ARTIGO SOBRE A IDENTIDADE CULTURAL NA PÓS-MODERNIDADE NA PERSPECTIVA DE STUART HALL

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ARTIGO SOBRE A IDENTIDADE CULTURAL NA PÓS-MODERNIDADE NA PERSPECTIVA DE STUART HALL

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A IDENTIDADE CULTURAL NA PÓS-MODERNIDADE NA PERSPECTIVA DE STUART HALL Adenilson Vicente Negri (1) Claudia Tais Strapazzon (2) Francieli Boito (3) Ivana Angélica Rizzotto (4) Odinei Maciel (5) (1) Graduando em Direito pela Unochapecó – Campus São Lourenço do Oeste, email: adenilson@unochapeco.edu.br. (2) Graduanda em Direito pela Unochapecó – Campus São Lourenço do Oeste, email: claudiatais@unochapeco.edu.br. (3) Graduanda em Direito pela Unochapecó – Campus São Lourenço do Oeste, email: franboito@yahoo.com.br. (4) Graduanda em Direito pela Unochapecó – Campus São Lourenço do Oeste, email: ivana_angelica@unochapeco.edu.br. (5) Graduando em Direito pela Unochapecó – Campus São Lourenço do Oeste, email: det.indio@hotmail.com Resumo: O presente artigo tem como objetivo analisar as alterações que a pós-modernidade e a globalização acarretaram para a antropologia jurídica. A abordagem é delimitada às categorias antropológicas da identidade, diferença e homogeneização cultural. Essas categorias foram fortemente influenciadas pelos processos de globalização, processo socioeconômico que transformou o ambiente cultural mundial. A proposta é tratar o tema a partir dos estudos de Stuart Hall, especialmente os compilados no livro A Identidade Cultural na Pós-Modernidade, problematizando as conclusões do autor com a de outros estudiosos, tais como Anthony Giddens, Boaventura de Sousa Santos, Scott Lash e Ulrich Beck, autores que têm dedicado vastos estudos sobre os impactos da globalização sobre elementos essenciais para qualquer análise que se pretenda realizar sobre a humanidade em tempos pós-modernos, com idéias e concepções distintas de Stuart Hall. Anthony Giddens enceta uma abordagem fenomenológica sobre a sociologia e a teoria social, em especial sobre o fim das tradições, a compreensão espaço/tempo representada pela globalização, e o desencaixe que proporciona. Scott Lash trabalha neste mesmo contexto a geografia cultural, ou seja, a forma como os influxos da globalização interferem na percepção de lugar e da identidade. Ulrich Beck realiza uma abordagem autocrítica social da sociedade de risco global, enquanto que Boaventura de Sousa Santos preocupa-se com a ciência do senso comum, com as reverberações no mundo das pessoas. Trata-se de pesquisa bibliográfica, desenvolvida a partir do método dedutivo. Conclui-se, com base nos estudos realizados que cada vez mais emergem identidades culturais que não são fixas, pois se encontram em constantes processos de transição e que, embora alimentada sob muitos aspectos, a globalização pode acabar sendo fonte de lentos e desiguais descentramentos, impondo, dessa forma, alterações complexas em relação às identidades culturais, nestes tempos pós-modernos. Palavras- chave: Identidade. Modernidade. Globalização. Sujeito. 1. Introdução A partir da década de 1970 as bases constitutivas da modernidade começaram a ser questionadas. O advento da pós-modernidade se confunde com alterações nas estruturas políticas, econômicas, sociais e culturais mundiais. Os processos de globalização, ao mesmo tempo em que possibilitaram abertura econômica e promoveram a circulação de riquezas sem escalas na história da humanidade, fizeram com que a diferença entre os países ricos e pobres e entre os ricos e pobres de, praticamente, todos os países, aumentasse assustadoramente. O acesso imediato a informações de todos os lugares do mundo – que poderia significar maior zelo pelos direitos humanos – não impediu que genocídios e demais crimes dessa natureza continuassem acontecendo. A esperança de um mundo mais tolerante deu lugar ao recrudescimento de antigos antagonismos – de todas as ordens – que a modernidade parecia ter sepultado. No campo antropológico, a homogeinização cultural veio acompanhada de reafirmações etnocêntricas e de continuísmos. No presente artigo propõe-se, com base em Stuart Hall tratar de questões centrais para a compreensão da cultura nos atuais tempos. São abordadas, a partir da interlocução do autor com outros estudiosos do tema como Ulrich Beck, Anthony Giddens, Scoth Lash e Boaventura de Souza Santos, aspectos relacionados à identidade, ao nascimento e morte do sujeito moderno, ao descentramento do sujeito que resulta em identidades mutantes, inacabadas e contraditórias, aos fundamentalismos e ao retorno da etnia. A abordagem proposta se justifica na medida em que proporciona aos pesquisadores e pesquisadores do direito, suportes teóricos para uma melhor compreensão dos fenômenos culturais em curso e para o constante aperfeiçoamento e atualização da ciência jurídica. 2. A identidade em questão Em A identidade cultural na pós-modernidade, Stuart Hall (2006) busca avaliar se a identidade cultural estaria em crise, em que consistiria tal crise e qual seria a direção da mesma na pós-modernidade. Segundo o autor, as formulações do livro são provisórias e abertas à contestação. As opiniões dentro da sociedade ainda estão divididas, as tendências são recentes, o próprio conceito de identidade é muito pouco compreendido e desenvolvido. As pessoas pouco compreendem a modernidade atualmente. Um tipo diferente de mudança estrutural está transformando as sociedades modernas no final do século XX. Estas transformações estão também mudando nossas identidades pessoais, abalando a idéia que temos de nós mesmos como sujeitos integrados. Esta perda de um sentido de si estável, é chamada algumas vezes, de deslocamento ou descentração do sujeito. O sujeito hoje acaba tendo influências externas, e assim, acaba assumindo várias identidades. Segundo Anthony Giddens (1997), o deslocamento – no sentido de deslocalização – é a base do novo paradigma da globalização. O velho paradigma, que prevaleceu nos últimos trinta anos, referia-se a inteiros setores da economia e da cultura. Giddens (1997) sustenta que a compressão espaço tempo oriunda da globalização, que, para o autor, constitui-se a sua principal característica, acaba por possibilitar uma fluidez relacional. Ou seja, os sujeitos podem transpor-se de sua realidade, sem necessariamente dela se desligarem no sentido material. A internet, as redes sociais e, até mesmo, a facilidade de deslocamentos entre as regiões do planeta são exemplos emblemáticos do fenômeno da deslocalização. A título de exemplo, no campo laboral, o deslocamento atingiu até agora somente um pequeno percentual dos postos de trabalho das economias avançadas. Mas, podem derivar disso algumas claras implicações políticas. Onde for possível, a formação não deveria ser demasiado especializada, porque, o que contará mais será a flexibilidade e a adaptabilidade, seja ao nível empresarial ou ao nível de força de trabalho em geral. Não serão provavelmente os trabalhadores não qualificados ou com qualificação média que deverão fazer os maiores ajustes como foi demonstrado em período histórico recente, mas os que melhor se adaptarem às novas realidades e contextos. Tal fator é essencial para a compreensão do mundo do trabalho na atualidade. Esses processos de mudança, tomados em conjunto, representam um processo de transformação tão fundamental e abrangente que somos compelidos a perguntar se não é a própria modernidade que está sendo transformada. No campo cultural, Hall (2006) destaca três concepções de identidade construídas ao longo da modernidade: i) a do sujeito do iluminismo; b) a do sujeito sociológico e; c) a do sujeito pós-moderno. Poderíamos acrescentar, ainda, a concepção formulada por Hardt e Negri (2001) como anterior e prejudicial àquelas apresentadas por Hall. Os autores sustentam que longe de ser um processo pacífico, a construção da modernidade apresentou antagonismos desde a sua gênese. Na verdade, dois conceitos excludentes de modernidade foram cunhados desde o humanismo até o final do iluminismo: o da imanência e o da transcendência. O conceito de imanência surge do rompimento com o teocentrismo dominante na Europa Medieval e na elevação, por meio das artes e da ciência, do ser humano, ontologicamente considerado, denominado por Bovelles, apud Hardt e Negri (2001, p. 90), de homohomo, cabendo ao Estado, no campo político, tão somente, de forma democrática, já que este residiria na própria essência do todo – na multidão 1 – zelar pelo ser duplamente humano.2 À imanência opôs-se a transcendência, não mais a divina, mas a de outro ente capaz de pôr fim à crise gerada a partir da disputa travada entre o desejo de emancipação de um lado e de novas forças que procuraram controlar e neutralizar o projeto renascentista através da implantação de uma metafísica do poder que viesse substituir a forma dominante até então. (PEREIRA, 2008) Tais forças se organizaram a partir do iluminismo, cujo desafio maior foi o de sobrepujar a noção de imanência sem reproduzir o dualismo absoluto que orientou a idade média. Para tanto, os pensadores da idade das luzes – René Descartes, Immanuel Kant, Thomas Hobbes, Jean-Jacques Rousseau e outros – lançaram as bases de constituição de um aparelho transcedental capaz de orientar a multidão, evitando que esta se organizasse de maneira espontânea, canalizando a sua força em poder transcedente e necessário. (HARDT e NEGRI, 2001, p. 92-109). 1 Multidão deve ser tomada nos termos conferidos por Hardt e Negri (2001, p. 120) como sendo uma “[...] multiplicidade, um plano de singularidades, um conjunto aberto de relações, que não é nem homogênea nem idêntica a si mesma, e mantém uma relação indistinta e inclusiva com os que estão fora dela”. 2 Segundo Spinoza: “O objetivo supremo do Estado não é dominar os homens nem contê-los pelo medo é, isso sim, livrar cada um deles do medo, permitindo-lhe viver e agir em plena segurança e sem prejuízo para si ou seu vizinho. O objetivo do Estado, repito, não é transformar seres racionais em feras e máquinas. É fazer com que seus corpos e suas mentes funcionem em segurança. É levar os homens a viver segundo uma razão livre e a exercitá-la; para que não desperdicem suas forças com o ódio, a raiva e a perfídia, nem atuem uns com os outros de maneira injusta. Assim, o objetivo do Estado é, realmente, a liberdade”. (apud DURANT, 1991, p. 191). O sujeito do iluminismo – não mais o imanente – se baseava numa concepção da pessoa humana como um indivíduo totalmente centrado, unificado, dotado das capacidades de razão, de consciência e de ação, cujo centro consistia num núcleo interior, que emergia pela primeira vez quando o sujeito nascia e com ele se desenvolvia ao longo da existência do indivíduo. O sujeito sociológico refletia a crescente complexidade do mundo moderno, onde o sujeito não era autônomo, mas sim formado em uma relação com outras pessoas importantes para ele que mediavam a cultura do mundo em que habitava. Segundo esta concepção, a identidade é formada entre o eu e a sociedade. Podemos perceber, entretanto, que o sujeito previamente vivido, com uma identidade estável, está se tornando fragmentado; composto não de uma única, mas de varias identidades, algumas vezes contraditórias ou não-resolvidas. O sujeito pós-moderno não possui uma identidade fixa, permanente. Ele assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um eu coerente. Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas. Todos esses aspectos constituem-se como fases de um procedimento analítico que descreve o processo de deslocamento das estruturas tradicionais ocorrido nas sociedades modernas, que ligavam o indivíduo ao seu mundo social e cultural. Tais mudanças teriam sido ocasionadas, na contemporaneidade, principalmente, pelo processo de globalização. A globalização alteraria as noções de tempo e de espaço, desalojaria o sistema social e as estruturas fixas e possibilitaria o surgimento de uma pluralização dos centros de exercício do poder. Hall (2006) considera seus efeitos nas identidades modernas, enfatizando as identidades nacionais, observando o que a gerou quais as formas e quais as consequências da crise dos paradigmas do final do século XX. 3. Nascimento e morte do sujeito moderno Hall (2006) faz uma descrição baseada em alguns teóricos contemporâneos em vários estágios e das principais mudanças na forma do pensamento e da identidade do sujeito noção do sujeito moderno. Abordando o sujeito moderno como uma figura centrada nos discursos e práticas da modernidade e, posteriormente, o descentramento do sujeito no período que ele chama de modernidade tardia. Alguns movimentos importantes contribuíram para a concepção do sujeito da modernidade: a Reforma e o Protestantismo, que liberaram a consciência das instituições religiosas; o Humanismo Renascentista, que colocou o homem no centro do universo, as revoluções científicas, que conferiram ao homem as capacidades de investigação e domínio da natureza e o Iluminismo, centrado na imagem do Homem Racional, científico e livre dos dogmas e da intolerância. Stuart Hall lembra que o filósofo francês René Descartes faz o sujeito moderno nascer em meio à dúvida metódica e o ceticismo. A partir daí, segundo Hall (2006), Descartes explica todo o restante do mundo material em termos mecânicos e matemáticos. Os pensamentos de Kant, Marx e de Adam Smith fizeram surgir uma concepção mais social de sujeito. Dois outros importantes eventos contribuíram nos fundamentos da concepção de sujeito moderno: os trabalhos darwinianos e freudianos, onde o sujeito humano foi biologizado e psicologizado. No campo jurídico, o ser humano passa a ser considerado como sujeito de direitos civis, políticos e sociais exercitáveis em face do Estado, seja por meio de coibições à interferência estatal em aspectos e relações privadas, por garantias de participação na esfera política dos Estados ou, ainda, pela adoção de medidas, por parte do Estado, garantidoras de um piso vital mínimo. Até então,as relações dos sujeitos eram centradas, pois se direcionavam em face do Estado – pela adoção das fórmulas eu-contra-o Estado ou nós-contra-oEstado (BENJAMIN, 2007) – e eram orientadas por um sentido territorial – que correspondia ao Estado-Nação. Com a crise da modernidade, Hall (2006) verifica a descentração do sujeito, em virtude de cinco grandes eventos: i) o primeiro refere-se às tradições do pensamento marxista; ii) o segundo vem da descoberta do inconsciente por Freud; iii) o terceiro segundo Ferdinand Saussure, estava relacionada com a nossa linguagem; iv) o quarto refere-se ao conceito de poder disciplinar de Michel Foucault, v) o quinto seria o impacto do feminismo como movimento social. A luta de classes idealizada por Marx visava, em última instância, implantar o socialismo em todo o mundo, não somente em determinado país, além do que, é um projeto que nega as antigas tradições. O inconsciente e a linguagem universalizam a noção de ser humano. O domínio do poder disciplinar é uma característica marcante das sociedades modernas, de acordo com Moraes e Nascimento (2002, p. 92): [...] o poder disciplinar inaugura a sociedade da norma, do normal, do padrão, do comportamento que opera em função do modelo – um controle que se dá e se interioriza nas pessoas em função daquilo que elas deveriam ser. Nas escolas e nas fábricas, nos manicômios, o tempo ideal, as atitudes ‘normais’, os comportamentos-padrões as ‘boas’ performances serão observados, comparados, medidos e descritos, servindo de parâmetro de classificação entre as pessoas. A idéia de sociedade normatizada é fruto da influência do positivismo científico, o qual surgiu, no último quarto do século XVIII, como “[...] utopia críticorevolucionária da burguesia antiabsolutista, para tornar-se, no decorrer do século XIX, até os nossos dias, uma ideologia conservadora identificada com a ordem (industrial-burguesa) estabelecida”. (LÖWY, 1998, p. 18). Os avanços da ciência e a necessidade de contínua expansão econômica, fatores advindos da crença moderna no progresso, da autoconfiança da modernidade em sua própria técnica que se converteu em força criadora, conforme salienta Beck (1998), fizeram com que fossem incorporadas aos processos produtivos substâncias e energias que acabaram pondo em cheque o domínio disciplinar, 2008) A partir de então ocorre a modernização da modernidade, que passa a conviver com os riscos: não somente aqueles advindos do mundo natural, mas sobretudo os humanamente criados, que fugiram ao controle do homem. Tais riscos foram construídos pelo processo de desenvolvimento da ciência, da técnica, pelo seu desdobramento na indústria, que aceleram o potencial da poluição, das guerras high tech, da bomba atômica, etc. (BRITO; RIBEIRO, 2003) Neste contexto emergem novos movimentos sociais, dentre os quais os feministas, com demandas diferenciadas das que marcaram a trajetória da modernidade – centrada basicamente nas lutas entre burguesia e proletariado – que põem em xeque os fundamentos da modernidade e a forma de organização em torno dos Estados. retirando dass sociedade modernas a capacidade de autoregulamentação, de gerir os riscos aos quais passaria a ser exposta. (PEREIRA, As rupturas culturais desta nova configuração impactam sobre a identidade nacional e sobre o mozaico cultural que a constitui. As identidades culturais podem não estar presentes nos genes da população, mas fazem parte de sua constituição psicosocial. Além disso, uma cultura nacional contribuirá para a homogeneização da linguagem, para que toda nação tenha uma única língua vernácula, originando em uma cultura única. Além de suas instituições culturais uma cultura é composta de símbolos e representações. Uma nação apresenta uma grande diversidade de histórias, imagens e tradições diversas. As profundas mudanças que ocorreram com as culturas nacionais trouxeram consigo a necessidade de voltar no tempo e recuperar os elementos de identidade nacional do passado, a qual, por mais paradoxal que pareça, é acompanhada pela homogeinização imposta pelos influxos da globalização. 4. Identidade e diferença: a unificação da cultura nacional na globalização Segundo Ernest Renan uma nação é constituída de três conceitos: “... a posse em comum de um rico legado de memórias..., o desejo de viver em conjunto e a vontade de perpetuar, de uma forma individualista, a herança que se recebeu” (Renan apud Hall, 2006, p. 19). O desejo de unificação das culturas nacionais foi bem colocado por Gellner: [...] a cultura é agora o meio partilhado necessário, o sangue vital, ou talvez, antes, a atmosfera partilhada mínima, apenas no interior da qual os membros de uma sociedade podem respirar e sobreviver e produzir. Para uma dada sociedade, ela tem que ser uma atmosfera na qual podem todos respirar, falar e produzir; ela tem que ser, assim, a mesma cultura (GELLNER, apud, Hall, 2006, p. 37-8). Deste modo a existência de diferentes raças ou classes é ignorada, pois as culturas nacionais irão unificá-las em uma única identidade cultural, para que desta forma todos possam pertencer a uma única e grande família nacional. Porém, a unificação se torna ainda mais difícil quando nos referimos à raça isso porque existe uma grande diversidade de raças espalhadas por toda a nação e, portanto a unificação se torna quase impossível. Tal dificuldade se agudiza em função das consequências acarretadas com a globalização. Anthony Giddens (1997) define globalização em função da intensificação de relações sociais mundiais que unem localidades distantes de tal modo que os acontecimentos locais são condicionados por eventos que acontecem a muitas milhas de distância e vice versa. A globalização é, portanto um processo pelo qual o mundo passou a ser mais interligado, ultrapassando as fronteiras nacionais e compartilhando novas culturas e identidades, que trouxe algumas consequências para as identidades culturais, desintegrando as identidades nacionais e fazendo surgir novas identidades, que leva Hall a questionar-se se estaríamos rumando em direção a um contexto pós-moderno global. 5. Em direção ao pós-moderno global? A globalização foi a principal responsável pelo enfraquecimento das identidades culturais, pois as identidades globais passaram a deslocar-se e substituir as identidades locais. Quanto mais as culturas nacionais ficam expostas a influencias externas, mais difícil é de conservar sua identidade original. Vivemos rodeados de uma grande diversidade de estilos, viagens por todo o planeta, imagens diferentes, e lugares variados, que são transmitidos pela mídia ou meios de comunicação. Diante de uma grande variedade de identidades nos sentimos livres para escolher a que mais nos identifica e mudando, portanto a nossa identidade de origem. Estes fenômenos são resultados da pós-modernidade. Na concepção de Boaventura de Sousa Santos (1989, p.22) “a época moderna pode ser definida pela emergência de uma nova concepção de ciência e de método...”, sendo assim, a ciência consiste num conjunto de atos que originam virtudes como a imaginação e a criatividade, submetendo-se desta forma a crítica, de maneira cooperativa e comunitária. O autor caracteriza a pós-modernidade pelo deslocamento de uma falsa verdade da ciência descrita acima. A ciência e o direito são os dois pilares que sustentam a nossa sociedade moderna, onde cada contexto interativo possui uma dupla comunidade de saber. “Dispõe de um saber local, “nativo”, de que é sujeito, mas dispõe também de um saber cientifico de que só tangencialmente é sujeito” (SANTOS, 1989, p. 157). O que, segundo ele, estaria direcionando a um contexto pós-moderno, atravessado pela globalização. 6. O global, o local e o retorno da etnia. Hall (2006, p. 77) destaca a emergência de um processo de homogeneização cultural, dessa forma definida: A homogeneização cultural é o grito angustiado daqueles as que estão convencidos as de que a globalização ameaça solapar as identidades e a unidade das culturas nacionais. Entretanto como visão do futuro das identidades num mundo pós-moderno, este quadro da forma como é colocado é muito simplista, exagerado e unilateral. A homogeneização introspecta nas pessoas ou grupos receios de perda de identidades, o que as leva a produzir novas identificações globais e locais.. A globalização vem para unir as identidades e dar surgimento a novas, pois atualmente existem muitas desigualdades distribuídas ao redor do mundo, e se notarmos a globalização parece que se encontra enraizada em um só lugar (Ocidente). Contudo a globalização cultural ocorre como cita Hall (2006) nas indústrias culturais das sociedades “ocidentais” (incluindo o Japão) onde a própria se desenvolve no centro, e nas periferias mais tardiamente, por outro lado as periferias são mais flexíveis e abertas a influências culturais ocidentais mesmo num ritmo mais lento e desigual. A globalização caminha em paralelo com um reforçamento das identidades locais e por ser um processo desigual, retém alguns aspectos da dominação global ocidental, mescladas com identidades culturais locais, em toda a parte. De acordo com o autor “O fortalecimento de identidades locais pode ser visto na forte reação defensiva daqueles membros dos grupos étnicos dominantes que se sentem ameaçados pela presença de outras culturas”. Desenvolvendo assim um racismo cultural. Hall (2006) conclui que a globalização tem sim o efeito de contestar e deslocar as identidades centradas e fechadas de uma cultura nacional. Mais ainda algumas identidades gravitam ao redor da tradição, tentando recuperar sua pureza anterior e recobrir as unidades e certezas que são sentidas como tendo sido perdidas. Outras aceitam que as identidades estão sujeitas ao plano da historia, da política da representação e da diferença, e assim é improvável que elas sejam outra vez unitárias ou puras e essas consequentemente gravitam ao redor daquilo que denomina de tradução. 7. Considerações Analisando a temática abordada nota-se que o conteúdo é de fundamental importância, para a análise e discussões sobre a crise de identidade cultural atualmente encontrada na sociedade contemporânea. Se por um lado, nos dias de hoje a diversidade cultural facilita e proporciona a integração de povos, estabelecendo novos conceitos e criando novas culturas, por outro, os processos de globalização vêm solapando as tradições constituídas durantes séculos. As transformações culturais apresentam características semelhantes as dos processos que as originam, ou sejam, são complexas e de difícil caracterização. Tal fator impõe à antropologia e à antropologia jurídica uma série de desafios a serem superados na busca de soluções aos problemas decorrentes do quadro no qual convivem rupturas e constinuismos. 11. REFERÊNCIAS BECK, Ulrich. La sociedad del riesgo: hacia uma nueva modernidad. Tradução: Jorge Navarro; Daniel Liménez; Maria Rosa Borras. 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