Colla an a Cristina

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    01-Mar-2016

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  • Universidade Estadual de Campinas Instituto de Artes

    DA MINHA JANELA VEJO...

    relato de uma trajetria pessoal de pesquisa no Lume

    Ana Cristina Colla

    Campinas, SP 2003

  • Ana Cristina Colla Da minha janela vejo... Pg. 2

    Universidade Estadual de Campinas

    Instituto de Artes Mestrado em Artes

    DA MINHA JANELA VEJO... relato de uma trajetria pessoal de pesquisa no Lume

    Ana Cristina Colla

    Dissertao apresentada ao curso de Mestrado

    em Artes do Instituto de Artes da UNICAMP

    como requisito parcial para obteno do grau

    de Mestre em Artes Cnicas, sob a orientao

    da Profa. Dra. Suzi Frankl Sperber.

    Campinas, SP 2003

  • Ana Cristina Colla Da minha janela vejo... Pg. 3

    Banca Examinadora

    Orientadora Profa. Dra. Suzi Frankl Sperber

    ___________________________________

    ___________________________________

    Campinas, ___ de ____________ de 2003

  • Ana Cristina Colla Da minha janela vejo... Pg. 4

    Resumo

    Essa dissertao contm o relato parcial de dez anos de pesquisa prtica junto ao

    LUME- Ncleo de Pesquisas Teatrais, vinculado a Universidade de Campinas. A busca

    pelo encontro das palavras e a formalizao terica das experincias vividas.

    Todo o relato permeado por anotaes retiradas de dirios de trabalho, realizadas

    ao longo dos anos, dando um panorama do desenvolvimento das pesquisas e sua

    aplicao em espetculos teatrais. A abordagem parte do foco pessoal rumo aos diversos

    tempos contidos num processo de criao que tem como premissa a investigao

    cotidiana, individual e coletiva.

    Como parte final, um apndice contendo a narrao de trs pesquisas de campo,

    realizadas em diferentes regies do Brasil, responsveis pela coleta de material

    manipulados posteriormente em sala de trabalho, como auxiliar na visualizao desse

    processo.

    Como parte prtica integrante dessa dissertao, temos a apresentao do

    espetculo teatral Caf com Queijo, aplicao cnica vinculada a pesquisa de Mmesis

    Corprea.

  • Ana Cristina Colla Da minha janela vejo... Pg. 5

    ao meu mestre Lus Otvio Burnier (in memoriam), pela descoberta do sentido

  • Ana Cristina Colla Da minha janela vejo... Pg. 6

    Agradecimentos minha orientadora preferida Profa. Dra. Suzi Frankl Sperber, pela puxada de tapete,

    pacincia e silncio, nos momentos necessrios, para que eu pudesse me ouvir, instigando-

    me ao risco.

    Ao meu anjo da guarda Renato Ferracini, que acreditou que eu seria capaz antes mesmo

    que eu o soubesse.

    Aos atores do Lume, irmos de corao e criao, Carlos Simioni, Jesser de Souza, Raquel

    Scotti Hirson, Renato Ferracini, Ricardo Puccetti e Naomi Silman, pelo sonho partilhado.

    Ao meu querido companheiro Pedro, pelo amor, alimento da minha sanidade.

    minha irm-me Snia e seu companheiro Csar, pela confiana, incentivo e amor, que

    sem eles, provavelmente, eu no teria sobrevivido.

    Aos meus pais, presenas-ausentes, pela criao.

    Ao amigo Barbosa, sempre presente.

    atriz Andra Macera pela leitura das primeiras palavras.

    Prola e Juliana, pelos aconselhamentos sempre teis e por suportarem minhas alteraes

    de humor.

    Juliana Jardim pelas conversas inspiradoras.

  • Ana Cristina Colla Da minha janela vejo... Pg. 7

    Por mais intransmissvel que fossem os humanos, eles sempre tentavam se comunicar atravs de gestos, de gaguejos, de palavras mal ditas e malditas.

    Clarice Lispector

  • Ana Cristina Colla Da minha janela vejo... Pg. 8

    Sumrio

    Da minha janela vejo...................................................................................................................................... 10

    Serestando ....................................................................................................................................................... 12

    Corpo - territrio do (in)visvel ..................................................................................................................... 15

    Primeiros passos... .......................................................................................................................................... 21

    Solido compartilhada ................................................................................................................................... 36

    Mestres ............................................................................................................................................................ 38

    Hoje.................................................................................................................................................................. 39

    Bem me quer, mal me quer, bem me quer, mal me quer, bem me quer... 41

    O hoje no ontem.............................................................................................................................................. 42

    Tempos ............................................................................................................................................................ 46 Tempo Recolhimento ................................................................................................................................... 48 Tempo Coleta............................................................................................................................................... 58

    Objetos.................................................................................................................................................... 60 Msica..................................................................................................................................................... 65 Imagem pictrica .................................................................................................................................... 68 A Imagem Literria................................................................................................................................. 73 Animal .................................................................................................................................................... 77 Pessoas.................................................................................................................................................... 80

    Tempo Construo....................................................................................................................................... 98 Universo pesquisado ............................................................................................................................. 102 Edio do material ................................................................................................................................ 103 Espacialidade ........................................................................................................................................ 105 Para onde o barco est nos conduzindo................................................................................................. 109

    Tempo Nascimento .................................................................................................................................... 113 Tempo Transmisso................................................................................................................................... 117

    Concluso para uma Academia................................................................................................................... 119

    APNDICE................................................................................................................................................... 121 Pesquisa de Campo ................................................................................................................................... 121

    Comunicado ao leitor............................................................................................................................ 122 Tempo primeiro ......................................................................................................................................... 124 Tempo segundo .......................................................................................................................................... 152

    No Reino das guas ............................................................................................................................. 171 No Reino da Mata ................................................................................................................................. 175 No Reino das Mulheres......................................................................................................................... 178

  • Ana Cristina Colla Da minha janela vejo... Pg. 9

    No Reino da Msica ............................................................................................................................. 182 No Reino da Religiosidade ................................................................................................................... 186

    Tempo terceiro........................................................................................................................................... 193

    Bibliografia ................................................................................................................................................... 212

  • Ana Cristina Colla Da minha janela vejo... Pg. 10

    Da minha janela vejo...

    (relato de uma curta trajetria)

    Dentro do Passado est o Futuro, e dentro do Futuro, o Passado.1

    Para que o hoje se fizesse presente o ontem precisou existir.

    FECHADO PARA BALANO

    DIRIO DE BORDO

    Fevereiro de 2002 - inferno astral Planeta Terra Baro Geraldo, sub- distrito de Campinas Objeto de pesquisa: eu mesma, ser atuante Local de pesquisa: LUME - Ncleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais2 Incio da trajetria: Janeiro de 1993 Riscos: perigo! no sair do prprio umbigo Venho aqui para o meu recanto em busca de mim mesma.

    Onde me encontrar?

    Como saber que palavras so minhas?

    Quero a verdade, mas no muito, no toda, por partes, se puder, em pequenos torres.3

    Frase solta, que acabou por me desafiar: "S sei fazer desta forma. a nica

    maneira que conheo de ser atriz."

    Busca da resposta: qual maneira? que forma?

    1OHNO, Kazuo. Programa de divulgao sobre a vinda de Kazuo Ohno - Butoh, intercmbio cultural Brasil- Japo- Argentina, 1986, pg. 28 2 O LUME um Centro de Pesquisa Teatral, cujo foco de ateno o trabalho do ator, sua tcnica e sua arte. Criado em 1985, o LUME vem se dedicando a elaborar e codificar tcnicas corpreas e vocais de representao, redimensionando o teatro, enquanto ofcio, como uma arte do fazer e o ator como um arteso que executa aes. Hoje, como resultado de suas pesquisas, o LUME possui uma metodologia para desenvolvimento de tcnicas pessoais de representao para o ator; uma maneira particular de se trabalhar o clown e a utilizao cmica do corpo; bem como a Mmesis Corprea: imitao e tecnificao das aes do cotidiano. 3 PRADO, Adlia. Manuscritos de Felipa, 1999, pg. 9

  • Ana Cristina Colla Da minha janela vejo... Pg. 11

    responda e alguma coisa voc tem que saber nem que seja a pergunta 4

    Fechado para balano. Busco o relato de um caminho percorrido. Nele me encontro.

    Nele sou.

    Me expressarei na primeira pessoa, o "eu", pois dele estou em busca. O "ns" tem

    sido uma constante em meu percurso de criao em grupo e nele, sem querer, me perco.

    Tenho que falar de mim, felizmente, porque de outrem - cabe perfeitamente aqui esta palavra - no conheo nada, o que me livra de julgar e pecar diuturnamente.5

    Me parece um desejo pretensioso. Mas ele me desafia e vou tentar seguir adiante.

    4 RUIZ, Alice, Pelos pelo. 1984, pg. 29 5 PRADO, Adlia, Manuscritos de Felipa, 1999, pg. 8

  • Ana Cristina Colla Da minha janela vejo... Pg. 12

    Serestando

    Dor e prazer, em diferentes gradaes, sempre me acompanharam e fascinaram. A

    necessidade de "ser" e "estar", simultaneamente, me conflituam. Sou covarde. Necessito de

    mscaras que me revelem.

    possvel ser e estar ao mesmo tempo? Ou para estar preciso deixar de ser? E

    sendo, conseguirei estar?

    Doidices de corao pensante.

    Quando em cena cruzo com os olhos daquele que me assiste, me sinto "ser-

    estando". Serestando. Ali me desfao e quando recolho os pedaos, sempre surge um

    caquinho novo, para renovar a estrutura. Um a um, o olhar do espectador, aparentemente

    figura passiva em sua cadeira, entra na cena, reinventando o dizer. Quando a troca se

    estabelece, o jogo passa a existir, com finssimos fios invisveis interligando os dois

    territrios. Pelos olhos d-se o primeiro encontro, que se espalha pelos poros atravs de

    micro tenses, emitidas por ambos os lados.

    Suores, suspiros, respirao suspensa, risos de diferentes matizes, preenchem o

    espao. O barco flui, o ator maneja o remo e com ele vai abrindo as guas, rompendo o

    tempo real, conduzindo os passageiros. E esse sentimento mgico, quase indescritvel.

    Raro, de significado precioso. Nisso creio. Esse momento busco. Fugaz! to fugaz e to

    intenso, que um prazer-dor, porque aps o pico vem o esvaziar. O corpo como que se

    esvai, sugado, pela energia gasta pelo contato estabelecido. Um orgasmo conjunto. Talvez

    exageros de pisciana.

  • Ana Cristina Colla Da minha janela vejo... Pg. 13

    Triste ser uma viagem com hora marcada para acabar. Instigante nunca saber

    qual rumo a prxima viagem ir tomar.

    No espao da atuao, as mentiras so mal vistas e percebidas logo na primeira

    respirao. Quando me detecto mentindo, o alarme soa e ai! como di. O fio que me une ao

    espectador cortado e me sinto macaqueando aes ridculas. Mas at hoje me pego

    mentindo, como um animal que insiste em brincar com o fogo apesar da pata queimada.

    Na vida mentimos a todo momento - se a afirmao no plural causa rejeio,

    recoloco os termos: na vida minto a todo momento. Talvez a utilizao da palavra "todo"

    tambm possa ser assumida como um exagero para valorizar a argumentao que vir.

    Acostumamo-nos tanto a mentir sobre as pequenas coisas que elas acabam por se tornar

    verdades no decorrer do tempo. D preguia no mentir. to mais prtico. "Como vai?

    tudo bem?" e a resposta vem automtica : "tudo bem"- mesmo se voc acordou naquele dia

    com a sensao de que nada faz sentido na vida.

    A palavra nos permite isso. Escondemo-nos por trs de seus significados. No

    mximo, somos denunciados pelo tom impresso na voz, sinalizando que razo e sentimento

    andam brigados. A comunicao por palavras, muitas vezes, leva a uma reduo prtica do

    sentir.

    Palavras no me bastam, so concretas demais. "Sim", "no", "sempre", "nunca",

    ainda bem que existe "s vezes", "nem sempre", para amenizar e deixar em aberto. Seria

    timo se houvesse como dizer um "no-sim" porque, muitas vezes, o "no" traz impresso o

    desejo do "sim". Desejar no desejando. Ou eu que estou ficando esquizofrnica?

    Se ampliamos a comunicao para todo o corpo, o invisvel pode ser comunicado.

    Com a associao ou no das...

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