Ensino de História Nas Séries Iniciais

  • Published on
    18-Jan-2016

  • View
    30

  • Download
    0

Embed Size (px)

DESCRIPTION

Trata-se de material didtico escrito para o CURSO NORMAL SUPERIOR COM MDIAS INTERATIVAS (MDULO II TEMA 9 ESPAO, TEMPO E CULTURAS).

Transcript

  • 1

    1.Que histria ensinar? Autora : Cleusa Maria Fuckner cleusa@educacao.ufpr.br

    A Histria humana no se desenrola apenas nos campos de batalha e nos gabinetes presidenciais. Ela se desenrola tambm nos quintais entre plantas e galinhas, nas ruas de subrbios, nas casas de jogos, nos prostbulos, nos colgios, nas usinas, nos namoros de esquina. Disso eu quis fazer a minha poesia. Dessa matria humilde e humilhada, dessa vida obscura e injustiada, porque o canto no pode ser uma traio vida, e s justo cantar se o nosso canto arrasta consigo as pessoas e as coisas que no tem voz.. (Ferreira Gullar)

    1.1 O que a Histria hoje? A histria uma construo sobre o passado, o objeto do historiador no o passado em si prprio, mas sim tudo o que resta dele e pode nos ajudar a responder as questes do momento em que vivemos. Podemos entender que a histria portanto uma construo a partir de diversos enfoques, sejam eles econmico, poltico, social ou cultural que trazem tona a diversidade de valores, de tradies, do modo como uma sociedade se organiza, das relaes desta sociedade e dos diversos grupos na sociedade, ontem e hoje. A partir da citao do poeta e escritor Ferreira Gullar podemos refletir que a histria deve ser compreendida numa perspectiva que busca : - reconhec-la como o produto da ao de todos os homens : seja ele o prefeito, o presidente, o ministro, ou o campons, o pedreiro, a professora, o aluno; - entender que a realidade vivida por homens, tanto no passado como no presente; - verificar que as manifestaes sociais, polticas, econmicas e culturais , o cotidiano e o imaginrio das sociedades, hoje se inserem na dinmica das relaes do sistema capitalista. Ex : o movimento sem terra, o consumo de Coca-cola, o uso do jeans, as greves, o rock; - trabalhar com as diferentes experincias vividas e que estas envolvem diferentes memrias: as memrias selecionadas (histria oficial) e as memrias que foram silenciadas (dos velhos, dos negros, das crianas, das mulheres, dos pobres, etc.) Ex: A libertao dos escravos pela Lei urea, no se resume a assinatura da princesa Izabel, mas o processo histrico da libertao envolve tambm a luta dos negros que sempre resistiram a escravido atravs de fugas, revoltas, formao dos quilombos, suicdios. - compreender as transformaes e permanncias histricas situadas no tempo e no espao, relacionando passado / presente. Ex: Como so as cidades hoje? Elas sempre foram assim? Como eram? Por que mudaram? Como mudaram? - compreender que as transformaes sociais so constantes e que elas ocorrem na realidade vivida. Ex: o movimento dos estudantes e da sociedade que levou ao impeachment do ex-presidente Collor, a derrubada do Muro de Berlim e a desagregao da Unio Sovitica; - compreender que todos os homens, sejam eles das classes dominantes ou das classes populares de uma determinada sociedade, trabalham, pensam, vivem, organizam-se, mas com diferentes interesses numa relao contraditria; - entender que o modo como cada sociedade v, acredita, ou pensa - a religiosidade, o trabalho, a famlia so diferentes (no passado e no presente), resultado das diferentes culturas. 2. Algumas discusses historiogrficas:

    - Como foi a Histria que voc aprendeu? Foi a concepo que entende a Histria como uma construo ou a viso da histria a partir dos nomes dos heris, das datas e fatos importantes?

  • 2

    Durante muito tempo a concepo de Histria predominante nas escolas e nos livros didticos era a Tradicional ou Positivista. Esta concepo entende a histria como: - relatos de fatos polticos, nomes de pessoas ou lugares importantes, datas de fatos relevantes importantes do ponto de vista de uma classe a dominante: so as memrias selecionadas; - fatos em seqncia numa relao de causas e conseqncias distantes da realidade dos alunos - narraes de aes da classe dominante, excluindo as aes de outros sujeitos: os velhos, as crianas, os negros, as mulheres, os pobres; Outra concepo de Histria muito trabalhada principalmente pelos pesquisadores nas universidades durante o sculo XX foi a Histria Marxista que entende a Histria a partir da luta de classe entre os homens ou seja a oposio entre dominantes e dominados. A concepo aqui apresentada e discutida no item um a concepo chamada de Nova Histria.

    ATIVIDADES: - Na sua formao de primeiro e segundo grau, como a Histria foi trabalhada? Na viso tradicional dos heris, datas e fatos, na viso marxista que v na histria a luta de classe entre os homens ou na viso da Nova Histria que discute a histria a partir de como os homens vivem, pensam, se organizam e busca entender as permanncias e transformaes?

    3. A Construo do Fato Histrico Autor: Jean Carlos Moreno professorjean@xmail.com.br

    Toda histria construda por um recorte feito por quem a escreveu; construda a partir de fragmentos, de vestgios, de indcios. Assim, recuperar o passado tal qual ele aconteceu impossvel. Isto quer dizer ento, que a histria no uma cincia e que cada um pode pensar o que quiser sobre o passado? claro que no, mas a conscincia de que a histria construda pelos homens, como qualquer outra interpretao da realidade, nos alerta para que estejamos atentos para perceber como os fatos e acontecimentos histricos so construdos. Por que devemos ensinar este e no aquele aspecto histrico? Que sujeitos histricos so privilegiados? So grupos sociais, so indivduos? Se ficarmos, numa 4a srie, por exemplo, ensinando apenas a partir de marcos como Proclamao da Independncia, Repblica, Revoluo de 30, etc., formaremos alunos que vero a histria como a ao de alguns grupos em torno do poder, do governo. No quer dizer que devamos jogar fora estes fatos histricos, mas podemos perguntar sempre: onde esto e o que fazem as mulheres neste perodo? Que grupos sociais so privilegiados nestes fatos, onde esto os demais grupos? Como fazem os homens para garantir sua sobrevivncia material? Que formas de lazer existiam neste perodo?, etc. Mais uma vez insistimos em que no se trata de afirmar que existam vrias verdades e que cada tem o seu ponto de vista na histria, mas que a soma das diferentes perspectivas, dos muitos olhares, dos diversos recortes sobre os mesmos objetos, que nos vai dar uma viso mais geral, e por que no, mais prxima da realidade das sociedades estudadas. O mais importante, ento, quando trabalhamos a construo do fato histrico, que nossos alunos

  • 3

    percebam que eles fazem a histria em dois sentidos: primeiro quando agem cotidianamente, ou seja, por seus atos ou omisses, depois, tomando a histria no sentido de conhecimento, quando questionam o passado e o presente e ajudam a resolver os novos problemas surgidos por estes questionamentos.

    Atividade Professor, escolha um fato histrico que voc costuma ensinar em sala de aula (para quem trabalha com as sries iniciais, pode-se escolher uma data comemorativa, por exemplo, que tambm apenas uma maneira de fixar alguns fatos histricos construdos) e faa as perguntas sugeridas no texto ou outras que voc achar interessante. Discuta com seus colegas de curso como se poderia achar respostas, com seus alunos para estas indagaes.

    4. O tempo e os tempos histricos

    O tempo uma categoria essencial para se entender a histria, assim como para se compreender sua insero neste mundo. No entanto, a construo da noo de tempo para as crianas necessita sempre estar contextualizada. Portanto a noo de tempo no algo que se ensine de maneira separada de outros conceitos ou contedos relacionados ao ensino de histria. Primeiramente, pode-se desenvolver a idia de que h um passado ao qual pode ser ligado um acontecimento. Por exemplo, pode-se trabalhar um tempo mais prximo, relatando os acontecimentos de ontem e da semana passada; um tempo um pouco mais distante, quando seus avs eram crianas; e um tempo muito distante, quando grupos humanos utilizavam-se de cavernas para se abrigar das intempries. Um pouco depois, mas ainda nas sries iniciais, preciso que eles, os alunos, percebam que no esto alheios ao tempo histrico, na passagem de etapas de vida, no cotidiano, etc. A partir da, principalmente a partir das terceiras e quartas sries, os alunos podem ser estimulados a perceber que a compreenso do presente est intimamente ligada compreenso do passado, efetivando-se a construo de um verdadeiro olhar histrico sobre os objetos que nos cercam. O passado ser entendido como o que nos legou um mundo para ser vivido. Entretanto preciso ver este mesmo passado como um outro diferente. Isto , preciso evitar aquilo que ns comumente chamamos de anacronismo que consiste em atribuir s pessoas de outros tempos e lugares as mesmas maneiras de sentir, de pensar, os mesmos desejos, costumes, etc. que os dos homens e mulheres do tempo presente. Por fim, para uma apreenso ainda melhor do tempo histrico, interessante que nossos alunos conheam noes de tempo de outras sociedades que no so as mesmas que as nossas. O tempo cclico, o tempo da natureza, o tempo antes do relgio, etc. so noes que podem auxiliar no entendimento e na reflexo sobre o tempo histrico.

    4.1 Categorias do tempo histrico

    Existem categorias temporais que so essenciais para a construo da explicao histrica. Dentre tantas destacaremos algumas: Durao Muito da inteligibilidade histrica depende de como manipulamos as diferentes categorias de durao. comum entre os historiadores a utilizao das categorias de durao sistematizadas pelo historiador francs Fernand Braudel, em trs escalas: a do

  • 4

    tempo curto, chamada tambm de evento; a do tempo de mdia durao, a conjuntura; e a longa durao, a estrutura. Fazendo uma analogia com as cincias fsicas/biolgicas como se observssemos os fenmenos com um microscpio, com um binculos ou com um telescpio. Ou seja: se observamos um fato histrico sob a tica do evento, veremos os acontecimentos por si s, quer dizer, aquilo que extremamente efmero. A sucesso de tempos curtos, estudados de uma maneira linear, caracterstica do que chamamos de histria tradicional. o que sobrevive na conscincia histrica de muitas pessoas: as datas, os grandes acontecimentos. Porm o evento por si s pode no ser suficiente para uma explicao histrica. Por isso preciso colocar este mesmo fato sob o olhar da conjuntura, ou seja, mais ou menos do tempo de uma gerao ou da estrutura, do tempo longo, daquilo que muda mais lentamente. Do trabalho com a durao decorrem ento duas outras categorias essenciais para o trabalho histrico: mudana e permanncia. Cronologia O trabalho com a cronologia corresponde apreenso da forma de contar o tempo utilizado por nossa sociedade. Corresponde tambm ao que comumente chamamos de datao. No aprendizado da cronologia esto inseridos principalmente, a construo de seqncias lineares (linhas do tempo) e o manejo com convenes culturais como o calendrio: antes e depois de Cristo, sculos, milnios, etc. Simultaneidade No geral, nos referimos ao tempo histrico como se fosse uma seqncia de evolues. Assim - para tomarmos um exemplo muito simples - dizemos que 1500 foi o ano da chegada dos portugueses ao territrio que hoje chamamos de Brasil, como se apenas este fato estivesse ocorrendo para toda a humanidade. Trabalhar com a simultaneidade significa romper um pouco com este padro e estabelecer correlaes de fatos e estruturas dentro de uma mesma sociedade ou em culturas diferentes em um mesmo perodo de tempo. Desta forma preciso que os alunos percebam outros aspectos da sociedade europia por volta de 1500, assim como das outras sociedades que viviam neste mesmo perodo. Atividade 1. Procure identificar as principais mudanas e permanncias em nosso tempo com relao ao tempo de nossos avs. 2. Construa um pequeno grfico relacionando aspectos de desenvolvimento tecnolgico e aspectos sociais e/ou culturais de uma ou mais sociedades, em um mesmo perodo.

    5. O Livro didtico e a construo dos conceitos em Histria: Autora: Cleusa Maria Fuckner cleusa@educacao.ufpr.br

    5.1 Introduo e dimenso ideolgica: O livro didtico representa um papel significativo no processo de ensino aprendizagem. Muitas vezes ele o nico material de consulta tanto de professores, quanto dos alunos. Devido s dificuldades da formao do professor e as prprias condies de trabalho, ele no tem acesso a outros materiais de pesquisa para a preparao de suas aulas. Ao analisarmos muitos dos livros didticos adotados nas sries iniciais do ensino fundamental percebemos que em geral o contedo de Histria trabalhado como: - datas comemorativas: Dia do ndio, Dia das Mes, etc; - Informaes genricas sobre datas importantes: Descobrimento do Brasil, Independncia, etc;

  • 5

    - conhecimento das relaes interpessoais: famlia, bairro, comunidade; - contedos que visam adaptar os alunos aos valores dominantes na sociedade e que no permitem a reflexo; Segundo Ktia ABUD o livro didtico um dos responsveis pelo conhecimento histrico e constitui o que poderia ser chamado de conhecimento do homem comum. ele o construtor do conhecimento histrico daqueles cujo saber no vai alm do que lhes foi transmitido pela escola... (p.81)

    5.2 Para que serve o livro didtico? Sem dvida o livro didtico constitui um importante elemento do processo de ensino, porm ele no deve ser a nica fonte de pesquisa, mas sim um apoio ao trabalho do professor que utilizando diferentes materiais e linguagens histricas como : vdeo, msica, textos literrios, iconogrficos (imagens : charges, histria em quadrinhos, gravuras,etc,) possa construir uma reflexo histrica, estabelecendo uma relao entre o passado e o presente. Para Brbara FREITAG ... haveria inmeras possibilidades de um bom professor, usando um mau livro didtico desenvolver um excelente ensino e promover um extraordinrio aprendizado. (p. 125) por outro lado um excelente livro utilizado por um professor que no domina o contedo, que no estabelece reflexes acaba perdendo o seu objetivo que auxiliar na transposio didtica do contedo.

    5.3 Livro didtico categorias de anlise Autor: Jean Carlos Moreno professorjean@xmail.com.br

    Como um instrumento de trabalho em sala de aula, o livro didtico - mesmo no tendo mais a caracterstica de nica fonte de pesquisa para o professor precisa ser escolhido e analisado a partir de alguns critrios. O risco de uma escolha errada grande, pois os alunos ao invs de terem um bom roteiro de atividades que lhes sirva como uma chave para o entendimento do mundo, podem ter algo enfadonho e que sirva apenas para bitol-los numa nica forma de pensar. Alm dos aspectos de contedo e adequao curricular, h aspectos mais gerais que podem ser observados quando analisamos um livro didtico:

    O Sujeito histrico - Analisar quem o sujeito das aes no livro didtico significa perguntar quem faz a histria?. Livros que apresentam os contedos histricos como prontos, em que no h conflitos, em que as transformaes acontecem por si mesmas e no pela ao dos homens, contribuem para formar sujeitos passivos, que no so cientes de suas responsabilidades sociais nem se dispem a lutar por seus direitos. preciso ento, verificar se esto contemplados todos os grupos sociais, se todos eles fa...

Recommended

View more >