance dos factos e dos movimentos artsticos contemporneos sem ter em conta a literatura crtica que a eles se refere. De resto, uma parte considervel dessa literatura deve-se aos prprios artistas, que frequentemente sentiram a necessidade de acompanhar, justificar e sustentar a sua obra com declaraes programticas e intervenes polmicas. O facto de, na situao actual da cultura, a crtica ser necessria produo e afirmao da arte, legitima a hiptese de uma espcie de carcter inacabado ou, pelo menos, de uma comunicabilidade no-imediata da obra de arte: a crtica desempenharia assim uma funo mediadora, lanaria uma ponte sobre o vazio que se tem vindo a criar entre os artistas e o pblico, ou seja entre os produtores e os fruidores dos valores artsticos. Esta mediao seria, pois, tanto mais necessria quanto se pretende que a arte seja acessvel a toda a sociedade, uma grande parte da qual v ainda fechado o acesso fruio e ao consumo dos produtos da cultura, e, especialmente, da arte: a crtica ofereceria assim uma interpretao "justa" ou at mesmo cientfica das obras de arte, a qual seria vlida para todos, sem distino de classes. Mas, se a funo da crtica fosse principalmente explicativa e divulgadora, no se explicaria a sua afirmao como cincia ou, noutros casos, como "gnero literrio", o seu recurso a argumentaes abstrusas e, na sua maioria, menos acessveis do que o texto figurativo ao qual se referem , o seu valer-se de uma "linguagem especial" na qual abundam nomenclaturas especializadas e, para a maior parte do pblico, hermticas. Nesta sequncia, ainda se compreenderia menos por que motivo a crtica (e precisamente nas suas expresses mais avanadas) no se limitaria a julgar quais obras so ou725</p> <p>no artsticas, ou seja, operando sobre aquilo que tem sido feito e apresentado como arte, mas participaria directamente dos temas programticos e polmicos das correntes e tendncias, das poticas e das intencionalidades mais ou menos explcitas, demonstrando assim preocupar-se com o que falta ainda fazer ou est a ser feito, e portanto com a futura orientao da arte. Tambm o prprio facto de a actividade artstica se desenvolver, no nosso tempo, atravs de contrastes de tendncias ou correntes, cujo xito no plano dos factos , em todo o caso, aleatrio, explica que a crtica faa o saldo, mais com as intencionalidades do que com os resultados do trabalho artstico, e explica o seu carcter perspctico mais do que retrospectivo. Indubitavelmente, a necessidade da crtica depende da situao de crise da arte contempornea (ver a primeira parte), da sua dificuldade em se integrar no actual sistema cultural, da ruptura da relao que a ligava funcionalmente s outras actividades sociais. Embora no passado a arte tenha sido o modelo da produo econmica e as suas tcnicas tenham pertencido ao sistema tecnolgico do artesanato a ponto de a relao arte-sociedade acontecer no circuito normal da produo e do consumo , tal relao deixou de existir com a revoluo industrial, com a instaurao de uma tecnologia estruturalmente diferente, com a nova organizao econmica e social, com a mutao radical da morfologia dos objectos e do prprio ambiente material da existncia. Surge assim o problema da relao entre a arte, como actividade em que a funo esttica dominante (J. Mukarovsky), e as outras actividades "normais" da sociedade, quer sejam estticas (mas no artsticas) ou no-estticas. De todas as vezes, praticamente por cada nova obra apresentada como artstica, preciso demonstrar que verdadeiramente obra de arte, e depois as razes da sua presena e actualidade, a sua capacidade para desempenhar uma funo socialmente necessria e que, j no sendo a arte uma actividade integrada, tem os seus729</p> <p>efeitos para alm do campo especfico da arte. A tarefa da crtica contempornea consiste, pois, substancialmente, em demonstrar que o que feito como arte verdadeiramente arte e que, sendo arte, se associa organicamente a outras actividades, no-artsticas e at no-estticas, inserindo-se assim no sistema geral da cultura: o que explica o recurso a argumentaes bastante complexas e o emprego de uma "linguagem especial", em que abundam os termos no s tcnicos e cientficos (na medida em que cincia e tcnica so as actividades hegemnicas no actual sistema cultural), como tambm literrios, sociolgicos e polticos. Por fim, se a crtica uma ponte entre a esfera "separada" da arte e a esfera social, essa ponte constri-se partindo da esfera artstica para a esfera social (e no inversamente), de tal modo que a crtica pode ser considerada um prolongamento, ou um tentculo com o qual a arte tenta agarrar-se sociedade, qualificando-se como uma actividade no totalmente contrria ou dissemelhante daquelas a que a sociedade d crdito como produtoras de valores necessrios, tais como a cincia, a literatura, a poltica, etc.</p> <p>H A CRITICA MILITANTE</p> <p>Como processo de interpretao e avaliao, e como tipo de literatura artstica, a crtica de arte tem as suas origens no sculo XVI, mais precisamente nos testemunhos literrios das reaces emocionais perante obras de arte de indivduos particularmente sensveis. Os seus primeiros actos dizem respeito pintura veneziana (P. Aretino, P. Pino, L. Dolce) e sua independncia em relao aos princpios tericos e normativos da arte toscana e romana. Enquanto a arte concebida como sendo regida por uma teoria, atravs de um conjunto de preceitos, a nica avaliao possvel da obra de arte a verificao da conformidade da prtica teoria; se no se admite o princpio terico, a arte sobretudo um fazer, embora diverso do fazer comum porque suscitado por um furor interno, ou seja, pelo sentimento, por um estado de agitao emocional ou afectiva. isto e no a verdade dogmtica de uma teoria que a obra comunica ao observador, o qual no pode seno repercorrer o iter expressivo do artista, reviver-lhe a experincia em si prprio. Visto que mesmo obras no-artsticas podem emocionar, tal como obras artsticas podem emocionar atravs de factores que no so propriamente artsticos (por exemplo a dramaticidade do tema), o intrprete deve saber separar os motivos artsticos da emoo, dos no-artsticos, fornecendo assim o modelo de uma fruio adequada, que permite gozar a obra de arte enquanto</p> <p>130</p> <p>131</p> <p>tal e no, por exemplo, enquanto ensinamento moral, acto devocional ou configurao de coisas ou acontecimentos. Por outras palavras, desde a origem a crtica de arte a averiguao do carcter artstico da obra de arte, na medida em que se admite que precisamente s por o ser que desempenha a sua funo. Desde este primeiro momento, a crtica, quase sempre exercida por literatos, no tende a divulgar mas a restringir a fruio do valor artstico a um crculo de espritos eleitos, de pessoas de cultura; e dado que nesse crculo se integram aqueles que, pela sua condio social, esto em posio de exercer influncia sobre a produo artstica atravs das encomendas e das aquisies, a crtica tende a orientar o gosto, no sentido de criar condies mais favorveis afirmao da tendncia artstica considerada capaz de dar os melhores resultados. Atribuindo arte fins religiosos ou moralistas, a Contra-Reforma estimula a fora persuasiva e, portanto, o alcance emocional ou afectivo das imagens, embora exigindo que a comoo seja controlada e organizada de modo a que os efeitos sejam benficos. Apenas os entendidos e os dirigentes se podem aperceber do valor intrnseco da obra de arte, mas a sua fora persuaviva ou edificante deve ser exercida em todo o corpo social. Neste sentido, tpico o comportamento dos crticos romanos do sculo XVII: reclamam-se de uma teoria da arte e das normas consequentes, no porque estejam persuadidos de que s reflectindo a teoria que as obras podem ser verdadeiramente obras de arte, mas porque querem que tambm na arte seja obrigatria a obedincia aos princpios de autoridade. G. P. Bellori e G. Mancini compreendem a importncia de Caravaggio, mas desaprovam-no como rebelde autoridade da ideia e da histria, pelo que preferem e recomendam Annibale Carracci cuja pintura, menos traumati/antc, age positivamente sobre a imaginao e sobre o sentimento, sem criar problemas. A sua ateno concentra-se no meio da persuaso, na retrica do discurso pictrico, mais do 132</p> <p>que nos contedos da mensagem figurativa. Aplicando extensivamente o princpio ut pictura posis, que postula a possibilidade de traduzir a representao por discurso literrio, procede-se a uma descrio ou verso, em verso (G. B. Marino) ou em prosa (Bellori), do texto figurado, procurando na escolha das palavras e na articulao da frase reproduzir a beleza das formas e das cores. Menos diferente do que poderia parecer primeira vista , no ambiente veneziano, a posio de M. Boschini, certamente mais liberto de premissas tericas, mas igualmente interessado, pela persuaso, que no seu caso consiste na feitura agitada, na prpria gestualidade do fazer pictrico. A crtica especializada, no sentido cientfico e profissional do termo, nasceu em Inglaterra no sculo XVIfl, no mbito daquela cultura iluminista que, recusando qualquer dogmatismo, negava o valor das teorias da arte e do belo, assim como a autoridade do modelo histrico do antigo. Se a obra de arte j no passvel de avaliao a partir da conformidade a um ideal formal dado, s a partir da anlise do seu contexto, ou seja, do modo em que feita, se poder deduzir se verdadeiramente artstica. A Inglaterra no tinha uma tradio figurativa prpria: a nova "escola" pictrica inglesa, qual se queria dar vida, s podia nascer da escolha do "melhor", ou seja da crtica daqueles que eram os dois grandes files da arte europeia: o idealismo classicista da arte italiana e francesa e o realismo textual da arte holandesa. Alm do mais, sentia-se a necessidade de proteger o florescente mercado artstico local da invaso dos falsos, das cpias, dos refugos provenientes, na sua maioria, de Itlia: era, pois, necessria a formao de uma "cincia" (o termo de S. Richardson) capaz de reconhecer a autenticidade das obras de arte. O conceito de "qualidade", que toma o lugar do conceito de "belo" como definio do valor artstico, permanece ainda hoje como o conceito fundamental da crtica; e visto que a qualidade no se deduz de modelos, mas se 133</p> <p>obtm no decurso do processo expressivo, o crtico no pode seno repercorrer o iter operativo do artista, controlando-lhe a continuidade e a coerncia. A arte , doravante, concebida como um certo tipo de processo; a obra de arte o resultado de um procedimento ou de um comportamento artstico: apenas a experincia dos vrios modos de procedimento artstico, ou das diversas "maneiras" dos artistas, pode permitir ao crtico, agora tido como "conhecedor", de reconhecer que uma dada obra "autenticamente" artstica. Com efeito, a qualidade a mesma coisa que a autenticidade; mas j W. Hogarth, o fundador da escola pictrica inglesa, tinha da autenticidade uma ideia mais vasta que no a da assinatura, da feitura genuna, da atribuio correcta. A conformidade s regras, aos modelos, s convenes excluem a autenticidade, como a excluem o alegorismo forado, a oratria celebrativa, a adulao elogiosa. Toda a arte da tradio clssico-barroca , pois, ideologicamente (mesmo que no o seja tecnicamente) no-autntica, falsa: de facto, tem a predileco da classe aristocrtica (e vemo-lo no primeiro quadro da srie The marriage Ia mode de Hogarth) que gaba as origens "histricas" e as razes "ideais" (no se sabe quo autnticas tambm essas) de uma autoridade e de um poder que efectivamente perdeu. A burguesia, inimiga do fausto e atenta realidade das coisas, tem outros interesses no campo da arte: se a casa do "nobre senhor" em runas do primeiro quadro do Marriage estava adornada com quadros italianos, a casa de burgus rico do ltimo tem, nas paredes, quadros holandeses. Mas, na pintura holandesa, a descrio minuciosa do verdadeiro reflecte no s o esprito positivo e o sentido da realidade, como tambm o limite da mentalidade burguesa: um limite com o qual o burgus Hogarth quer corrigir a sua classe social, que v destinada a suceder aristocracia na gesto do poder. Daqui a necessidade da crtica, seja perante o idealismo, seja perante o verismo. Um pouco mais tarde, J. Reynolds, reconhecido mestre 134</p> <p>da j afirmada escola inglesa de pintura e primeiro presidente do seu rgo oficial, a Royal Academy, afirma que a crtica no apenas a reflexo sobre a obra realizada, mas tambm uma componente estrutural e determinante da arte que, ao fazer-se, no seno uma sucesso de escolhas de gosto. A arte, no pensamento de Reynolds, no procede das teorias nem da inspirao, mas do conhecimento e do juzo sobre a arte do passado. A histria da arte demonstra que os modos so diversos e por vezes contraditrios, ao ponto de no se poderem conciliar no estilo do mesmo artista: no existe portanto uma obra de arte que realize a arte na sua totalidade, pelo que o artista deve julgar e escolher: por exemplo entre a fora do desenho e a luminosidade da cor, entre os "sentimentos sociais" de Rafael e o "sublime" de Miguel Angelo. A escolha do artista ser sempre, inevitavelmente, unvoca e parcial, condicionada pelas suas preferncias de gosto, tendo como finalidade a obra que est a realizar; mas a crtica, notando defeitos e limites que, na realidade, so caracteres distintivos, reassocia o que prprio de cada artista ideia global de arte, que resultante de todas a...</p>

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