Cinema e Loucura

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    10-Mar-2016

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Captulo 1 do livro Cinema e Loucura de Elie Cheniaux

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  • Cinema e LoucuraConhecendo os Transtornos Mentais atravs dos Filmes

    Formato: 16x23Peso: 0,52 kgPginas: 288ISBN: 9788536321318Ano: 2010

    Neste livro surpreendente, os autores se propuseram a uma tarefa pioneira: usar personagens de filmes clssicos e modernos para auxiliar o leitor a compreender os mecanismos dos transtornos mentais, criando uma obra de interesse no apenas aos estudantes de sade mental, mas a todos aqueles apaixonados por cinema.

    Saiba MaiS

  • Poucas reas do conhecimento tm fascinado tanto a humanidadecomo aquela voltada para o estudo da mente humana: a mentebuscando compreender a si prpria. A questo se torna ainda maisfascinante ao se estudarem os transtornos mentais, situaes em queo funcionamento da mente encontra-se alterado. A complexidade dessarea to grande que algumas pessoas chegam mesmo a acreditarque o homem jamais conseguir desvendar de forma plena os mistriosque permeiam nossas funes mentais e as alteraes associadas aelas. Seria como tentar tirar os dois ps do cho puxando os prpriossuspensrios, ou seja, algo impossvel.

    Os transtornos mentais fazem parte de nossa experincia diria.Eles so muito mais comuns do que em geral se imagina. Dados epi-demiolgicos estimam que entre 30 e 40% dos brasileiros apresentarampelo menos uma vez na vida um transtorno mental (Mello; Mello; Kohn,2007). Dessa forma, inevitavelmente cada um de ns tem um vizinho,um amigo ou mesmo um familiar que j sofreu ou est sofrendo desseproblema.

    Os transtornos mentais podem ser altamente incapacitantes. Umlevantamento realizado pela Universidade Federal de So Paulo, emparceria com o Ministrio da Sade, constatou que a maior parte doscasos de licena para o tratamento da sade no Brasil est relacionadaa um diagnstico psiquitrico. Entre as 10 principais causas de afasta-

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    INTRODUO

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    mento do trabalho, cinco esto relacionadas a transtornos mentais, sendo a depresso a causanmero um.

    Mas, afinal, o que um transtorno mental? A resposta no fcil. As dificuldades jsurgem com a prpria terminologia. Na rea da sade mental, o termo transtorno no temum significado preciso. Ele utilizado para evitar problemas ainda maiores inerentes ao uso depalavras como doena ou enfermidade, empregadas quando se conhece a causa da patologia as alteraes fisiopatolgicas que explicam a anormalidade. A atual Classificao internacionalde doenas e problemas relacionados sade, que se encontra em sua 10a edio (CID-10,publicada originalmente em 1992), contm 21 captulos, dos quais o nico que emprega otermo transtorno o relacionado psiquiatria. Nos demais, a CID-10 utiliza a denominaodoena (Organizao Mundial da Sade, 1993).

    O termo mente tambm bastante controverso. Em geral a palavra utilizada para descreverprocessos psicolgicos que atingem a nossa conscincia, como motivaes, emoes ou processoscognitivos incluindo percepo, memria, racioccio, ou qualquer outra funo que permita aaquisio de conhecimento, a resoluo de problemas e a elaborao de planos para o futuro.Para os primeiros filsofos que viveram na Grcia Antiga e principalmente para Ren Descartes(1596-1650) responsvel pela inaugurao da filosofia moderna , corpo e mente representamdois tipos distintos de substncia. De acordo com essa perspectiva, denominada dualista, ocorpo formado por matria, enquanto a mente ou a alma imaterial.

    Em oposio ao dualismo, vrios filsofos contemporneos por exemplo, John Searle,da Universidade de Berkeley acreditam que mente e crebro so indistinguveis e representamum nico sistema. Essa segunda perspectiva, conhecida como monista materialista, vem sendocorroborada por evidncias recentes da neurocincia (Damsio, 1996). Portanto, a designiotranstorno mental pode ser enganosa, uma vez que sugere uma falsa distino entre doenasfsicas, de natureza material, e doenas mentais, de natureza imaterial. De fato, termos comoamnsia psicognica ou transtorno mental orgnico foram gradativamente abandonados naliteratura especializada por dar a entender, incorretamente, que transtornos mentais psico-gnicos ou no orgnicos no possuem um substrato neural.

    Outro problema presente nessa rea so os critrios utilizados para diferenciar o que normal do que patolgico. Fundamentalmente, existem trs grandes critrios: o subjetivo, oestatstico e o cultural. Todavia, nenhum deles considerado totalmente satisfatrio. De acordocom o critrio subjetivo, o patolgico est relacionado a uma vivncia de sofrimento, a umsentir-se enfermo. No entanto, nos quadros de mania eufrica (ver Captulo 5), por exemplo,o indivduo, embora parea aos outros claramente fora do normal, sente-se muito bem, maisalegre e mais bem-disposto que de costume. De acordo com o critrio estatstico, o patolgicorepresenta aquilo que raro ou foge da mdia. No entanto, indivduos com um nvel deinteligncia muito alto, que apresentam um quociente de inteligncia (QI; ver Captulo 15)muito acima de 100, no so considerados doentes. Por fim, de acordo com o critrio cultural,o patolgico aquilo que est fora dos padres ideais de comportamento definidos por umadeterminada cultura. A fragilidade deste ltimo critrio reside no fato de que algo que vistocomo patolgico em uma cultura pode ser considerado normal em outra. Da mesma forma,

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    algo que visto como patolgico em uma poca pode ser considerado normal em outra. Ohomossexualismo seria um bom exemplo disso.

    Independentemente de todas essas questes, possvel formular, ainda que de formaprovisria, uma definio de transtorno mental. Dessa maneira, utiliza-se o termo transtornomental para indicar a presena de um conjunto de vivncias subjetivas ou comportamentosque causam sofrimento significativo ou um importante prejuzo no funcionamento social,ocupacional ou em qualquer outra rea importante da vida do indivduo.

    A forma como compreendemos os transtornos mentais atualmente consequncia deuma longa srie de eventos histricos. Nossa perspectiva acerca do adoecimento mental mudoubastante ao longo do tempo, abrangendo desde explicaes religiosas e sobrenaturais atteorias mais racionais, que culminaram, hoje em dia, em modelos tericos muito elaborados,que propem uma relao dinmica entre genes, crebro e ambiente.

    PR-HISTRIA

    Como qualquer outra enfermidade, as doenas mentais representam alteraes inerentes prpria condio humana. Assim, possvel que alguma forma de adoecimento mental jestivesse presente nas primeiras culturas humanas, que surgiram no leste africano entre 100 e150 mil anos atrs. A ausncia de registros escritos impede uma determinao exata do tipode conhecimento que essas culturas detinham sobre as funes e disfunes mentais. Entretanto,escavaes arqueolgicas revelaram a existncia de crnios perfurados cirurgicamente desdeo perodo neoltico, 12 mil anos atrs.

    No esto claras as razes que motivaram o homem pr-histrico a realizar essas cirurgias,denominadas trepanao (do grego trpanon, perfurao, abrir um buraco). Uma possvelfuno religiosa estaria relacionada necessidade de liberar demnios que estariam atormentan-do o doente. No entanto, especula-se que haveria uma funo teraputica: aliviar convulsesou dores de cabea. Independentemente da razo pela qual a trepanao era realizada, oemprego dessa tcnica indica a importncia que o homem pr-histrico atribua ao crebroou, pelo menos, regio da cabea.

    IDADE ANTIGA

    A Idade Antiga corresponde ao perodo que vai desde a origem da escrita, cerca de 4000 a.C.,at a queda do Imprio Romano, em 476 d.C. Registros antigos demonstram que as primeirasgrandes civilizaes humanas o Egito, a Mesopotmia, a China e a ndia interpretavamtudo aquilo que lhes era incompreensvel, fosse na adversidade os desastres naturais, asdoenas e a morte ou na abastana boa colheita, sade ou o nascimento de uma criana ,

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    como manifestaes de foras divinas (deuses ou demnios). Esses registros, alguns datadosde 1700 a.C., revelam descries muito detalhadas de algumas formas de adoecimento mental,como a histeria (ver Captulo 7). Entretanto, essas primeiras grandes civilizaes atribuam taismanifestaes ao efeito de feitios ou possesses por espritos malignos. Dessa forma, o trata-mento consistia, basicamente, na expulso desses espritos por meio de encantamentos einvocao de deuses.

    Os primeiros modelos explicativos de natureza racional em relao s enfermidadesmentais surgiram com a filosofia, na Grcia Antiga. De acordo com essa nova perspectiva,descartou-se completamente a influncia de deuses sobre a ocorrncia de adoecimento mental,o qual passou a ser associado a causas naturais. Em torno de 450 a.C., Alcmeon e, mais tarde,Hipcrates propuseram a primeira teoria monista relativa ao problema mente-corpo, atribuindoao crebro a origem de toda a atividade mental humana. De acordo com Hipcrates,

    os homens precisam saber que de nada mais alm do crebro vm alegrias, prazeres,divertimentos e esportes; e tristezas, desapontamentos, desesperanas e lamentaes. Epor isso, de uma maneira especial, ns adquirimos viso e conhecimento, e ns vemos eouvimos. E pelo mesmo rgo nos tornamos loucos ou delirantes, e medos e terrores nosassaltam, alguns de noite e outros de dia. Todas essas coisas ns suportamos do crebroquando ele no sadio.

    Hipcrates (460-377 a.C.) formulou, tambm, a teoria de que haveria quatro humorescorporais a bile negra, a bile amarela, o sangue e a fleuma e que eles estariam relacionadosa quatro tipos de temperamento melanclico, colrico, sanguneo e fleumtico, respectiva-mente (ver Captulo 14 para uma descrio desses quatro tipos de temperamento).

    Na Roma Antiga (sculos I e II d.C.), Galeno (131-200 d.C.) seguiu ideias semelhantes sde Hipcrates. Para eles, havia basicamente trs espcies de doenas mentais: melancolia(afeco mental crnica, sem excitao), mania (excitao mental crnica, sem