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    20-Sep-2018

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    ASPECTOS FONTICO-FONOLGICOS DO PORTUGUS BRASILEIRO NO DISCURSO DE FALANTES NATURAIS DA LNGUA ESPANHOLA

    Vanessa Cruz Mantoani

    Orientadora: Profa. Dra. Vanderci de Andrade Aguilera RESUMO Por ser o espanhol uma lngua que teve sua origem prxima do portugus, muitas vezes, brasileiros aprendizes de espanhol enfrentam dificuldades fonticas, ou seja, acabam utilizando o registro do idioma materno em vez do idioma estrangeiro, como por exemplo, na pronncia de [s], [z], [x], [r]. Assim, o objetivo de nosso trabalho apresentar uma anlise do discurso do portugus brasileiro utilizado por falantes naturais da lngua espanhola que vivem em nosso pas. Estabelecemos como foco a fontica e a fonologia para verificar as dificuldades na pronunciao de palavras que, aparentemente, tm os sons mais prximos aos de nossa lngua materna, no caso dos registros fonticos acima apresentados. Para tanto, constitumos um corpus com os dados de entrevistas realizadas por meio de perguntas diretas retiradas do questionrio utilizado pelo Projeto Atas Lingustico do Brasil (ALiB, 2001) bem como narraes espontneas por parte dos entrevistados. O estudo se fundamenta nos princpios da Dialetologia, da Sociolingustica e, em especial, da Lingustica Contrastiva para abordar aspectos das duas lnguas em questo. Palavras chave: Fontico-fonolgico; discurso portugus; naturais da lngua espanhola.

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    1. Introduo

    O presente trabalho tem como base os princpios terico-

    metodolgicos da Dialetologia e da Sociolingustica no que diz respeito

    variabilidade da lngua em seus aspectos diatpico, diastrtico, diageracional e

    diagenrico ou diassexual. Desta forma, apia-se no instrumental de coleta de

    dados do projeto Atlas Lingustico do Brasil cuja finalidade descrever a

    realidade lingustica do Brasil referente lngua portuguesa para a elaborao

    de um atlas lingustico nacional que, de acordo com a geolingstica observa e

    identifica aspectos de variao diatpica, diagenrica e diageracional de vrios

    aspectos da lngua: fontico-fonolgico, semntico-lexical, morfossinttico e

    pragmtico. Neste estudo, nos centraremos no primeiro deles, mais

    especificamente, no que diz respeito realizao de [s], [z], [x] e [r].

    Para tanto, apresentamos parte da histria das duas lnguas

    abordadas: portuguesa e espanhola, alm de um breve contraste entre os

    alfabetos fonticos de ambas as lnguas como forma de ressaltar suas

    divergncias e convergncias. Desse modo, pretendemos descrever e analisar

    o discurso do portugus brasileiro por falantes naturais do idioma espanhol

    verificando a ocorrncia de tais pronncias.

    2. Um pouco de histria

    Para compreender melhor a relao entre as lnguas espanhola

    e portuguesa, neste tpico fazemos uma breve descrio da histria de ambos

    os idiomas, para sintetizar as origens que as conduzem. Atualmente so muitos

    os escritos acerca dessa temtica que apresentam suas origens a partir do

    latim.

    Estima-se que, por volta do sculo VIII a.C. ao III a.C., a lngua

    utilizada na regio onde hoje est localizada Roma era o latim arcaico que

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    depois se desmembrou em latim culto e latim vulgar, como podemos observar

    no quadro de variedades do latim, apresentado por Castilho (2010, p.171).

    Quadro 1 variedades do latim

    Fonte: Castilho (2010)

    Como demonstrado acima, vrias lnguas utilizadas na

    atualidade, como o espanhol (tambm conhecido por castelhano) e o

    portugus, originaram-se do latim vulgar,

    que foi uma variedade principalmente falada pelos soldados e comerciantes romanos que levavam s regies conquistadas durante a formao do Imprio, e assim circulando por vrias outras regies passando de gerao em gerao sem ser ensinada formalmente. (OLIVEIRA, 2010, p.10)

    Assim sendo, o espanhol teve uma expanso interna no

    territrio da Espanha, ou seja, 1tornou-se a lngua prpria de Castela em todas

    as suas manifestaes escritas (literrias, jurdicas, cientficas, etc.),

    permanecendo o latim restrito ao mbito da liturgia e a certas atividades

    intelectuais (AGUILAR, 2002, p.193).

    1 No original: el castellano se convierte en la lengua propia de Castilla en todas sus manifestaciones

    escritas (literarias, jurdicas, cientficas, etc.) quedando el latn restringido al mbito de la liturgia y a

    ciertas actividades intelectuales.

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    Entretanto, no decorrer dos anos, a lngua espanhola no

    permaneceu apenas na regio de Castela,

    2Por outro lado, o castelhano continuou a se expandir externamente, ocupando novos territrios, absorvendo e movendo as formas de linguagem destes e encurralando outros dialetos centrais. Isso teve relao com os fenmenos polticos, como a progresso da Reconquista contra os muulmanos, a unio definitiva com Leo e a gradual difuso castelhana, em Arago, especialmente em reas no catales. (AGUILAR, 2002, p.194).

    Alm de ser uma lngua que se expandiu dentro do territrio que

    hoje pertence Espanha, o idioma espanhol no permaneceu somente nessa

    regio e, a partir das grandes navegaes, a conquista e a colonizao de

    novos territrios ocorreram de forma bastante rpida e foi em outubro de 1942

    que Cristvo Colombo chegou s ilhas caribenhas, logo ocupadas. Essa

    ocupao incidiu em vrias partes do continente americano, inicialmente no

    Mxico, e se estendeu por muitos territrios que hoje tm como lngua oficial o

    espanhol.

    Atualmente, cerca de 400 milhes de pessoas distribudas em

    vinte e um pases utilizam esse idioma como oficial: Espanha, Mxico,

    Nicargua, Panam, Porto Rico, Costa Rica, Cuba, El Salvador, Guatemala,

    Repblica Dominicana, Guin Equatorial, Equador, Honduras, Venezuela,

    Colmbia, Chile, Argentina, Bolvia, Peru, Paraguai, Uruguai. H tambm

    outras regies que no a tm como lngua oficial, mas a empregam em

    situaes de comunicao como nos Estados Unidos e nas Filipinas.

    2 No original: Por otro lado, el castellano continu su expansin externa, ocupando nuevos territorios,

    absorbiendo y desplazando las formas lingsticas de stos y arrinconando a los otros dialectos centrales.

    Ello se produjo en relacin con fenmenos polticos tales como la progresin de la Reconquista frente a

    los musulmanes, la unin definitiva con Len y la paulatina penetracin castellana en Aragn, sobre todo

    en las zonas no catalanas.

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    Em relao lngua portuguesa, de acordo com Teyssier (2001,

    p.3), surgem no sculo XIII os primeiros textos escritos em portugus (o

    chamado galego-portugus). Mas, por motivos fronteirios, por volta de 1350

    que o galego e o portugus se separam, permanecendo este como lngua

    oficial de Portugal. No entanto, sabe-se que a expanso desse idioma ocorreu

    em razo das grandes navegaes e, em 1500 Pedro lvarez Cabral chega ao

    Brasil.

    Compreendemos assim que, da mesma forma que o espanhol,

    este idioma passou por um processo de formao at se constituir no que hoje

    o portugus brasileiro. Atualmente, falado por cerca de 250 milhes de

    pessoas, dos quais 80% esto no Brasil, o portugus a lngua oficial de

    Portugal, Ilha da Madeira, Arquiplago dos Aores, Brasil, Moambique,

    Angola, Guin-Bissau, Cabo Verde e So Tom e Prncipe. Tambm falada

    em outras regies de pases que a no tm como oficial como, por exemplo,

    Timor Leste. Por sua expanso, hoje a lngua portuguesa considerada a

    quinta lngua do planeta com maior nmero de falantes (veja em

    www.ibge.gov.br).

    importante ressaltar que, por estarem o espanhol e o

    portugus presentes em um vasto territrio geogrfico, possuem variaes

    lingusticas nos vrios estgios de sua evoluo. Fato que se deve

    incorporao de palavras e aspectos culturais de outros idiomas como as

    lnguas indgenas dos povos que habitavam as regies tanto da Amrica como

    da sia e frica no perodo da colonizao, bem como de outras lnguas:

    africanas, inglesa e rabe.

    3. Convergncias e divergncias

    De acordo com o exposto acima, o portugus brasileiro e o

    espanhol seguiram rumos opostos, ainda que sejam lnguas oriundas do latim

    vulgar. Dessa forma, compreendemos que, para melhor evidenciar algumas

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    diferenas existentes entre tais idiomas, seja importante utilizar os princpios da

    Lingustica Contrastiva, aquela que estuda o sistema lingustico de aprendizes

    de lngua estrangeira (LE) em relao a sua lngua materna (LM).

    Como h pronncias distintas nas duas lnguas para palavras

    muitas vezes escritas da mesma forma, apresentamos um quadro comparativo

    entre algumas pronncias podendo observar as convergncias e divergncias

    existentes:

    Tabela 1 Contraste portugus-espanhol

    Portugus Espanhol

    Pronncia Letras 3Exemplo Letra Exemplo

    C Cu C Celo

    Caa S Casa

    X experincia X Texto

    S, SC, S,

    SS

    sala; nasce; cresa;

    posso

    [s]

    Z fiz Z Zapato

    S Casa [z]

    Z Azar, asma

    Pronncia inexistente

    G General [x] R roupa; carro

    J Caja

    [r] R Era R Era

    Observamos que o espanhol no possui a pronncia [z],

    existente no portugus. Desse modo, compreendemos que um falante natural

    do idioma espanhol possa ter dificuldades para pronunciar algumas palavras ao

    aprender o portugus brasileiro.

    3 Exemplos extrados de BENEDETTI (2002).

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    Com o objetivo de verificar se h interferncia da lngua materna (LM)

    nos registros de portugus como lngua estrangeira (PLE), analisamos o

    discurso de alguns informantes.

    4. A Pesquisa

    Para a realizao de nosso estudo, nos fundamentamos na

    Dialetologia e na Sociolingustica. A primeira tem por objetivo identificar,

    descrever e situar os usos em que uma lngua se diversifica, conforme a sua

    distribuio espacial, sociocultural e cronolgica (CARDOSO, 2010, p. 15) e a

    segunda, analisar os fatores sociais que podem influenciar a variao

    lingustica de um idioma como o gnero, a idade, e a escolaridade.

    Sendo assim, entrevistamos informantes naturais de quatro

    pases que tm como LM o espanhol: Argentina, Espanha, Colmbia e Peru.

    Lembramos que, por ser lngua oficial de vinte um pases, possui variaes

    lingusticas conforme a regio na qual falada, como observa Cardoso (2010,

    p.15). Todos os informantes vivem no Brasil h mais de trs anos, possuem o

    superior completo, tm entre 40 e 50 anos e residem ou residiram na cidade de

    Londrina e regio.

    Estabelecemos dois tipos de questes para a realizao da

    entrevista: narrao e perguntas diretas. Na primeira, o informante deveria

    narrar quais motivos o influenciaram a vir ao Brasil e como ele chegou ao pas;

    na segunda, selecionamos algumas questes diretas presentes no questionrio

    do ALiB (2001) para que o informante as respondessem com apenas uma ou

    poucas palavras. Ambas as fases tinham como objetivo verificar aspectos

    fontico-fonolgicos referentes s pronncias [s], [z], [x] e [r], como j

    mencionamos. Entretanto, primeiramente o informante respondeu algumas

    perguntas referentes sua vida pessoal, tais como estado civil e profisso que

    exerce.

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    Tabela 2 Questes

    1 Casa

    2 Terreno

    7 Caminha

    9 Luz

    10 Lmpada

    21 Arroz

    25 Colher

    27 Fervendo

    31 Casca

    33 Clara

    34 Gema

    38 Rosa

    48 Rato

    57 Ano

    59 Amanh

    61 Calor

    68 Poa

    75 Passagem

    87 Borracha

    90 Brasil

    99 Unio

    105 Certo

    119 Corao

    157 Hspede

    Fonte: ALiB (2001)

    4.1 Entrevista: Informante 1

    Neste trabalho, apresentamos dados referentes entrevista

    realizada com o informante 1, do sexo masculino e natural de Madrid, Espanha.

    Neste tpico, descrevemos algumas palavras nas quais notamos a

    interferncia da LM ao pronunci-las, tanto nas perguntas pessoais e diretas

    como na narrao espontnea.

    4.1.1 Pronncia de [s] e [z]

    Ao responder perguntas pessoais baseadas no questionrio do

    ALiB no incio da entrevista, foi possvel notar que, em algumas palavras com

    /s/ em contexto medial que em portugus teriam a pronncia de [z] como, por

    exemplo, casado, meses e aposentado, o informante pronunciou [s],

    recorrendo ao espanhol: [kasado], [meses] e [aposentado]. A mesma forma

    observamos em outras palavras na narrao espontnea: onze [onse] e zero

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    [sero]. O uso de [s] se manteve em outras palavras como em lngua

    portuguesa, um exemplo a palavra casca [kaska].

    Todavia, em respostas a perguntas diretas, este fenmeno s

    esteve presente em apenas uma palavra: fusveis [fusiveis], que utilizou para

    responder questo dez. No caso das questes, casa [kaza], rosa [xoza] e

    Brasil [braziw], a pronncia utilizada pelo informante 1 foi [z], sem

    interferncias da LM. Entretanto, observamos tambm, uma ligeira

    palatalizao na palavra arroz [axo].

    4.1.2 Pronncia de [x]

    Durante toda a entrevista percebemos que uma das pronncias

    do portugus brasileiro mais bem empregadas pelo informante 1 foi a de [x],

    que pode ser facilmente utilizada por naturais do idioma espanhol por formar

    parte do alfabeto fontico dessa lngua. Terreno [texenu], rato [xatu], borracha

    [boxaa], bem como rosa e arroz, descritas anteriormente, apresentaram um

    padro.

    4.1.3 Pronncia de tepe [r]

    Das perguntas diretas selecionadas, somente em corao

    [korasw] o informante utilizou a pronncia do /r/ brando ou tepe [r], alm de

    utiliz-la em sua narrao espontnea. Dizemos somente, pois como em

    espanhol h palavras que possuem dois erres, como em terreno e arroz, so

    pronunciadas mais fortemente e, um falante natural desse idioma, poderia

    utilizar [] ou [r] para pronunci-las.

    Notamos ainda, que em palavras como fervendo, certo e calor,

    a pronncia que o informante 1 usou foi a de []: [fevendU], [st], [kalo].

    Compreendemos que o uso dessa pronncia pode ser uma influncia da

    variante utilizada no norte do Estado do Paran, como em Londrina.

  • 1344

    5. Consideraes finais

    De acordo com os dados apresentados, compreendemos que,

    das pronncias que nos propusemos analisar, [x] resulta mais fcil para um

    falante natural do espanhol utilizar. Porm, quase no observamos o uso de [z],

    principalmente em palavras com /s/ em contexto medial no qual o som em

    portugus de [s].

    Na pronncia de [r], identificamos a variante [], marca dialetal

    da regio em que viveu. Observamos tambm, a interferncia do espanhol em

    outras palavras como mil [mi], a nasalizao em unio e corao diferentes

    em ambas as lnguas abordadas neste trabalho e a pronncia de [di] (muito

    utilizada na lngua espanhola) na palavra diria [diaria], obtida no incio da

    entrevista.

    Portanto, mesmo que o informante 1 consiga pronunciar bem

    palavras com [x], [r] e apresente o uso de [], conclumos que h interferncia

    do espanhol, sua LM, principalmente na pronncia de [z], conforme descrito no

    tpico quatro desse trabalho. Verificamos tambm que a maioria das trocas de

    [z] por [s] ocorreram em situaes de fala espontnea referentes sua vida

    pessoal: narrao e perguntas iniciais.

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    REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS BENEDETTI, Ana Mariza. El portugus y el espaol frente a frente: aspectos fontico-fonolgicos y morfosintcticos. Carabela, Madrid, n.51, p. 147-171, feb. 2002. CANO AGUILAR, Rafael. El espaol a travs de los tiempos. 5. ed. Madrid: Arco Libros, 2002. CARDOSO, Suzana Alice. Geolingustica: tradio e modernidade. So Paulo: Prabola Editorial, 2010. CASTILH...

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