BERGSON E A EVOLUÇÃO DA VIDA BERGSON AND THE ?· Bergson e a evolução da vida 256 Kínesis, Vol.…

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  • BERGSON E A EVOLUO DA VIDA

    BERGSON AND THE EVOLUTION OF LIFE

    Ana Beatriz Antunes Gomes1

    Resumo: Bergson sustenta que a ordem vital essencialmente um processo inesgotvel de criao. A vida um aspecto expressivo do tempo que, por sua vez, autnomo e independente

    do espao e do sujeito, bem como irredutvel s funes quantitativas de medida. Trata-se da

    natureza qualitativa e virtual de toda diferena que devm natureza viva por uma atualizao

    irresistvel. Contudo, no menos verdade que a vida se apresenta comumente menos em sua

    essncia movente do que por meio de seus acidentes de percurso, recortando individualidades e

    se hipnotizando em generalizaes ou repeties diversas, que imitam antes a ordem fsica,

    qui a geomtrica. Pretendemos nesse Artigo acompanhar o movimento do impulso vital -

    responsvel por conduzir o processo de diferenciao de virtual atual - em sua fora explosiva,

    em suas nuances, obstculos encontrados e sua inevitvel superao ao compor novidades

    radicalmente imprevisveis. Desse modo, compreenderemos que o trao caracterstico da

    evoluo biolgica no a capacidade de adaptao das formas vivas ao meio que lhes impe

    condies de existncia, mas, sim, sua intrnseca potncia criadora que prolifera composies

    entre a matria e o esprito - direes diversas e at extremas de durao.

    Palavras-chave: Impulso Vital. Matria. Vida. Diferenciao. Evoluo.

    Abstract: Bergson maintains that the vital order is essentially a process of endless creation. Life

    is an expressive aspect of time, which is autonomous and independent of space and subject, as

    well as irreducible to the quantitative functions of measurement. It concerns the qualitative

    nature of the difference that becomes the living nature by a compelling actualization. However,

    the fact remains that life presents itself less commonly in its essence than through its accidents,

    by cutting individualities and hypnotizing itself in several generalizations, which mimic the

    physical order, perhaps even the geometric order. We intend in this article to follow the

    movement of the vital impulse - responsible for leading the process of differentiation from

    virtual to actual - in its explosive force, in its nuances, in the obstacles encountered and in their

    inevitable overcome through the making of radically unpredictable novelties. Thus, we

    understand that the characteristic feature of biological evolution is not the adaptability of life

    forms to the way imposed by the conditions of existence, but rather its creative power that

    proliferates compositions between different (and even extreme) directions in duration, as matter

    and spirit.

    Keywords: lan Vital. Matter. Life. Differentiation. Evolution.

    A natureza sempre foi alvo da nossa inteligncia. Ordenamo-la segundo a exata

    medida em que isso satisfaz nossa existncia. Transformamo-la em uma idia. Nossa

    experincia comum nos oferece diariamente tal e tal vivo determinado, manifestaes

    da vida que repetem aproximadamente formas e fatos j conhecidos. O esprito

    embriaga-se de conhecimento, esquece que sua maior fora est para alm dos limites

    1 Doutoranda - Cotutela entre a Universidade do Estado do Rio de Janeiro e a Universit de Toulouse II. E-mail: anabeatrizag@gmail.com

    mailto:anabeatrizag@gmail.com

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    de seu corpo orgnico e de suas vontades pessoais que, contudo, conduzem at mesmo

    suas pretenses de verdade. Ao encontrar aplicao de suas manobras inteligentes na

    matria, sente-se rei de toda vida, manipula ambos com igual poder sem saber a incrvel

    solido em que realmente se encontra. Seus mecanismos e operaes podem muito bem

    funcionar, revelando possvel acordo entre sujeito e objeto, porm isso nada fornece da

    essncia da prpria vida nem da matria nem mesmo evidencia que necessrio haver

    no esprito uma soberania do Eu. Com nossos hbitos naturais, tendemos a exercer certo

    poder sobre o mundo, recortando-o arbitrariamente de acordo com nossas utilidades.

    Somos orientados por pontos fixos, valores invariveis, estados uniformes, sem cuja

    referncia e imobilidade nosso sistema sensrio-motor estaria condenado ao fracasso. A

    brutalidade de nossa condio no condiz com as sutilezas da vida em si, que, por outro

    lado, criao incessante. Intelectualiz-la justamente furtar-se sua multiplicidade

    qualitativa. Para instaurar-se no domnio das foras vitais, prefervel antes a imediatez

    de um instinto do que a complexidade de uma idia.

    A matria, por sua vez, tambm no to esttica como nossa inteligncia

    pode supor, embora tenda para a determinao. Enquanto tocada pelo tempo, a matria

    deve ser considerada um todo indiviso, antes um fluxo do que uma coisa. Segue-se que

    o que tomamos por ela tambm nos relativo. Presos em nossa condio humana,

    acreditamos que nossas percepes se estendem igualmente entre todos os seres do

    mundo. Assim, inventamos relaes estritamente unilaterais com o resto dos seres e

    coisas do universo. Moralmente, acreditamos em apenas um nico modo de vida.

    Exigimos que ele seja seguido e julgado virtuoso. Sobretudo, o nosso entendimento cria

    uma unidade ficcional para toda a natureza, inclusive como se ela estivesse pronta e

    acabada.

    Todo movimento, parecendo-nos contingente, incita mistrios a respeito da

    origem e da existncia do universo. Queremos que sua gnese tenha se dado de um s

    golpe ou que seja um desdobramento sucessivo das idias de Deus. Procuramos na

    religio ou na cincia algo que fundamente um inicio para o tempo ou uma justificao

    para o devir. Acreditamos que pensar de onde viemos?, para onde vamos?, Por que

    o que vive tem de morrer? consiste em uma maravilhosa riqueza de esprito.

    Enganamo-nos. A fora do esprito no est nesse tipo de investigao. A fraca

    psicologia do consolo quer evitar a dor da mudana, coloca a felicidade ao lado da

    eternidade, quer a segurana de um mundo completamente cognoscvel. O pior que,

    com isso, provoca-se ainda mais infelicidade por ignorar a irreversibilidade temporal

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    que no poupa certezas subjetivas. Formulam-se problemas para o pensamento de

    acordo com as tendncias da moralidade. No fundo, querem um mundo sem tempo, sem

    memria, o que configurou o ideal clssico da cincia durante sculos. Ignoram que o

    problema no a criao do tempo, mas a bela afirmao de que o tempo criao. At

    o Big Bang revela-se uma resposta grosseira.

    Contudo, o mais poderoso exerccio de pensamento estaria na simplicidade da

    prpria natureza, na espontaneidade de seu movimento, na sua liberdade inventiva.

    Nesse sentido, possvel enveredar um estudo acerca da natureza mais intuitivamente,

    libertando-o de antropomorfismos e recolocando os problemas que circunscrevem o

    tema agora sob a perspectiva do tempo. Eis que o grande filsofo Henri Bergson

    aventura nosso pensamento na evoluo da vida, distinguindo as direes gerais do

    princpio criador, fazendo-nos notar as dificuldades que sua liberdade encontra e que

    engendram um mundo organizado em hbitos. No se prope uma tarefa descritiva das

    formas constitudas pela qual elas seriam tratadas com demasiada relevncia, alm de

    tomarmos o movimento de uma para a outra como um intervalo. Desde j, colocamos

    que a evoluo o trao caracterstico da vida, no suas manobras particulares que

    pretendem a perpetuao. O movimento primeiro e ltimo em relao a qualquer ser

    vivo. Acima de tudo, no tem fim, nada est feito, o universo cresce, pois a durao se

    desdobra continuamente, espalhando diferenas. No se trata, tambm, da criao

    continuada cartesiana pela qual o mundo morre e nasce a todo o momento, como se

    fosse tecida pela adio de instantes. Na filosofia bergsoniana, o prolongamento do

    passado que inventa o presente. Incorpora-se instabilidade e indeterminao, que se

    tornam expresses alegres da vontade criadora a qual movimenta a natureza

    continuamente em direo a novidades absolutamente radicais. Alm disso, partindo de

    um monismo do tempo, admira-se com a multiplicidade de duraes que, no obstante,

    so linhas meldicas que se atravessam, compondo a bela sinfonia universal. Processos

    geolgicos e sries evolutivas na biologia constituem snteses to completamente

    distintas que seus encontros produzem conjuntos ricos e singulares de vidas e paisagens.

    O tema do evolucionismo bergsoniano apresenta uma distino irredutvel

    entre a noo de sobrevivncia e a noo da vida em seu sentido mais amplo. Essa

    diferena conceitual determina que a primeira tem como base a conservao, utilizando-

    se de crenas que tornam o sujeito e o corpo estveis, orientados de maneira confivel,

    para no dizer previsvel. A segunda, por outro lado, remete exclusivamente criao,

    esclarecendo que o universo cresce indefinidamente, ele no est dado, um Todo

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    aberto e atuante, jorro incessante de novos mundos. Certamente, subsiste algo dessa

    liberdade na evoluo das espcies vivas, tanto que por meio da intuio, violentando

    a ordem habitual de nosso funcionamento orgnico, podemos coincidir com o princpio

    esttico desse el vital ao nos colocarmos logo de sada na continuidade de nossa

    prpria durao interior, que no pode ser alcanada por um mero desvio da

    inteligncia. Cabe, portanto, determinar que movimento esse que possui uma potncia

    criadora que prolifera a indeterminao e qual o movimento inverso que desfaz essa

    fora, instaurando uma resistncia ao fluxo livre e imprevisto de novidades, sobretudo

    recortando seres vivos e organizando hbitos. O desenvolvimento dessas questes

    levar compreenso de conceitos precisos, como o tempo e a matria, bem como

    clareza referente s diversas formas de individuao, produzidas pelas linhas

    divergentes desse processo evolutivo de diferenciao, incluindo a constituio da

    prpria natureza humana e suas possibilidades de superao.

    Evoluir no progredir do pior para o melhor, no segue um grande plano de

    conjunto pr-estabelecido, tampouco uma ordem mecnica. , pelo contrrio,

    continuidade irreversvel que impe que a realidade seja s criao. Evoluir instaurar

    novidades, estudar a evoluo necessariamente perder a considerao esttica de

    mundo. um transformismo, a prpria diferenciao da vida, necessidade de crescer

    em nmero e riqueza pela multiplicao no espao e pela complicao no tempo.

    Todavia, h vrias maneiras de se considerar o evolucionismo. Existem perspectivas

    que partem das hereditariedades, filiaes, considerando seres individuados como dados

    e as modificaes adicionando-se a eles, ou partindo dos menos diferenciados aos mais

    diferenciados. Pode-se falar na evoluo, tendo como ponto de partida as vantagens

    biolgicas que fazem um organismo individuado se desenvolver, amadurecer nas idades

    do mundo, demonstrando como a fixidez leva longevidade. De outro modo, pode-se

    falar em evoluo no sentido das novas formas de vida que aparecem continuamente no

    mundo, de acordo com o principio qualitativo das novidades radicais. O primeiro pode

    ser interessante, mas o segundo necessrio, pois se trata de o nico meio possvel de

    encontrarmos a essncia da diferena, a diferena em si o Tempo. Desde j afirmamos

    que no chegaremos ao movimento criador na evoluo da vida a partir dos indivduos

    constitudos, tampouco reconstituindo o indivduo a partir das partes deixadas pelo

    caminho, como a coleta paleontolgica de fsseis. A evoluo no pode ser

    reconstituda com fragmentos do evoludo - o slido deve resolver-se em algo diverso

    do slido.

  • Bergson e a evoluo da vida

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    Imersos no plano das objetividades explcitas, levados pelas tendncias da

    percepo, que responde utilitariamente s necessidades orgnicas, e da inteligncia que

    se move num campo de significaes fixas e tem por funo ligar o mesmo ao mesmo,

    sentimos dificuldade de pensar a evoluo como um movimento exclusivamente

    afirmativo, capaz de inserir no mundo novidades absolutamente radicais. De fato, a

    analiticidade da inteligncia coloca-nos em uma distncia intransponvel em relao aos

    fenmenos da vida, j que est inteiramente adaptada manipulao da matria inerte,

    sendo incapaz de apreender o vitalismo ao transpor os hbitos dos slidos para a

    especulao. Seus mecanismos resultam no homem das dedues racionais, que abusa

    da linguagem, falseando o pensamento ao centr-lo nas questes do Ser, justamente para

    justificar a sua lgica, que se sobrepe s livres experimentaes do mundo. Porm, o

    que h de mais ntimo ao esprito seno sua durao interior, ou, em outros termos, a

    sua vontade? A intuio mantm esta simpatia com as foras puramente vitais e

    Bergson a reivindica para libertar o pensamento da iluso que o prprio conhecimento,

    desembocando enfim nas operaes expressivas da evoluo da vida, revelando que seu

    sentido antes esttico do que racional. Sabe-se que a experincia da percepo tem por

    objeto a matria. A experincia da intuio, por outro lado, tem como objeto o esprito.

    A intuio como um mtodo a maneira possvel do homem superar a sua condio

    habitual e encontrar os problemas que esto para alm e para aqum dele, como as

    tendncias da durao e da materialidade pura.

    Pela direo natural da inteligncia, aceitaramos com prazer a explicao

    darwinista das variaes insensveis ou bruscas, que introduzem um par de conceitos

    que se conjugam numa interpretao enfraquecedora do movimento evolutivo, a saber,

    o acaso e a adaptao. Em suma, na primeira, as mutaes genticas ocorridas por mero

    acidente permanecem adormecidas at que possam se relacionar com outras que as

    complementem e lhes permitam se desenvolver; caso contrrio, desaparecem por no

    sofrerem adaptao possvel s circunstncias. Na segunda, ao invs de uma sucesso de

    incalculveis semelhanas infinitesimais, de um s golpe o acaso capaz de complicar

    um rgo maravilhosamente regrado com as outras partes e prolongando complicaes

    anteriores. Para justificar esse argumento pela seleo natural preciso, primeiro, que se

    pergunte como as combinaes perfeitas foram possveis por mero acidente. Bergson

    encontra nessas noes de evoluo uma insuficincia to significativa que distancia o

    estudo sobre o evolucionismo do movimento que o define e o torna possvel. Ora, ele

    nos lembra que certo que as circunstncias impem condies de existncia

  • Bergson e a evoluo da vida

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    evoluo, mas uma coisa reconhecer que o meio exterior uma fora que a evoluo

    deve levar em conta, outra sustentar que se trata da causa diretriz da evoluo.

    Segundo esta lti...