Diálogo para respeito das diferenças - ufrgs.br ?· 1 Diálogo para respeito das diferenças Entrevista…

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    26-Sep-2018

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    Dilogo para respeito das diferenas

    Entrevista Revista Filosofia

    Para Franois Jullien, a harmonia entre os povos se dar por meio de um dilogo e do respeito s peculiaridades de cada cultura, mesmo no mundo globalizado. Caminho obtido com a compreenso e a aceitao

    Por Thas Rrcker e Vinicius Simas

    Depois da Europa e da sia, a Amrica do Sul. Em eterna pesquisa sobre a diversidade cultural, o filsofo francs Franois Jullien visitou o Brasil para disseminar e abranger seus conhecimentos sobre a complexidade do mundo.

    Sinlogo, ele escolheu a China como contraponto forte Filosofia francesa. "A cultura chinesa tem uma tradio escrita e a nica civilizao distante ao ocidente que tambm est bem desenvolvida." O filsofo sabe como poucos as peculiaridades do pensamento difundido no Oriente e Ocidente e v como um jogo de tabuleiro a disputa por influncia travada entre as regies. Para ele, a compreenso e no a tolerncia, termo que seria mal empregado a chave para a soluo dos conflitos de diferenas de culturas e religiosos. Para tanto, necessrio rever alguns conceitos hoje impregnados: "Acho urgente criticar o universalismo para retomar e requestionar o universal e promover o comum, o que impediria o sectarismo da cultura".

    Jullien esteve em Porto Alegre durante a 55 Feira do Livro, onde ministrou palestras e divulgou sua mais recente publicao traduzida para o portugus, O dilogo entre as culturas: Do universal ao multiculturalismo. Na passagem pela cidade, o filsofo concedeu uma entrevista exclusiva Filosofia Cincia & Vida, na qual teve oportunidade de explicar o mtodo utilizado para analisar o hiato existente entre a Filosofia europeia e a filosofia chinesa. Tambm fez questo de destacar o desenvolvimento da cultura brasileira que, segundo ele, ser o principal contraponto para o pensamento oriental no futuro.

    O renomado filsofo autor de mais de 20 livros, traduzidos para cerca de 20 pases. Entre suas obras destacam-se Um sbio no tem ideia; Do tempo: elementos para uma filosofia do viver; Figuras da imanncia - Para uma leitura filosfica do I Ching, o clssico da mutao; e Tratado da Eficcia, todos disponveis em Portugus. Professor da Universidade de Paris VII, diretor do Instituto do Pensamento Contemporneo e membro do Instituto Universitrio da Frana, Franois Jullien dedicou-se ao pensamento chins nas universidades de Pequim e Xangai, tornando-se doutor em estudos do Extremo Oriente.

    FILOSOFIA De onde surgiu e como aconteceu o interesse na cultura chinesa? Como foi o perodo de estadia l?

    Franois Jullien Vem do meu interesse pela Filosofia europeia, particularmente a grega, numa tentativa de introduzir uma dissidncia com a Filosofia tradicional do ocidente e achar um ponto de exterioridade. Escolhi a China por duas razes: pela distncia das linguagens, j que

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    o chins no tem ligao com os idiomas europeus, e por causa da histria das culturas e da sociedade. A Europa e a China no tm ponto em comum. Essa escolha no foi pautada por seduo, exotismo ou fascinao, mas realmente por um interesse em requestionar o pensamento francs.

    Essa estratgia filosfica envolveu dois desafios: o primeiro trata de desabituar-se, quebrar com conceitos conhecidos como "sujeito", "ser", "realidade", "Deus". O segundo ponto repensar a linguagem, uma ruptura com as habitus do pensamento.A dificuldade que normalmente se retoma historia do pensamento filosfico, o que no possvel na China, em funo da distncia. Isso cria o que eu chamo de ecrt e proporciona uma maneira estratgica e indireta de requestionar o pensamento. Dessa forma, no poderia ter feito este estudo na ndia, por exemplo, porque h uma histria em comum com as linguagens do Velho Mundo. No podia ser em um pas islmico porque tambm est ligado historicamente Europa, e o Japo tem uma cultura derivada da sociedade chinesa.

    A cultura chinesa tem uma tradio escrita e a nica civilizao distante do ocidente que tambm est bem desenvolvida. Por isso, oferece um contraponto forte. A primeira vez que visitei o pas foi em 1976, um momento pouco acolhedor, era final da revoluo cultural, logo antes da morte de Mao Tse Tung. Foi interessante ver a radicalizao da revoluo e o incio da abertura para o pensamento ocidental.

    FILOSOFIA Como voc v a transformao da China de um regime comunista para o capitalismo? No seu ltimo livro, voc fala em uma "transformao silenciosa". Significa que no houve uma ruptura?

    Jullien Exato. o que a diferencia de outras naes, como a Unio Sovitica, onde houve vrias rupturas com o regime. A China passou por uma transformao global, contnua e homognea. Foi do socialismo ao hipercapitalismo sem eventos maiores. Em nenhum momento se disse "vamos desmaoizar agora". O que se percebeu foi uma mudana gradativa de comportamento. Por exemplo, a presena do Mao nos jornais foi diminuindo progressivamente, uma mudana lenta que no gerou argumentos para revolta. Uma particularidade do partido comunista chins que, a partir da morte do Mao, ele se transforma, passando de um comunismo clssico para um comunismo mais administrativo. Isso nico no mundo. Em outros pases comunistas, o regime acabou ou se isolou, como em Cuba ou na Coreia do Norte. O que aconteceu na China foi muito original e os ocidentais no sabem reconhecer essa transformao silenciosa.

    FILOSOFIA De que forma voc acha que essa transformao silenciosa pode beneficiar a China e qual o real potencial de desenvolvimento do pas?

    Jullien Um bom exemplo o que acontece na frica. Os chineses, de uma maneira discreta, esto tomando o comrcio, se instalando, sem um movimento forte que v gerar reconhecimento. bem sutil. Essa maneira de se comportar no permite que haja revolta, indignao ou um contra-argumento de outros pases. Posso fazer uma comparao com o Go (tradicional jogo chins de tabuleiro, originalmente chamado de Wei Qi) e o Xadrez. O Go no disputado entre dois adversrios que buscam conquistar territrios como acontece no Xadrez. Voc vai devagar, criando zonas de influncia, e assim prende o adversrio. Hoje em dia, a influncia da China no mundo acontece dessa forma. Ela se desenvolve sem ser percebida.

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    uma nova maneira de imperialismo. Por exemplo, a China est comprando as dvidas financeiras de alguns pases, mas isso no muito comentado, ocorre de forma discreta e eficaz. Na Europa e no ocidente, temos uma imagem do imperialismo que vem da cultura romana, de conquista de territrios atravs de um alto custo em termos de vidas e dinheiro, o que cria uma oposio forte. Se analisarmos a histria das colonizaes, veremos que na frica os franceses fizeram uma colonizao dura, imposta. J a China se expande comprando petrleo e outros recursos naturais, se instala sem permitir uma oposio mais incisiva. Posso ilustrar esse ponto de vista citando o que ocorre em Paris. A festa da primavera, do calendrio chins, acontecia apenas no bairro 13, de maioria chinesa. Atualmente ela j comemorada em toda a cidade. a maneira da China agir.

    FILOSOFIA Qual a definio exata do termo multiculturalismo? E qual a viso do mundo atual acerca desta questo?

    Jullien No vejo as culturas em termos de identidade. Elas se transformam o tempo inteiro, se homogenezam e se expandem. Em alguns momentos sero mais dominantes e em outros menos. Por isso, prefiro usar a palavra fecundidade. A cultura um recurso de desenvolvimento que pode criar uma cart. Quero fazer uma diferenciao entre "distncia" e "cart". Distncia tem relao com identidade. cart permite explorar at onde vo as possibilidades de dilogo. Minha maneira de ver o termo "dilogo entre as culturas" essa possibilidade entre os carts. A palavra "dilogo" muito usada jornalisticamente, na Poltica, e se banalizou. um termo suspeito porque permite esconder as dualidades. Para retomar o verdadeiro sentido, preciso entender que, em latim, dia significa cart, e logos inteligvel. Na China, h um grande movimento que questiona os valores asiticos. Para mim, uma maneira de reescrever o que natural e comum. A inteligncia humana no algo fechado, acabado. Creio que melhor analisar diferentes inteligibilidades para criar uma parte comum entre todos.

    FILOSOFIA Em seu livro, voc busca a genealogia dos conceitos "universal", "uniforme" e "comum" em contraste com os termos "alteridade", "singular" e "heterogneo". Quais so as concluses desta pesquisa e o que isso pode influir nesta troca intercultural?

    Jullien Considero que "universal" tem um sentido fraco e outro, forte. O primeiro constata que tudo sempre foi da maneira que e no vai mudar. O segundo aponta para uma necessidade a priori, que vem antes da experincia, e tem base no pensamento clssico europeu. Acho que, no momento em que voc encontra outras culturas, essa questo do universal precisa ser revista, nos damos conta da viso singular do que encarvamos como universal. Existe a contradio com a prpria exigncia da palavra. O "uniforme" uma perverso do "universal". um conceito de produo, faz pensar em termos de comodidade, porque repetido muitas vezes.

    O que acontece hoje no mundo, que o uniforme se desenvolve tanto, em tantos pases, que somos levados a pens-lo como universal. J o comum definido pelo compartilhamento, seja com a famlia, com a natureza, com amigos, com outros pases. o incio do pensamento poltico de Aristteles, de que as noes de comum levam a uma posio poltica de pensar. O outro sentido o inverso, impe um limite, uma fronteira para o compartilhamento, vem da o termo "comunidade". Essa noo pode ser inclusiva e exclusiva. As noes de "comum", "universal" e "uniforme" so ambguas. Analisando o ecrt entre a China e o Ocidente, no

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    acredito que exista no mundo a possibilidade de pensar como universal, essa contradio fica evidente no convvio com outras culturas. Questionar o universal significa questionar conceitos como o "ser humano", "Deus", "a verdade". Mas o outro lado disso no ruim. Essa noo de "universal" fez com que os pensadores, o mundo, pensassem em termos do que comum.

    FILOSOFIA De que forma o universalismo oprime e estimula os choques culturais?

    Jullien Eu vejo o "universal" como o contrrio do "universalismo". A noo de universalismo completa, enquanto a de universal falha. Cito um exemplo: na Frana, quando foi instituda a eleio, o voto era encarado como algo universal, embora as mulheres no tivessem esse direito. Atualmente, falamos de sufrgio universal, mas os estrangeiros no podem votar. Por isso, uso o termo "universalismo preguioso", porque pretende ser global sem se dar conta do que lhe falta. Em contrapartida, uma viso positiva de universal abrir a noo de ausncia, permitindo repensar a questo do universalismo.

    FILOSOFIA A declarao dos Direitos Humanos pode ser considerada um exemplo de universal?

    Jullien Na definio dos Direitos Humanos no foi diferenciado o sentido forte e fraco de "universal". O sentido fraco da declarao acreditar que todo pas tem a possibilidade de adot-lo, e o forte que cada pas precisa faz-lo. equivocado pensar na declarao como algo que inclui todos os pases e as culturas. Os direitos humanos so resultado da histria particular do ocidente nos sculos XVII e XVIII, at a civilizao grega no se pensava nisso. E sendo parte de um momento to especfico, podemos nos perguntar se possvel v-los como universais ou se perdem esse teor absoluto.

    O desafio, ento, em se tratando dos direitos humanos articular o fato de serem fruto de uma poca especfica com a importncia global que representam. A posio da UNESCO, hoje, afirma que devemos relativizar os conceitos. Eu proponho pensar essa relao entre a singularidade dos direitos humanos com a exigncia de absoluto, fazendo uma distino entre o lado positivo e o negativo. Para isso, retomo a noo de ausncia do "universal". O lado positivo a adeso a alguns valores particulares da sociedade burguesa europeia dos sculos XVII e XVIII, como "o individual", "o contrato social", "a felicidade na Terra para todos" e "a crena religiosa". Sendo particulares, no vejo porqu eles deveriam ser impostos como algo universal para todos os pases. O lado negativo o "no" que gera uma resistncia, a partir do momento em que se tenta impor algo a algum. Quando voc nega uma situao, no faz isso por causa de certos valores, mas por uma reao humana.

    O inaceitvel gera reao. por isso que no meu ltimo livro (Linvention de lidal et le destin de lEurope ou Platon lu de Chine, 2009) crio o conceito de "universalizando". Os direitos humanos no so universais, mas sim uma maneira de trazer e promover o "universalizando". Com essa palavra se percebe que o universal um processo. s vezes as pessoas perguntam se os direitos humanos so universalizados. No acho, porque se falo isso, vejo como uma verdade, mas no uma questo de verdade ou conhecimento. O "universalizando" uma noo que promove o universal dentro da humanidade. Na Filosofia antiga, o conceito de universal foi construdo como sendo o oposto do conhecimento.

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    FILOSOFIA H alguma influncia do pensamento chins na Filosofia grega? E na cultura contempornea ocidental?

    Jullien Na filosofia grega no existe. Quanto ao mundo ocidental, eu hoje tenho dvidas quanto influncia do pensamento oriental na Europa, ou at mesmo no Brasil. Creio que existe uma fantasia ocidental de tentar encontrar respostas no pensamento oriental. O interessante, quando se passa da Grcia para a China, perceber que os questionamentos dentro da Filosofia europeia perdem o sentido. Por exemplo, as noes de liberdade e determinismo, to debatidas no ocidente, na China se decompem e so desnecessrias. A crena em Deus, que no ocidente algo existencial, nem precisa ser pensada na China, ningum vai refletir e tentar provar a existncia Dele. Acho que no vale a pena buscar solues na China ou em outro pas, isso nunca vai acontecer. De maneira geral, ir a outro lugar para achar respostas no funciona. Voc deve encontr-las sozinho. O que algum pode ganhar indo China uma oportunidade de reflexo em relao aos pensamentos ocidentais.

    FILOSOFIA Voc diz que desconfia das junes greco-roma...

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