As Tradições Germânicas “Zuckurtüten” e ...anais- ?· As Tradições Germânicas “Zuckurtüten”…

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    17-Sep-2018

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  • As Tradies Germnicas Zuckurtten e Adventskalender: Imbricaes entre Memria, Comunicao e Consumo1

    Joo Paulo Soares da Silva2

    Universidade Municipal de So Caetano do Sul (USCS)

    Resumo

    Este artigo parte do projeto de pesquisa Memrias, culturas e identidades nas imagens dacomunidade cultural germnica no ABC Paulista, realizada em iniciao cientifica noNcleo de Pesquisas Memrias do ABC, vinculado ao Laboratrio Hipermdias/USCS econta com apoio PIBIC/CNPq. O presente trabalho busca apresentar duas tradies de origemalem: o Zuckurtten e o Adventskalender, narrados pelos entrevistados a partir de suaslembranas. Essas tradies so praticadas por duas famlias de imigrantes e descendentes quecompem o nosso grupo de colaboradores. Questiona como essas tradies buscam manter aidentidade cultural germnica, como renovada por novos hbitos e constri uma relao depertencimento com a cultura de origem. A partir da coleta de acervo pessoal, somado aorelato oral, identificamos traos da subjetividade que compem os elementos da memria,comunicao e o consumo.

    Palavras-chave: Memria; Consumo, Comunicao, Tradio, Alemes.

    1 Trabalho apresentado no Grupo de Trabalho 7 Comunicao, Consumo e Memria, do I

    COMUNICON GRADUAO, realizado nos dias 5, 6 e 7 de outubro de 2015.Habilitao e disciplina: Habilitao: Jornalismo, Disciplina: Pesquisa em Comunicao.

    2 Graduando em Comunicao Social, Hab. Jornalismo. Pesquisador em Iniciao Cientifica no

    Ncleo de Pesquisas Memrias do ABC/USCS, com bolsa PIBIC/CNPq 2014-2015. UniversidadeMunicipal de So Caetano do Sul (USCS), So Caetano do Sul SP. E-mail:joaopsoaresilva@gmail.com

  • Introduo

    O presente trabalho busca apresentar duas tradies de origem alem: o

    Zuckurtten e o Adventskalender, narrados pelos entrevistados a partir de suas

    lembranas. Essas tradies so praticadas por duas famlias de imigrantes e

    descendentes que compem o nosso grupo de colaboradores. Questiona como essas

    tradies buscam manter a identidade cultural germnica, como renovada por novos

    hbitos e constri uma relao de pertencimento com a cultura de origem.

    Essa pesquisa de Iniciao Cientifica, financiada pelo PIBIC-CNPq, faz parte

    de um grupo de pesquisadores que estudam a memria e a cultura de estrangeiros na

    regio do Grande ABC Paulista. Inserida na pesquisa Comunicaes Culturais:

    Investigaes e Acervo de Comunicao, Cultura e Memria da comunidade

    germnica do ABC Paulista, coordenada pela Profa. Dra. Priscila Ferreira Perazzo,

    no Ncleo de Pesquisas Memrias do ABC, do Laboratrio Hipermdias da USCS,

    financiada pela FAPESP entre 2011 e 2014, percebeu-se que desde as dcadas de

    1920 e 1930, muitos imigrantes vieram do interior paulista e do trabalho nas lavouras

    e fazendas para as localidades do ABC. A regio, prxima capital So Paulo,

    misturava aspectos urbanos e rurais, com oferta de trabalho e terrenos propcios a

    ocupao. Por isso, atraiu, na primeira metade do sculo XX, uma diversidade de

    estrangeiros de diferentes nacionalidades, assim a proximidade tambm garantia

    pontos extras. Todo este cenrio se mostrou particularmente atraente para as famlias

    imigrantes, vindas em situao de fragilidade financeira, com o sonho de recomear a

    vida (PRADO, 2015, p.122).

    Parte-se aqui das Narrativas Orais de Histrias de Vida de moradores do ABC

    que contaram suas histrias a partir de suas lembranas. Tambm foi pesquisada a

    documentao pessoal desses entrevistados e buscou-se, ainda, acervos documentais

    de instituies e de associaes. Nestas fontes encontram-se diversas imagens como

    fotografias, desenhos e pinturas que podem ser estudados como meios de transmisso,

    difuso e comunicao da cultura germnica, na regio do ABC Paulista, a partir das

  • expresses da memria da comunidade, uma vez que cultura, aqui, entendida como

    um conjunto de significados, atitudes e valores partilhados e as formas simblicas

    (apresentaes, objetos artesanais) em que eles so expressos ou encarnados, variam

    no tempo e nos grupos (BURKE, 1989, p.8).

    Esta pesquisa inserida no contexto social como um mecanismo de

    preservao do patrimnio histrico e cultural da comunidade germnica nas cidades

    do ABC Paulista, uma vez que oferece a possibilidade de conservao do acervo

    coletado entrevistas, fotos, imagens, matrias de jornais, etc. - e na devoluo deste

    material como registro histrico para a comunidade em geral, acreditando que:

    Na possibilidade de resgate das memrias e dos sujeitos entoesquecidos pela histria local, devolve-se aos imigrantes e seusdescendentes o (auto) reconhecimento como agentes dessa histriano ABC, uma vez terem sido ofuscados por uma memria oficial,cristalizada nas lembranas, feitos e documentos da comunidadeitaliana local. (PRADO, 2015, p. 85).

    No ABC, alm dos alemes, conviviam na comunidade cultural em So

    Caetano do Sul tambm austracos, suos, suecos, iugoslavos, romenos, lituanos e

    hngaros, por exemplo. Moradores do mesmo local, parte da mesma comunidade,

    estes sujeitos usufruram das mesmas oportunidades, como estudar na escola alem,

    ser membro do clube, relacionar-se com diferentes grupos nacionais e tnicos, pois:

    Embora provenientes de pases diferentes, portando passaportes ecidadanias distintas, tinham em comum um dialeto da lngua alemque falavam h sculos, alm de costumes e tradies afins e umahomogeneidade tnica. (JOVANOVIC, 1993, p. 11).

    Os descendentes de cultura germnica tiveram muito que se esforar para

    manter hbitos e tradies, preservar seus costumes e sobreviver, em um sentido

    cultural. Passaram a criar diversas associaes, como escolas, clubes, jornais e

    partidos polticos, de modo a estabelecer um forte sentimento de unidade em torno da

    comunidade. O espao da comunidade se assemelha ao ventre, como se fosse um

    pedao da ptria-me ainda que longe dela. Ali tudo bom: conflitos podem ser

    resolvidos, e a segurana permite que o indivduo relaxe e se sinta protegido dos

    outros por uma ajuda mtua (ISZLAJI JUNIOR, 2014, p.45).

  • Esta pesquisa documental e iconogrfica, utilizando-se das narrativas orais

    das lembranas das pessoas e fotografias do acervo pessoal desses narradores, para

    melhor compreender os relatos de memria das duas famlias de origem germnica

    que contriburam com este trabalho: a primeira formada por Joo Christopher Jos

    Becker e Berenice Longo Becker. Joo descendente de alemes imigrantes que

    chegaram ao ABC na dcada de 1920. Nasceu no Brasil, mas passou 10 anos de sua

    infncia na Alemanha (entre 1938 e 1948). Sua esposa, Berenice, brasileira, no tem

    antepassados de origem germnica, mas com a convivncia de mais de 40 anos de

    casada pratica muitos hbitos alemes em famlia e atualmente representa a guardi

    desses costumes.

    A outra famlia com a qual pudemos conviver nessa pesquisa formada por

    Luise Babisch, nascida na Alemanha, imigrada para o Brasil em 1950 com 14 anos.

    Atualmente viva. E seu filho Walter Paul Babisch, brasileiro, nascido em 1968,

    morador da regio do ABC. Ambas as famlias so crists, de linha catlica e

    praticantes.

    As famlias ainda mantm os hbitos referentes ao Zuckurtten e ao

    Adventskalender reapropriando antigas tradies alems, de forma a percebermos

    como comunicao, consumo e memria se entrelaam. As tradies de origem

    germnica, como tantas outras, trazem consigo a identidade e a expresso da cultura

    de um povo, mas quando tratamos de costumes e hbitos de imigrantes e descendentes

    percebemos que essas aes so mantidas, modificadas e adaptadas, em seu novo

    contexto.

    Zuckurtten: A sacola de acar e o inicio da vida escolar.

    O calendrio escolar alemo se difere do calendrio escolar brasileiro. Na

    Alemanha o ano letivo comea aproximadamente em primeiro de setembro, no

    segundo semestre, ao final do vero. Os cones coloridos, chamados de Zuckurtten -

    sacola de acar ou Schultten sacola da escola (em livre traduo) preenchem

    parte das prateleiras nas lojas nessa poca do ano. Acredita-se que esta tradio teve

  • origem no sculo XIX, e as crianas acreditavam que o professor tinha uma rvore

    de doces na escola, mas eles apenas poderiam ir l quando fossem grandes o

    suficiente.

    O cone uma mescla entre o artesanal e o industrial. Alguns preferem fazer

    mo, outros utilizam-se da praticidade de comprar pronto. Novas cores, tamanhos e

    temticas do enfeite foram criadas. O recheio tambm foi adaptado, alm dos doces

    pode ser includos brinquedinhos, material escolar, frutas, etc. O maior para quem

    est ingressando na escola e os menores para os irmos, primos ou outros parentes

    que tambm querem ganhar. Dentro deles vo alguns dizeres: parabns pela entrada

    no ano escolar, tenha muita sorte, por exemplo. A entrega do Zuckurtten para a

    criana feita pelos pais ou pelas instituies de ensino. Berenice Longo Becker, que

    j criou seus filhos e agora convive com seus netos, contou sobre essa tradio e o que

    mudou ao longo desses anos:

    L dentro vo guloseimas, s vezes algum material escolar bacana,uma canetinha, um lpis de cor. Isso antigamente era maisvalorizado, mas ainda continua-se colocando isso mesmo apesar detudo. Um apontador, uma bijuteria quando menina, mas umagrado para marcar o primeiro dia de aula, do primeiro ano. feitouma vez na vida [...] Eu acho que ele perdeu um pouquinho essemisticismo, essa espera das crianas. Mas acho que isso o normalhoje, antigamente se tomava refrigerante de domingo... (BereniceLongo Becker, 30/06/2015, HiperMemo/USCS).

    Luise Babisch e seu filho, Walter Paul Babisch, comentam sobre o movimento

    do comrcio e das lojas no perodo de incio das aulas.

    Na Alemanha tem, aqui no. Aqui quem inventa tem. No ano que oWalter entrou na escola s o Walter que ganhou. Na Alemanha aslojas esto cheias no meio do ano, geralmente as crianas entram noprimeiro de setembro na escola e l a loja est cheia. Antigamentetinha uma casa de chocolate, que se chama Snksen, era alem, queficava na Coronel Oliveira Lima (Santo Andr-SP), eles tinham napoca do comeo das aulas [...] Quando o Walter entrou na escolaessa loja fechou. Em 1975, ele entrou em 1976 e justo quando euqueria eles fecharam, ento eu que inventei. (Luise Babisch,14/07/2015, HiperMemo/USCS).

    Walter Paul Babisch complementa a fala da me.

  • Ela inventou o Zuckurtten na raa, comprou o papel na lojinha,fez o cone, encheu de coisa e me deu [...] Eu vou te falar, os antigosainda mantm. Os mais novos, os filhos de alemes, no so todosno [...] S os alemes mais tradicionais que fazem esse tipo decoisa ainda. (Walter Paul Babisch, 14/07/2015, HiperMemo/USCS).

    Nota-se nos relatos citados uma referncia ao antigo e tradio: Berenice diz

    que: Isso antigamente era mais valorizado. Walter afirma: S os alemes mais

    tradicionais que fazem esse tipo de coisa ainda. Berenice e Walter so brasileiros,

    mas conhecem os costumes e se lembram bem das prticas. Percebem as

    transformaes, mas as valorizam. Transformar a prtica uma forma de manter a

    tradio, mesmo que isso aparentemente seja contraditrio. Nessas duas famlias, esse

    costume vem sendo vivenciado em geraes, de pai para filho, por meio da

    comunicao da histria, da prtica habitual e nas prprias formas de adapt-la ao

    novo cotidiano e aos novos tempos. Assim no h cultura sem comunicao e vice-

    versa, esse duo tem participao ativa no acionamento de conceitos como identidade e

    reconhecimento (PRADO, 2015, p.16).

    Figura 1: Walter Paul Babisch, aps retornar da escola, posando para a foto depois receber o seuZuckurtten. Ele foi o nico de sua turma que recebeu. Registro feito em Santo Andr-SP, em maro de1976. Acervo Luise Babisch/HiperMemo/USCS.

  • Figura 2: Luise Babisch e Walter Paul Babisch, posando para a foto depois receber o seu Zuckurtten.Registro feito em Santo Andr-SP, em maro de 1976. Acervo Luise Babisch/ HiperMemo/USCS.

    Figura 3: Walter Babisch, marido de Luise Babisch e, pai de Walter Paul Babisch. Posando para a fotoaps receber o seu Zuckurtten quando ingressou na escola. Registro feito em Breslau, quando aindapertencia a Alemanha, em 1942. Acervo Luise Babisch/ HiperMemo/USCS.

  • Adventskalender: O calendrio do advento e as tradies do natal germnico.

    O Adventskalender mais para envolver a criana no esprito natalino,

    afirma Walter Paul Babisch. Acredita-se que a tradio do Calendrio do Advento

    surgiu no sculo tambm no XIX, na Alemanha. O perodo do advento inicia-se,

    aproximadamente, ao final de novembro, quatro domingos antes do Natal e se encerra

    no dia 24 de dezembro. de origem religiosa e praticada tanto por cristos luteranos,

    quanto catlicos, as duas principais religies frequentadas pelos germnicos. Segundo

    Ecla Bosi (1992, p.114): confiamos nas instituies que nos socializam: eia a razo

    das nossas primeiras crenas e atitudes.

    O calendrio pode ser confeccionado a mo ou ser adquirido pronto, contm

    24 janelinhas. Para cada dia do ms de dezembro h uma mensagem bblica nessas

    janelinhas, e tambm um chocolate ou uma lembrancinha. A poca natalina uma

    das mais importantes na Alemanha e esse clima vai todo o ms de dezembro, afirma

    Walter. Com o passar dos anos, comeou a serem produzidos diversos modelos de

    Adventskalender, com diversos tamanhos e formas.O calendrio uma tradio que eles fazem. Existe esse de papelque eu te mostrei, existem uns feitos de pano do tamanho da parede,se faz uma rvore grandona. Na Alemanha tem com bolsos e cadadia voc pe uma coisa... tem as caixinhas, tem vrios modelos.(Berenice Longo Becker, 30/06/2015, HiperMemo/USCS).

    Atualmente o Adventskalender produzido em larga escala, tambm em

    temticas no religiosas, j que o Natal tornou-se uma festa da sociedade, isso

    aumenta o consumo e movimenta o comercio.

    O consumo aqui ser entendido como processo que envolve desde oato aquisitivo de bens e servios, passando pela posse e uso dele,pelo seu significado para os possuidores e no possuidores, at o seudescarte. Trata-se tambm de consumo de smbolos, portanto,consumo cultural e social (TASCHNER, 2010, p. 39).

    Para Walter Paul Babisch:

    Na Alemanha isso gera uma receita muito grande, por isso na pocade novembro e dezembro as lojas esto lotadas dessesAdvenskalender. Voc tem de todos os tipos, tamanhos e formas que

  • voc pode imaginar, ento movimenta um comercio muito grande.(Walter Paul Babisch, 14/07/2015, HiperMemo/USCS).

    Relacionado ao Adventskalender tambm seguem outras tradies germnicas

    natalinas, como por exemplo, o Dia de So Nicolau, a Coroa do Advento e a

    culinria tradicional do Pltzchen e o Stollen: Isso porque mais do que pratos

    culinrios que carregam sabor, estes elementos carregam tambm caractersticas da

    cultura, da histria, do folclore de um povo (PRADO, 2015, p.113).

    Em relao a Coroa do Advento, ambas as famlias ainda realizam esse

    costume:

    Aquela guirlanda que muita gente pe na porta, a gente pe aqui[em cima da mesa]. Forramos uma toalha e colocamos aquelaguirlanda de folinhas com 4 velas. Essas velas so acessas 4domingos antes do domingo do Natal. (Berenice Longo Becker,30/06/2015, HiperMemo/USCS).

    O relato de Luise Babisch e Walter Paul Babisch coincide com o que nos

    conta Berenice Becker.

    Tem o tempo de advento. A preparao para o Natal. Ento elesfestejam isso. Eu tambm fao isso, de acender cada domingo [...]tem quatro domingos antes do Natal, em cada domingo se acendeuma vela. A...

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