Clarice lispector felicidade clandestina

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    12-Apr-2017

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<ul><li><p>FELICIDADE CLANDESTINA1. AUTORA</p><p>CLARICE LISPECTOR</p><p>Nasceu em 1925, na Ucrnia, mas sua famlia veio para o Brasil quando ela estavacom dois meses de idade; morreu no Rio, em 1977.</p><p>Passou a infncia e a adolescncia no Recife. No Rio, fez o Curso de Direito. Aos 17anos, ganhou o prmio Graa Aranha com o livro Perto do Corao Selvagem.</p><p>Casou-se com um diplomata e viveu vrios perodos fora do Brasil, sem nunca terdeixado de se dedicar literatura.</p><p>Clarice Lispector escreveu contos e romances de cunho intimista. o que se chamade fico introspectiva. O momento interior das personagens se torna sumamente valorizado.</p><p>As narrativas so muito simples e as cenas, cotidianas. O vocabulrio no traduzeruditismo. Os monlogos interiores so muito profundos, nem sempre claros para osleitores, para quem fica difcil, por vezes, acompanhar a trajetria da mente da autora. O fatode essas reflexes serem to densas oferece o risco de tornar hermtico o teor metafsico dostextos.</p><p>2. ENREDOSFELICIDADE CLANDESTINA</p><p>A narradora recorda sua infncia no Recife. Ela gostava de ler. Sua situaofinanceira no era suficiente para comprar livros. Por isso, ela vivia pedindo-os emprestadosa uma colega filha de dono de livraria. Essa colega no valorizava a leitura einconscientemente se sentia inferior s outras, sobretudo narradora.</p><p>Certo dia, a filha do livreiro informou narradora que podia emprestar-lhe AsReinaes de Narizinho, de Monteiro Lobato, mas que fosse busc-lo em casa. A meninapassou a sonhar com o livro. Mal sabia a ingnua menina que a colega queria vingar-se:todos os dias, invariavelmente, ela passava na casa e o livro no aparecia, sob a alegao deque j fora emprestado. Esse suplcio durou muito tempo. At que, certo dia, a me dacolega cruel interveio na conversa das duas e percebeu a atitude da filha; ento, emprestou olivro sonhadora por tanto tempo quanto desejasse.</p><p>Essa foi a felicidade clandestina da menina. Fazia questo de esquecer que estavacom o livro para depois ter a surpresa de ach-lo.</p><p>No era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante.</p></li><li><p>UMA AMIZADE SINCERA</p><p>O narrador conheceu um colega de escola no ltimo ano de estudo. Desde ento,tornaram-se amigos inseparveis. Quando no estavam conversando pessoalmente, falavam-se pelo telefone.</p><p>A partir de certo momento, os assuntos comearam a faltar. s vezes, marcavamencontro e, juntos, no tinham sobre o que conversar. Calados, logo logo se despediam e, aochegar cada qual em sua casa, a solido batia mais forte.</p><p>A famlia do narrador mudou-se para S. Paulo e ele, ento, ficou no apartamento dospais. O amigo morava sozinho, pois seus parentes ficaram no Piau. A convite do outro,dividiram o mesmo apartamento. Ficaram alegres, porm instalou-se a falta de assunto. Stinham amizade e mais nada. Tentaram organizar umas farras no apartamento, contudo avizinhana reclamou.</p><p>As frias foram angustiantes. A solido de um ao lado do outro era incmoda demais.Quando o amigo teve uma pequena questo com a Prefeitura, o narrador fez disso pretextopara uma intensa movimentao, assumiu cuidar de toda a documentao exigida. No fimdo dia os dois tinham assunto, pois exageravam as palavras no comentrio de detalhes depouca importncia. Foi ento que o narrador entendeu por que os namorados se presenteiam,por que marido e mulher cuidam um do outro e por que as mes multiplicam o zelo pelosfilhos. para terem oportunidade de ceder a alma um ao outro.</p><p>Resolvida a questo com a Prefeitura, os dois arrumaram falsas justificativas deviajarem ss para estar com as respectivas famlias. Sabiam que nunca mais se reveriam.Mais que isso conclui o narrador que no queramos nos rever. E sabamos tambm queramos amigos. Amigos sinceros.</p><p>MIOPIA PROGRESSIVA</p><p>O menino era tido como inteligente e astuto em casa. O que ele dizia provocavaolhares mtuos de confirmao de sua superioridade. Ento ele comeou a compreender quedependia dele a boa convivncia dos membros da famlia. Quando no era ele o centro dasatenes, eles se desentendiam.</p><p>Para apoderar-se da chave de sua inteligncia, o menino costumava repetir seus ditos;mas ningum prestava mais ateno. Essa instabilidade dos familiares passou para ele, queadquiriu, ento, um hbito mantido o resto da vida: pestanejava e franzia o nariz,deslocando os culos que usava por causa da miopia. Toda vez que desenvolvia essecacoete, era sinal de que estava interiormente tendo noo de sua instabilidade.</p><p>Certa vez, disseram-lhe que passaria o dia inteiro na casa de uma prima casada, semfilhos, que adorava crianas. Ali, pressentiu ele, no haveria instabilidade: o tempo todoseria julgado o mesmo menino.</p></li><li><p>Na semana que antecedeu a esperada visita, a cabea do menino ferveu: como seapresentaria diante da prima? Inteligente? Bem comportado? Quem sabe at como palhao?Triste talvez? Sentia at aperto no estmago quando antecipava a situao de que ia seramado sem seleo, sem escolha, o que representava uma estabilidade ameaadora. Aospoucos, suas preocupaes passaram a ser outras: que elementos ele daria prima para elater certeza de quem ele era? Como encararia o amor que ela nutria por ele?</p><p>Ao entrar na casa da prima, duas surpresas o desnortearam (ele se desnorteava comsurpresas): a prima tinha um dente de ouro no lado esquerdo da boca; ela o recebeu comnaturalidade, sem evidenciar am-lo.</p><p>J que suas previses foram por terra, resolveu brincar de no ser nada. No entanto, medida que o dia avanava, o amor da prima se evidenciou. Era um amor sem gravidez: elaqueria que ele tivesse nascido dela; por isso demonstrava o amor estvel, a estabilidade dodesejo irrealizvel. Amor que inclua paixo, a paixo pelo impossvel.</p><p>Quando o menino descobriu o ingrediente da paixo no amor, ele perdeu a miopia eviu o mundo claramente. Foi como se ele tivesse tirado os culos e a prpria miopia ofizesse enxergar.</p><p>Desde ento, talvez, ele adquiriu o novo hbito de tirar os culos a pretexto de limp-los e, sem culos, fitava o interlocutor com uma fixidez reverberada de cego.</p><p>RESTOS DO CARNAVAL</p><p>A menininha de Recife gostava de carnaval. Entretanto, a ateno da famlia seconcentrava na doena da me; por isso, se permitia pouca participao da menina na folia:ficava at onze horas da noite, ao p da escada do sobrado onde morava, olhando os outrosse divertirem. Passava o carnaval inteiro economizando o lana-perfume e o saco deconfetes que ganhava. Ela no se fantasiava; porm, cheia de felicidade, se assustava com osmascarados e at conversava com alguns deles.</p><p>Aos oito anos, houve um carnaval diferente. A me de uma amiguinha fantasiou afilha de rosa, usando papel crepom; com as sobras, fez a mesma fantasia para ela. Os cabelosficariam enrolados e lhe passariam baton e rouge.</p><p>Desde cedo, ela viveu a expectativa do momento de vestir a fantasia; a euforia eratanta que at superou o orgulho ferido de ganhar um presente porque sobrou papel.</p><p>Quase na hora de ser fantasiada, a me dela subitamente piorou de sade. Coube menina, sem os cabelos enrolados e sem maquiagem, correr pela rua para buscar remdio.</p><p>Mais tarde, acalmada a crise da me, ela saiu com a fantasia completa, contudo oencantamento j no existia mais. Como poderia ela se divertir, se a me estava mal?</p></li><li><p>S horas depois veio a compensao: um garoto de doze anos encheu a cabea delade confetes. Considerei pelo resto da noite que algum me havia reconhecido: eu era, sim,uma rosa.</p><p>O GRANDE PASSEIO</p><p>Uma velhinha pobre andava pelas ruas. Era apelidada de Mocinha. Havia sidocasada, tivera dois filhos: todos morreram e ela ficou sozinha.</p><p>Depois de dormir em vrios lugares, Mocinha acabou, no se sabia por que, passandoa dormir sempre nos fundos de uma casa grande no bairro Botafogo. Cedinho ela saapasseando. Na maior parte do tempo, a famlia moradora da casa se esquecia dela.</p><p>Certo dia, a famlia achou que Mocinha j estava l por muito tempo. Resolveramlev-la para Petrpolis, entreg-la na casa de uma cunhada alem. Um filho da casa, com anamorada e as duas irms, foi passar um fim-de-semana l e levou Mocinha.</p><p>Na noite anterior, a velhinha no dormiu, ansiosa por causa do passeio e da mudanade vida. Como se fossem flashes descontnuos, vinham-lhe cabea pedaos de recordaesde sua vida no Maranho: a morte do filho Rafael atropelado por um bonde; a morte da filhaMaria Rosa, de parto; o marido, contnuo de uma repartio, sempre em manga de camisa ela no conseguia se lembrar do palet... S conseguiu dormir de madrugada. Acordaram-nacedo e a acomodaram no carro.</p><p>A viagem transcorreu para Mocinha entre cochilos e novos flashes de memria comcenas entrecortadas da vida passada. Foi deixada perto da casa do irmo do rapaz quedirigia, Arnaldo; indicaram-lhe o caminho e recomendaram que dissesse que no podia maisficar na outra casa, que Arnaldo a recebesse, que ela poderia at tomar conta do filho...</p><p>A alem, mulher de Arnaldo, estava dando comida ao filho; deixou Mocinha sentadasem lhe oferecer alimento, aguardando o marido. Este veio, confabulou com a mulher edisse a Mocinha que no poderia ficar com ela. Deu-lhe um pouco de dinheiro para quetomasse um trem e voltasse para a casa de Botafogo. Ela agradeceu e saiu pela rua. Paroupara tomar um pouco de gua num chafariz e continuou andando, sentindo um peso noestmago e alguns reflexos pelo corpo, como se fossem luzes. A estrada subia muito. Aestrada branca de sol se estendia sobre um abismo verde. Ento, como estava cansada, avelha encostou a cabea no tronco de rvore e morreu.</p><p>COME, MEU FILHO</p><p>A me d comida ao filho Paulinho e ele fica puxando conversa para evitar ter quecomer. Os assuntos que ele traz so desconexos, simples pretextos para no comer. Porexemplo: o mundo chato e no redondo; o pepino parece inreal, faz barulho de vidroquando a gente mastiga; quem teria inventado o feijo com arroz; o sorvete bom quando ogosto igual cor... A me, paciente, vai respondendo laconicamente e insistindo em quePaulinho no converse tanto e coma.</p></li><li><p>No fim, ele pergunta se verdade que adivinhou que ela o olha daquele jeito no para ele comer, mas porque gosta dele. A me diz que ele adivinhou sim, mas torna a insistirem que ele coma. Paulinho retruca: Voc s pensa nisso. Eu falei muito para voc nopensar s em comida, mas voc vai e no esquece.</p><p>PERDOANDO DEUS</p><p>Andando pela Avenida Copacabana, a narradora teve uma sensao indita: sentiu-sea me de Deus, o qual era a prpria Terra, o mundo. Teve um carinho maternal por Deus.</p><p>Foi quando ela pisou num rato morto. Encheu-se de susto e pavor como uma criana.Ento revoltou-se contra Deus. Por que num momento de tanta beleza interior ela tinhatopado exatamente com um rato? Teve vontade de negar que Deus existisse como Deus...Mas percebeu que esse pensamento a vingana dos fracos quando tomam conscincia desua fraqueza.</p><p>Concluiu que a sensao to solene que tivera era falsa, estivera amando um mundoque no existe ( no fundo eu quero amar o que eu amaria e no o que . E porque aindano sou eu mesma, e ento o castigo amar um mundo que no ele.(...) Como posso amara grandeza do mundo se no posso amar o tamanho da minha natureza?)</p><p>Finalmente, ficou esclarecido na mente dela que estava querendo amar a um Deus sporque ela no se aceitava. Ela estaria amando um Deus que seria seu contraste, esse Deusseria apenas um modo de ela se acusar. Enquanto eu inventar Deus, Ele no existe.</p><p>TENTAO tarde, sentada nos degraus de uma escada, em rua deserta do Graja, a menininha</p><p>pobre, ruiva, solitria estava com um soluo seco a incomod-la.Nisso, veio passando um cachorro basset ruivo. Parou diante da menina, sem latir.</p><p>Fitaram-se mudamente. Sem emitir som, eles se pediam: um solucionaria o problema desolido do outro.</p><p>O cachorro foi embora. Incrdula, os olhos da menina acompanharam-no at v-lodobrar a outra esquina. Mas ele foi mais forte do que ela. Nem uma s vez olhou para trs.</p><p>O OVO E A GALINHA</p><p>O ovo a prpria existncia real, objetiva, em si mesma. A galinha nossa viso devida interior; ela s existe por causa do ovo. Sem o ovo, a galinha no tem sentido. Ela omeio de transporte para o ovo, tonta, desocupada e mope.</p><p>O ovo sempre o mesmo, isto , a vida; a galinha sempre a tragdia de cada poca.O ovo tem sua forma definida; a galinha continua sendo redesenhada. Ainda no se achou aforma mais adequada para uma galinha.(...) O seu destino o ovo, a sua vida pessoal no</p></li><li><p>nos interessa. A galinha prejudicial ao ovo aquela que s pensa em si, que no quersacrificar sua vida.</p><p>Os homens so os agentes da vida. Os que tm amor so os que participam um poucomais da vida. Mas, como o amor a desiluso de tudo o mais, poucos amam, porque amaioria no suporta perder as outras iluses. Inclusive amor a desiluso do que sepensava que era amor.</p><p>Os homens existem para que o ovo se faa. Aqueles que no entendem isso,suicidam-se ou so eliminados. Estes no entendem o nosso mistrio: somos apenas ummeio e no um fim. Os que no aceitam o mistrio procuram eliminar os que o aceitam.Ento eles mandam que estes falem. Enquanto falam, o ovo esquecido.</p><p>CEM ANOS DE PERDOA menina e sua colega olhavam para os palacetes e disputavam a posse imaginria</p><p>deles.</p><p>Um dia, a menina viu uma rosa e apanhou-a, tomando cuidado para no ser vista.Enquanto ela colhia as rosas a fim de levar para casa, a colega vigiava.</p><p>As duas, usando dessa estratgia uma colhia, a outra vigiava passaram a furtarrosas com freqncia. Alm de rosas, furtavam tambm pitangas. Ladro de rosas epitangas tm cem anos de perdo. As pitangas, por exemplo, so elas mesmas que pedem praser colhidas, em vez de amadurecer e morrer no galho, virgens.</p><p>A LEGIO ESTRANGEIRAA narradora recebeu, s vsperas do Natal, um pinto de presente, vindo de uma</p><p>famlia que fora vizinha dela e sumira inexplicavelmente.Ento, ela se lembrou de Oflia, a filha de oito anos dessa famlia. Eram pessoas que</p><p>bloqueavam qualquer intimidade. Mas Oflia adquiriu o hbito de visitar a narradora todosos dias. Enquanto esta ficava mquina de escrever, trabalhando em sua profisso de copiaro arquivo de um escritrio, Oflia sentava-se, olhava para ela e dava conselhos, muitoformal, como se fosse uma adulta cheia de sabedoria. A narradora ouvia, dificilmente falava,sempre a ltima palavra era da menina, numa postura antiptica.</p><p>Certo dia, a narradora comprou na feira um pinto para os filhos, ainda pequenos,brincarem. Quando Oflia chegou para a visita habitual, ouviu o piar do pinto, pediu parav-lo e peg-lo. Nesse instante, perdeu a pose de adulta e se tornou uma criana brincandocom o pintinho. Depois deixou-o na cozinha, despediu-se e voltou para a casa dela.Seguindo uma intuio, a narradora, logo aps a sada da menina, foi cozinha e encontrouo pinto morto.</p></li><li><p>O pinto recebido hoje estremece embaixo da mesa. Como na Pscoa nos prometido, em dezembro ele volta. Oflia que no voltou: cresceu. Foi ser a princesahindu por quem no deserto sua tribo esperava.</p><p>OS OBEDIENTES</p><p>Um casal viveu muitos anos junto. Sua harmonia conjugal era aparentementeperfeita. Mas no tinham emoes. Cumpriam com perfeio a rotina, totalmente obedientesao que se convencionou chamar de realidade de um casal, inclusive quanto fidelidade.Nem individualmente nem em comum faziam ou diziam algo de inconveniente.</p><p>J...</p></li></ul>

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