BERGSON, Henri. Mélanges. Paris: Presses Universitaires de ... ?· A filosofia de Henri Bergson (Paris,…

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    27-Dec-2018

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BERGSON E O ESPIRITISMO: A EVOLUO DO PRINCPIO ESPIRITUAL

Astrid Sayegh

A originalidade do Espiritualismo de Brgson

A filosofia de Henri Bergson (Paris, 1859-1941) pode ser definida com o nome de evolucionismo espiritualista. Ela constitui

o ponto de referncia do pensamento francs entre o fim do sc. XIX e as primeiras dcadas do sc. XX. Nessa filosofia

fundem-se os temas do espiritualismo antigo, como o de Agostinho, e os da tradio espiritualista francesa, que encontra

suas maiores expresses em Descartes e Pascal.

A temtica bergsoniana aproxima-se da temtica esprita, talvez pelo fato de serem contemporneas, mas isso no

significa definitivamente que Bergson possa ser considerado esprita. O bergsonismo se aproxima da Filosofia Esprita pela

sua temtica sim, pelos seus fundamentos, mas resguardada a conceituao especfica de cada um. Dado o fato de

Bergson viver em Paris e mesma poca de Kardec, talvez se explique a identificao da temtica, peculiar ao perodo

que sucedeu ao Iluminismo. Em meio a essa temtica podemos destacar: a teoria do princpio espiritual, o conceito de

esprito e memria, a relao corpo-esprito, provas positivas da existncia do esprito independentemente do corpo fsico,

a imortalidade da alma e, sobretudo o papel da intuio, como o modo de conhecimento espiritual por excelncia. Bergson

conclui seu pensamento ainda exaltando a vida social como o fim ltimo da existncia, a qual se realiza, autenticamente,

atravs de uma moral aberta e de uma religio dinmica.

Em sua obra, As duas Fontes da Moral e da Religio, o referido filsofo exalta a necessidade do desenvolvimento de uma

"cincia psquica", pois somente atravs dela que se poder alcanar a certeza cientfica da imortalidade da alma e com

isso se obter uma metafsica, no abstrata, mas fundada em um empirismo superior. Conta-se que ele mesmo se dedicou

a pesquisas sobre a comunicao com desencarnados, mas que, no entanto, foram desprezadas a sua poca. Participou

do Grupo de Estudos de Fenmenos Psquicos1 em Paris e foi presidente da Society for Psychical Research de Londres,

quando pronunciou a notvel conferncia "Fantasmas dos vivos", e que consta em sua obra A Energia Espiritual2.

Em Matria e Memria Bergson realiza um trabalho descritivo sobre a relao corpo e esprito, e discute a localizao das

lembranas, provando atravs de estudos de caso de afasia, que essas lembranas no se encontram localizadas no

crebro, mas no esprito. Realizou inmeros experimentos, nos quais verificou que as vtimas de leso cerebral logravam,

amide, conservar intacta a memria. Por outro lado verificou que alguns pacientes sem, contudo apresentar leso no

crebro, haviam perdido a memria. Efetivamente, ambos os casos comprovam que a memria, o esprito, independente

do corpo fsico.

Se o trabalho do crebro correspondesse totalidade da conscincia, se houvesse equivalncia entre o cerebral e o

mental, a conscincia poderia seguir o destino do crebro e a morte seria o fim de tudo [...]. Mas se conforme tentamos

demonstrar, a vida mental ultrapassa a vida cerebral, se o crebro se limita a traduzir em movimento uma pequena parte

do que se passa na conscincia, ento a sobrevivncia se torna to verossmil que a obrigao da prova incumbir quele

que nega, maIs do que quele que afirma [...]3.

1 BERGSON, Henri. Mlanges. Paris: Presses Universitaires de France, 1972 2 BERGSON, Henri. L'nergie spirituelle. Paris: Presses Universitaires de France, 1985 3 BERGSON, Henri, Lnergie Spirituelle. Essais et Conferences. Alcan, 1919. p. 47, 57-58

Ora, a nica razo para se crer na extino da conscincia a desorganizao do corpo aps a morte, e esta razo no

tem mais valor se a independncia da conscincia em relao ao corpo um fato que se constata. Tais consideraes

aproximam-se da descrio de casos e fundamentos em A Loucura sob um Novo Prisma, de Dr. Bezerra de Menezes.

Embora Bergson admita a importncia de se partir dos fatos e da fenomenologia para provar a realidade do esprito, a

cincia possui uma viso parcial do esprito, cabendo metafsica, por meios adequados, o conhecimento da natureza do

real espiritual. Dessa forma Bergson estabelece uma crtica do conhecimento, particularmente ao cientificismo e

intelectualismo, fundamentando-a atravs da teoria da evoluo do princpio espiritual, a qual culmina no nascimento da

conscincia cognoscente.

A cincia, em sua abordagem fenomnica, no basta para conhecer o esprito, pois se restringe a experincia observvel,

e no de sua alada a essncia metafsica. Se o dogmatismo cientfico para o qual se teve que criar o termo

cientismo4 absorve o pensamento inteiro nas coisas, ele acaba por negar a realidade do esprito, que no entanto o

prprio criador da cincia; como se a obra valesse mais que o autor. Desta forma, ao se pretender um conhecimento

autntico, deve-se transcender a viso meramente fenomnica, a qual abarca apenas a parte superficial do real.

Os filsofos, quando no so mais sistemticos que os prprios homens de laboratrio, atm-se ao relativismo, como o

caso de Immanuel Kant, segundo o qual a metafsica um empreendimento inatingvel e a filosofia passa a ser a cincia

dos limites do esprito humano. Bergson, ao contrrio, busca provar a possibilidade da experincia metafsica, a infinita

capacidade criadora do esprito, demonstrando que o absoluto, a coisa em si, no impossvel e nem um mistrio, mas

que possvel na experincia interior da intuio.

Algumas filosofias, sem dizer o pensamento cientificista e positivista, so qual o prisioneiro da caverna de Plato, que sem

esperana de liberdade, acorrentam o esprito ao fundo da caverna, e tomam apenas as sombras como o mundo real. Este

um quadro triste, onde se encontra uma demisso do esprito, uma negao da verdadeira natureza do ser humano.

Contra essa demisso, toda a filosofia de Bergson um protesto, e toda sua obra uma reabilitao, uma reafirmao da

realidade do esprito, e de sua infinita liberdade criadora.

Cincia e Filosofia

Se a prova maior a experincia, ao lado da experincia sensvel que oferece cincia seu objeto concreto, vivemos uma

experincia interior, afirma Bergson, to concreta e irrecusvel quanto a primeira. No bastam raciocnios puros, sem base

na experincia espiritual da intuio. Se cincia cumpre conhecer o mundo fenomnico e material, j filosofia cabe

atingir a realidade do esprito. Se compete cincia, desta forma, o bem estar da humanidade, somente a filosofia permitir

ao homem a alegria interior. Se cincia, em sua funo analtica abarca o real em sua face aparente, deve a outra parte,

a face invisvel, pertencer a uma metafsica que, partindo igualmente da experincia, possa penetrar o real em-si, e no

apenas raciocin-lo. Cumprindo com essa exigncia de uma viso mais compreensiva do real, a Cincia Esprita contm

duas partes: uma experimental, sobre as manifestaes em geral; outra filosfica, sobre as manifestaes inteligentes.5

Importa no confundir os objetos de conhecimento, pois o emprego de mtodos cientficos para questes metafsicas pode

favorecer as teorias materialistas.

4 Atitude segundo a qual a cincia d a conhecer as coisas como so, e resolve todos os problemas da

condio humana e suficiente para satisfazer todas as necessidades legtimas da inteligncia humana. Segundo o cientismo o mtodo cientfico deve estender-se sem exceo a todos os domnios da vida humana.

5 KARDEC, A. O Livro dos Espritos, Introduo, XVII.

Embora pertencentes a mbitos diferentes, e que devem ser respeitados em suas peculiaridades, sem dvida, cincia e

filosofia devem complementar-se com vistas a um conhecimento mais compreensivo. Assim como esprito e matria

desenvolve-se em uma experincia comum, afirma Bergson, metafsica e cincia devem igualmente complementar-se para

a apreenso do real. Desta forma, o mtodo experimental, analtico, no pode prescindir do mtodo intuitivo, caso contrrio

a cincia permanecer sempre na superfcie da realidade e, a filosofia por sua vez restringir-se- abstraes mentais.

assim que afirma ainda Lon Denis que [...] a cincia experimental ser sempre insuficiente se no for completada pela

intuio, por esta espcie de adivinhao interior que nos faz descobrir as verdades essenciais6. No entanto, importa antes

estabelecer essas diferenas de natureza, entre essncia e aparncia, entre esprito e fenmeno e efetivamente distinguir

as duas faces do real:

O Espiritismo filosfico uma ontologia fenomenolgica com duas faces: material e visvel

uma e invisvel a outra. H uma imagem que nos permite compreender melhor esse todo

ontolgico: semelhante a uma esfera sem nenhum recorte, ele apresenta uma parte

iluminada e outra escondida. Algum que olhe do exterior julga que somente a parte

ensolarada habitada7.

A face iluminada seria o fenmeno, o real qual se apresenta aos sentidos, e que do domnio da cincia; a face oculta

seria a essncia, o princpio espiritual, o que no se v, mas que se concebe pela razo e pela intuio e que, portanto

da alada da filosofia. Embora cincia e filosofia se complementem, Bergson, em sua exigncia de preciso e de rigor

metdico, afirma a importncia de no se confundir a parte iluminada da esfera com a parte oculta, a parte essencial com a

fenomnica, no misturar as duas cincias na concepo do real; uma coisa a ordem do esprito, a ordem do vital, outra

coisa a ordem do fsico. Efetivamente inserir as questes metafsicas nos procedimentos racionais da cincia

experimental implica em impreciso, o que pode gerar falsos problemas, idias mal colocadas, que acabam por minar o

projeto metafsico. Pensar o esprito pela viso da matria um falso raciocnio, que favorece as explicaes materialistas.

assim que afirma Allan Kardec, em Introduo a O Livro dos Espritos:

O anatomista, dissecando o corpo humano, procura a alma e porque no a encontra com o seu bisturi, como se

encontrasse um nervo, conclui que ela no existe. Isto em razo de colocar-se num ponto de vista exclusivamente material.

Efetivamente, uma das causas do materialismo exacerbado que caracteriza nossos tempos a falta de procedimentos

racionais precisos, de mtodo rigoroso. O mtodo da cincia no se presta a pensar a metafsica e vice-versa; a razo

empregada de forma errada o maior perigo para aqueles que pretendem defender concepes espiritualistas, pois pode

materializar, coisificar, o que pura essncia8. No se trata de negar a cincia, mas antes aprofund-la no domnio que lhe

prprio, assim como buscar a parte essencial com uma metodologia adequada. Ao se pretender pensar a metafsica

apenas com o olhar da cincia analtica, pode-se denegar a realidade do esprito, a qual s pode ser conhecida por uma

viso intelectiva ou intuitiva.

Sem dvida, atravs da fenomenologia pode-se concluir por uma causa espiritual, porm a natureza dessa causa compete

metafsica e ontologia. Disso decorre a importncia de se exaltar e aprofundar as concepes metafsicas do

Espiritismo, pois nas leis da criao repousam toda a tica esprita. Esprito no fenmeno, mas nmeno, ou seja, a

essncia, a substncia determinante; fenmeno efeito, mas a causa do fenmeno espiritual. Conhecer as causas

6 DENIS, Leon. O Problema do Ser do Destino e da Dor, p. 325. 7 MOREIL, Andre. Vida e Obra de Allan Kardec, p. 131. 8 Recomendamos a respeito, a leitura da obra de Herculano Pires, A Pedra e o Joio, Ed. Paidia.

conhecer a natureza, o modo de ser das criaturas, e sua destinao e a cincia das causas primeiras denomina-se

metafsica.

Bergson elucida, pois que, se mesmo as teorias metafsicas no conseguiram ainda abarcar a natureza da realidade

espiritual, isto se deve a confuses que nosso raciocnio mal formulado criou, dado o fato de o intelecto, por ter se

desenvolvido a partir da experincia sensvel, estar voltado para realidade pragmtica, para as coisas da matria sensveis

e portanto no se presta para abarcar a natureza da realidade espiritual. Desse modo, o primeiro erro de nosso raciocnio

empregar para as coisas do esprito a noo de espao. Ora, o espao o reino da diviso, da uniformidade, objeto de

representao, porm a realidade do esprito indivisvel, altera infinitamente a sua qualidade, e no objeto de

representao, pois consiste em substncia e no possui forma. No entanto, se Bergson afirma a necessidade de deixar de

lado as concepes de espao para entender o esprito, ele toma como fundamento a noo do tempo:

Tempo cientfico e tempo do esprito

Importa aqui uma segunda distino: o tempo da cincia fenomnica distingue-se da temporalidade da conscincia. O

primeiro um tempo espacializado, medido pelo relgio, divisvel em intervalos no espao; este se desenvolve em uma

sucesso de segundos, minutos e horas que so sempre idnticos quanto natureza. J o tempo metafsico, do esprito,

da substncia, no divisvel porque no mensurvel, mas sim um fluir contnuo; por outro lado, cada instante diferente

do anterior, constituindo-se, portanto de momentos heterogneos, posto que o espiritual evolua infinitamente. Uma vez que

no se divide, que no se da no espao e no se mede, Bergson denomina esse tempo real de durao, a qual no pode

ser representada por smbolos nem por nmeros, mas que consiste em um fluir contnuo, onde todos os momentos se

interligam uns aos outros e tudo permanece, pois tudo que espiritual possui o atributo da imanncia.

Poderamos aproximar a concepo bergsoniana de durao com a concepo de eternidade de Galileu Galilei, segundo

consta em A Gnese:

O tempo no mais que uma medida relativa da sucesso das coisas transitrias, ao passo que a eternidade

essencialmente una, imvel e permanente, insuscetvel de qualquer medida do ponto de vista de durao,

compreenderemos que para ela no h comeo nem fim9.

importante considerar assim que a noo de durao como contrria a mensurabilidade da ordem do transitrio ao

apreender a unidade do tempo real ou metafsico, torna-se condio para se fundamentar a teoria do princpio espiritual, de

sua imanncia na criao, assim como a natureza de tudo que da ordem do esprito.

* os trabalhos completos estaro disponveis em forma de livro *

Bibliografia

BILAC, Olavo. (1919) Tarde. Rio de Janeiro: Francisco Alves.

CAMPOS, Humberto de. (1954a) Dirio secreto, volume I. Rio de Janeiro: Edies O Cruzeiro.

. (1954b) Dirio secreto, volume II. Rio de Janeiro: Edies O Cruzeiro.

. (org.) (1960a) Antologia da Academia Brasileira de Letras. Rio de Janeiro, So Paulo, Porto Alegre, Recife: Editora

Mrito.

. (1960b) Crtica, I s...