Bergson, henri. o riso

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    11-Aug-2015

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<ol><li> 1. HENRI BERGSON O RISO ensaio sobre a significao do cmico segunda edio ZAHAR EDITORES RIO DE JANEIRO </li><li> 2. Ttulo original: Le Rire Traduzido da 375 edio francesa, publicada em 1978 por Presses Universitaires de France, de Paris, Frana Copyright 1940 by Presses Uniyersitaires de France Direitos reservados. Proibida a reproduo (Lei n 5.988) traduo: Nathanael C. Caixeiro Ph.D. em Filosofia, Universidade do Texas capa: Eliane Stephan diagramao: Ana Cristina Zahar composio: Zahar Editores S.A. 1983 Direitos para a lngua portuguesa adquiridos por ZAHAR EDITORES Caixa Postal 207, ZC-00, Rio que se reservam a propriedade desta verso Impresso no Brasil </li><li> 3. INDICE </li><li> 4. Prefcio Este livro encerra trs artigos sobre o Riso (ou antes, o riso suscitado sobretudo pelo cmico) anteriormente publicados na Revue de Paris. (Revue de Paris, 19 e 15 de fevereiro, 19 de maro de 1899.) Ao reuni-los em livro, indagamos se devamos examinar a fundo as idias dos nossos predecessores e fazer uma crtica rigorosa das teorias do riso. Pareceu-nos que a nossa exposio se complicaria desmesuradamente, resultando num volume desproporcional em relao ao tema enfocado. De resto, verificava-se que as principais definies do cmico haviam sido j discutidas por ns explcita ou implicitamente, embora de maneira resumida a propsito deste ou daquele exemplo que nos evocavam algumas delas. Limitamo-nos, pois, a reproduzir nossos artigos. Acrescentamos to-somente uma lista dos principais trabalhos publicados sobre o cmico nos 30 anos antecedentes. Depois disso publicaram-se outras obras alongando-se, pois, a bibliografia a seguir oferecida. Mas nenhuma modificao fizemos no livro propriamente dito, exceto, entretanto, certos retoques na redao. Sem dvida, os diversos estudos citados esclareceram em vrios pontos a questo do riso. Mas o nosso mtodo, que consiste em determinar os processos de produo do cmico, contrasta vivamente com o mtodo em geral seguido, e que visa a encerrar os efeitos do cmico numa frmula muito ampla e muito simples. Esses dois mtodos no se excluam reciprocamente; mas tudo o que o segundo puder dar deixar intactos os resultados do primeiro; e este o nico, a nosso ver, que comporta uma especificidade e rigor cientficos. Esse ademais, o ponto para o qual chamamos a ateno do leitor no apndice acrescentado a esta edio. Henri Bergson (Paris, janeiro de 1924) </li><li> 5. CAPITULO I Sobre o Cmico em Geral Comicidade das Formas e dos Movimentos Fora de Expanso do Cmico Que significa o riso? Que haver no fundo do risvel? Que haver de comum entre uma careta de bufo, um trocadilho, um quadro de teatro burlesco e uma cena de fina comdia? Que destilao nos dar a essncia, sempre a mesma, da qual tantos produtos variados retiram ou o odor indiscreto ou o delicado perfume? Os maiores pensadores, desde Aristteles, aplicaram-se a esse pequeno problema, que sempre se furta ao empenho, se esquiva, escapa, e de novo se apresenta como impertinente desafio lanado especulao filosfica. Nosso pretexto para enfocar o problema que no pretenderemos encerrar numa definio a fantasia cmica. Vemos nela, antes de tudo, algo de vivo. Por mais trivial que seja, trat-la-emos com o respeito que se deve vida. No nos limitaremos a v-la crescer e se expandir. De forma em forma, por gradaes imperceptveis, ela realizar aos nossos olhos metamorfoses bem singulares. Nada desdenharemos do que tenhamos visto. Com esse contato continuado talvez ganhemos algo de mais malevel que uma definio terica um conhecimento prtico e ntimo, como o que nasce de longa camaradagem. E talvez descubramos tambm que fizemos sem querer um conhecimento til. Lgico, a seu modo, at nos seus maiores desvios, metdico em sua insensatez, fantasiando, bem o sei, mas evocando em sonho vises logo aceitas e compreendidas por uma sociedade inteira, acaso a fantasia cmica no nos informar sobre os processos de trabalho da imaginao humana, e mais particularmente da imaginao social, coletiva, popular? Fruto da vida real, aparentada arte, acaso no dir nada sobre a arte e a vida? </li><li> 6. Apresentaremos primeiro trs observaes, para ns fundamentais. Referem-se elas menos ao cmico propriamente que ao lugar onde devemos busc-lo. I Chamamos ateno para isto: no h comicidade fora do que propriamente humano. Uma paisagem poder ser bela, graciosa, sublime, insignificante ou feia, porm jamais risvel. Riremos de um animal, mas porque teremos surpreendido nele uma atitude de homem ou certa expresso humana. Riremos de um chapu, mas no caso o cmico no ser um pedao de feltro ou palha, seno a forma que algum lhe deu, o molde da fantasia humana que ele assumiu. Como possvel que fato to importante, em sua simplicidade, no tenha merecido ateno mais acurada dos filsofos? J se definiu o homem como "um animal que ri". Poderia tambm ter sido definido como um animal que faz rir, pois se outro animal o conseguisse, ou algum objeto inanimado, seria por semelhana com o homem, pela caracterstica impressa pelo homem ou pelo uso que o homem dele faz. Observemos agora, como sintoma no menos digno de nota, a insensibilidade que naturalmente acompanha o riso. O cmico parece s produzir o seu abalo sob condio de cair na superfcie de um esprito tranqilo e bem articulado. A indiferena o seu ambiente natural. O maior inimigo do riso a emoo. Isso no significa negar, por exemplo, que no se possa rir de algum que nos inspire piedade, ou mesmo afeio: apenas, no caso, ser preciso esquecer por alguns instantes essa afeio, ou emudecer essa piedade. Talvez no mais se chorasse numa sociedade em que s houvesse puras inteligncias, mas provavelmente se risse; por outro lado, almas invariavelmente sensveis, afinadas em unssono com a vida, numa sociedade onde tudo se estendesse em ressonncia afetiva, nem conheceriam nem compreenderiam o riso. Tente o leitor, por um momento, interessar-se por tudo o que se diz e se faz, agindo, imaginariamente, com os que agem, sentindo com os que sentem, </li><li> 7. expandindo ao mximo a solidariedade: ver, como por um passe de mgica, os objetos mais leves adquirirem peso, e tudo o mais assumir uma colorao austera. Agora, imagine-se afastado, assistindo vida como espectador neutro: muitos dramas se convertero em comdia. Basta taparmos os ouvidos ao som da msica num salo de dana para que os danarinos logo paream ridculos. Quantas aes humanas resistiriam a uma prova desse gnero? No veramos muitas delas passarem imediatamente do grave ao divertido se as isolssemos da msica de sentimento que as acompanha? Portanto, o cmico exige algo como certa anestesia momentnea do corao para produzir todo o seu efeito. Ele se destina inteligncia pura. Mas essa inteligncia deve permanecer em contato com outras inteligncias. Esse o terceiro fato para o qual desejvamos chamar a ateno. No desfrutaramos o cmico se nos sentssemos isolados. O riso parece precisar de eco. Ouamo-lo bem: no se trata de um som articulado, ntido, acabado, mas alguma coisa que se prolongasse repercutindo aqui e ali, algo comeando por um estalo para continuar ribombando, como o trovo nas montanhas. E, no entanto, essa repercusso no deve seguir ao infinito. Pode caminhar no interior de um crculo to amplo quanto se queira, mas, ainda assim, sempre fechado. O nosso riso sempre o riso de um grupo. Ele talvez nos ocorra numa conduo ou mesa de bar, ao ouvir pessoas contando casos que devem ser cmicos para elas, pois riem a valer. Teramos rido tambm se estivssemos naquele grupo. No estando, no temos vontade alguma de rir. Algum a quem se perguntou por que no chorava ao ouvir uma prdica que a todos fazia derramar lgrimas: respondeu: "No sou da parquia". Com mais razo se aplica ao riso o que esse homem pensava das lgrimas. Por mais franco que se suponha o riso, ele oculta uma segunda inteno de acordo, diria eu quase de cumplicidade, com outros galhofeiros, reais ou imaginrios. J se observou inmeras vezes que o riso do espectador, no teatro, tanto maior quanto mais cheia esteja a sala. Por outro lado, j no se notou que muitos efeitos cmicos so intraduzveis de uma lngua para outra, relativos, pois, aos costumes e s idias de certa sociedade? Contudo, por no se ter compreendido a importncia desse duplo fato, viu-se no cmico simples curiosidade na qual o esprito se diverte, e no riso em si um fenmeno extico, isolado, sem relao com o restante da atividade humana. Da essas definies tendentes a fazer do cmico uma relao abstrata, </li><li> 8. percebida pelo esprito entre idias: "contraste intelectual", "absurdo sensvel" etc., as quais, mesmo que conviessem realmente a todas as formas de comicidade, no nos explicariam absolutamente por que o cmico nos faz rir. De fato, como acontece que essa relao terica especfica, to logo percebida, nos encolha, nos dilate, nos sacuda, ao passo que todas as demais deixam o nosso corpo indiferente? No enfocaremos o problema por esse aspecto. Para compreender o riso, impe-se coloc-lo no seu ambiente natural, que a sociedade; impe-se sobretudo determinar-lhe a funo til, que uma funo social. Digamo-lo desde j: essa ser a idia diretriz de todas as nossas reflexes. O riso deve corresponder a certas exigncias da vida em comum. O riso deve ter uma significao social. Assinalemos nitidamente o ponto a que convergem essas trs observaes preliminares. Ao que parece, o cmico surgir quando homens reunidos em grupo dirijam sua ateno a um deles, calando a sensibilidade e exercendo to-s a inteligncia. Ora, que ponto em especial esse ao qual dever dirigir-se a ateno deles? A que se aplicar, no caso, a inteligncia? Responder a essas questes j ser circunscrever claramente o problema. Tornam-se, porm, indispensveis alguns exemplos. II Algum, a correr pela rua, tropea e cai: os transeuntes riem. No se riria dele, acho eu, caso se pudesse supor que de repente lhe veio a vontade de sentar-se no cho. Ri-se porque a pessoa sentou-se sem querer. No , pois, a mudana brusca de atitude o que causa riso, mas o que h de involuntrio na mudana, o desajeitamento. Talvez houvesse uma pedra no caminho. Era preciso mudar o passo ou contornar o obstculo. Mas por falta de agilidade, por desvio ou obstinao do corpo, por certo efeito de rigidez ou de velocidade adquiridas, os msculos continuaram realizando o mesmo movimento, quando as circunstncias exigiam coisa diferente. Por isso a pessoa caiu, e disso que os passantes riram. </li><li> 9. Vejamos agora o caso de uma pessoa que se empenha em suas pequenas ocupaes com uma regularidade matemtica, e cujos objetos pessoais tenham sido baralhados por um brincalho: mete a pena no tinteiro e sai cola; acredita sentar-se numa cadeira slida e cai estatelada no cho; enfim, age sem propsito ou o que faz d em nada, sempre em conseqncia de um ritmo adquirido. O hbito imprimiu certo impulso. Seria preciso deter o movimento ou dar-lhe outro rumo. Mas, em vez disso, a pessoa continua em linha reta. A vtima dessa brincadeira est, pois, em situao anloga do corredor que cai. O caso cmico pela mesma razo. O risvel em ambas as situaes certa rigidez mecnica onde deveria haver maleabilidade atenta e a flexibilidade viva de uma pessoa. A nica diferena nos dois casos que o primeiro deu-se espontaneamente, enquanto o segundo foi produzido artificialmente. No primeiro caso, o transeunte apenas observava; no segundo, o brincalho experimenta. Entretanto, nos dois casos, uma circunstncia exterior determinou o efeito. O cmico , pois, casual; permanece, por assim dizer, na superfcie da pessoa. Como se interiorizar? Para se re-velar a rigidez mecnica, ser preciso no mais haver um obstculo anteposto pessoa pelo acaso das circunstncias ou pela galhofa de algum. Ser preciso que venha do seu prprio fundo, por uma operao natural, o ensejo incessantemente renovado de se manifestar exteriormente. Imaginemos, pois, um esprito que seja como uma melodia em atraso quanto ao acompanhamento, sempre em relao ao que acaba de fazer, mas nunca em relao ao que est fazendo. Imaginemos certa fixidez natural dos sentidos e da inteligncia, pela qual continuemos a ver o que no mais est vista, ouvir o que j no soa, dizer o que j no convm, enfim, adaptar-se a certa situao passada e imaginria quando nos deveramos ajustar realidade atual. Nesse caso, o cmico se instalar em ns mesmos: teremos dado todos os ingredientes do cmico: matria e forma, causa e ocasio. Surpreender que o desviado (pois esse o personagem que acabamos de descrever) tenha em geral nutrido o chiste dos autores cmicos? Ao deparar com esse tipo humano, La Bruyre compreendeu, ao analis-lo, que dispunha da frmula para a fabricao em massa de efeitos cmicos. E abusou dela. Descreveu Mnalque extensa e minuciosamente, indo e vindo, insistindo, demorando-se exageradamente. A facilidade do tema o retinha. Com o desvio, de fato, talvez no estejamos na </li><li> 10. fonte propriamente do cmico, mas sem dvida em certa corrente de fatos e idias que provm diretamente dela. Estamos com certeza numa das grandes tendncias naturais do riso. Por sua vez, o efeito do desvio pode reforar-se. Verifica-se uma lei geral da qual acabamos de descobrir uma primeira aplicao e que formularemos do seguinte modo: quando certo efeito cmico derivar de certa causa, quanto mais natural a julgarmos tanto maior nos parecer o efeito cmico. Rimos j do desvio que se nos apresenta como simples fato. Mais risvel ser o desvio que virmos surgir e aumentar diante de ns, cuja origem conhecermos e cuja histria pudermos reconstituir. Tomando um exemplo preciso, suponhamos que algum tenha como leitura habitual os romances de amor ou de cavalaria. Atrado e fascinado pelos seus personagens, aos poucos desliga para eles o seu pensamento e a sua vontade. Essa pessoa passa a rondar entre ns como um sonmbulo. Suas aes so desvios. S que esses desvios ligam-se a uma causa conhecida e positiva. No se trata de ausncias pura e simplesmente; eles se explicam pela presena da pessoa num ambiente bem definido, embora imaginrio. Sem dvida, uma queda sempre uma queda, mas uma coisa cair num poo porque se andava no mundo da lua e outra cair porque se olhava para outro lugar. Perfeito exemplo do mundo da lua o caso de D. Quixote. Quanta profundidade de cmico no que ele tem de romanesco e de esprito fantasioso! E, no entanto, se recorrermos noo de desvio que deve servir de intermedirio, veremos essa comicidade profundssima converter-se no cmico mais superficial. De fato, esses espritos quimricos, esses exaltados, esses loucos to estranhamente sensatos nos fazem rir tangendo em ns as mesmas cordas e acionando o mesmo mecanismo interior como a vtima da brincadeira no escritrio ou o transeunte que escorrega e cai na rua. Homens como D. Quixote so tambm corredores que caem, e ingnuos a quem se engana, corredores do ideal que tropeam em realidades, sonhadores cndidos que a vida maliciosamente espreita. Mas sobretudo grandes desviados, com uma superioridade sobre os demais, dado que o seu desvio sistemtico, organizado em torno de uma idia central porque as suas desventuras esto tambm ligadas, bem ligadas pela lgi...</li></ol>