C:\Job\ABL\ABL-047 - Linguagem e Estilo de Machado-Eca-Simoes

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    07-Jan-2017

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<ul><li><p>Coleo Antn io de Mora i s S i lvaE S T U D O S D E L N G U A P O R T U G U E S A</p><p>A c a d e m i a B r a s i l e i r ad e L e t r a s</p></li><li><p>L i n g u a g e m e E s t i l o d eM a c h a d o d e A s s i s ,</p><p>E a d e Q u e i r s eS i m e s L o p e s N e t o</p></li><li><p>A c a d e m i a B r a s i l e i r a d e L e t r a s</p><p>Aurlio Buarque</p><p>de Holanda Ferreira</p></li><li><p>Coleo Antn io de Mora i s S i lvaE S T U D O S D E L N G U A P O R T U G U E S A</p><p> Linguagem e Estilode Machado de Assis,Ea de Queirs eSimes Lopes Neto</p><p>R i o d e J a n e i r o 2 0 0 7</p></li><li><p>C O L E O A N T N I O D E M O R A I S S I L V ADiretor: Evanildo Bechara</p><p>A C A D E M I A B R A S I L E I R A D E L E T R A SDiretoria de 2007</p><p>Presidente: Marcos Vinicios VilaaSecretrio-Geral: Ccero Sandroni</p><p>Primeira-Secretria: Ana Maria MachadoSegundo-Secretrio: Domcio Proena Filho</p><p>Diretor Tesoureiro: Evanildo Cavalcante Bechara</p><p>P U B L I C A E S D A A B L</p><p>Produo editorialMonique Mendes</p><p>Projeto grficoVictor Burton</p><p>Editorao eletrnicaEstdio Castellani</p><p>Catalogao na fonte:Biblioteca da Academia Brasileira de Letras</p><p>B869.3 Ferreira, Aurlio Buarque de Holanda, 1910-1989.F383l Linguagem e estilo de Machado de Assis, Ea de Queirs e</p><p>Simes Lopes Neto / Aurlio Buarque de Holanda Ferreira ;prefcio Evanildo Cavalcante Bechara. Rio de Janeiro : AcademiaBrasileira de Letras, 2007.</p><p>344 p. ; 21 cm. (Coleo Antnio de Morais Silva. Estudosde Lngua Portuguesa ; 5)</p><p>ISBN: 978-85-7440-100-3</p><p>1. Assis, Machado de, 1839-1908. 2. Queirs, Ea de,1845-1900. 3. Lopes Neto, Simes, 1865-1916. 4. Linguagem.5. Estilo literrio. I. Bechara, Evanildo Cavalcante, 1928-II. Ttulo. III. Srie.</p></li><li><p>C O M I S S O D E L E X I C O G R A F I A D A A B L</p><p>Eduardo Portella (Presidente)Alfredo Bosi</p><p>Evanildo Bechara</p><p>R E V I S O</p><p>Roberto Cortes de LacerdaJoo Luiz Lisboa Pacheco</p><p>Sandra PssaroPaulo Teixeira Pinto Filho</p><p>D I G I T A O</p><p>Joo Barcellos</p></li><li><p> Sumrio</p><p>Prefcio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . XI</p><p> MACHADO DE ASSISLinguagem e Estilo de Machado de Assis . . . . . . . . . . . . . . . . 3</p><p> EA DE QUEIRSLinguagem e Estilo de Ea de Queirs. . . . . . . . . . . . . . . . . . 63</p><p> SIMES LOPES NETOLinguagem e Estilo de Simes Lopes Neto . . . . . . . . . . . . . 121Bibliografia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 239</p><p>Glossrio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 257</p></li><li><p>Aurlio Buarquede Holanda Ferreira</p></li><li><p> Prefcio</p><p>Reunindo num s volume estes trs ensaios de Aurlio Buar-que de Holanda Ferreira, pe a sua Academia ao alcance doleitor de hoje, com o aval prestimoso de Marina Baird Ferreira, as in-curses do saudoso confrade no domnio da lngua e do estilo de trsgrandes autores da nossa literatura.</p><p>Lidos na seqncia cronolgica em que foram estes ensaios publi-cados, perceber-se- o aprofundamento gradativo da cultura filolgi-ca, vernacular e estilstica do autor.</p><p>Nas pginas dedicadas a Machado de Assis, Aurlio tinha aindasuas atenes voltadas para os aspectos normativos que dominavamentre ns os estudos do idioma at a dcada de 1940. Isto sem que fi-casse atrelado a uma viso estreita de puristas, nem sempre bem ape-trechados para essas incurses, como, por exemplo, acontecia comCndido de Figueiredo. Suas fontes boas eram Mrio Barreto, Ante-nor Nascentes, Jos Oiticica e Herclito Graa.</p><p>A extenso e os conhecimentos da lngua, aliados a um fino gostoesttico, foram decisivos para revelar ao pblico especializado e spessoas preocupadas com a correo gramatical o talento promissor</p></li><li><p>daquele jovem estreante nas sutilezas e potencialidades do idiomaportugus trabalhado sob a rgua e o compasso do criador de MemriasPstumas de Brs Cubas.</p><p>J no ensaio sobre Ea de Queirs (1945) suas lentes de observa-dor no se limitavam a pormenores de fatos gramaticais, como con-cordncia, uso da crase e colocao de pronomes, principalmente, natica da influncia lusitanizante em Machado de Assis, e nos desviosreclamados pelos puristas.</p><p>Agora, nosso autor discute a presena dos galicismos em Ea luzda influncia avassaladora da cultura e da ao civilizatria da sociedadefrancesa. A lngua deixa de ser vista como apenas ancila da filosofia quea instrumentalizou pelo modelo da tradio gramatical greco-latina,para ser tambm um reflexo de um ato esttico e cultural. Da, no ensaiosobre Ea, Aurlio espraiar suas reflexes e comentrios mais no campoda estilstica do que nos dogmas da gramtica normativa.</p><p>As consideraes sobre os galicismos e neologismos levam nossoautor seara do lxico, preparando-o para o domnio em que se vaiconsagrar como autoridade incontestvel. Examina a adjetivao ecia-na e a tcnica de seleo vocabular e a estruturao dos perodos. Etoda essa renovao leva-o a discutir o problema do regionalismo emSimes Lopes Neto (1949), oferecendo-nos o mais completo levan-tamento lexical dos termos usados no Sul do pas, quer por heranaverncula, quer por emprstimos platinos.</p><p>Passados tantos anos as densas produes, os progressos experi-mentados pelas cincias da linguagem vieram confirmar muitas das as-seres exaradas nestes trs ensaios, ao lado de correes a algumasoutras; mas a verdade que no conseguiram empanar o brilho e acompetncia que animaram estes ensaios e, por isso, os fazem merece-dores desta oportuna e proveitosa reedio.</p><p>EVANILDO CAVALCANTE BECHARA</p><p>XII Prefc io</p></li><li><p> Machado de Assis</p></li><li><p> Linguagem e estilo deMachado de Assis</p><p>I LinguagemCom aquele seu jeito de dizer muito em poucas palavras, o Sr. Tris-</p><p>to da Cunha escreveu uma grande verdade a respeito de Machado deAssis: Ele era sutil e opulento. Sentem-se na sua prosa os tesouros dopassado, do presente e do futuro.1</p><p>Realmente: no preciso um contacto ntimo com o escritor paranotar-se como ele soube fixar muito do que a boa tradio lingsticalhe forneceu, atravs de aturada leitura dos clssicos, aliado ao espritoda lngua do seu tempo, e com ligeiros toques de alguma coisa que pa-recia transcender do momento, projetar-se um pouco alm. Tudo issoa servio de um dos melhores estilos que j houve em portugus.</p><p>Se, por um lado, em seus livros se nos deparam expresses cadasem desuso, arcasmos da gema, que nem sempre lhe foi dado renovar,reflete-se neles, por outro, a linguagem da poca, e neles se adivinhaalgo de novo para a poca.</p><p>1 Tristo da Cunha, Coisas do Tempo, Rio.</p></li><li><p>Amando os clssicos, compreendia, no entanto, que cada tempotem o seu estilo. Achava que se devia estud-los, para desentranhardeles mil riquezas, que, fora de velhas, se fazem novas. Nem tudotinham os antigos, nem tudo tm os modernos; com os haveres de unse outros que se enriquece o peclio comum.2</p><p>No sou dos que, apologistas incondicionais do velho mestre, lheexageram o papel de renovador da lngua, sobretudo no sentido de aela haver imprimido um cunho brasileiro. No irei ao extremo de,como se tem feito, afirmar, ou dar a entender, que ele realizou mais doque Alencar em favor do abrasileiramento do portugus. Nem tantoassim. Espanada de algumas grossas teias de aranha do falar lusitano, asua sintaxe apresenta-se, de ordinrio, mais leve, como que mais trans-parente; mas o disfarce no to perfeito que por trs das cortinas noestejamos a ver agindo a mo de Frei Lus de Sousa, Manuel Bernardesou Castilho Antnio.</p><p>O que ele teve foi o segredo de conciliar e nem sempre as exi-gncias da sintaxe de alm-mar com a mais corrente entre ns, semnunca transgredir, porm, com os seus princpios de cultor extremadodo idioma. E o que lhe transmite prosa, e no raro ao verso, aqueleamvel tom de simplicidade e harmonia, no ser tanto o efeito dessaconciliao como as suas qualidades intrnsecas de escritor, o feitioharmonioso e simples do seu esprito, a revelar-se em tudo que lhe saiuda pena.</p><p>No me parece justo superpor de Alencar a sua influncia nesseponto. Mesmo porque analisemos friamente o caso a Machadofaltariam virtudes substanciais para executor de uma renovao lin-gstica. Esprito conservador como sempre foi o seu, amando a or-</p><p>4 Aurl io Buarque de Holanda Ferre ira</p><p>2 Machado de Assis, Crtica, Livraria Garnier, Rio, p. 27. Todos os livros deMachado de Assis citados neste artigo so edies Garnier, exceto Crnicas, I (Jackson,Rui), Novas Relquias (Editora Guanabara, Rio) e Correspondncia de Machado de Assis(Amrico Bedeschi, editor, Rio).</p></li><li><p>dem, disciplinado, metdico, no seria o funcionrio que s aceitava arevogao de uma portaria por outra portaria, que tivesse fora pararealizar aqui, por aquilo a que Joo Ribeiro chama a lngua nacional3,uma tarefa que requeria extrema audcia, rebeldia, esprito isento decompromissos com a tradio. Ao meu ver, bem pesadas as coisas,Machado, alm de desossar um pouco o portugus de Portugal, nofez mais que introduzir nas suas pginas alguns brasileirismos, quasetodos lxicos. Os raros brasileirismos sintticos figuram sempre naboca de personagens homens do povo, gente simples, pretos escra-vos que povoam as suas pginas. E grande parte dos prprios brasilei-rismos lxicos, empregou-os o romancista como o fizeram, e fazem,muitos outros escritores pela necessidade elementar de fixar tipos,cenas, costumes do nosso meio.</p><p>E o esprito brasileiro, o instinto de nacionalidade para usar deexpresso sua no era bastante vivo em Machado, em to alto graucomo se afigura a alguns dos seus crticos. No o era, por condiesresultantes do prprio temperamento do escritor: faltava-lhe para tan-to maior vibrao de vida, sentimento mais profundo de simpatia hu-mana, de amor terra, sua paisagem e sua gente, mais fora de poe-sia e impulso mais forte de solidariedade com o povo humilde, deonde se originou.</p><p>Isso, est claro, no importa negar nacionalismo obra de Ma-chado de Assis. Ou, pelo menos, regionalismo. No. H nela muitacoisa da nossa terra, particularmente do meio carioca: mucamas, pre-tos velhos, pegadores de escravos fugidos, cenas de execuo de ne-gros, preges melanclicos, como aquele Chora, menina, chora...do D. Casmurro; ruas antigas, com seus nomes antigos da Guarda-Velha, Valongo, Matacavalos e at retalhos de paisagens, breves,fugidios, que so como, ao fundo de casas modernas, esses escassos</p><p> Linguagem e est ilo de Machado de Ass i s 5</p><p>3 Joo Ribeiro, A Lngua Nacional, 1.a ed., S. Paulo, 1921, p. 16.</p></li><li><p>palmos de cho cimentado miniaturas de quintal nessa vasta casasem quintal...</p><p>Mas h, quase sempre, em tudo isso, um que quer que seja de frio,de meio morto, um tudo-nada de artificial, s vezes, em que se percebeum tanto ausente o humano. Nada como a leitura atenta de um Ma-nuel Antnio de Almeida, ou de um Lima Barreto, to esquecido, parasentir-se bem a verdade do que afirmo.</p><p>Aquele que saiu do morro pobre e, passo a passo, custa de esfor-os tenazes, chegou situao de primeiro escritor do seu pas, teve oorgulho sentimento que a sua timidez antes sedimentou que enfra-queceu de escrever com a maior correo a lngua que se acostumou,criana, a ouvir deturpada pela gente do seu meio. Parece que ainda foieste um recurso que encontrou o mestio Joaquim Maria de fazer es-quecer a prpria origem. Nesse particular, ningum, como ele, com ta-manho desapego ao passado. guas passadas no movem engenho...Nada de morro, de Maria Ins, de Machadinho... O desamor a quantose ligava aos tempos idos havia de encontrar, em Machado de Assis,mais essa maneira de manifestar-se. Teria de ser correto na linguagem,deixando nela refletidos os seus labores de autodidata manuseador devenerveis in-flios quinhentistas. Saberia manter-se distncia. Paralonge o linguajar estropiado do Livramento, do croinha, dos dias dameninice. Leitura assdua dos clssicos. Refugiava-se, em um passado,da lembrana pouco amvel de outro passado...</p><p>A minha experincia do magistrio permitiu-me observar que nos indivduos pobres, esforados, estudiosos, que ordinariamentese encontra mais vivo o gosto da correo da linguagem. uma lutapara se elevarem acima do seu nvel. Ora, o feitio de Machado erade molde a no o afastar dessa regra. A ele, que no sabia falar alto e</p><p>6 Aurl io Buarque de Holanda Ferre ira</p></li><li><p>era to cerimonioso com os homens, faltar-lhe-ia, decerto, a cora-gem, o mpeto, a fora necessria para romper com uma larga tradi-o. Depois, lembremo-nos que, na obra de adoamento do portu-gus, a que me referi, da converso de uma lngua dura, hirta, ossu-da, em um instrumento de expresso harmonioso e plstico nessatarefa j o precedera dentro de Portugal o velho Ea de Quei-rs. Este, sim, fez um trabalho de mouro. Machado j encontrou amata batida. E andou por ela tranqilo, trabalhando sempre, masum trabalho maneiro, sem suor trocando por bons espcimesportugueses alguns estrangeiros que encontrou nessa flora, abrasi-leirando-a um pouco com espcimes nossos.</p><p>Feitas estas consideraes iniciais, passemos a estudar, separada-mente, alguns aspectos da linguagem e do estilo de Machado de Assis.Apreciemos, em primeiro lugar, a pureza de sua lngua, rarissimamen-te incorreta, o gosto do clssico, os tiques, a sintaxe, o vocabulrio, osarcasmos, neologismos, brasileirismos e estrangeirismos. Depois, es-tudemos, procurando explic-las em alguns casos, as qualidades subs-tanciais do escritor, a riqueza real de expresso, em contraste com aaparente pobreza, as liberdades de estilista, o gosto de alterar, para efei-to literrio, a regncia dos verbos, o amor da metfora, o apego mrbi-do a certas palavras e expresses, as repeties, intencionais ou vicio-sas, o hbito da negao...</p><p>Machado de Assis tem a grande virtude de ser um dos raros ho-mens de letras brasileiros em quem se realiza uma sbia harmonia dogramtico com o escritor. O comum repelirem-se essas duas criatu-</p><p> Linguagem e est ilo de Machado de Ass i s 7</p></li><li><p>ras. O gramaticgrafo, por via de regra, escreve duro, spero, a frasecomprimida dentro das regras como em camisa-de-fora; o escritor, sealcana a clareza e a simplicidade, sacrifica, barbaramente s vezes, ospreceitos da boa linguagem. Castilho e Ea de Queirs em Portugal,Mrio Barreto e Lima Barreto no Brasil para citar apenas dois paresde casos, e sem sair da lngua portuguesa. Dificlimo encontrar-se aperfeio da lngua aliada elegncia sbria do estilo.</p><p>Machado representa, entre ns, o exemplo mais feliz dessa concilia-o. Ningum, em seu tempo, ou antes ou depois dele, conseguiu casarto harmoniosamente os dois seres que, parece, hurlent de se trouver ensemble.Qualidade que ainda lhe , de certo modo, um reflexo do equilbrio, doamor medida, ordem, disciplina, e horror visceral aos excessos. Rea-lizou na linguagem e no estilo, como na vida, a poltica do meio-termo.Nem tanto ao mar, nem tanto terra. Nem de todo com Jos Felicianode Castilho, nem inteiramente com Jos de Alencar. Ambos eram Joss,alis... Ficou entre os dois, quando o primeiro andou por aqui, a convitedo imperador, metendo a lenha no brasileirismo do autor do Guarani,que soube defender-se admiravelmente.4</p><p>Em contacto com o passado da lngua, conversando os clssicos,olhava mais para o presente. Creio ter sido ele quem afirmou que o ar-casmo que se ressuscita um neologismo. Procurou, assim, nem sem-pre com bom resultado, ressuscitar alguns.</p><p>Comecemos pelos arcasmos lxicos, ou semnticos, como lheschama Eduardo Carlos Pereira.5</p><p>AL: Poesias, 154.</p><p>8...</p></li></ul>