Clarice Lispector - Felicidade Clandestina

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    17-Feb-2016

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clarice lispector - felicidade clandestina

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<p>Felicidade Clandestina</p> <p>CLARICE LISPECTORFELICIDADE CLANDESTINA</p> <p>ContosRocco</p> <p>http://groups.google.com.br/group/digitalsource</p> <p>Esta obra foi digitalizada pelo grupo Digital Source para proporcionar, de maneira totalmente gratuita, o benefcio de sua leitura queles que no podem compr-la ou queles que necessitam de meios eletrnicos para ler. Dessa forma, a venda deste e-book ou at mesmo a sua troca por qualquer contraprestao totalmente condenvel em qualquer circunstncia. A generosidade e a humildade a marca da distribuio, portanto distribua este livro livremente.</p> <p>Aps sua leitura considere seriamente a possibilidade de adquirir o original, pois assim voc estar incentivando o autor e a publicao de novas obras.</p> <p>Copyright 1971, Clarice Lispector, Paulo Gurgel Valente e Pedro Gurgel ValenteDireitos desta edio reservados EDITORA ROCCO LTDA.Avenida Presidente Wilson, 231, 8 andar20030-021 - Rio de Janeiro, RJTel.: (21) 3525-2000 - Fax: (21) 3525-2001rocco@rocco.com.brwww.rocco.com.brPrinted in Brazil / Impresso no Brasilestabelecimento do textoMARLENE GOMES MENDES(Dra. em Literatura Brasileira pela USP /Profa de Crtica Textual da UFF)CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte. Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.L753f</p> <p>Lispector, Clarice, 1925-1977</p> <p>Felicidade clandestina: contos / Clarice Lispector.</p> <p>Rio de Janeiro: Rocco, 1998.</p> <p>ISBN: 85-325-0817-0</p> <p>1. Conto brasileiro. I. Ttulo.</p> <p>97-2009CDD 869.93</p> <p>CDU - 869.0(81)-3</p> <p>NOTA PRVIATodo texto com tradio - tomada a palavra no sentido que a Crtica Textual lhe empresta - tende a apresentar, nas reprodues que dele so feitas, um maior ou menor nmero de alteraes que vo, desde os erros cometidos por distrao de digitadores at as "correes" bem intencionadas de revisores ou copidesques. Por isso, necessrio que se proceda ao estabelecimento desse texto, procurando, no confronto com as edies publicadas em vida do autor, restituir-lhe sua fidedignidade e genuinidade. Clarice Lispector escrevia e reescrevia seus textos, mas no se preocupava em guardar manuscritos e originais, como se pode verificar no arquivo que se encontra na Fundao Casa de Rui Barbosa, cujo inventrio foi organizado por Eliane Vasconcellos, e publicado em 1994. De toda sua obra ficcional, s restou um original datilografado: o de gua viva, a propsito do qual fala em carta a Olga Borelli, mostrando como trabalhava exaustivamente o texto: "...No pude te esperar: estava morrendo de cansao, porque estou trabalhando ininterruptamente desde as cinco da manh. Infelizmente eu que tenho que fazer a cpia de Atrs do pensamento, sempre fiz a ltima cpia dos meus livros anteriores porque cada vez que copio vou modificando, acrescentando, mexendo neles, enfim" (grifo nosso).</p> <p>No entanto, depois de encaminhar o texto editora, Clarice no se interessava mais por ele, conforme declara em entrevista concedida a Affonso Romano de Sant'Anna e Marina Colasanti, para o Museu da Imagem e do Som, em 20 de outubro de 1976:</p> <p>"Affonso - Voc tem os seus textos escritos na cabea. E uma vez voc me disse uma coisa impressionante: voc nunca rel um texto seu.</p> <p>Clarice - No. Enjo. Quando publicado, como livro morto. No quero mais saber dele. E quando eu leio, estranho, acho ruim. A no leio, ora!"</p> <p>Olga Borelli, grande amiga e companheira de Clarice Lispector, com quem conversamos recentemente, nos assegurou que, de fato, Clarice no revia seus textos depois que encaminhava os originais editora.</p> <p>Assim, no possvel trabalhar com textos de Clarice Lispector, ignorando-se o fato de que no os revia e, portanto, no fazia mudanas de uma edio para outra. Felicidade clandestina teve duas edies em vida da autora, ambas publicadas pela Editora Sabi: 1971 e 1975. Colacionadas, as duas edies no apresentam modificaes. Coube-nos ento, no preparo desta, sanar algumas incorrees que, com o tempo, foram se incorporando ao texto original da autora.</p> <p>Marlene Gomes MendesSUMRIO</p> <p>Felicidade clandestina.............................. 9</p> <p>Uma amizade sincera................................. 13</p> <p>Miopia progressiva..................................... 17</p> <p>Restos do carnaval................................... 25</p> <p>O grande passeio....................................... 29</p> <p>Come, meu filho........................................ 39</p> <p>Perdoando Deus........................................ 41</p> <p>Tentao.................................................... 46o ovo e a galinha..................................... 49Cem anos de perdo.................................. 60</p> <p>a legio estrangeira ................................. 63os obedientes ............................................ 81a repartio dos pes................................ 88Uma esperana........................................... 92</p> <p>Macacos..................................................... 95</p> <p>os desastres de sofia................................ 98A CRIADA ..................................................... 117</p> <p>A mensagem................................................120</p> <p>Menino a bico de pena..............................136</p> <p>uma histria de tanto amor.................... 140As guas do mundo...................................144</p> <p>a quinta histria ...................................... 147Encarnao involuntria.........................151</p> <p>Duas histrias a meu modo......................154</p> <p>O primeiro beijo.........................................157</p> <p>FELICIDADE CLANDESTINAEla era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto ns todas ainda ramos achatadas. Como se no bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possua o que qualquer criana devoradora de histrias gostaria de ter: um pai dono de livraria.</p> <p>Pouco aproveitava. E ns menos ainda: at para aniversrio, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mos um carto-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morvamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrs escrevia com letra bordadssima palavras como "data natalcia e saudade .</p> <p>Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingana, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, ns que ramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha nsia de ler, eu nem notava as humilhaes a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela no lia.</p> <p>At que veio para ela o magno dia de comear a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possua As reinaes de Narizinho, de Monteiro Lobato.</p> <p>Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.</p> <p>At o dia seguinte eu me transformei na prpria esperana da alegria: eu no vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.</p> <p>No dia seguinte fui sua casa, literalmente correndo. Ela no morava num sobrado como eu, e sim numa casa. No me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para busc-lo. Boquiaberta, sa devagar, mas em breve a esperana de novo me tomava toda e eu recomeava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem ca: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e no ca nenhuma vez.</p> <p>Mas no ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranqilo e diablico. No dia seguinte l estava eu porta de sua casa, com um sorriso e o corao batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda no estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu corao batendo.</p> <p>E assim continuou. Quanto tempo? No sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel no escorresse todo de seu corpo grosso. Eu j comeara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, s vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, s vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.</p> <p>Quanto tempo? Eu ia diariamente sua casa, sem faltar um dia sequer. s vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas voc s veio de manh, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que no era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.</p> <p>At que um dia, quando eu estava porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua me. Ela devia estar estranhando a apario muda e diria daquela menina porta de sua casa. Pediu explicaes a ns duas. Houve uma confuso silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de no estar entendendo. At que essa me boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e voc nem quis ler!</p> <p>E o pior para essa mulher no era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silncio: a potncia de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em p porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi ento que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: voc vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E voc fica com o livro por quanto tempo quiser." Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.</p> <p>Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mo. Acho que eu no disse nada. Peguei o livro. No, no sa pulando como sempre. Sa andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei at chegar em casa, tambm pouco importa. Meu peito estava quente, meu corao pensativo.</p> <p>Chegando em casa, no comecei a ler. Fingia que no o tinha, s para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer po com manteiga, fingi que no sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu j pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.</p> <p>s vezes sentava-me na rede, balanando-me com o livro aberto no colo, sem toc-lo, em xtase purssimo.</p> <p>No era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.</p> <p>UMA AMIZADE SINCERANo que fssemos amigos de longa data. Conhecemo-nos apenas no ltimo ano da escola. Desde esse momento estvamos juntos a qualquer hora. H tanto tempo precisvamos de um amigo que nada havia que no confissemos um ao outro. Chegamos a um ponto de amizade que no podamos mais guardar um pensamento: um telefonava logo ao outro, marcando encontro imediato. Depois da conversa, sentamo-nos to contentes como se nos tivssemos presenteado a ns mesmos. Esse estado de comunicao contnua chegou a tal exaltao que, no dia em que nada tnhamos a nos confiar, procurvamos com alguma aflio um assunto. S que o assunto havia de ser grave, pois em qualquer um no caberia a veemncia de uma sinceridade pela primeira vez experimentada.</p> <p>J nesse tempo apareceram os primeiros sinais de perturbao entre ns. s vezes um telefonava, encontrvamo-nos, e nada tnhamos a nos dizer. ramos muito jovens e no sabamos ficar calados. De incio, quando comeou a faltar assunto, tentamos comentar as pessoas. Mas bem sabamos que j estvamos adulterando o ncleo da amizade. Tentar falar sobre nossas mtuas namoradas tambm estava fora de cogitao, pois um homem no falava de seus amores. Experimentamos ficar calados - mas tornvamo-nos inquietos logo depois de nos separarmos.</p> <p>Minha solido, na volta de tais encontros, era grande e rida. Cheguei a ler livros apenas para poder falar deles. Mas uma amizade sincera queria a sinceridade mais pura. A procura desta, eu comeava a me sentir vazio. Nossos encontros eram cada vez mais decepcionantes. Minha sincera pobreza revelava-se aos poucos. Tambm ele, eu sabia, chegara ao impasse de si mesmo.</p> <p>Foi quando, tendo minha famlia se mudado para So Paulo, e ele morando sozinho, pois sua famlia era do Piau, foi quando o convidei a morar em nosso apartamento, que ficara sob a minha guarda. Que rebulio de alma. Radiantes, arrumvamos nossos livros e discos, preparvamos um ambiente perfeito para a amizade. Depois de tudo pronto - eis-nos dentro de casa, de braos abanando, mudos, cheios apenas de amizade.</p> <p>Queramos tanto salvar o outro. Amizade matria de salvao.</p> <p>Mas todos os problemas j tinham sido tocados, todas as possibilidades estudadas. Tnhamos apenas essa coisa que havamos procurado sedentos at ento e enfim encontrado: uma amizade sincera. nico modo, sabamos, e com que amargor sabamos, de sair da solido que um esprito tem no corpo.</p> <p>Mas como se nos revelava sinttica a amizade. Como se quisssemos espalhar em longo discurso um trusmo que uma palavra esgotaria. Nossa amizade era to insolvel como a soma de dois nmeros: intil querer desenvolver para mais de um momento a certeza de que dois e trs so cinco.</p> <p>Tentamos organizar algumas farras no apartamento, mas no s os vizinhos reclamaram como no adiantou.</p> <p>Se ao menos pudssemos prestar favores um ao outro. Mas nem havia oportunidade, nem acreditvamos em provas de uma amizade que delas no precisava. O mais que podamos fazer era o que fazamos: saber que ramos amigos. O que no bastava para encher os dias, sobretudo as longas frias.</p> <p>Data dessas frias o comeo da verdadeira aflio.</p> <p>Ele, a quem eu nada podia dar seno minha sinceridade, ele passou a ser uma acusao de minha pobreza. Alm do mais, a solido de um ao lado do outro, ouvindo msica ou lendo, era muito maior do que quando estvamos sozinhos. E, mais que maior, incmoda. No havia paz. Indo depois cada um para seu quarto, com alvio nem nos olhvamos.</p> <p> verdade que houve uma pausa no curso das coisas, uma trgua que nos deu mais esperanas do que em realidade caberia. Foi quando meu amigo teve uma pequena questo com a Prefeitura. No que fosse grave, mas ns a tornamos para melhor us-la. Porque ento j tnhamos cado na facilidade de prestar favores. Andei entusiasmado pelos escritrios dos conhecidos de minha famlia, arranjando pistoles para meu amigo. E quando comeou a fase de selar papis, corri por toda a cidade - posso dizer em conscincia que no houve firma que se reconhecesse sem ser atravs de minha mo.</p> <p>Nessa...</p>