Charles Dickens - Loja de Antiguidades

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    29-Oct-2015

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CHARLES DICKENS LOJA DE ANTIGUIDADES Traduo Ana Macedo e Sousa

CAPITULO I

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de noite que mais gosto de passear. Muitas vezes, no Vero, saio de casa logo de m anh e vagueio o dia todo por ruas e azinhagas, ou desapareo durante dias ou mesmo semanas, mas, a no ser quando estou no campo, raramente saio antes do anoit ecer, embora, louvado seja Deus, como qualquer outra criatura, eu goste da luz e sinta a alegria que ela espalha sobre a terra. Adquiri este hbito quase sem dar por isso: em primeiro lugar, porque me ajuda um pouco na minha doena e, depois, porque favorece a minha tendncia natural para especular sobre os temperamentos e ocupaes daqueles que se cruzam comigo pelas rua s. A luz e a agitao do meio-dia no se adaptam ao meu deambular ocioso. A observao momentnea de rostos iluminados por um candeeiro de rua ou uma montra iluminada se rvem melhor os meus intuitos do que a sua plena revelao luz do dia, e, a falar a verdade, a noite mais favorvel neste aspecto do que o dia, que muitas vezes, se m cerimnia nem remorso, destri o castelo no ar que acabmos de construir. O constante movimento, o eterno bulcio, o constante bater dos ps, alisando as pedr as speras... no espantoso como as pessoas que vivem em ruelas estreitas conseguem suporta-

-lo? Imaginem um homem doente num local como St. Martin's Court, a ouvir os pass os, que no meio da dor e sofrimento, fosse obrigado, como se se tratasse de uma sua obrigao, que tivesse de cumprir, a distinguir os passos da criana dos passos do adu lto, o rudo das chinelas do mendigo do das botas do elegante, o taco arrastado do indolente do rpido pisar do homem ocupado na busca do prazer. Pensem nos rudos e barulhos sempre presentes aos seus sentidos, e na corrente da vida que no pra de correr, correr, correr atravs dos seus sonhos agitados, como se ele estives se condenado a estar ali, morto, mas consciente, num cemitrio barulhento, sem esperana de repouso ao longo dos sculos. Depois, observo as multides a passar vezes sem conta pelas pontes (pelo menos por aquelas onde no se paga portagem) onde nas noites de calmaria muitos param a olhar calmamente para a gua, pensando vagamente que ela mais adiante corre por en tre socalcos verdes que vo alargando at se juntarem ao mar sem fim, onde outros param para descansar, pousando os seus pesados fardos e, olhando por cima do par apeito, pensam que fumar e preguiar a vida toda, e dormir deitados ao Sol, deitad os sobre a coberta de oleado de um barco vagaroso, certamente a maior das felicidad es, e onde outros ainda, de uma classe muito diferente, fazem uma breve paragem, carregados com fardos maiores ainda, lembrando-se de ter ouvido ou lido em qualq uer stio que morrer afogado no uma morte terrvel, mas sim o mais fcil e o melhor dos suicdios. Tambm gosto do mercado de Covent Garden, ao amanhecer, na Primavera e no Vero, qua

ndo a doce fragrncia das flores paira no ar, sobrepondo-se aos odores doentios das orgias da noite anterior, e pondo o pobre tordo, cuja gaiola ficou toda a no ite pendurada janela de um sto, meio louco de felicidade! Pobre pssaro! A nica coisa ali, semelhante s flores, tambm elas prisioneiras! Algumas, cadas das mos quen tes de compradores embriagados, jazem cadas por terra, enquanto outras, murchas pelo contacto umas com as outras, esperam o momento em que viro reg-las e refresc-las de forma a agrad arem a compradores mais sbrios, e darem a velhos empregados de escritrio que por ali passam a iluso de uma viso campestre. Mas a minha inteno neste momento no divagar acerca dos meus passeios. A histria que pretendo contar nasceu de uma dessas minhas caminhadas, e foi isso que me levou a referi-las, guisa de prefcio. Uma noite, tinha-me dirigido cidade, ia caminhando lentamente, como meu hbito, de ixando que o meu pensamento corresse veloz, rdea solta, quando fui surpreendido por uma pergunta cujo sentido no entendi imediatamente, mas que parecia ser-me di rigida, numa voz doce e suave que me deixou agradavelmente surpreendido. Volteime bruscamente e vi ento a meu lado uma bonita rapariguinha que me pediu que lhe dissesse o caminho para uma rua bastante distante, noutro bairro da cidade. - Fica muito longe daqui, minha filha - respondi-lhe. - Eu sei - disse ela timidamente. - Eu sei que muito longe, foi de l que vim esta noite. - Sozinha? - perguntei com alguma surpresa. - Sim, no faz mal, mas agora estou com um bocadinho de medo, porque me perdi pelo caminho. - E porque que me perguntaste a mim? E se eu te enganasse? - Eu sei que o senhor no me fazia isso - disse a criaturinha. -J to velho, e tambm a nda to devagar... No saberei descrever a forma como este pedido me impressionou, a energia com que me foi dirigido, a lgrima que brilhava nos seus olhos claros e o seu rosto trmulo que me fitava. - Vem comigo - disse-lhe eu. - Eu vou-te l levar. Ela deu-me a mo to confiante como se me conhecesse desde o bero, e pusemo-nos junto s ao caminho. A criana acertou o seu passo pelo meu, e mais parecia ser ela quem me conduzia e tomava conta de mim do que eu quem a

protegia. Reparei que de vez em quando me deitava um olhar curioso, como para se certificar de que eu no a estava a enganar, e cada um desses olhares, rpidos e furtivos, parecia aumentar a sua confiana em mim. Pela minha parte, a minha curiosidade e o meu interesse por ela eram no mnimo equ ivalentes ao interesse da criana por mim, porque de uma criana se tratava, embora me tivesse parecido que o seu aspecto infantil se devia em parte sua constituio de licada. No estava muito agasalhada, mas estava limpa e no dava mostras de pobreza ou desmazelo.

- Quem que te mandou to longe sozinha? - perguntei. - Uma pessoa que muito boa para mim. - E que foste tu fazer? - Isso eu no posso dizer - disse a pequena com firmeza. Houve nesta sua resposta qualquer coisa que me fez olhar para a pequena criatura com uma involuntria expresso de surpresa. Perguntava-me a mim prprio que espcie de recado poderia ser para que ela tivesse de antemo uma resposta preparada para o caso de lhe fazerem perguntas. Pareceu ler-me os p ensamentos, pois ao cruzar os seus olhos com os meus acrescentou que no tinha ido fazer nada de mal, mas que era um grande segredo, um segredo que nem ela prpria c onhecia. Enquanto dizia isto, no parecia esconder astcia nem falsidade, mas sim uma franque za confiante que trazia a marca da verdade. Ela continuava a andar como h pouco, medida que prosseguamos o nosso caminho tornava-se-me mais familiar, conversando alegremente, mas sem adiantar mais nada sobre a sua casa para alm de comentar que estvamos seguindo por outro caminho e perguntar se era mais curto. Entretanto, eu ia revolvendo na minha cabea uma centena de possveis explicaes para o enigma e ia-as rejeitando uma a uma. Sentia-me envergonhado de me estar a aproveitar da ingenuidade e do sentimento de gratido da criana com o intuito de satisfazer a minha curiosidade. Eu gosto de crianas, e quando elas, ainda to cheias da graa de Deus, nos amam, isso uma coisa e xtraordinria. A confiana que esta criana depositara em mim tinha-me agradado e decidi-me a merec-la, prestando assim homenagem natureza que a levara a confiar em mim. No havia, no entanto, razo para que me abstivesse de ver a pessoa que a tinha envi ado a uma distncia to grande, sozinha e de noite, com tanta falta de considerao e, como podia suceder que ela, quando se visse perto de casa, se despedisse de m im privando-me assim dessa oportunidade, evitei as ruas mais frequentadas e tome i o caminho mais complicado, pelo que foi s quando chegmos rua onde morava que a min ha amiguinha percebeu onde estava. Bateu palmas de contentamento, correu um pouco minha frente, em seguida parou junto a uma porta e, ficando junto ao degra u, esperou que eu chegasse at junto dela, e s ento bateu porta. Uma parte desta porta era de vidro e no estava protegida por gelosias, mas esse d etalhe no dei por ele imediatamente, uma vez que estava tudo muito escuro e silen cioso, e eu estava ansioso, como a criana estava tambm, por uma resposta nossa chamada. B ateu duas ou trs vezes, em seguida ouviu-se um rudo de algum que se movia l dentro e, aps um bocado, uma plida luz surgiu atravs do vidro, aproximando-se lent amente, como se a pessoa que a segurava tivesse de abrir caminho por entre uma grande quantidade de objectos espalhados, e assim compreendi que tipo de pes soa era que avanava e qual o tipo de lugar por onde avanava. Era um velhinho de cabelos compridos grisalhos, e medida que se aproximava, segu rando a luz acima da cabea e olhando em frente, eu conseguia ver perfeitamente o seu rosto e o seu vulto. Apesar de muito enrugado, pareceu-me reconhecer nos s eus traos secos e magros alguma coisa dos traos delicados que notara na pequena.

Os seus olhos azuis, brilhantes, certamente se assemelhavam, mas o rosto dele es tava to marcado pela velhice e pelas preocupaes que toda a parecena cessava a.

O lugar atravs do qual ele tinha lentamente aberto caminho era um daqueles depsito s de velharias e curiosidades que parecem encafuados nos mais inesperados cantos desta cidade, escondendo os seus tesouros poeirentos dos olhos do pblico com sofr eguido e desconfiana. Havia armaduras de ferro pelos cantos, erectas como fantasma s, esculturas fantsticas trazidas de claustros de conventos, armas ferrugentas de vri os tipos, estranhas estatuetas de porcelana, madeira, ferro e marfim, tapearias e estranhas peas de mobilirio que mais pareciam ter sido desenhadas em sonhos. O v elhinho tinha um aspecto doentio que condizia perfeitamente com o local. Ele parecia o tipo de pessoa capaz de ter andado a rebuscar entre velhas igrejas, tmu los e casas abandonadas. No havia em toda a coleco nada que no estivesse a condizer com ele. Nada que parecesse mais velho ou mais gasto do que ele. Deu a volta chave, olhando-me com uma surpresa que no diminuiu quando olhou a peq uena. Quando a porta se a