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    04-Jun-2018

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  • DivalDo Pereira Franco

    Estudos Espritas

    Pelo Esprito

    Joanna De ngelis

    FeDerao esPrita Brasileira

  • Estudos Espritas

    Espritas! amai-vos, este o primeiro ensinamento; instru-vos, este o segundo. No Cristianismo encon-tram-se todas as verdades; so de origem humana os erros que nele se enraizaram. Eis que do alm- -tmulo, que julgveis o nada, vozes vos clamam: Ir-mos! nada perece. Jesus Cristo o vencedor do mal, sede os vencedores da impiedade. O Esprito de Verdade. (Paris, 1860)

    allan KarDec (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. VI, item 5.)

    No vrtice da vida tecnicista, o homem moderno delira.

    Sonhando com os astros que deslizam em rbi-tas imensurveis, enclausura-se nas limitadas conjun-turas das paixes dissolventes; aspirando liberdade em regime de plenitude, escraviza-se aos condiciona-mentos que o vergastam, incessantemente; lutando pela paz do mundo, promove guerras cruentas nas

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    paisagens domsticas; esparzindo ideais, fixa-se s idiossincrasias em que padece atribulaes sem con-to; heroico nos momentos de valor, recua nos emba-tes insignificantes, que terminam por venc-lo; de-tentor da razo, arrasta-se pelos meandros srdidos do instinto em que se demora...

    As conquistas externas de modo algum lograram acalm-lo interiormente e a comodidade, na vertigem a que se entrega, no conseguiu felicit-lo, conforme desejava.

    Por tais motivos, legies de desditosos, diaria-mente, sucumbem na astenia decorrente dos dis-trbios da emoo desgovernada, e o dio, a ira, a inquietao, a ansiedade, em consequncia, matam mais do que o cncer e a tuberculose...

    Outros tantos, idiotizados, enlanguescem nos leitos das casas de repouso, apticos, vencidos, en-quanto no menor nmero internado fora nos manicmios. Alm desses, multides desesperadas atropelam-se nas avenidas formosas das hodiernas megalpoles, tanto quanto nas rotas humildes dos campos, sob as imperiosas constries da loucura em matizes variados, que as surpreendem...

    A seara dos homens, embora recamada de pro-messas e referta de iluses douradas, apenas tem ensejado uma sega de exacerbaes em saral infeliz, cada vez mais ameaador.

    Antecipando estes tormentosos dias, Jesus pro-meteu o Consolador que, h mais de um sculo, triun-falmente, inaugurou a Era Esprita entre os homens, conclamando-os renovao e felicidade real.

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    Com Allan Kardec se confirmaram os prenn-cios dos dias felizes a que se reporta a Boa Nova. A mensagem de que se fez vexilrio restaura a pureza do Cristianismo, retirando os erros que nele foram in-troduzidos pela estultcia humana, como da ganga o garimpeiro hbil recolhe o diamante precioso.

    u

    Estudar o Espiritismo na sua limpidez cristalina e sabedoria incontestvel dever que no nos l-cito postergar, seja qual for a justificativa a que nos apoiemos.

    Cada conceito necessariamente examinado reluz e clarifica o entendimento, facultando mais amplas percepes, acerca da vida e dos seus fenmenos.

    Foram ditas j as palavras primeiras, favorecen-do a multiplicidade de realizaes edificantes, conci-tando o homem grandeza e paz.

    Seus conceitos fulgentes so convites ao amor e chamamentos sabedoria, cultura do sentimento e da razo num intercmbio exitoso para a liberta-o do corao e da inteligncia, por meio do qual o Esprito se ala a Deus.

    Os estudos que ora reunimos em despretensioso volume so o resultado de nossas meditaes nos en-sinamentos superiores de algumas das obras bsicas da Codificao do Espiritismo. Para traz-los aten-o dos aprendizes da Doutrina Esprita, atualizamos conceitos, compulsamos dados modernos, examina-mos conquistas recentes, comparamos observaes,

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    tentando sintetizar os resultados que ora apresenta-mos em forma e estilo diversos dos a que se acostu-maram os nossos leitores, num esforo carinhoso para colimar resultados felizes.

    No nos estranhem, portanto, os amigos e ir-mos afeioados, tais caractersticas diferentes das habituais...

    Reconhecemos que tais apontamentos nada tra-zem de novo, nem acrescentam coroa de diaman-tes estelares lucilantes do pensamento kardequiano qualquer significativa contribuio.1 Visamos com eles cooperar de algum modo na Seara Esprita, no sentido de destacar, dentre os mltiplos assuntos j versados, alguns de intensa atualidade, discutidos em praa pblica, debatidos nas escolas, cinema e televi-so, temas obrigatrios das conversaes dos jovens, adultos e ancios, entre aqueles que, desesperada-mente, buscam respostas para os imensos conflitos da razo e da emoo, em todas as partes da Terra de hoje, aps a falncia das religies como da tica...

    u

    Contam que um jovem sedento de afirmao espiritual procurou certa vez o pensador e sacerdote hebreu Shammai e o interrogou:

    1 Algumas destas pginas foram publicadas oportunamente em Reformador, rgo da Federao Esprita Brasileira, aqui reapare-cendo com os temas que lhes motivaram o estudo. Nota da autora espiritual.

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    Poderias ensinar-me toda a Bblia durante o tempo em que eu possa quedar-me de p, num s p?

    Impossvel! respondeu-lhe o filsofo reli-gioso.

    Ento de nada me serve a tua doutrina re-darguiu o moo.

    Logo aps buscou Hilel, o famoso doutor, pro-pondo-lhe a mesma indagao. O mestre, acostu-mado sistemtica da lgica e da argumentao, mas tambm conhecedor das angstias humanas, respondeu:

    Toma a posio. Pronto! retrucou o moo. Ama! elucidou Hilel. S isso?! E o resto, que existe na Bblia? in-

    quiriu apressadamente. Basta o amor concluiu o austero religioso.

    Todo o restante da Bblia somente para explicar isso.

    u

    semelhana daqueles dias, os atuais exigem res-postas incisivas e concisas. Diz-se que no h tempo.

    A Seara Esprita possui as sementes para todos os seminrios e plantaes da f como do raciocnio, na multiplicidade de exigncias em que se apresentam.

    Adentrar a mente e o corao nas suas leiras ricas de luzes o mister a que nos devemos afervorar com devotamento, enquanto a oportunidade propcia.

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    Entregando estas pginas ao estudioso das questes espirituais, exoramos a proteo do Senhor da Seara para todos ns, Espritos necessitados que reconhecemos ser, esperando com elas atender al-gum sedento de esperana ou esfaimado de amor, ofertando-lhe a linfa refrigerante e o pbulo da vida, com ele seguindo pelo caminho de redeno na dire-o do Reino de Deus.

    Joanna De ngelis Salvador (BA), 5 de maio de 1973

  • 1Deus

    ConceitoToda e qualquer tentativa para elucidar a magna

    questo da divindade redunda sempre incua, seno infrutfera, traduzindo esse desejo a v presuno hu-mana, na incessante faina de tudo definir e entender.

    Acostumado ao imediatismo da vida fsica e suas manifestaes, o homem ambiciona tudo submeter ao capricho da sua lgica dbil, para reduzir sua n-fima capacidade intelectual a estrutura causal do Uni-verso, bem assim as fontes originrias do Criador.

    Desde tempos imemoriais, a interpretao da divindade tem recebido os mais preciosos investi-mentos intelectivos que se possam imaginar. Origi-nariamente confundido com a sua obra, [Deus] me-receu ser temido pelos povos primitivos que legaram s culturas posteriores a sedimentao supersticiosa das crendices em que fundamentavam o seu tributo de adorao, transitando mais tarde para a humaniza-o da divindade mesma, eivada pelos sentimentos e

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    paixes transferidos da prpria mesquinhez do homem.

    medida, porm, que os conceitos ticos e filos-ficos evoluram, a compreenso da sua natureza igual-mente experimentou considerveis alteraes. Desde a manifestao feroz dimenso transcendental, o conceito do Ser Supremo recebeu de pensadores e escolas de pensamento as mais diversas proposies, justificando ou negando-lhe a realidade.

    Insuficientes todos os arremedos filosficos e culturais, quanto cientficos, posteriormente, para uma perfeita elucidao do tema, concluiu-se pela le-gitimidade da sua existncia, graas a quatro grupos de consideraes, capazes de demonstr-lo de forma irretorquvel e definitiva, a saber: a) cosmolgicas, que o explicam como a Causa nica da sua prpria cau-salidade, portanto real, sendo necessariamente pos-suidor das condies essenciais para preexistir antes da Criao e sobre-existir ao sem-fim dos tempos e do Universo; b) ontolgicas, que o apresentam perfei-to em todos os seus atributos e na prpria essncia, explicando, por isso mesmo, a sua existncia, que, no sendo real, no justificaria sequer a hiptese do conceito, deixando, ento, de ser perfeito. Procede-ram tais argumentaes desde Santo Anselmo, dos primeiros a formul-las, enquanto as de ordem cos-molgica foram aplicadas inicialmente por Aristte-les, que o considerava o Primeiro motor, o motor no movido, o Ato puro, considerao posteriormente reformulada por Santo Toms de Aquino, que nela fundamentou a quase totalidade da teologia catlica;

  • Deus 11

    c) teleolgicas, mediante as quais o pensamento hu-mano, penetrando na estrutura e ordem do Universo, no encontra outra resposta alm daquela que pro-cede da existncia de um Criador. Ante a harmonia csmica e a beleza, quanto grandeza matemtica e estrutural das galxias e da vida, uma resultante ni-ca surge: tal efeito procede de uma Causa perfeita e harmnica, sbia e infinita; d) morais, defendidas por Immanuel Kant, inimigo acrrimo das demais, que, no entanto, eram apoiadas por Spinoza, Bossuet, Descartes e outros gnios da f e da razo. Deus est presente no homem, mediante a sua responsabilida-de moral e a sua prpria liberdade, que lhe conferem ttulos positivos e negativos, conforme o uso que de-las faa, do que decorrem as linhas mestras do dever e da autoridade. Essa presena na inteligncia huma-na, intuitiva, persistente, universal, faz que todos os homens de responsabilidade moral sejam conscien-temente responsveis, atestando assim, inequivoca-mente, a realidade de um Legislador Absoluto, Supre-ma Razo da Vida.

    Olhai o firmamento e vede a obra das suas mos, proclama o salmista Davi, no canto dezenove, verso primeiro, conduzindo a mente humana interpreta-o teleolgica, cosmolgica e cosmognica, para entender Deus.

    Examina a estrutura de uma molcula e o seu finalismo, especialmente diante do ADN, do ARN de recente investigao pela Cincia, que somente pou-co a pouco penetra na essncia constitutiva da for-ma, na vida animal, e a prpria indagao responde

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    silogisticamente de maneira a conduzir o inquiridor causa essencial de tudo: Deus!

    Outros grupos de estudiosos classificam os ml-tiplos argumentos em ordens diferentes: metafsicos, morais, histricos e fsicos, abrangendo toda a gama do existente e do concebvel.

    Desenvolvimento Diversas escolas filosficas do sculo passado

    desejaram padronizar as determinaes divinas e a prpria divindade em linhas de fcil assimilao, na pretenso de limitarem o ilimitado. Outras correntes de pesquisadores aferrados a cruento materialismo, na condio de herdeiros diretos do Atomismo greco--romano, do pretrito, descendentes, a seu turno, de Lord Bacon, como dos sensualistas e cticos dos scu-los XVIII e XIX, zombando da f ingnua e primitiva, escravizada nos dogmas ultramontanos dos religiosos do passado, tentaram aniquilar histrica e emocional-mente a existncia de Deus, por incompatvel com a razo, conforme apregoavam, mediante sistemas sofistas e concluses cientficas apressadas, como se a prpria razo no fosse perfeitamente confluente com o sentimento de f, inato em todo homem, como o demonstram os multifrios perodos da Histria.

    Scrates j nominava Deus como A Razo Perfei-ta, enquanto Plato o designava por Ideia do Bem.

    O neoplatonismo, com Plotino, props o re-nascimento do Pantesmo, fazendo Deus, o Uno

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    Supremo, que reviver em Spinoza, no obstante algumas discusses na forma de Monismo, que su-pera na poca o Dualismo cartesiano. O monismo recebia entusistico apoio de Fichte, Hegel, Schelling e outros, enquanto larga faixa de pensadores e ms-ticos religiosos empenhava-se na sobrevivncia do Dualismo.

    Mais de uma vez alardeou-se que Deus havia morrido, proclamando-se a desnecessidade da f como da sua paternidade, para, imediatamente, rei-teradas vezes, com a mesma precipitao, voltarem esses negadores a aceitar a sua realidade.

    A personagem concebida por Nietzsche, que sai rua difundindo haver matado Deus, chamando a ateno dos passantes, aps o primeiro choque pro-duzido nos crculos literrios e intelectuais do mun-do, no passado, estimulou outras mentes negao sistemtica. Fenmeno idntico acontecera no s-culo anterior, quando os convencionais franceses, supondo destruir Deus, expulsaram os religiosos de Paris e posteriormente de todo o pas, entronizando a jovem Candeille, atormentada bailarina do pera, como a Deusa Razo, que deveria dirigir os destinos do pensamento intelectual de ento, ante Robespier-re e outros, em Notre-Dame. Logo, porm, depois de mltiplas vicissitudes, o curto perodo da Razo fez que Deus retornasse Frana, e muitos dos seus opo-sitores a Ele se renderam, declarando haver voltado ao seu regao, cabisbaixos, arrependidos, melancli-cos. Deus vencia, mais uma vez, a prospia utopista da ignorncia humana!

  • 14 estuDos esPritas

    Repetida a experincia no ltimo quartel do sculo das luzes, tornou a ser exilado da Filosofia e da Cincia por uns e reconduzido galhardamente por outros expoentes culturais da Humanidade.

    Novamente, ante o passo avanado da tecno-logia moderna, pela multiplicidade das cincias atuais, pretende-se um Cristianismo sem Deus, uma Teologia no testa, fundamentada em cogitaes apressadas, que pretendem levar o homem bus-ca das suas origens, como desejando reconduzi- -lo furna, em vez de situ-lo na Natureza, mant-lo selvagem por incapacidade de faz-lo sublime.

    Tal fenmeno reflete a apressada decadncia histrica e moral das velhas instituies, na Terra de hoje, inaugurando uma Nova Era...

    As construes sociais e econmicas em falncia, as arquiteturas religiosas em soobro, as aferies dos valores psicolgicos e psicotcnicos negativamente surpreendentes, o descrdito inspirado pelos domi-nadores, em si mesmos dominados, pelos vencedo-res lamentavelmente vencidos pela inferioridade das paixes em que se consomem, precipitaram o ago-niado esprito humano na busca do nada, das formas primeiras, rompendo com tudo, como se fora possvel abandonar a herana divina inata indistintamente em todas as criaturas, para tentar esquecer, apagar e con-fundir a inteligncia com os impulsos dos instintos, num contumaz e malsinado esforo de contraditrio retorno s experincias primitivistas da forma, quan-do ainda nas fases longevas de formaes e reforma-es biodinmicas...

  • Deus 15

    Concomitantemente, porm, surgem figuraes morais, espirituais, msticas e cientficas, sofrendo os embates que a dvida e o ceticismo impem, resistin-do, todavia, estoicamente, na afirmao da existncia de Deus, apoiadas pela Filosofia e tica espritas, que so as novas matrizes da Religio do Amor, pregada e vivida por nosso Senhor Jesus Cristo.

    Concluso Deus Amor, afirmava Joo. Meu Pai, dizia reiteradamente Jesus, concei-

    tuando-o da forma mais vigorosa e perfeita que se possa imaginar.

    E Allan Kardec, mergulhando as nobres inqui-ries filosficas nas fontes sublimes da Espirituali-dade Superior, recolheu por meio dos Imortais que Deus a inteligncia suprema, causa primria de to-das as coisas, em admirvel sntese, das mais felizes, completando a argumentao com a assero de que o homem deve estudar as prprias imperfeies a fim de libertar-se delas, o que ser mais til do que pretender penetrar no que impenetrvel, concordan-te com o ensino do Cristo, em Joo: Deus Esprito, e importa que os que o adoram, o adorem em esprito e verdade.

    u

  • Sobre o autorDivaldo Pereira Franco nasceu no dia 5 de maio

    de 1927, em Feira de Santana (BA). reconhecido como um dos mais atuantes tra-

    balhadores da Seara Esprita, com atividades nos campos da oratria, da mediunidade, da assistncia social e da educao.

    Sua produo psicogrfica ultrapassa a 150 ttu-los, dos quais setenta ja foram traduzidos para quinze idiomas.

    Ao todo, so duzentos ttulos publicados, incluin-do os bibliogrficos que retratam a sua vida e obra.

    Realizou mais de dez mil conferncias, tanto no Brasil como em visita a cerca de sessenta pases, tota-lizando aproximadamente 1.250 cidades.

    Em 1947, Divaldo fundou o Centro Esprita Ca-minho da Redeno, mantido at hoje com vrios departamentos, entre eles: a Manso do Caminho, obra de amparo criana e famlia, fundada em 1952; as Escolas de Ensino Fundamental Jesus Cristo, fundada em 1950, e Allan Kardec, fundada em 1965; Creche A Manjedoura, para crianas de dois meses a trs anos; e Jardim de Infncia Esperana, fundado em 1971.

    Desde 1952, mais de trs mil crianas e jovens carentes so atendidos todos os dias, gratuitamente. Mais de trinta mil crianas passaram at hoje pelos vrios cursos e oficinas da Manso do Caminho.