CABELO, CANDOMBLÉ E RESISTÊNCIA: PRECEITO ?· CABELO, CANDOMBLÉ E RESISTÊNCIA: PRECEITO RELIGIOSO…

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    09-Nov-2018

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    CABELO, CANDOMBL E RESISTNCIA: PRECEITO RELIGIOSO NO

    COTIDIANO ESCOLAR

    Renato Alves de Carvalho Junior

    UERJ/PROPED renatohistoriauff@gmail.com

    Resumo

    Essa pesquisa de mestrado ainda em curso, partindo das premissas dos estudos nos/dos/com os

    cotidianos, redes educativas e processos culturais, tem o objetivo de observar um grupo de crianas

    iniciadas no candombl a partir de suas vivncias na Escola Municipal Renato Leite, localizada na

    Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro. A partir de suas experincias o presente trabalho pretende

    compreender, especialmente, as dificuldades e desafios de cumprimento dos preceitos religiosos em

    consonncia com as atividades escolares. Considerando o racismo religioso presente nesses

    ambientes, como retornar escola com a cabea raspada aps a iniciao? Quais os efeitos, sociais

    e litrgicos, provocados pela queda e posterior crescimento dos cabelos no contexto do rito

    inicitico? Como a escola se relaciona com as crianas de candombl?

    Palavras-chave: Candombl, Racismo, Cabelo, Crianas de Terreiro.

    Na Nigria, vejo muitas meninas na escola serem extremamente humilhadas por

    no estarem com o cabelo bem ajeitado, s porque um pouco do cabelo que Deus

    lhes deu fica enrolado em lindos cachinhos crespos nas laterais da cabea. Deixe o

    cabelo de Chizalum solto em grandes tranas, embutidas ou no, e no use pentes

    finos que no foram feitos pensando em cabelos como os nossos

    Chimamanda Ngozi Adichie

    Introduo

    A realidade apontada pela autora na epgrafe no exclusividade das escolas nigerianas. No

    Brasil de hoje a manuteno do racismo, sobretudo no ambiente escolar, ocorre principalmente a

    partir da afirmao de esteretipos pejorativos relacionados negritude. Ao escrever acerca da

    identidade negra a partir do cabelo crespo, Nilma Lino Gomes1 enfatiza que a escola o primeiro

    local de rejeio ao corpo negro. Rejeio essa, que por sua vez, est intimamente relacionada ao

    1 Corpo e cabelo como smbolos da identidade negra, disponvel em http://www.acaoeducativa.org.br/fdh/wp-

    content/uploads/2012/10/Corpo-e-cabelo-como-s%C3%ADmbolos-da-identidade-negra.pdf

    http://www.acaoeducativa.org.br/fdh/wp-content/uploads/2012/10/Corpo-e-cabelo-como-s%C3%ADmbolos-da-identidade-negra.pdfhttp://www.acaoeducativa.org.br/fdh/wp-content/uploads/2012/10/Corpo-e-cabelo-como-s%C3%ADmbolos-da-identidade-negra.pdf

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    cabelo e suas associaes com a sujeira, o desleixo e a m aparncia. O aspecto mais evidente da

    negritude o cabelo e acaba funcionando com um termmetro social em relao ao racismo.

    Palavras como ruim, bombril e pixaim so constantemente associadas ao cabelo crespo,

    estereotipando-o.

    Contudo, importante ressaltar que desde o contexto da dispora africana o corpo negro se

    torna elemento central para o processo de resistncia ao cativeiro. Como nos mostra Mrcio de

    Jagun sobre o orix s2:

    Bara s. designao do rs s que todo ser humano possui. o s

    que habita em ns. Possivelmente o nome decorre da fuso dos vocbulos

    ba (v. esconder) + ara (s. corpo); ou ba (prep. com, em companhia de) +

    ara (s. corpo). Bara a energia inata, a prpria essncia dos Seres

    Humanos. (Jagun, 2017)3

    O fragmento acima revela-nos um pouco da concepo de mundo de muitos dos nossos

    ancestrais africanos. Toda a violncia da captura, as incertezas da travessia bordo dos tumbeiros e

    as atrocidades do cativeiro foram superadas a partir da crena de que suas divindades, literalmente,

    habitavam seus corpos.

    Essa mesma matria humana violada pela fome, pelo estupro e pela chibata era a mesma que

    se reerguia e se curava atravs dos banhos de ervas, dos rituais de fechamento do corpo e dos

    processos de iniciao de que a transformavam em altar vivo dos deuses. Cuidar do corpo, portanto,

    era resistncia e existncia, era cuidar das prprias divindades. Tal conjuntura foi imprescindvel

    para a formao do candombl como uma religio brasileira de matriz africana.

    Encrespando com o preconceito e tranando a resistncia a partir da f.

    2Divindade do panteo afro-brasileiro regente dos mercados, relacionada a comunicao e sexualidade. Erroneamente

    associado ao Diabo cristo.

    3 JAGUN, Mrcio de. Yorub: vocabulrio temtico do candombl/pp. 595; 1 ed. Rio de Janeiro : Litteris, 2017.

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    1 b o o o

    2 Mo jb ok dor kod ti ro

    3 Mo jb l to dor kod ti sn

    4 Mo jb plb w

    5 Mo jb plb s

    6 Mo jb tles ti burun to fi d jogbolo itan

    1 Saudaes!

    2 Eu sado o pnis que pende para baixo sem pingar

    3 Eu sado a vagina que se abre para baixo sem fluir

    4 Eu sado a palma das mos

    5 Eu sado a sola dos ps

    6 Eu sado a perna lisa desde a sola do p at a

    grossura da coxa

    Nos versos acima percebemos a importncia de cada parte corpo para o funcionamento

    harmonioso da matria humana no seu sentido mais amplo. Desde os ps e as pernas que permitem

    pisarmos no mesmo solo antes pisado pelos ancestrais e garantem a caminhada pela vida, passando

    pelo pnis e a vagina que, quando encaixados, permitem o prazer e a concepo, imprescindveis

    manuteno da existncia, e pelos braos e mos garantidores da fora e responsveis pela

    construo, manipulao dos objetos e manuseio da vida, at chegar a cabea.

    Or, cabea em ioruba, a parte mais importante do corpo e por esta razo possui um culto

    especfico sendo vista tambm como uma divindade. Por ser, geralmente, a primeira parte que vem

    ao mundo no ato do nascimento considerada como mais velha em relao ao restante do corpo.

    A cabea, alm de receptculo das oferendas (cabea fsica - Or de)4, detentora de toda a

    memria ancestral (pr5 registrada na cabea espiritual Or In6) e por isso deve ser cuidada e

    protegida.

    Por estas razes, a cabea precisa ser raspada cuidadosamente para que receba as oferendas

    e possibilite a conexo com a ancestralidade. Nesse contexto, nos momentos posteriores a iniciao

    podemos observar o crescimento do cabelo do iniciado na mesma medida em que vai recobrando

    suas atividades cotidianas, como, no caso de nossas crianas, retornar escola. A partir desse

    retorno ao ambiente escolar que a pesquisa pretende se desenvolver e avanar no que diz respeito

    ao cotidiano das crianas de terreiro observadas nesse campo.

    4 JAGUN, Mrcio de. Ori: a cabea como divindade. Pp.37/pp. 41 1 ed. Rio de Janeiro : Litteris, 2015

    5 JAGUN, Mrcio de. Ori: a cabea como divindade. Pp.37/pp. 41 1 ed. Rio de Janeiro : Litteris, 2015

    6 JAGUN, Mrcio de. Ori: a cabea como divindade. Pp.37/pp. 41 1 ed. Rio de Janeiro : Litteris, 2015

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    O aluno L, por exemplo, no ano de sua iniciao parou de frequentar o colgio. At o

    momento da escrita desse texto trabalhamos com a hiptese de que essa deciso foi motivada pelo

    rgido preceito tpico desse momento da vida religiosa e a dificuldade de cumpri-lo em consonncia

    com as regras estabelecidas pela escola. Sobre os interditos do perodo posterior ao recolhimento e

    sobre a raspagem nosso informante suscita outra questo a partir de sua fala: Para mim foi normal.

    Eu sou homem e sempre corto o cabelo. A fala de L dialoga intensamente com a epgrafe e

    possibilita outras reflexes: Ser que para a aluna S, iniciada h poucos meses e que retornou para a

    escola ainda com os cabelos bastante curtos, esse tambm um ponto pacfico? De que maneira a

    aluna S se relaciona com colegas e professores estando careca e de preceito?

    Alguns pensamentos guisa do aprofundamento da pesquisa

    A escola pblica um ambiente extremamente hostil para as crianas e jovens de terreiro,

    como j vem sendo denunciado pela pesquisadora Stela Caputo h mais de 20 anos7. A situao se

    torna ainda mais grave a partir do modelo de Ensino Religioso Confessional que impera no Rio de

    Janeiro. As inmeras crianas que fizeram parte da pesquisa percebiam desde cedo que eram

    discriminadas por serem negras e do candombl. At mesmo as crianas no negras sofriam

    discriminao por serem de uma religio que estigmatizada como de negro, de forma

    depreciativa.

    Dessa maneira, a pretenso da pesquisa aprofundar as questes e reflexes supracitadas

    atravs da observao dos cotidianos das crianas por meio de entrevistas, postagens em redes

    sociais e fotografias. O aluno L e a aluna S so as principais fontes investigadas e, no caso desta, o

    fato de estar cumprindo o preceito enquanto estuda enriquece ainda mais o campo.

    Referncias

    ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Para educar crianas feministas: um manifesto. 1 ed. So Paulo:

    Companhia das Letras, 2017.

    BENISTE, Jos. Dicionrio Yorub Portugus. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.

    CAPUTO, Stela Guedes. Educao nos terreiros: e como a escola se relaciona com crianas de candombl.

    1 ed. Rio de Janeiro: Pallas, 2012

    7CAPUTO, Stela Guedes. Educao nos terreiros e como a escola se relaciona com crianas de candombl. 1 ed. Rio

    de Janeiro : Pallas, 2012.

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    JAGUN, Mrcio de. Ori: a cabea como divindade. 1 ed. Rio de Janeiro: Litteris, 2015

    ________________ Yorb: Vocabulrio temtico do candombl. 1 ed. Rio de Janeiro: Litteris, 2017.

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