CABELO, CANDOMBLÉ E RESISTÊNCIA: PRECEITO ?· CABELO, CANDOMBLÉ E RESISTÊNCIA: PRECEITO RELIGIOSO…

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    09-Nov-2018

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<ul><li><p>(83) 3322.3222 </p><p>contato@ceduce.com.br </p><p>www.ceduce.com.br </p><p>CABELO, CANDOMBL E RESISTNCIA: PRECEITO RELIGIOSO NO </p><p>COTIDIANO ESCOLAR </p><p> Renato Alves de Carvalho Junior </p><p> UERJ/PROPED renatohistoriauff@gmail.com </p><p>Resumo </p><p>Essa pesquisa de mestrado ainda em curso, partindo das premissas dos estudos nos/dos/com os </p><p>cotidianos, redes educativas e processos culturais, tem o objetivo de observar um grupo de crianas </p><p>iniciadas no candombl a partir de suas vivncias na Escola Municipal Renato Leite, localizada na </p><p>Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro. A partir de suas experincias o presente trabalho pretende </p><p>compreender, especialmente, as dificuldades e desafios de cumprimento dos preceitos religiosos em </p><p>consonncia com as atividades escolares. Considerando o racismo religioso presente nesses </p><p>ambientes, como retornar escola com a cabea raspada aps a iniciao? Quais os efeitos, sociais </p><p>e litrgicos, provocados pela queda e posterior crescimento dos cabelos no contexto do rito </p><p>inicitico? Como a escola se relaciona com as crianas de candombl? </p><p>Palavras-chave: Candombl, Racismo, Cabelo, Crianas de Terreiro. </p><p>Na Nigria, vejo muitas meninas na escola serem extremamente humilhadas por </p><p>no estarem com o cabelo bem ajeitado, s porque um pouco do cabelo que Deus </p><p>lhes deu fica enrolado em lindos cachinhos crespos nas laterais da cabea. Deixe o </p><p>cabelo de Chizalum solto em grandes tranas, embutidas ou no, e no use pentes </p><p>finos que no foram feitos pensando em cabelos como os nossos </p><p>Chimamanda Ngozi Adichie </p><p>Introduo </p><p> A realidade apontada pela autora na epgrafe no exclusividade das escolas nigerianas. No </p><p>Brasil de hoje a manuteno do racismo, sobretudo no ambiente escolar, ocorre principalmente a </p><p>partir da afirmao de esteretipos pejorativos relacionados negritude. Ao escrever acerca da </p><p>identidade negra a partir do cabelo crespo, Nilma Lino Gomes1 enfatiza que a escola o primeiro </p><p>local de rejeio ao corpo negro. Rejeio essa, que por sua vez, est intimamente relacionada ao </p><p> 1 Corpo e cabelo como smbolos da identidade negra, disponvel em http://www.acaoeducativa.org.br/fdh/wp-</p><p>content/uploads/2012/10/Corpo-e-cabelo-como-s%C3%ADmbolos-da-identidade-negra.pdf </p><p>http://www.acaoeducativa.org.br/fdh/wp-content/uploads/2012/10/Corpo-e-cabelo-como-s%C3%ADmbolos-da-identidade-negra.pdfhttp://www.acaoeducativa.org.br/fdh/wp-content/uploads/2012/10/Corpo-e-cabelo-como-s%C3%ADmbolos-da-identidade-negra.pdf</p></li><li><p>(83) 3322.3222 </p><p>contato@ceduce.com.br </p><p>www.ceduce.com.br </p><p>cabelo e suas associaes com a sujeira, o desleixo e a m aparncia. O aspecto mais evidente da </p><p>negritude o cabelo e acaba funcionando com um termmetro social em relao ao racismo. </p><p>Palavras como ruim, bombril e pixaim so constantemente associadas ao cabelo crespo, </p><p>estereotipando-o. </p><p>Contudo, importante ressaltar que desde o contexto da dispora africana o corpo negro se </p><p>torna elemento central para o processo de resistncia ao cativeiro. Como nos mostra Mrcio de </p><p>Jagun sobre o orix s2: </p><p>Bara s. designao do rs s que todo ser humano possui. o s </p><p>que habita em ns. Possivelmente o nome decorre da fuso dos vocbulos </p><p>ba (v. esconder) + ara (s. corpo); ou ba (prep. com, em companhia de) + </p><p>ara (s. corpo). Bara a energia inata, a prpria essncia dos Seres </p><p>Humanos. (Jagun, 2017)3 </p><p>O fragmento acima revela-nos um pouco da concepo de mundo de muitos dos nossos </p><p>ancestrais africanos. Toda a violncia da captura, as incertezas da travessia bordo dos tumbeiros e </p><p>as atrocidades do cativeiro foram superadas a partir da crena de que suas divindades, literalmente, </p><p>habitavam seus corpos. </p><p>Essa mesma matria humana violada pela fome, pelo estupro e pela chibata era a mesma que </p><p>se reerguia e se curava atravs dos banhos de ervas, dos rituais de fechamento do corpo e dos </p><p>processos de iniciao de que a transformavam em altar vivo dos deuses. Cuidar do corpo, portanto, </p><p>era resistncia e existncia, era cuidar das prprias divindades. Tal conjuntura foi imprescindvel </p><p>para a formao do candombl como uma religio brasileira de matriz africana. </p><p>Encrespando com o preconceito e tranando a resistncia a partir da f. </p><p> 2Divindade do panteo afro-brasileiro regente dos mercados, relacionada a comunicao e sexualidade. Erroneamente </p><p>associado ao Diabo cristo. </p><p>3 JAGUN, Mrcio de. Yorub: vocabulrio temtico do candombl/pp. 595; 1 ed. Rio de Janeiro : Litteris, 2017. </p></li><li><p>(83) 3322.3222 </p><p>contato@ceduce.com.br </p><p>www.ceduce.com.br </p><p>1 b o o o </p><p>2 Mo jb ok dor kod ti ro </p><p>3 Mo jb l to dor kod ti sn </p><p>4 Mo jb plb w </p><p>5 Mo jb plb s </p><p>6 Mo jb tles ti burun to fi d jogbolo itan </p><p>1 Saudaes! </p><p>2 Eu sado o pnis que pende para baixo sem pingar </p><p>3 Eu sado a vagina que se abre para baixo sem fluir </p><p>4 Eu sado a palma das mos </p><p>5 Eu sado a sola dos ps </p><p>6 Eu sado a perna lisa desde a sola do p at a </p><p>grossura da coxa </p><p> Nos versos acima percebemos a importncia de cada parte corpo para o funcionamento </p><p>harmonioso da matria humana no seu sentido mais amplo. Desde os ps e as pernas que permitem </p><p>pisarmos no mesmo solo antes pisado pelos ancestrais e garantem a caminhada pela vida, passando </p><p>pelo pnis e a vagina que, quando encaixados, permitem o prazer e a concepo, imprescindveis </p><p>manuteno da existncia, e pelos braos e mos garantidores da fora e responsveis pela </p><p>construo, manipulao dos objetos e manuseio da vida, at chegar a cabea. </p><p>Or, cabea em ioruba, a parte mais importante do corpo e por esta razo possui um culto </p><p>especfico sendo vista tambm como uma divindade. Por ser, geralmente, a primeira parte que vem </p><p>ao mundo no ato do nascimento considerada como mais velha em relao ao restante do corpo. </p><p>A cabea, alm de receptculo das oferendas (cabea fsica - Or de)4, detentora de toda a </p><p>memria ancestral (pr5 registrada na cabea espiritual Or In6) e por isso deve ser cuidada e </p><p>protegida. </p><p> Por estas razes, a cabea precisa ser raspada cuidadosamente para que receba as oferendas </p><p>e possibilite a conexo com a ancestralidade. Nesse contexto, nos momentos posteriores a iniciao </p><p>podemos observar o crescimento do cabelo do iniciado na mesma medida em que vai recobrando </p><p>suas atividades cotidianas, como, no caso de nossas crianas, retornar escola. A partir desse </p><p>retorno ao ambiente escolar que a pesquisa pretende se desenvolver e avanar no que diz respeito </p><p>ao cotidiano das crianas de terreiro observadas nesse campo. </p><p> 4 JAGUN, Mrcio de. Ori: a cabea como divindade. Pp.37/pp. 41 1 ed. Rio de Janeiro : Litteris, 2015 </p><p>5 JAGUN, Mrcio de. Ori: a cabea como divindade. Pp.37/pp. 41 1 ed. Rio de Janeiro : Litteris, 2015 </p><p>6 JAGUN, Mrcio de. Ori: a cabea como divindade. Pp.37/pp. 41 1 ed. Rio de Janeiro : Litteris, 2015 </p></li><li><p>(83) 3322.3222 </p><p>contato@ceduce.com.br </p><p>www.ceduce.com.br </p><p> O aluno L, por exemplo, no ano de sua iniciao parou de frequentar o colgio. At o </p><p>momento da escrita desse texto trabalhamos com a hiptese de que essa deciso foi motivada pelo </p><p>rgido preceito tpico desse momento da vida religiosa e a dificuldade de cumpri-lo em consonncia </p><p>com as regras estabelecidas pela escola. Sobre os interditos do perodo posterior ao recolhimento e </p><p>sobre a raspagem nosso informante suscita outra questo a partir de sua fala: Para mim foi normal. </p><p>Eu sou homem e sempre corto o cabelo. A fala de L dialoga intensamente com a epgrafe e </p><p>possibilita outras reflexes: Ser que para a aluna S, iniciada h poucos meses e que retornou para a </p><p>escola ainda com os cabelos bastante curtos, esse tambm um ponto pacfico? De que maneira a </p><p>aluna S se relaciona com colegas e professores estando careca e de preceito? </p><p>Alguns pensamentos guisa do aprofundamento da pesquisa </p><p> A escola pblica um ambiente extremamente hostil para as crianas e jovens de terreiro, </p><p>como j vem sendo denunciado pela pesquisadora Stela Caputo h mais de 20 anos7. A situao se </p><p>torna ainda mais grave a partir do modelo de Ensino Religioso Confessional que impera no Rio de </p><p>Janeiro. As inmeras crianas que fizeram parte da pesquisa percebiam desde cedo que eram </p><p>discriminadas por serem negras e do candombl. At mesmo as crianas no negras sofriam </p><p>discriminao por serem de uma religio que estigmatizada como de negro, de forma </p><p>depreciativa. </p><p> Dessa maneira, a pretenso da pesquisa aprofundar as questes e reflexes supracitadas </p><p>atravs da observao dos cotidianos das crianas por meio de entrevistas, postagens em redes </p><p>sociais e fotografias. O aluno L e a aluna S so as principais fontes investigadas e, no caso desta, o </p><p>fato de estar cumprindo o preceito enquanto estuda enriquece ainda mais o campo. </p><p>Referncias </p><p>ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Para educar crianas feministas: um manifesto. 1 ed. So Paulo: </p><p>Companhia das Letras, 2017. </p><p>BENISTE, Jos. Dicionrio Yorub Portugus. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011. </p><p>CAPUTO, Stela Guedes. Educao nos terreiros: e como a escola se relaciona com crianas de candombl. </p><p>1 ed. Rio de Janeiro: Pallas, 2012 </p><p> 7CAPUTO, Stela Guedes. Educao nos terreiros e como a escola se relaciona com crianas de candombl. 1 ed. Rio </p><p>de Janeiro : Pallas, 2012. </p></li><li><p>(83) 3322.3222 </p><p>contato@ceduce.com.br </p><p>www.ceduce.com.br </p><p>JAGUN, Mrcio de. Ori: a cabea como divindade. 1 ed. Rio de Janeiro: Litteris, 2015 </p><p>________________ Yorb: Vocabulrio temtico do candombl. 1 ed. Rio de Janeiro: Litteris, 2017. </p></li></ul>