Can management and organization knowledge speak portuguese?

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    08-Jan-2017

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  • PODE O CONHECIMENTO EM GESTO E ORGANIZAO FALAR PORTUGUS? CAN MANAGEMENT AND ORGANIZATION KNOWLEDGE SPEAK PORTUGUESE?PUEDE EL CONOCIMIENTO EN GESTIN Y ORGANIZACIN HABLAR PORTUGUS?

    O objetivo deste artigo questionar se o conheci-mento em gesto e organizao (CGO) pode falar um idioma diferente do Ingls e discutir como a hegemo-nia deste idioma no campo cientfico tem contribu-do para a reproduo da mesma lgica colonial que por sculos impediu os nativos de produzirem sen-tido acerca do que pensavam, falavam e escreviam. Mostramos que o principal instrumento de poder que garante esta hegemonia o controle dos crit-

    rios de publicao e circulao do CGO, que tende a marginalizar tudo o que produzido fora da base lingustica controlada pelo Norte. O principal efeito desta lgica a submisso dos pesquisadores nativos ao controle do Norte, colocando-os na condio su-balterna, condenados em sua prpria terra a operar segundo uma lgica externa, que define o que e o que no conhecimento cientfico de qualidade na rea de gesto e organizao.

    RESUMO

    PALAVRAS-CHAVE Ps-colonialismo, produo cientfica, translocalidade, conhecimento cientfico, lngua inglesa.

    ARTIGO CONVIDADO

    Abstract This papers objective is to question whether management and organization knowledge (MOK) is able to speak a language other than English and discuss how the hegemony of this language in the scientific field has contributed to the reproduction of the same colonial logic that for centuries prevented native peoples from making sense of what they thought, spoke and wrote. We show that the main instrument of power that guarantees this hegemony is control over the criteria used for the publication and circulation of MOK, which tends to marginalize everything that is produced outside the linguistic basis controlled by the North. The main effect of this logic is that native researchers submit to control by the North; they find themselves in a subaltern position, condemned in their own country to operate under an external logic that defines what is and what is not quality scientific knowledge in the management and organizational field.keywords Post-colonialism, scientific production, translocality, scientific knowledge, English language.

    Resumen El objetivo de este artculo es cuestionar si el conocimiento en gestin y organizacin (CGO) se puede hablar un idioma diferente del Ingls y discutir cmo la hegemona de este idioma en el campo cientfico hay contribuido para la reproduccin de la misma lgica colonial que por siglos impidi los nativos de produjeren sentido acerca de lo que pensaban, hablaban y escriban. Mostramos que el principal instrumento de poder que garantiza esta hegemona es el control de los criterios de publicacin y circulacin del CGO, que tiende a marginar todo lo que es producido fuera de la base lingstica controlada por el Norte. El principal efecto de esta lgica es la sumisin de los investigadores nativos al control del Norte, ponindoles en una condicin subalterna, condenados en su propio territorio a operaren segn una lgica externa, que es la que define lo que es y lo que no es conocimiento cientfico de cualidad en el rea de gestin y organizacin.Palabras clave Postcolonialismo, produccin cientfica, translocalidad, conocimiento cientfico, lengua Inglesa.

    Alexandre Reis Rosa areis@espm.brProfessor do Departamento de Organizaes e Recursos Humanos, Escola Superior de Propaganda e Marketing So Paulo SP, Brasil

    Mario Aquino Alves mario.alves@fgv.brProfessor da Escola de Administrao de Empresas de So Paulo, Fundao Getulio Vargas So Paulo SP, Brasil

    ARTIGOS

    RAE n So Paulo n v. 51 n n.3 n maio/jun. 2011 n 255-264 w 255ISSN 0034-7590

  • Minha ptria a lngua portuguesa. Nada me

    pesaria que invadissem ou tomassem Portugal,

    desde que no me incomodassem pessoalmente.

    Fernando Pessoa

    Na epgrafe, o poeta portugus Fernando Pessoa deixa claro que o seu compromisso com a lngua e no com o pas. O que o faz se sentir portugus no o fato de pertencer a um territrio politicamente demar-cado, mas sim pertencer a uma comunidade lingustica capaz de produzir sentido ao que pensamos, falamos e escrevemos. Considerando que a lngua portuguesa se espalhou por diversos territrios fora de Portugal, sua capacidade de produzir sentido no depende de um territrio. Trata-se de um fenmeno translocal que, por meio do colonialismo portugus, se imps sobre outras comunidades lingusticas, colocando-se como lngua oficial de todas as colnias portuguesas, entre as quais o Brasil (THOMAZ, 2007).

    Assim como o colonialismo francs e britnico, que tambm se estabeleceu sobre as lnguas nativas, impon-do seus idiomas como lnguas oficiais, a coroa portu-guesa criou uma base comum de comunicao entre as colnias, facilitando o fluxo de informaes, pessoas e mercadorias. Esse fluxo, porm, era assimtrico, ou seja, do Sul para o Norte seguia apenas matria-prima, do Norte para o Sul seguiam os produtos manufaturados, a literatura, a tecnologia e, no caso do Brasil colonial, em 1808, esse fluxo trouxe um Estado inteiro, com sistema poltico, jurdico, econmico e cultural (veja FAUSTO, 1995). O domnio portugus sobre a base lingustica que sustentava todas essas estruturas garantia-lhe um sentido de progresso e de desenvolvimento para a colnia. Como o fluxo se manteve assimtrico por s-culos, os povos nativos viram-se impedidos de produzir sentido fora da estrutura de poder colonial, tornando-se um condenado em sua prpria terra, um sujeito subal-terno fadado a seguir um destino externo, determinado pelo sujeito europeu (FANON, 1965).

    Quando analisamos o contexto ps-colonial, observamos os mesmos princpios do colonialismo europeu ainda em funcionamento: (1) a desterritoria-lizao das estruturas polticas, econmicas e lingusti-cas; (2) um fluxo assimtrico de informaes, pessoas e mercadorias entre o Norte e o Sul global; e (3) a impossibilidade de se produzir sentido fora da estru-

    tura de poder colonial. Dentro desse contexto, ocorre a formao de um campo cientfico internacional, comprometido mais com os aspectos translocais da sua produo (APPADURAI, 1996) do que com a din-mica interna dos seus pases, tal qual afirma o poeta Fernando Pessoa. Trata-se de uma comunidade cien-tfica internacional, cuja base lingustica comum tem sido o idioma ingls visto como lngua franca da cincia e a hierarquia dos grupos estabelecida pela tradicional dicotomia Norte/Sul. Sendo o Norte e o Sul entendidos aqui como uma metfora para designar os pases do hemisfrio Norte, leia-se Europa e Estados Unidos da Amrica (EUA), em contraponto aos pases do hemisfrio Sul, formado pelo conjunto de pases e regies do mundo que foram submetidos ao colonialismo europeu e que no atingiram nveis de desenvolvimento econmico semelhantes aos do Norte (SANTOS, 1995).

    O primeiro problema dessa base lingustica comum que ela atende perfeitamente aos interesses dos pases do Norte global que controlam o centro da produo de conhecimento cientfico mundial. No que se refere ao Conhecimento em Gesto e Organizao (CGO), os EUA dividem o controle desse centro com o Reino Unido (UK). Assim, todo o conhecimento produzido nesse centro no obedece mais s fronteiras territoriais, assumem um carter global e se espalham pelo mun-do afora como um conhecimento global sobre gesto e organizao (BOYACIGILLER, ADLER, 1991).

    O segundo problema que, ao definir o ingls com base lingustica comum, excluem-se outras ln-guas e o fluxo de informaes entre o Norte e o Sul comea a operar em apenas um sentido: do Norte para o Sul. Se o circuito global de produo de co-nhecimento cientfico opera apenas sob o idioma in-gls, ento se torna invivel que uma pesquisa feita em outra lngua circule nesse circuito (veja MERILI-NEN e outros, 2008). Assim, chegamos ao terceiro problema gerado pelo domnio do idioma ingls: a impossibilidade de o sujeito subalterno falar. Ele fica condenado a no se expressar em sua lngua nativa, sendo obrigado a se mover nos limites autorizados pela estrutura de poder controlada pelo Norte Glo-bal, isto , em ingls.

    Nosso objetivo neste artigo questionar se o CGO pode falar idioma diferente do ingls e discutir como a hegemonia desse idioma no campo cientfico tem contri-budo para a reproduo da mesma lgica colonial que por sculos impediu os nativos de produzirem sentido

    ARTIGOS n PODE O CONHECIMENTO EM GESTO E ORGANIZAO FALAR PORTUGUS?

    ISSN 0034-7590256 w RAE n So Paulo n v. 51 n n.3 n maio/jun. 2011 n 255-264

  • acerca do que pensavam, falavam e escreviam. Mostra-mos que o principal instrumento de poder que garante essa hegemonia o controle dos critrios de publicao e circulao do CGO, o qual tende a marginalizar tudo o que produzido fora da base lingustica controlada pelo Norte. O principal efeito dessa lgica a submisso dos pesquisadores do Sul ao controle do Norte, colocando-os na condio subalterna, condenados em sua prpria terra a operar segundo uma lgica externa, a qual de-fine o que e o que no conhecimento cientfico de qualidade na rea de gesto e organizao.

    INGLS COMO LNGUA GLOBAL

    Nas ltimas dcadas, a pluralidade de idiomas no campo especfico da produo cientfica tem diminudo com a proeminncia do ingls, o que tem gerado um modelo assimtrico de relaes entre as lnguas, criando formas especficas de hierarquia que representam relaes de poder diferenciadas no campo da cincia (HAMEL, 2007). Segundo De Swaan (1993), at o fim da Primeira Guer-ra Mundial, o ingls pertencia a um pequeno grupo de lnguas dominantes, chamadas de lnguas supercentrais (francs, espanhol, russo, chins, japons, rabe, hndi, alemo e portugus), que dominavam na produo cien-tfica mundial. Aps a Segunda Guerra Mundial, contu-do, o ingls, como lngua dominante, assumiu o papel de lngua hipercentral. Com efeito, sua expanso vem tornando todas as demais lnguas perifricas, absorvendo suas funes na maioria dos fruns internacionais. Assim, emerge um novo processo mundial de bilinguismo: todos falam a sua lngua nativa e, ao mesmo tempo, adotam o ingls como sua nica lngua estrangeira (CRYSTAL, 1997).

    Esse processo de expanso do ingls pelo mundo tem sido analisado, ao mesmo tempo, como oportuni-dade e como ameaa (KUSHNER, 2003). A primeira de-fende a hegemonia do ingls pela sua funcionalidade de promover uma base neutra de comunicao, como uma lngua franca que facilita a comunicao entre os grupos (CRYSTAL, 1997). A segunda, por sua vez, no aceita a suposta neutralidade desse processo. Ao contrrio, assume um posicionamento crtico sobre a expanso do ingls, encarando-a como uma relao de poder que gera uma srie de injustias, desigualdades e discriminaes na medida em que coloca o ingls no centro da produo de conhecimento no mundo e empurra todas as outras lnguas para a periferia dessa produo (PHILIPSON, 1992).

    Dentro dessa perspectiva crtica, Ortiz (2004) argu-

    menta que esse domnio do ingls como lngua franca das cincias naturais poderia at mesmo funcionar e tornar o intercmbio de ideias mais equitativo, porm, faz a ressalva de que, no campo das cincias humanas, isso seria impossvel, pois a lngua fundamental na construo do objeto social na medida em que se re-fere ao sentido atrelado s especificidades histricas e geogrficas de um dado contexto. Assim, a produo cientfica deve atender pluralidade idiomtica desses diversos contextos. Quando uma lngua predomina, portanto, isso ocorre porque h uma hierarquizao de poder no mercado de bens lingusticos, que, como ser mostrado mais adiante, reflete uma falsa aproximao entre o particular e o universal. Dessa forma, abre-se uma nova forma de dominao, caracterizada pelo do-mnio do cdigo lingustico (PEASE, 2005).

    Com o domnio do idioma ingls, os pesquisado-res do Norte se colocam numa posio privilegiada, j que conseguem controlar toda a produo e o flu-xo de informao cientfica por meio dos canais de distribuio (peridicos) e das agncias voltadas para o financiamento de determinados temas de pesquisa (MERILINEN e outros, 2008). Assim, se o pesquisa-dor do Sul deseja participar dessas arenas, e, como consequncia, ocupar posies de poder no centro do campo cientfico, deve, necessariamente, abandonar a sua lngua nativa e submeter-se lngua hegemni-ca. Essa submisso depender da permeabilidade das culturas nativas s foras exgenas, em particular ao discurso anglfono (ou voz do Norte Global).

    GEOPOLTICA EPISTMICA E A GLOBALIZAO DO CONHECIMENTO

    O conhecimento sobre Gesto e Organizao assume hoje um status global, pois amplamente dissemina-do por meio de revistas cientficas e de negcios, e tambm pelos cursos oferecidos para gerentes e estu-dantes de todo o mundo. Trata-se de uma disciplina global (BOYACIGILLER, ADLER, 1991), cujos conte-dos produzidos principalmente pelos EUA so vistos muitas vezes como universais e supostamen-te transferveis, sem maiores problemas, para outros contextos (FRENKEL, SHENHAV, 2003).

    A lgica por detrs desse processo, segundo Migno-lo (2002), est atrelada a um contexto mais amplo, em que epistemologias so produzidas a partir de uma linha divisria que hierarquiza os saberes e subordina o que pensado localmente (visto como particular) ao que

    Alexandre Reis Rosa n Mario Aquino Alves

    RAE n So Paulo n v. 51 n n.3 n maio/jun. 2011 n 255-264 w 257ISSN 0034-7590

  • pensado globalmente (visto como universal). Essa rela-o desigual de saber-poder, a qual conduziu supres-so de muitos saberes prprios dos povos colonizados, denominada colonialidade do poder por Quijano (2000) e forma como essa diferena epistemolgica foi (re)produzida, Santos (2007) denomina de pensamento abissal. Ambos operam no sentido de definir unilate-ralmente as linhas que dividem experincias, saberes e atores sociais em dois grupos que habitam cada lado do abismo: de um lado, esto os saberes hegemni-cos, teis, inteligveis e visveis produzidos pelo Norte. De outro, os saberes subalternos, inteis ou perigosos, ininteligveis e invisveis produzidos pelo Sul.

    Essa configurao tem incio com a prpria con-cepo das ideias de modernidade e colonialismo (veja ESCOBAR, 2007; DUSSEL, 1993), que se desenvolveram por meio das seguintes operaes epistmicas: (1) forte nfase na localizao das origens da modernidade nas grandes navegaes, que propiciaram a conquista da Amrica e o controle do Atlntico; (2) maior ateno aos fenmenos do colonialismo e da construo do sistema-mundo capitalista como constitutivos da modernidade; (3) adoo de uma perspectiva de mundo na explica-o da modernidade, em consonncia com uma viso da modernidade como um fenmeno intra-europeu; (4) identificao da dominao dos outros povos no euro-peus como uma dimenso necessria da modernidade, com a consequente subalternizao do conhecimento e da cultura desses outros povos; e (5) concepo do eurocentrismo como a forma de conhecimento da mo-dernidade, o que , simultaneamente, uma represen-tao hegemnica e um modo de saber que advoga a universalidade para si, assentado em uma confuso entre a universalidade abstrata e a hegemonia mundial deri-vada da posio central ocupada pelos pases do Norte.

    Angel Rama (1985) mostrou qu...

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