BERGSON, Henri. a Intuição Filosófica

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  • 7/26/2019 BERGSON, Henri. a Intuio Filosfica

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    Conferncia pr onu nci ada no Co ngresso Filosf ico

    de Bolonha cm 10 d e abr i l de 1911

    CAPTULO IV

    A INTUIO FILOSFICA

    Gostaria de lhes submeter algumas reflexes sobreo esprito filosfico. Parece-m e - e mais de um trabalhoapresentado nesse Con gresso o atesta - que nesse mo mento a metafsica procura simplificar-se, aproximar-semais da vida. Creio que ela est certa e que nesse sentido que devemos trabalhar. Mas considero que, assimprocedendo, nada faremos de revolucionrio; limitar-nos-emos a dar a forma mais apropriada quilo que o fundo de toda filosofia - quero dizer, de toda filosofia quetem plena conscincia de sua funo e dc sua desti nao.Pois a complicao da letra no deve fazer perder de vis

    ta a simplicidade do esprito. Atendo-nos s doutrinasquando j formuladas, sntese na qual parecem entoabarcar as concluses das filosofias anteriores e o conju nto dos conhecimentos conquistados, corremos o risco deno mais perceber aquilo que h de essencialmente espontneo no pensamento filosfico.

    H uma observao que deve ter sido feita por todosaqueles dentre ns que ensinam a histria da filosofia,por todos aqueles que tiveram o casio de voltar freqen-

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    temente ao estudo das mesmas doutrinas e levar assimcada vez mais longe seu aprofundamento. De incio, umsistema filosfico parece erguer-se como um edifcio completo, de uma arquitetura engenhosa, no qual as medidas foram tomadas para que nele possamos alojar de for

    ma cmoda todos os problemas. Experimentamos, ao con templ-lo sob essa forma, uma alegria esttica reforadapor uma satisfao profissional. Com efeito, no apenasencontramos aqui a ordem na complicao (uma ordemque, por vezes, nos divertimos em completar ao descrev-la), mas temos tambm o contentamento dc pensarque sabemos de onde provm os materiais e de que modoa construo foi feita. Nos problemas que o filsofo ps,reconhecemos as questes que se agitavam sua volta.Nas solues que lhes fornece, acreditamos reencontrar,

    arranjados ou desarranjados, mas quase que no modificados, os elementos das filosofias anteriores ou contemporneas. Tal determinada viso deve ter-lhe sido fornecida por este, tal outra lhe foi sugerida por aquele. Comaquilo que ele leu, ouviu, aprendeu, poderamos sem dvida recompor a maior parte daquilo que ele fez. Pomo-nos, portanto, a trabalhar, voltamos s fontes, pesamosas influncias, extramos as similitudes e acabamos porver distintamente na doutrina aquilo que nela procurvamos: uma sntese mais ou menos original das idias cmmeio s quais o filsofo viveu.

    Mas um contato freqentemente renovado com opensamento do mestre pode nos levar, por uma impregnao gradual, a um sentimento inteiramente diferente.No digo que o trabalho de comparao ao qual nos havamos entregue de incio tenha sido perda de tempo: semesse esforo prvio para recompor uma filosofia com aquilo que no ela e para lig-la quilo que havia sua vol

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    ta, talvez nunca atingssemos o que ela e verdadeiramente; pois o esprito humano feito dc tal modo que scomea a compreender o novo quando j tentou tudopara reconduzi-lo ao antigo. Mas, medida que procuramos nos instalar no pensamento do filsofo ao invs

    de dar-lhe a volta, vemos sua doutrina transfigurar-se. Pr imeiro, a complicao diminui. Depois, as partes entramumas nas outras. Por fim, tudo se contrai num nicoponto, do qual sentimos que nos poderamos aproximarcada vez mais, ainda que devamos perder as esperanasde atingi-lo.

    Nesse ponto, encontra-se algo simples, infinitamente simples, to extraordinariamente simples que o filsofo nunca conseguiu diz-lo. E por isso que falou portoda a sua vida. No podia formular o que tinha no es

    prito sem se sentir obrigado a corrigir sua formulao e,depois, a corrigir sua correo: assim, de teoria em teoria, retificando-se quando acreditava completar-se, o queele fez, por meio de uma complicao que convocava acomplicao e por meio de desenvolvimentos justapostos a desenvolvimentos, foi apenas restituir com umaaproximao crescente a simplicidade dc sua intuio original. Toda a complexidade de sua doutrina, que pode irao infinito, no portanto mais que a incomensurabili-dade entre sua intuio simples e os meios de que dispunha para exprimi-la.

    Qual essa intuio? Se o filsofo no pde formul-la, no seremos ns que o conseguiremos. Mas o queconseguiremos recuperar e fixar uma certa imagem intermediria entre a simplicidade da intuio concreta e acomplexidade das abstraes que a traduzem, imagem fugidia e evanescente que assombra, despercebida talvez,o esprito do filsofo, que o segue como se fosse sua som

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    bra atravs de todas as voltas e reviravoltas de seu pens amento e que, se no a prpria intuio, dela se aproximabem mais que a expresso conceituai, necessa riamentesimblica, qual a intuio deve recorrer para fornecer"explicaes". Olhemos bem essa sombra: adivinhare

    mos a atitude do corpo que a projeta. E se nos esforarmosno sentido de imitar essa atitude, ou antes, de nela nosinserirmos, iremos rever, na medida do possvel, aquiloque o filsofo viu.

    O que caracteriza primeiro essa imagem a potncia de negao que traz em si. Vocs se lembram comoprocedia o demnio de Scrates: antes bloqueava a vontade do filsofo em um dado momento e o impedia deagir do que prescrevia o que lhe cabia fazer. Parece-meque a intuio freqentemente se comporta, em matria

    especulativa, como o demnio de Scrates na vida prtica; e pelo menos sob essa forma que principia, sob essaforma tambm que continua a dar suas manifestaes asmais ntidas: ela probe. Diante de idias correntementeaceitas, de teses que parecem evidentes, de afirmaesque haviam passado at ento por cientficas, assopra noouvido do filsofo a palavra: Impossvel. Impossvel, ainda mesmo que os fatos e as razes paream te convidara crer que isso seja possvel e real e certo. Impossvel,

    porque uma certa experincia, confusa, talvez, mas decisiva, fala contigo atravs de minha voz, e diz que ela incompatvel com os fatos que se alegam e as razes queso dadas, e que, desde ento, esses fatos devem ter sidomal observados, esses raciocnios devem ser falsos. Fora singular, essa potncia intuitiva de negao! Como foipossvel que no atrasse mais a ateno dos historiadores da filosofia? Acaso no visvel que a primeira man obra do filsofo, quando seu pensam ento ainda est pou

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    co seguro e nada h de definitivo em sua doutrina, consiste em rejeitar certas coisas definitivamente? Mais tarde, poder variar naquilo que afirmar; no variar muitonaquilo que nega. E se varia naquilo que afirma, serainda em virtude da potncia de negao imanente in

    tuio ou sua imagem. Ter-se- deixado ir preguiosamente na deduo de conseqncias segundo as regrasde uma lgica retilnea; e eis que, de repente, diante desua prpria afirmao, experimenta o m esmo sentimentode impossibilidade que de Incio lhe havia advindo diante da afirmao de outrem. Com efeito, tendo deixado acurva de seu pensamento para seguir reto pela tangente,tornou-se exterior a si mesmo.Volta para dentro de si quando volta intuio. Dessas sadas e desses retornos so feitos os ziguezagues de uma doutrina que "se desenvolve",isto , que se perde, se reencontra e se corrige indefinidamente a si mesma.

    Libertemo-nos dessa complicao, remontemos paraa intuio simples ou pelo menos para a imagem que atraduz: ao faze-lo, vemos a doutrina libertar-se das condies de tempo e de lugar das quais parecia depender.Sem dvida, os problemas dos quais o filsofo se ocupouso os problemas que se punham em seu tempo; a cincia que utilizou ou criticou era a cincia de seu tempo;

    nas teorias que expe, poderemos at mesmo reencontrar, se ali as procurarmos, as idias de seus contemporneos e de seus precursores. Como poderia ser de outraforma? Para fazer compreender o novo, por fora h queexprimi-lo em funo do antigo; e os problemas j postos, as solues que lhes haviam sido fornecidas, a filosofia e a cincia do tempo no qual ele viveu, foram, paracada grande pensador, a matria que ele era obrigado autilizar para dar uma forma concreta a seu pensamento.

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    Sem contar que tradicional, desde a antiguidade, apresentar toda filosofia como um sistema completo, queabarca tudo aquilo que se conhece. Mas seria enganar-seextraordinariamente tomar por um elemento constitutivo da doutrina o que fora apenas seu meio de expresso.

    Tal o primeiro erro ao qual nos expomos, como eu dizia agora h pouco, quando abordamos o estudo de umsistema. Tantas sem elhanas parciais nos impressionam,tantas aproximaes nos parecem impor-se, apelos tonumerosos, to prementes, so lanados de todas as partes nossa engenhosidade e nossa erudio que somostentados a recompor o pensamento do mestre com fragmentos de idias tomadas aqui e ali, custa de louv-lodepois por ter sabido executar - como ns m esmos acabamos de nos mostrar capazes de faz-lo - um belo tra

    balho de mosaico . Mas a iluso no dura muito, pois rapidamente percebemos que o filsofo, ali mesmo ondeparece repetir coisas j ditas, as pensa sua maneira. Renunciamos ento a recompor, mas para cair, o mais dasvezes, numa nova iluso, menos grave, som dvida, doque a primeira, mas mais tenaz do que ela. De bom grado nos figuramos a doutrina - mesmo que seja a de ummestre - como descendente das filosofias anteriores ecomo representando "um momento de uma evoluo".Decerto, no estamos inteiramente enganados, pois umafilosofia se assemelha antes a um organismo do que aum agregado e ainda melhor falar aqui de evoluo doque de composio. Mas essa nova comparao, alm dof