Do to Intelectual (Wright Mills)

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    04-Jul-2015

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<p>DO ARTESANATO INTELECTUALC. Wright Mills</p> <p>Para o cientista social individual, que se sente parte da tradio clssica, a cincia social como um ofcio. Como homem que se ocupa de problemas de substncia, est entre os que facilmente se impacientam pelas cansativas e complicadas discusses de mtodo-e-teoria-em-geral, que lhe interrompe; em grande parte, os estudos adequados. muito melhor, acredita ele, ter uma exposio, feita por um estudioso, de como est realizando seu trabalho do que uma dzia de "codificaes de procedimento" por conseqncia. Somente pela conversao na qual os pensadores experimentados trocam informaes sobre suas formas prticas de trabalho, ser possvel transmitir ao estudante iniciante um senso til de mtodo e teoria. Creio, portanto, que devo expor, com algum detalhe, como realizo meu ofcio. uma declarao pessoal necessria, mas escrita com a esperana de que outros, especialmente os que iniciam um trabalho independente, a tornaro menos pessoal, pelo fato de sua prpria experincia.</p> <p>1. melhor comear, creio, lembrando aos principiantes que os pensadores mais admirveis dentro da comunidade intelectual que escolheram no separam seu trabalho de suas vidas. Encaram a ambos demasiado a srio para permitir tal dissociao, e desejam usar cada uma dessas coisas para o enriquecimento da outra. claro que tal diviso a conveno predominante entre os homens em geral, oriunda, suponho, do vazio do trabalho que os homens em geral hoje executam. Mas o estudante ter reconhecido que, como intelectual, tem a oportunidade excepcional de estabelecer um modo de vida que estimule os hbitos do bom trabalho. A erudio uma escolha de como viver e ao mesmo tempo uma escolha de carreira; quer o saiba ou no, o trabalhador intelectual forma seu prprio eu medida que se aproxima da perfeio de seu ofcio; para realizar sua potencialidade, e as oportunidades que lhe surgem, ele constri um 1</p> <p>carter que tem, como essncia, as qualidades do bom trabalhador. Isso significa que deve aprender a usar a experincia de sua vida no seu trabalho continuamente. Nesse sentido, o artesanato o centro de si mesmo, e o estudante est pessoalmente envolvido em todo o produto intelectual de que se ocupe. Dizer que pode "ter experincia" significa que seu passado influi e afeta o presente, e que define a sua capacidade de experincia futura. Como cientista social, ele ter de controlar essa interinfluncia bastante complexa, saber o que experimenta e isol-Io; somente dessa forma pode esperar us-Ia como guia e prova de suas reflexes, e no processo se modelar como arteso intelectual. Mas como fazer isso? Uma resposta : deve-se organizar um arquivo, o que suponho ser a forma do socilogo dizer: mantenha um dirio. Muitos escritores criadores mantm dirios; a necessidade de reflexo sistemtica exige que o socilogo o mantenha. No arquivo que vou descrever unem-se a experincia pessoal e as atividades profissionais, os estudos em elaborao e os estudos planejados. Nesse arquivo o estudioso, como arteso intelectual, tentar juntar o que est fazendo intelectualmente e o que est experimentando como pessoa. No ter medo de usar sua experincia e relacion-la diretamente com os vrios trabalhos em desenvolvimento. Servindo como controle para evitar repeties de trabalho, o arquivo tambm conservar suas energias. Estimular a captura dos "pensamentos marginais": vrias idias que podem ser subprodutos da vida diria, trechos de conversa ouvidos na rua ou, ainda, sonhos. Uma vez anotados, podem levar a um raciocnio mais sistemtico, bem como emprestam uma relevncia intelectual com a experincia mais direta. Os leitores tero observado com os pensadores bem realizados tratam com cuidado a sua mente, como observam de perto seu desenvolvimento e como organizam suas experincias. A razo pela qual valorizam suas menores experincias que, no curso de uma vida, o homem moderno tem uma experincia pessoal to reduzida, embora a experincia seja to importante como fonte de trabalho intelectual original. Acredito que poder ser, ao mesmo tempo, confiante e ctico, em relao sua experincia, a marca do trabalhador maduro. Essa confiana ambgua indispensvel para a originalidade de qualquer empreendimento intelectual, e o arquivo uma das formas pelas quais podemos desenvolver e justificar essa confiana.</p> <p>2</p> <p>Mantendo um arquivo adequado, e com isso desenvolvendo hbitos de auto-reflexo, aprendemos a manter nosso mundo interior desperto. Sempre que experimentamos forte sensao sobre acontecimentos ou idias, devemos procurar no deix-las fugir, e ao invs disso formul-las para nossos arquivos, e com isso estaremos elaborando suas implicaes, mostrando a ns mesmos como esses sentimentos ou idias so tolos, ou como podero ser articulados de forma produtiva. O arquivo tambm nos ajuda a formular o hbito de escrever. No podemos "manter desembaraada a mo" se no escrevemos alguma coisa pelo menos toda semana. Desenvolvendo o arquivo, podemo-nos experimentar como escritor e, assim, como se diz, desenvolver nossa capacidade de expresso. Manter um arquivo empenhar-se na experincia controlada.</p> <p>Uma das piores coisas que ocorrem aos cientistas sociais s sentirem a necessidade de escrever seus "planos" numa ocasio: quando vo pedir dinheiro para uma pesquisa especfica, ou um "projeto". como solicitao de fundos que a maioria dos "planejamentos" feita, ou pelo menos cuidadosamente posta no papel. Por mais generalizado que seja o hbito, parece-me muito prejudicial: assemelha-se de certa forma aos processos do vendedor, e dentro das expectativas existentes quase certo que resultar em pretenses dolorosas. O projeto provvelmente ser "apresentado", formulado de modo arbitrrio muito antes do devido tempo. Com freqncia, algo de artificial, preparado com o objetivo de conseguir dinheiro para finalidades posteriores, por mais elogiosas, bem como para a pesquisa planejada. O cientista social deve rever periodicamente o "estado de meus problemas e planos". Um jovem, ao incio de seu trabalho independente, deve refletir sobre isso, mas no podemos esperar que ele - que tambm no deve esperar - v muito longe, e certamente no se deve comprometer rigidamente com o plano. Deve limitar-se quase que apenas a preparar sua tese, que infelizmente considerada, com freqncia, seu primeiro trabalho independente de alguma extenso. quando estamos a meio caminho do tempo que temos nossa frente para trabalhar, ou a um tero dele, que essa reviso provvelmente ser mais proveitosa - e talvez mesmo de interesse para os outros. Qualquer cientista social que esteja bem adiantado em seu caminho deve ter, a qualquer momento, tantos planos, ou seja, idias, que sua indagao ser</p> <p>3</p> <p>sempre: "a qual deles me devo dedicar, em seguida?" E dever manter um arquivo especial para seu tema principal, que ele escreve e reescreve para si mesmo, e talvez para debate com amigos. De tempos em tempos, deve rev-l o cuidadosamente e com objetivo, e por vezes, tambm, despreocupado. Um processo semelhante um dos meios indispensveis pelo qual a realizao intelectual orientada e mantida sob controle. Um intercmbio difundido e informal dessas revises do "estado de meus problemas" entre os cientistas sociais , creio eu, a nica base para uma exposio adequada dos "principais problemas da cincia social". improvvel que em qualquer comunidade intelectual livre haja, e certamente no deve haver, uma srie "monoltica" de problemas. Nessa comunidade, se florescesse de modo vigoroso, haveria interldios de discusso, entre as pessoas, sobre o trabalho futuro. Trs tipos de interldios sobre problemas, mtodos, teoria - surgiram do trabalho dos cientistas sociais, e levariam de volta, novamente, a ele; seriam modelados pelo trabalho em andamento e, at certo ponto, constituir-se-iam em guias de tal trabalho. nesses interldios que uma associao profissional encontra sua razo de ser. E para eles, tambm, necessrio o arquivo. quando est</p> <p>Sob vrios tpicos em nosso arquivo, h idias, notas pessoais, excertos de livros, itens bibliogrficos e delineamentos de projetos. suponho, uma questo de hbito arbitrrio, mas creio que o estudioso verificar a convenincia de isolar todos esses itens num arquivo principal de "projetos", com muitas subdivises. Os tpicos, decerto, se modificam, e por vezes com bastante freqncia. Assim, por exemplo, o estudante que se prepara para o exame preliminar, escreve uma tese, e ao mesmo tempo faz exerccios, deve organizar seus arquivos segundo essas trs reas de atividade. Mas depois de um ano, aproximadamente, de trabalho de formatura, comear a reorganizar. todo o seu arquivo, em relao com o principal projeto de sua tese. Ento, medida que prosseguir seu trabalho, observar que nenhum projeto jamais o domina, ou impe as categorias principais na qual organizado. Na verdade, o uso do arquivo estimula a expanso das categorias que usamos em nosso raciocnio. E a forma pela qual essas categorias se modificam, desaparecendo algumas e surgindo outras - um ndice do nosso progresso e vigor intelectual. Finalmente,</p> <p>4</p> <p>os arquivos sero dispostos de acordo com vrios projetos mais ambiciosos, tendo muitos subprojetos que se modificam de ano para ano. Tudo isso exige notas. Teremos de adquirir o hbito de tomar grande nmero delas, de qualquer livro interessante que leiamos - embora, devo dizer, possamos obter coisas melhores de ns mesmos, quando lemos livros realmente maus. O primeiro passo na traduo da experincia, seja a dos escritos de outros homens, ou de nossa prpria vida, na esfera intelectual, dar-lhe forma. Dar, simplesmente; nome a uma experincia nos convida a explic-Ia: a simples tomada de nota de um livro quase sempre um estmulo reflexo. Ao mesmo tempo, essa nota uma grande ajuda para compreendermos o que lemos. Nossas notas podero vir a ser de dois tipos: ao ler certos livros muito importantes, tentamos aprender a estrutura da argumentao do autor, e tomamos notas nesse sentido; com mais freqncia, porm, e depois de alguns anos de trabalho independente, ao invs de ler livros inteiros, com freqncia lemos partes de muitos deles, do ponto de vista de algum tema particular ou tpico em que estejamos interessados, e para os quais temos planos em nosso arquivo. Assim, tomaremos notas que no representam com justia os livros que lemos. Estamos usando uma determinada idia, um determinado falo, para a realizao de nossos prprios projetos.</p> <p>2. Mas como deve ser usado esse arquivo - que at agora estar parecendo ao leitor mais um tipo curioso de dirio "literrio" - na produo intelectual?' A sua manuteno uma produo intelectual. um armazenar crescente de fatos e idias, desde os mais vagos at os mais, preciosos. A primeira coisa que eu fiz, por exemplo, depois de resolver preparar um estudo sobre a elite, foi um rascunho tosco, baseado numa lista dos tipos de pessoas que eu desejava compreender. Como e por que resolvi escrever esse estudo mostra uma das formas pelas quais as experincias da vida alimentam nosso trabalho intelectual. No me lembro quando comecei a me preocupar tecnicamente com a "estratificao", mas creio que deve ter sido ao ler Veblen pela primeira vez, ele sempre me parecera muito frouxo, vago mesmo, sobre o sentido de "comrcio", e "indstria",</p> <p>5</p> <p>que so uma espcie de traduo de Marx para o pblico acadmico americano. De qualquer modo, escrevi um livro sobre organizaes e lderes trabalhistas uma tarefa politicamente motivada; em seguida, um livro sobre a classe mdia uma tarefa motivada principalmente pelo desejo de articular minhas prprias experincias na cidade de Nova York, desde 1945. Amigos sugeriram, ento, que eu devia concluir uma trilogia, escrevendo um livro sobre as classes superiores. Creio que j havia pensado na possibilidade, lera Balzac na dcada de 1940 e me entusiasmara muito com a atribuio, que ele se dera, de "cobrir" todas as principais classes e tipos na sociedade da poca em que vivia. Eu escrevera tambm sobre "A Elite Econmica", e coligira e dispusera estatsticas sobre a carreira dos principais homens da poltica americana desde a Constituio. Essas duas tarefas foram inspiradas principalmente por um trabalho de seminrio sobre a histria americana. Ao escrever esses vrios artigos e livros e ao preparar cursos sobre estratificao, houve, naturalmente, um resduo de idias e fatos sobre as classes superiores. Especialmente no estudo da estratificao social, difcil evitar ir alm do assunto imediato, porque a "realidade" de qualquer camada , em grande parte, suas relaes com o resto. Assim, comecei a pensar num livro sobre a elite. No obstante, no foi assim que o projeto "realmente" surgiu. O que aconteceu, na verdade, foi 1) que a idia e o plano saram de meus arquivos, pois todos os projetos comigo comeam e terminam neles, e os livros so simples'mente resultado organizado do trabalho que neles se processa constantemente, 2) depois de algum tempo, todo o conjunto de problemas em causa passou a me dominar. Depois de preparar meu esboo rudimentar, examinei todo o meu arquivo, no s nas partes que evidentemente tinham relao com o tpico, mas tambm nas divises que pareciam irrelevantes. A imaginao levada, com freqncia, a reunir itens at ento isolados, descobrindo 'ligaes insuspeitadas. Abri novas unidades no arquivo para minha nova srie de problemas, o que certamente levou a novas disposies de outras partes suas. Ao redistribuirmos um sistema de arquivos, verificamos que estamos, por assim dizer, libertando nossa imaginao. Evidentemente, isso ocorre devido tentativa de combinar vrias idias e notas sobre diferentes tpicos. uma esp-</p> <p>6</p> <p>cie de lgica da combinao, e o "acaso" por vezes desempenha nela um papel curioso. De forma despreocupada, tentamos empenhar nossos recursos intelectuais, como exemplificado no arquivo, nesses novos temas. No caso presente, tambm comecei a usar minhas observaes e experincias dirias. Pensei, a princpio, nas experincias que tive em relao aos problemas da elite, e, em seguida, conversei com pessoas que, na minha opinio, poderiam ter tido experincia com tais questes, ou poderiam t-las examinado. Na realidade, comecei a alterar o carter de minha rotina, de forma a incluir 1) pessoas que estavam entre as que eu desejava estudar, 2) pessoas em ntimo contato com elas, e 3) pessoas interessadas nelas, habitualmente de modo profissional. No conheo a totalidade das condies sociais do trabalho intelectual, mas sem dvida cercar-se de um grupo de pessoas que ouvem e falam - e por vezes tm de ser personalidades imaginrias - uma delas. De qualquer modo, procurei cercar-me de todo o ambiente relevante - social e intelectual - que julguei pudesse levar-me a pensar dentro das linhas de meu trabalho. esse o sentido de minhas observaes acima, sobre a fuso da vida pessoal e intelectual.</p> <p>O bom trabalho na cincia social de hoje no , e habitualmente no pode ser, feito de uma "pesquisa" emprica claramente delineada. Compe-se, antes, de muitos estudos bons, que em pontos-chaves encerram observaes gerais sobre a forma e a tendncia do assunto. Assim, a deciso...</p>