Clarice Lispector - Felicidade clandestina ?· devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava…

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    08-Nov-2018

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<ul><li><p>Clarice Lispector</p><p>Felicidade Clandestinae outros contos</p></li><li><p>Felicidade ClandestinaIn Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro, Rocco, 1998.</p><p>Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinhaum busto enorme, enquanto ns todas ainda ramos achatadas. Como se no bastasse, enchia osdois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possua o que qualquer criana devoradorade histrias gostaria de ter: um pai dono de livraria.</p><p>Pouco aproveitava. E ns menos ainda: at para aniversrio, em vez de pelo menos umlivrinho barato, ela nos entregava em mos um carto-postal da loja do pai. Ainda por cima era depaisagem do Recife mesmo, onde morvamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrs escreviacom letra bordadssima palavras como data natalcia e saudade.</p><p>Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingana, chupando balas combarulho. Como essa menina devia nos odiar, ns que ramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias,altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha nsiade ler, eu nem notava as humilhaes a que ela me submetia: continuava a implorar-lheemprestados os livros que ela no lia.</p><p>At que veio para ela o magno dia de comear a exercer sobre mim um tortura chinesa.Como casualmente, informou-me que possua As reinaes de Narizinho, de Monteiro Lobato.</p><p>Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o,dormindo-o. E, completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa nodia seguinte e que ela o emprestaria.</p><p>At o dia seguinte eu me transformei na prpria esperana de alegria: eu no vivia, nadavadevagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.</p><p>No dia seguinte fui sua casa, literalmente correndo. Ela no morava num sobrado como eu,e sim numa casa. No me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que haviaemprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para busc-lo. Boquiaberta, sadevagar, mas em breve a esperana de novo me tomava toda e eu recomeava na rua a andarpulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem ca: guiava-mea promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, oamor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e no ca nenhuma vez.</p><p>Mas no ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono da livraria era tranqiloe diablico. No dia seguinte l estava eu porta de sua casa, com um sorriso e o corao batendo.Para ouvir a resposta calma: o livro ainda no estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte.Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do dia seguinte com ela ia se repetircom meu corao batendo.</p><p>E assim continuou. Quanto tempo? No sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto ofel no escorresse todo de seu corpo grosso. Eu j comeara a adivinhar que ela me escolhera paraeu sofrer, s vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, s vezes aceito: como se quem quer mefazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.</p><p>Quanto tempo? Eu ia diariamente sua casa, sem faltar um dia sequer. s vezes ela dizia:pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas voc s veio de manh, de modo que o emprestei aoutra menina. E eu, que no era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhosespantados.</p><p>At que um dia, quando eu estava porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a suarecusa, apareceu sua me. Ela devia estar estranhando a apario muda e diria daquela menina porta de sua casa. Pediu explicaes a ns duas. Houve uma confuso silenciosa, entrecortada depalavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de no estarentendendo. At que essa me boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresaexclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e voc nem quis ler!</p></li><li><p>E o pior para essa mulher no era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descobertahorrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silncio: a potncia de perversidade de sua filhadesconhecida e a menina loura em p porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi ento que,finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: voc vai emprestar o livro agora mesmo.E para mim: E voc fica com o livro por quanto tempo quiser. Entendem? Valia mais do que medar o livro: pelo tempo que eu quisesse tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter aousadia de querer.</p><p>Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mo. Acho queeu no disse nada. Peguei o livro. No, no sa pulando como sempre. Sa andando bem devagar.Sei que segurava o livro grosso com as duas mos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempolevei at chegar em casa, tambm pouco importa. Meu peito estava quente, meu corao pensativo.</p><p>Chegando em casa, no comecei a ler. Fingia que no o tinha, s para depois ter o susto de oter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa,adiei ainda mais indo comer po com manteiga, fingi que no sabia onde guardara o livro, achava-o,abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que eraa felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu j pressentia. Comodemorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.</p><p>s vezes sentava-me na rede, balanando-me com o livro aberto no colo, sem toc-lo, emxtase purssimo.</p><p>No era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante. </p><p>A MensagemIn A Legio Estrangeira.So Paulo, tica, 1977</p><p>A princpio, quando a moa disse que sentia angstia, o rapaz se surpreendeu tanto quecorou e mudou rapidamente de assunto para disfarar o aceleramento do corao.</p><p>Mas h muito tempo desde que era jovem ele passara afoitamente do simplismo infantilde falar dos acontecimentos em termos de coincidncia. Ou melhor evoluindo muito e noacreditando nunca mais ele considerava a expresso coincidncia um novo truque de palavras eum renovado ludbrio.</p><p>Assim, engolida emocionadamente a alegria involuntria que a verdadeiramente espantosacoincidncia dela tambm sentir angstia lhe provocara ele se viu falando com ela na sua prpriaangstia, e logo com uma moa! ele que de corao de mulher s recebera o beijo de me.</p><p>Viu-se conversando com ela, escondendo com secura o maravilhamento de enfim poder falarsobre coisas que realmente importavam; e logo com uma moa! Conversavam tambm sobre livros,mal podiam esconder a urgncia que tinham de pr em dia tudo em que nunca antes haviam falado.Mesmo assim, jamais certas palavras eram pronunciadas entre ambos. Dessa vez no porque aexpresso fosse mais uma armadilha de que os outros dispem para enganar os moos. Mas porvergonha. Porque nem tudo ele teria coragem de dizer, mesmo que ela, por sentir angstia, fossepessoa de confiana. Nem em misso ele falaria jamais, embora essa expresso to perfeita, que elepor assim dizer criara, lhe ardesse na boca, ansiosa por ser dita.</p><p>Naturalmente, o fato dela tambm sofrer simplificara o modo de se tratar uma moa,conferindo-lhe um carter masculino. Ele passou a trat-la como camarada.</p><p>Ela mesma tambm passou a ostentar com modstia aureolada a prpria angstia, como umnovo sexo. Hbridos ainda sem terem escolhido um modo pessoal de andar, e sem terem aindauma caligrafia definitiva, cada dia a copiarem os pontos de aula com letra diferente hbridos elesse procuravam, mal disfarando a gravidade. Uma vez ou outra, ele ainda sentia aquela incrdulaaceitao da coincidncia: ele, to original, ter encontrado algum que falava a sua lngua! Aos</p></li><li><p>poucos compactuaram. Bastava ela dizer, como numa senha, passei ontem uma tarde ruim, e elesabia com austeridade que ela sofria como ele sofria. Havia tristeza, orgulho e audcia entre ambos.</p><p>At que tambm a palavra angstia foi secando, mostrando como a linguagem falada mentia.(Eles queriam um dia escrever.) A palavra angstia passou a tomar aquele tom que os outrosusavam, e passou a ser um motivo de leve hostilidade entre ambos. Quando ele sofria, achava umagafe ela falar em angstia. Eu j superei esta palavra, ele sempre superava tudo antes dela, sdepois que a moa o alcanava.</p><p>E aos poucos ela se cansou de ser aos olhos dele a nica mulher angustiada. Apesar disso lheconferir um carter intelectual, ela tambm era alerta a essa espcie de equvocos. Pois ambosqueriam, acima de tudo, ser autnticos. Ela, por exemplo, no queria erros nem mesmo a seu favor,queria a verdade, por pior que fosse. Alis, s vezes tanto melhor se fosse por pior que fosse.Sobretudo a moa j comeara a no sentir prazer em ser condecorada com o ttulo de homem aomenor sinal que apresentava de... de ser uma pessoa. Ao mesmo tempo que isso a lisonjeava,ofendia um pouco: era como se ele se surpreendesse de ela ser capaz, exatamente por no julg-lacapaz. Embora, se ambos no tomassem cuidado, o fato dela ser mulher poderia de sbito vir tona.Eles tomavam cuidado.</p><p>Mas, naturalmente, havia a confuso, a falta de possibilidade de explicao, e issosignificava tempo que ia passando. Meses mesmo.</p><p>E apesar da hostilidade entre ambos se tornar gradativamente mais intensa, como mos queesto perto e no se do, eles no podiam se impedir de se procurar. E isso porque se na boca dosoutros cham-los de jovens lhes era uma injria entre ambos ser jovem era o mtuo segredo,e a mesma desgraa irremedivel. Eles no podiam deixar de se procurar porque, embora hostis com o repdio que seres de sexo diferente tm quando no se desejam , embora hostis, elesacreditavam na sinceridade que cada um tinha, versus a grande mentira alheia. O corao ofendidode ambos no perdoava a mentira alheia. Eles eram sinceros. E, por no serem mesquinhos,passavam por cima do fato de terem muita facilidade para mentir como se o que realmenteimportasse fosse apenas a sinceridade da imaginao. Assim continuaram a se procurar, vagamenteorgulhosos de serem diferentes dos outros, to diferentes a ponto de nem se amarem. Aquelesoutros que nada faziam seno viver. Vagamente conscientes de que havia algo de falso em suasrelaes. Como se fossem homossexuais de sexo oposto, e impossibilitados de unir, em uma s, adesgraa de cada um. Eles apenas concordavam no nico ponto que os unia: o erro que havia nomundo e a tcita certeza de que se eles no o salvassem seriam traidores. Quanto a amor, eles no seamavam, era claro. Ela at j lhe falara de uma paixo que tivera recentemente por um professor.Ele chegara a lhe dizer j que ela era como um homem para ele , chegara mesmo a lhe dizer, comuma frieza que inesperadamente se quebrara em horrvel bater de corao, que um rapaz obrigadoa resolver certos problemas, se quiser ter a cabea livre para pensar. Ele tinha dezesseis anos, eela, dezessete. Que ele, com severidade, resolvia de vez em quando certos problemas, nem seu paisabia.</p><p>O fato que, tendo uma vez se encontrado na parte secreta deles mesmos, resultara natentao e na esperana de um dia chegar ao mximo. Que mximo?</p><p>Que , afinal, que eles queriam? Eles no sabiam, e usavam-se como quem se agarra emrochas menores at poder sozinho galgar a maior, a difcil e a impossvel; usavam-se para seexercitarem na iniciao; usavam-se impacientes, ensaiando um com o outro o modo de bater asaspara que enfim cada um sozinho e liberto pudesse dar o grande vo solitrio que tambmsignificaria o adeus um do outro. Era isso? Eles se precisavam temporariamente, irritados pelo outroser desastrado, um culpando o outro de no ter experincia. Falhavam em cada encontro, como senuma cama se desiludissem. O que , afinal, que queriam? Queriam aprender. Aprender o qu?eram uns desastrados. Oh, eles no poderiam dizer que eram infelizes sem ter vergonha, porquesabiam que havia os que passam fome; eles comiam com fome e vergonha. Infelizes? Como? se naverdade tocavam, sem nenhum motivo, num tal ponto extremo de felicidade como se o mundo fossesacudido e dessa rvore imensa cassem mil frutos. Infelizes? se eram corpos com sangue como</p></li><li><p>uma flor ao sol. Como? se estavam para sempre sobre as prprias pernas fracas, conturbados, livres,milagrosamente de p, as pernas dela depiladas, as dele indecisas mas a terminarem em sapatosnmero 44. Como poderiam jamais ser infelizes seres assim?</p><p>Eles eram muito infelizes. Procuravam-se cansados, expectantes, forando, uma continuaoda compreenso inicial e casual que nunca se repetira e sem nem ao menos se amarem. O ideal ossufocava, o tempo passava intil, a urgncia os chamava eles no sabiam para o que caminhavam,e o caminho os chamava. Um pedia muito do outro, mas que ambos tinham a mesma carncia, ejamais procurariam um par mais velho que lhes ensinasse, porque no eram doidos de se entregaremsem mais nem menos ao mundo feito.</p><p>Um modo possvel de ainda se salvarem seria o que eles nunca chamariam de poesia. Naverdade, o que seria poesia, essa palavra constrangedora? Seria encontrarem-se quando, porcoincidncia, casse uma chuva repentina sobre a cidade? Ou talvez, enquanto tomavam umrefresco, olharem ao mesmo tempo a cara de uma mulher passando na rua? ou mesmo encontrarem-se por coincidncia na velha noite de lua e vento? Mas ambos haviam nascido com a palavra poesiaj publicada com o maior despudor nos suplementos de domingo dos jornais. Poesia era a palavrados mais velhos. E a desconfiana de ambos era enorme, como de bichos. Em quem o instinto avisa:que um dia sero caados. Eles j tinham sido por demais enganados para poderem agora acreditar.E, para ca-los, teria sido preciso uma enorme cautela, muito faro e muita lbia, e um carinhoainda mais cauteloso um carinho que no os ofendesse para, pegando-os desprevenidos, podercaptur-los na rede. E, com mais cautela ainda para no despert-los, lev-los astuciosamente para omundo dos viciados, para o mundo j criado; pois esse era o papel dos adultos e dos espies. De tolongamente ludibriados, vaidosos da prpria amargura, tinham repugnncia por palavras, sobretudoquando uma palavra como poesia era to esperta que quase exprimia, e a ento que mostravamesmo como exprimia pouco. Ambos tinham, na verdade, repugnncia pela maioria das palavras, oque estava longe de facilitar-lhes uma comunicao, j que eles ainda no haviam inventadopalavras melhores: eles se desentendiam constantemente, obstinados rivais. Poesia? Oh, como eles adetestavam. Como se fosse sexo. Eles tambm achavam que os outros queriam ca-los no para osexo, mas para a normalidade. Eles eram medrosos, cientficos, exaustos de experincia. Na palavraexperincia, sim, eles falavam sem pudor e sem explic-la: a expresso ia mesmo variando semprede significado. Experincia s vezes tambm se confundia com mensagem. Eles usavam ambas aspalavras sem aprofundar-lhes muito o sentido.</p><p>Alis, no aprofundavam nada, como se no houvesse tempo, como se existissem coisasdemais sobre as quais trocar idias. No percebendo que no trocavam nenhuma idia.</p><p>Bem, mas no era apenas isso, e nem com essa simplicidade. No era apenas isso: nessenterim o tempo ia passando, confuso, vasto, entrecortado, e o corao do tempo era o sobressalto e...</p></li></ul>