Dashiell Hammett o Falcao Maltes

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    07-Feb-2016

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  • dashiell hammett

    o falco malts

    crculo do livro s.a.caixa postal 7413 01051 so paulo, brasil

    edio integral

    ttulo do original: "the maltese falcon"copyright 1929,1930, alfred a. knopf, inc., renovadoem 1957 por dashiell hammett

    traduo: cndida villalva capa: layout de natanael longo de oliveira e foto do filme "relquia macabra", da warner

    licena editorial para o crculo do livro por cortesia da editora brasiliense s.a. e abril s.a. cultural

    venda permitida apenas aos scios do crculocomposto pela linoart ltda. impresso e encadernado pelo crculo do livro s.a.2468 10 97531 87 89 90 88 86

  • 1 spade & archer

    o maxilar de samuel spade era longo e ossudo, e seu queixo, um v proeminente sob o v mais flexvel da boca. as narinas curvavam-se para trs, formando um outro v menor. os olhos, amarelo-pardos, eram horizontais. o motivo v era retomado por espessas sobrancelhas, que saam de duas rugas gmeas sobre o nariz adunco e se erguiam na parte externa, e o cabelo, castanho-claro, descia das tmporas altas e achatadas, em ponta sobre a testa. dava a impresso um tanto divertida de um demnio loiro.

    ento, meu bem? disse ele, dirigindo-se a effie perine.effie perine era uma moa esbelta, morena de sol, cujo vestido de

    l escura e leve a envolvia produzindo um efeito melanclico. tinha olhos castanhos e travessos, num rosto vivo e juvenil.

    acabou de fechar a porta, encostou-se a ela, e disse: est a uma moa sua procura. chama-se wonderly. uma cliente? acho que sim. de todo jeito, ter que v-la: ela uma graa. faa-a entrar, meu bem disse spade. faa-a entrar.effie perine abriu de novo a porta, recuando para a sala externa

    sem tirar a mo do trinco, enquanto dizia: faa o favor de entrar, srta. wonderly.uma voz respondeu "muito obrigada", to suavemente que apenas

    a clara pronncia tornava as palavras inteligveis, e uma jovem transps a porta. caminhava devagar, com passos hesitantes, fixando em spade uns olhos azul-cobalto que se mostravam ao mesmo tempo tmidos e perscrutadores. era alta e de uma esbeltez flexvel, sem angulosidades. tinha o talhe ereto e o colo alteado, pernas longas, mos e ps estreitos. usava dois tons de azul, escolhidos de acordo com os olhos. o cabelo, caindo em anis sob o chapu azul, era de um vermelho sombrio, e os lbios cheios, de um vermelho mais vivo. dentes alvos brilhavam na meia-lua formada pelo seu sorriso tmido.

    spade levantou-se, cumprimentando-a e indicando com a mo de dedos grossos a cadeira de braos feita de carvalho, ao lado da sua secretria. ele tinha bem um metro e noventa de altura. a pronunciada curvatura dos ombros fazia seu corpo, de largura igual tanto na frente

  • como dos lados, parecer quase cmico e impedia o palet cinzento, bem passado, de cair direito.

    a srta. wonderly murmurou suavemente: muito obrigada e sentou-se na beirada do assento de madeira. spade afundou na cadeira giratria, deu uma volta para colocar-se frente moa e sorriu com polidez, quase sem abrir os lbios. todos os vv do seu rosto se alonga-ram. atravs da porta fechada, veio o tip-tap das teclas e o leve som da campainha, acompanhando o rudo abafado da mquina de effie perine. num escritrio prximo, um motor eltrico vibrou surdamente. na secretria de spade, um cigarro amassado fumegava num cinzeiro de lato, cheio de pontas de cigarros. montculos de cinza salpicavam a superfcie amarela da secretria, o mata-borro verde e os papis ali existentes. uma janela de cortinas amarelo-claras, aberta uns trinta centmetros, deixava penetrar, vinda do ptio, uma corrente de ar que recendia levemente a amonaco. sobre a secretria, as cinzas se agitaram e foram arrastadas pela corrente.

    a srta. wonderly observava as partculas de cinza se agitarem e serem levadas pelo vento. seus olhos mostravam-se inquietos. ela estava sentada bem na beirada da cadeira, com os ps apoiados no cho, como se estivesse prestes a se levantar. as mos, caladas com luvas escuras, apertavam sobre o colo uma bolsa em formato de carteira, tambm escura. spade recostou-se na cadeira, e perguntou: em que lhe posso ser til, srta. wonderly? ela reteve a respirao e dirigiu-lhe o olhar. depois tomou flego e disse precipitadamente: o senhor poderia . . . ? eu pensei... eu... isto . . . mordeu ento o lbio inferior com os dentes brilhantes, e ficou calada. apenas os olhos escuros falavam agora, suplicando.

    spade sorriu e fez um gesto de aquiescncia com a cabea, como se a tivesse compreendido, mas com ar satisfeito, como se no fosse nada de importante, e disse:

    se a senhora me contar o que h, desde o comeo,saberemos o que preciso fazer. melhor comear. bem do

    incio. foi em nova york. sim. no sei onde ela o encontrou. quero dizer, no sei em que

    lugar de nova york. ela cinco anos mais moa que eu tem apenas dezessete anos , e nossas amizades no eram as mesmas. como irms acho que nunca fomos unidas como devamos ser. mame e papai esto na europa. isso os matar. preciso que eu a faa voltar,

  • antes que eles venham. sim disse ele. eles voltam dia 1. do prximo ms.os olhos de spade brilharam. temos ento duas semanas. eu no sabia o que ela tinha feito, at chegar a sua carta. fiquei

    louca. seus lbios tremeram. as mos amassavam a bolsa sobre o colo. receava muito que ela tivesse feito qualquer coisa assim, para procurar a polcia, mas o medo de que lhe tivesse sucedido algum mal me impedia de ir dar parte. no havia ningum a quem eu pudesse recorrer, para pedir conselho. no sabia o que fazer. o que eu podia fazer?

    nada, realmente disse spade. mas ento chegou a carta dela?

    chegou, e eu lhe mandei um telegrama pedindo-lhe que voltasse. enviei-o para a posta restante daqui. foi o nico endereo que ela me deu. esperei uma semana inteira, mas no veio resposta, nem outra notcia. e a volta de mame e papai cada vez mais prxima. ento vim a san francisco para busc-la. escrevi-lhe dizendo que vinha. no devia ter feito isso, no?

    talvez no. nem sempre fcil saber como proceder. e encontrou-a?

    no. escrevi-lhe dizendo que iria para o st. mark, e pedi-lhe que viesse falar comigo, mesmo que no tivesse a inteno de voltar em minha companhia. mas ela no veio. esperei trs dias, e ela nem veio nem me mandou nenhum recado.

    spade inclinou a loira cabea satnica em sinal de assentimento, franziu as sobrancelhas, demonstrando simpatia, e apertou os lbios.

    era horrvel disse a srta. wonderly, tentando sorrir. eu no podia ficar parada assim, esperando, sem saber o que lhe tinha acontecido, o que podia estar lhe acontecendo. abandonou o esforo de sorrir. depois teve um estremecimento. o nico endereo que tinha era o da posta restante. escrevi-lhe outra carta, e ontem tarde fui ao correio. esperei l at depois de escurecer, mas no a vi. voltei esta manh e tambm no vi corina, mas vi floyd thursby.

    spade aquiesceu de novo. suas sobrancelhas se descerraram, dando lugar a um olhar atento e penetrante.

    ele no quis me dizer onde corina estava continuou ela, desanimada. no quis me contar nada, exceto que ela estava bem, e se sentia feliz. mas como posso acreditar nele? ele me diria isso de qualquer jeito, no verdade?

  • decerto concordou spade. mas podia ser verdade. espero que seja. espero que assim seja! exclamou. mas

    no posso voltar para casa desse jeito, sem t-la visto, sem ter-lhe falado, nem mesmo pelo telefone. ele no quis me levar aonde corina est. disse que ela no quer me ver. no posso acreditar nisso. prometeu contar-lhe que tinha me visto, e traz-la para encontrar-se comigo (se ela quiser vir) esta noite, no hotel. disse que sabia que ela no havia de querer. prometeu vir ele mesmo, se ela no quisesse. ele...

    interrompeu-se, levando, assustada, a mo boca, ao se abrir a porta.

    o homem que abrira a porta deu um passo para dentro e disse: oh, desculpe-me! tirou apressadamente o chapu da cabea e retrocedeu.

    no faz mal, miles disse spade. entre. srta. wonderly, este o meu scio, sr. archer.

    miles archer entrou de novo no escritrio, fechando a porta atrs de si. inclinou a cabea e sorriu para a srta. wonderly, fazendo um vago gesto de polidez com o chapu na mo. era um homem de estatura mediana, de slida compleio, ombros largos, pescoo grosso, com um rosto jovial e vermelho, de queixo forte, e alguns fios brancos no cabelo cortado rente. aparentemente, havia passado tanto dos quarenta quanto spade dos trinta.

    spade informou: a irm da srta. wonderly fugiu de nova york com um rapaz chamado floyd thursby. eles esto aqui. a srta. wonderly viu thursby e tem uma entrevista marcada com ele para esta noite. talvez ele traga a irm dela. as probabilidades so em contrrio. a srta. wonderly quer que encontremos sua irm e a afastemos dele, e que a levemos para casa. olhou para a srta. wonderly.

    isso? disse ela com voz indistinta. seu embarao, que fora

    gradualmente afastado pelos insinuantes sorrisos, acenos de cabea e encorajamento de spade, deixava-a vermelha de novo. tinha os olhos fixos na bolsa sobre o colo, e espetava nela, nervosamente, o dedo enluvado.

    spade piscou para o scio. miles archer adiantou-se e ficou de p a um canto da secretria. enquanto a moa fitava a bolsa, ele a observava. seus olhinhos castanhos correram sobre ela o olhar audacioso e avaliador, desde o rosto inclinado at os ps, e voltaram de novo ao rosto. ele olhou ento para spade e fez com a boca um

  • trejeito de quem d um silencioso assobio de apreciao.spade levantou dois dedos do brao da cadeira num breve gesto

    de advertncia e disse: no teramos com isso nenhum aborrecimento. simplesmente questo de ter um homem no hotel esta noite para segui-lo quando ele sair, e continuar seguindo-o at que ele nos conduza a sua irm. se ela vier com ele, e a senhorita conseguir convenc-la a voltar para casa, tanto melhor. caso contrrio, se ela no quiser deix-lo depois de a termos encontrado, bem, acha-remos um jeito de o conseguir.

    archer disse: . sua voz era pesada, rude.a srta. wonderly levantou rapidamente o olhar para spade,

    enrugando a testa, entre as sobrancelhas. oh, mas precisam ter cuidado! sua voz tremia um pouco, e os lbios formulavam as palavras em arrancos nervosos. tenho um medo horrvel dele, do que ele poderia fazer. ela to moa, e t-la trazido de nova york para c to grave... ele no poderia. . . no poderia fazer. .. fazer-lhe qualquer coisa?

    spade sorriu, dando palmadinhas nos braos da cadeira. deixe isso conosco. ns saberemos lidar com ele. mas poderia? insistiu ela. h sempre alguma probabilidade concordou spade

    judiciosamente. mas pode ter confiana em ns: tomaremos conta desse assunto.

    eu confio nos senhores disse ela com veemncia , mas quero que saibam que ele um homem perigoso. acredito seriamente que nada o faria retroceder. no creio que hesitasse... em matar corina, se achasse que isso podia salv-lo. no acha?

    a senhorita no o ameaou, no? disse-lhe que s queria t-la de novo em casa antes que

    mame e papai voltassem, a fim de que no soubessem o que ela tinha feito. prometi nunca dizer-lhes uma palavra sobre isso se ele me ajudasse; mas, se ele no o fizesse, papai sem dvida providenciaria para que fosse punido. eu... acho, entretanto, que ele no acreditou em mim.

    ele poderia remediar o mal casando-se com ela? perguntou archer.

    a moa corou, e respondeu com voz confusa: ele tem mulher e trs filhos na inglaterra. corina escreveu-me

    dizendo isso, para explicar por que fugira em sua companhia. eles costumam ter mesmo disse spade , s que nem

  • sempre na inglaterra. inclinou-se para a frente, a fim de alcanar o lpis e o bloco de papel. qual a aparncia dele?

    ah, tem uns trinta e cinco anos, talvez, to alto como o senhor, e, ou moreno de natureza, ou queimado de sol. seu cabelo tambm escuro e as sobrancelhas, espessas. tem um modo de falar mais ou menos alto, agressivo, e um gnio nervoso, irritvel. d a impresso de ser. . . violento.

    spade, rabiscando sobre o bloco, perguntou, sem levantar a vista: e a cor dos olhos?

    so azul-cinzentos e midos, mas cruis. e. . . ah, sim, tem uma profunda cicatriz no queixo.

    magro, regular, ou corpulento? muito forte. tem ombros largos e conserva-se ereto, no que se

    poderia chamar um porte decididamente militar. usava um terno cinzento e chapu da mesma cor, quando o vi esta manh.

    qual o seu meio de vida? perguntou spade, enquanto descansava o lpis.

    no sei. no tenho a mnima idia. a que horas ele deve ir v-la? depois das oito. muito bem, srta. wonderly, teremos um homeml. facilitaria se sr. spade, poderia ser o senhor ou o sr. archer? fez um gesto de splica com ambas as mos. um dos senhores

    poderia cuidar desse assunto pessoalmente? no quero dizer que o homem que os senhores mandassem no fosse capaz, mas... oh! tenho tanto medo do que poderia acontecer a corina! tenho medo dele. seria possvel? eu estaria... eu me sentiria mais em segurana, realmente. abriu a bolsa com dedos nervosos e ps duas notas de cem dlares sobre a secretria de spade. isto chega?

    sim disse archer , e eu mesmo me encarregarei disso.a srta. wonderly ps-se em p, estendendo impulsivamente a

    mo. muito obrigada! muito obrigada! exclamou, e ento deu a mo a spade, repetindo: obrigada!

    no por isso disse spade. tambm estou satisfeito. a senhorita pode nos ajudar, se puder se encontrar com thursby embaixo, ou ento se se mostrar no saguo em sua companhia por algum tempo.

    farei isso prometeu ela, e agradeceu-lhe de novo. e no me procure advertiu archer. eu a estarei vendo.spade acompanhou a srta. wonderly at a porta do corredor.

  • quando voltou secretria, archer inclinou a cabea em direo s notas de cem dlares e rosnou, complacentemente: elas so bem boas. pegou uma, dobrou-a e enfiou-a num dos bolsos. e tm irms naquela bolsa.

    spade embolsou a outra nota antes de se sentar. ento disse: bem, no d em cima. o que pensa dela?

    deliciosa! e logo voc vem me dizer para no dar em cima dela? archer deu uma gargalhada forada. talvez voc a tenha visto antes, sam, mas eu falei primeiro. ps as mos nos bolsos das calas e balanou-se nos calcanhares.

    voc vai fazer o diabo com ela, sem dvida sorriu spade com arrogncia, mostrando a extremidade dos dentes posteriores. voc esperto, sim, se . e comeou a fazer um cigarro.

    2 morte no nevoeiro

    a campainha do telefone tocou na escurido. depois de tocar trs vezes, as molas da cama rangeram, uns dedos tatearam na madeira, alguma coisa pequena e dura caiu no cho atapetado, as molas rangeram de novo, e uma voz de homem disse: al. . . sim, ele mesmo. . . morto? . .. sim. . . quinze minutos. obrigado.

    ouviu-se o estalido de uma chave, e um lustre branco, pendurado ao centro do teto por trs correntes douradas, encheu de luz o quarto. spade, descalo, vestido com um pijama listad...