Cien CIA Com Con Cien CIA

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    20-Oct-2015

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  • O sculo 20 tem sido um sculo fecundo para a cincia, no qual desafios novos so colocados competncia explicativa das teorias, hipteses, premissas e leis fundado-ras do pensamento cientfico moderno. A re-latividade de Einstein, a microfsica, a ter-modinmica, a microbiologia tm ampliado o universo das indagaes dos cientistas, que cada vez mais se vem confrontados com novas verdades e com incertezas sobre algumas verdades h muito estabelecidas. Alm disso, novos campos de aplicao e novos usurios dos conhecimentos gerados nos laboratrios do to restrito universo da academia suscitam, felizmente, uma neces-sria reflexo tica no meio acadmico e fo-ra dele.

    Cincia com conscincia enfrenta o du-plo desafio: apontar problemas ticos e mo-rais da cincia contempornea, cujos mlti-plos e prodigiosos poderes de manipulao, nascidos das tecnocincias, tm imposto ao cientista, ao cidado e humanidade inteira o problema do controle poltico das desco-bertas cientficas, e a necessidade epistemo-lgica de um novo paradigma que rompa os limites do determinismo e da simplificao, e incorpore o acaso, a probabilidade e a in-certeza como parmetros necessrios com-preenso da realidade.

    Retomando a discusso sobre a cincia moderna, Edgar Morin critica o paradigma clssico que se fundava na suposio de que a complexidade do mundo dos fenmenos podia e devia resolver-se a partir de princ-pios simples e leis gerais. Estes princpios, que se revelaram fecundos para o progresso tanto da fsica newtoniana como da relativi-dade einsteiniana e da natureza fsico-qu-mica de todo organismo, no so mais sufi-cientes para considerar a complexidade da partcula subatmica, da realidade csmica e dos progressos da microbiologia. Assim, enquanto a cincia clssica dissolvia a com-plexidade aparente dos fenmenos para re-velar a simplicidade oculta das leis imut-veis da natureza, hoje a complexidade co-

    mea a aparecer, no como inimigo a elimi-nar, mas como um desafio a ser superado. Para o autor, enfrentar a complexidade do real significa: confrontar-se com os parado-xos da ordem/desordem, da parte/todo, do singular/geral; incorporar o acaso e o parti-cular como componentes da anlise cientfi-ca e colocar-se diante do tempo e do fen-meno, integrando a natureza singular e evo-lutiva do mundo sua natureza acidental e factual.

    Muitos desses problemas, tratados ini-cialmente na primeira edio de 1982, foram considerados impertinentes, sendo hoje ad-mitidos pela maior parte da academia, como a idia do caos organizador, o problema pa-radigmtico da ordem, da desordem e da or-ganizao, da complexidade, da auto-orga-nizao. A contribuio de Morin tambm particularmente importante para as cincias sociais, vistas por muito tempo como impos-sibilitadas de desembaraar-se da complexi-dade dos fenmenos humanos para elevar-se dignidade das cincias naturais, com suas leis e princpios concebidos na ordem do de-terminismo; o que era visto como resduos no-cientficos das cincias humanas: a in-certeza, a desordem, a contradio, a plurali-dade e a complicao fazem parte hoje de uma problemtica geral do conhecimento.

    Como resposta a todos esses desafios, Morin, objetivamente, nos oferece, em opo-sio ao paradigma clssico da simplifica-o, os fundamentos do novo paradigma complexo, capaz de ampliar os horizontes da explicao cientfica, tanto nas cincias fsicas e biolgicas como nas sociais. Cin-cia com conscincia , portanto, uma refe-rncia obrigatria para todos aqueles que tm se empenhado em participar da aventura da construo do novo esprito cientfico proposto por Bachelard, desde o incio do sculo.

    In Elias de Castro

  • Edgar Morin

    Cincia com Conscincia

    Edio revista e modificada pelo Autor

    Traduo Maria D. Alexandre

    e

    Maria Alice Sampaio Dria

    82 EDIO

    B BERTRAND BRASIL

  • Copyright Librairie Arthme Fayard, 1982, para os captulos 1.1,1.3,1.' 1-5,1.7,1.8,1.9, II.2, II.4, ILS, Il., II.7, II.8, II.9,11.10,11.11.

    Copyright Editions du Seuil. 1990, prefacio e captulos 1.2,1.6, II. 1 e II.3.

    Ttulo original: Science avec Conscience

    Capa: projeto grfico de Simone Villas Boas

    2005 Impresso no Brasil Printed in Brazil

    CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

    Morin, Edgar, 1921-M85c Cincia com conscincia / Edgar Morin; traduo de Maria 8'1 ed. D. Alexandre e Maria Alice Sampaio Dria. - Ed. revista e

    modificada pelo autor - 8" ed. - Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.

    350p.

    Traduo de: Science avec conscience Inclui bibliografia

    ISBN 85-286-0579-5

    1. Cincia- Filosofia. 2. Teoria do conhecimento. 3. Cincia. I. Ttulo.

    CDD - 501 96-1238 CDU - 50:1

    Todos os direitos reservados pela: ED ITORA BERTRAND BRASIL LTDA. Rua Argentina, 1 7 1 - 1 " andar - So Cristvo 20921-380 - Rio de Janeiro - RJ T e L ( 0XX21 ) 2585-2070 - Fax: (0XX21 ) 2585-2087

    N o permitida a reproduo total ou parcial desta obra, por quaisquer meios, sem a prvia autorizao por escrito da Editora.

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  • Sumrio

    Prefcio 7

    PRIMEIRA PAET

    Cincia com Conscincia

    1. Para a cincia 15 2. O conhecimento do conhecimento cientfico 37 3. A idia de progresso do conhecimento 95 4. Epistemologia da tecnologia 107 5. A responsabidade do pesquisador perante a

    sociedade e o homem 117 6. Teses sobre a cincia e a tica 125 7. A antiga e a nova transdisciplinaridade 135 8. O erro de subestimar o erro 141 9. Para uma razo aberta 157

    SEGUNDA PARTE

    Para o Pensamento Complexo

    1. O desafio da complexidade 175 2. Ordem, desordem, complexidade 195 3. A inseparabilidade da ordem e da desordem 207 4. O retorno do acontecimento 233 5. O sistema: paradigma ou/e teoria? 257 6. Pode-se conceber uma cincia da autonomia? 277 7. A complexidade biolgica ou auto-organizao 291 8. Si e autos 311 9. Computo ergo sum (a noo de sujeito) 323

    10. Os mandamentos da complexidade 329 11. Teoria e mtodo 335

    Referncias 343

  • Prefcio

    Para esta nova edio, o plano do livro foi modificado, pas-sando a comportar duas partes, a primeira denominada Cincia com Conscincia, e a segunda, Para o Pensamento Complexo. Alguns textos foram suprimidos e substituidos por outros, mais recentes, sobre os mesmos temas e dentro do mesmo esprito. Os textos novos so, na primeira parte, O conhecimento do conhecimento cientfico e Teses sobre a ciencia e a tica; na segunda parte, O desafio da complexi-dade e A inseparabilidade da ordem e da desordem.

    Suprimi o prefacio primeira edio, em que fiz questo de mostrar, com suporte de citaes, que j havia enunciado, entre 1958 e 1968, a maior parte de minhas idias sobre a cincia e a complexidade. Ser contestado, incompreendido, marginalizado causou-me mgoa profunda que, se no foi consolada, adormeceu com o tempo.

    Algumas idias lanadas neste livro, que foram consideradas impertinentes, so atualmente admitidas por um grande nme-ro de cientistas, como a do caos organizador. Se a reforma do pensamento cientfico no chegou ainda ao ncleo paradigmti-co em que Ordem, Desordem e Organizao constituem as noes diretrizes que deixam de se excluir e se tornam dialogi-

  • 8 Cincia com Gonscimcia

    camente inseparveis (permanecendo, entretanto, antagnicas), se a noo de caos ainda no concebida como fonte indistinta de ordem, de desordem e de organizao, se a identidade com-plexa de caos e cosmo, que indiquei no termo caosmo, ainda no foi concebida, s nos resta comear a nos engajar, aqui e ali, no caminho que conduz reforma do pensamento.

    Da mesma forma, o termo complexidade j no mais perse-guido na conscincia cientfica. A cincia clssica dissolvia a complexidade aparente dos fenmenos para revelar a simplici-dade oculta das imutveis Leis da Natureza Atualmente, a com-plexidade comea a aparecer no como inimigo a ser elirninado, mas como desafio a ser enfatizado. A complexidade permanece ainda, com certeza, uma noo ampla, leve, que guarda a incapa-cidade de definir e de determinar. por isso que se trata agora de reconhecer os traos constitutivos do complexo, que no contm apenas diversidade, desordem, aleatoriedade, mas com-porta, evidentemente tambm, suas leis, sua ordem, sua organi-zao. Trata-se, enfim e sobretudo, de transformar o conheci-mento da complexidade em pensamento da complexidade.

    No entrarei aqui nesse difcil reconhecimento e definio da complexidade, a que se consagra a segunda parte deste livro. S quero indicar que, mesmo quando tinha por objetivo nico revelar as leis simples que governam o universo e a matria de que ele constitudo, a cincia apresentava consti-tuio complexa. Ela s vivia em e por uma dialgica de com-plementaridade e de antagonismo entre empirismo e raciona-lismo, imaginao e verificao. Desenvolveu-se apenas em e pelo conflito das idias e das teorias no meio de uma comuni-dade/sociedade (comunidade porque unida em seus ideais comuns e com a regra verificadora do jogo aceita por seus membros; sociedade porque dividida por antagonismos de todas as ordens, a compreendidas pessoas e vaidades).

    A cincia igualmente complexa porque inseparvel de seu contexto histrico e social. A cincia moderna s pde

  • Cincia com Conscincia 9

    emergir na efervescncia cultural da Renascena, na eferves-cncia econmica, poltica e social do Ocidente europeu dos sculos 16 e 17. Desde ento, ela se associou progressivamen-te tcnica, tornando-se tecnocincia, e progressivamente se introduziu no corao das universidades, das sociedades, das empresas, dos Estados, transformando-os e se deixando transformar, por sua vez, pelo que ela transformava. A cincia no cientfica Sua realidade multidimensional. Os efeitos da cincia no so simples nem para o melhor, nem para o pior. Eles so profundamente ambivalentes.

    Assim, a cincia , intrnseca, histrica,