Expressões Não Verbais No Diálogo Interreligioso

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  • PARALELLUS, Recife, Ano 3, n. 6, jul./dez. 2012, p. 139-151. ISSN: 2178-8162

    ARTE DO MOVIMENTO E EXPRESSO NO VERBAL

    NO DILOGO INTER-RELIGIOSO

    Rogrio Costa Migliorini1

    Resumo

    Este trabalho discorre sobre a afinidade entre Arte do Movimento e expresso no verbal no dilogo inter-religioso, entendendo que esse dilogo, mais do que uma conversa verbal, uma forma de entrar em relao com o prximo por meio de todos os recursos possveis e imaginveis. Por conseguinte, acreditamos que, por meio de exerccios e vivncias baseadas em trocas e relacionamentos no verbais intermediadas pelo movimento, seja plausvel desenvolver a capacidade de enxergar, ouvir, tocar, bem como de se relacionar fsica, espacial, emocional e espiritualmente com o outro diferente, uma vez que pode esquecer todo o pensamento racional e argumentao lgica. Para embasar essa abordagem, associamos fora do movimento e a comunicao no verbal, reflexes de telogos como Aloysius Pieris e Lieve Troch. Tambm recorremos aos pensamentos de Maurice Bejart e Rudolf Laban, o primeiro um coregrafo francs que criou e dirigiu uma das maiores e mais importantes companhias de dana da atualidade, e o segundo, um artista e terico do movimento morto em meados do sculo passado.

    Palavras-chave: Ecumenismo. Religies. Fronteiras. Relacionamentos. Artes performticas.

    O homem est s diante do incompreensvel: angstia, medo, atrao, mistrio. As palavras de nada servem. Para que dar a isso nomes como Deus, Absoluto, Natureza, Acaso? O que preciso entrar em contato. O que o homem busca, para alm da compreenso, a comunicao. A dana nasce dessa necessidade de dizer o indizvel, de conhecer o desconhecido, de estar em relao com o outro.

    Maurice Bjart O movimento a experincia fsica mais elementar da vida humana. No apenas encontrado no movimento funcional e vital do pulso e em todo o corpo na tarefa de manter-se vivo, mas tambm na expresso de toda experincia emocional; e nesse aspecto que reside o seu valor para o bailarino. O corpo o espelho do pensamento. Quando nos assustamos o corpo reage com movimentos rpidos, curtos e intensos; quando envergonhados, o sangue vai para o rosto e coramos; se estamos abalados, o sangue

    1 Mestre em Cincias da Religio pela Universidade Metodista de So Paulo, especialista em Arte-terapia pelo Instituto Sedes Sapientiae e graduado em dana pela Universidade Estadual de Campinas.

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    nos foge da face e empalidecemos; quando tristes, lgrimas chegam em nossos olhos e surge o que denominamos de um n na garganta. Quando temos qualquer uma dessas experincias, os msculos contraem-se ou relaxam-se e todos os membros do corpo so afetados. Essas ilustraes so to comuns que dispensam maiores comentrios. O movimento fsico o primeiro efeito normal de qualquer experincia mental ou emocional.

    John Martin O que Cristo est sempre dizendo, o que ele nunca deixa de dizer, o que ele diz mil vezes e de mil formas diferentes, mas sempre com uma unidade central, isto: Eu sou o filho do meu pai, e vocs so os meus irmos. E o que nos une; o que faz dessa terra uma famlia, e todos os homens irmos, portanto filhos de Deus; o amor.

    Thomas Wolfe

    1 INTRODUO

    Acredito que o termo dilogo inter-religioso surgiu porque a humanidade

    presenciou em larga extenso o seu contrrio, a intolerncia e a violncia, ambas

    justificadas pelas religies, crists ou no. At hoje posies religiosas

    fundamentalistas dificultam ou mesmo impedem o dilogo entre naes ou pessoas

    de uma mesma famlia ou vizinhana.

    No obstante, com a globalizao, uma situao religiosa pluralista deixa de

    ser uma opo e passa a ser uma realidade cotidiana. Nas palavras de Lieve Troch

    para vivermos de verdade nessa realidade e no nos fecharmos em ns mesmos,

    temos de fazer um salto para o dilogo (PIERIS, 2008, p. 12), sendo que o dilogo

    implica, no mnimo, na capacidade de ouvir verdadeiramente o outro.

    Graas minha formao bsica em Arte do Movimento e, tambm, ao meu

    fascnio de uma vida toda pela expresso no verbal, quando reflito sobre a

    observao feita acima penso no trecho de autoria de Maurice Bejrt citado como

    epgrafe.

    Ele decorrente de uma experincia que o coregrafo teve em viagem de

    frias a uma ilha do Mediterrneo. L ele teve oportunidade de viver durante

    algumas semanas a vida de pescadores e assinala: quando, aps o dia de trabalho,

    os homens se agrupavam e comeavam a conversar, acabavam discutindo.

    Entretanto, quando, em vez de conversar comeavam a danar, celebravam a vida

    sem necessidade de palavras. Nessas ocasies, ao contrrio do que ocorria em

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    situaes como a anterior quando reinava a incompreenso e o debate acalorado,

    imperavam a harmonia e a unio (GARAUDY, 1973).

    O relato dessa experincia sugere a importncia do movimento e o fato de

    que, por vezes, ele muito mais eficaz para a harmonia e unio dos homens do que

    a palavra verbal. Tal ocorre, creio eu, porque ao ser capaz de prescindir de

    argumentaes racionais, a interao intermedida pelo movimento possibilita um

    dilogo baseado em sentimentos e emoes, o que faz que essa troca ocorra de

    forma fluida.

    Em outras palavras, esse tipo de intercmbio permite que pessoas de

    religies diferentes baixem suas defesas ao enxergar, ouvir, tocar, bem como se

    relacionar fsica, espacial, emocional e espiritualmente com o outro diferente. Em um

    segundo momento, o dilogo verbal at pode ocorrer mais tranquilamente, pois uma

    forma no substitui a outra, e ambas coexistem no ser humano.

    Alm disso, procuro seguir a abordagem das antigas civilizaes que davam a

    justa importncia expresso no verbal e no separavam, como fazem as

    civilizaes modernas, o verbal e racional do misterioso e inexprimvel por palavras

    (AMARAL, 2003; GUERRA, 2007).

    2 A ARTE DO MOVIMENTO E ALGUMAS DE SUAS APLICAES

    O sistema de anlise do movimento criado pelo hngaro Rudolph Laban

    (1879-1958), e introduzido no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial pela

    tambm hngara, Maria Duchenes, professora com a qual tive o privilgio de estudar

    por cinco anos. O sistema permite a descrio, o registro e a anlise dos aspectos

    corporais, espaciais e dinmicos do movimento, de forma que, uma vez observados,

    novas possibilidades de ao possam ser sugeridas. Esse mtodo j foi utilizado no

    treinamento de atletas e empresrios, bem como na interpretao de estilos de

    comunicao no verbal de polticos, religiosos e at no exame de comportamentos

    de animais como o dos golfinhos, ursos e lobos.

    Na sua vertente denominada arte do movimento, o sistema pode ser aplicado

    a uma srie de situaes. A seguir veremos alguns dos empregos mais pertinentes

    aos objetivos deste artigo.

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    3 A ARTE DO MOVIMENTO APLICADA TERAPEUTICAMENTE

    A arte do movimento fornece os meios para a organizao do corpo, dos

    sentimentos, das emoes e dos pensamentos,

    levando o indivduo a relacionar suas atitudes internas com suas formas externas de movimento, aumentando seu vocabulrio expressivo e dando-lhe capacidade para transformar suas aes em smbolos de emoo, atravs de padres e ritmos ordenados (MIRANDA, 1980, p. 12).

    Em outras palavras,

    o movimento considerado at agora pelo menos em nossa civilizao como um servial empregado para se atingir um propsito prtico estranho a ele, veio luz como uma fora independente capaz de criar estados mentais frequentemente mais fortes que a vontade do homem (LABAN, 1975, p. 6).

    Como para Laban, a ao por trs de TODAS as atividades humanas o

    movimento, lgico o autor assumir que mente e corpo se relacionam por meio

    dele. Portanto, o movimento permite a expanso e a modificao de padres

    mentais que se tornaram ou se tornariam fixos e rgidos.

    4 PALAVRA E AO

    Levando em conta algumas razes orientais e ocidentais do teatro, como o

    teatro N e a Commedia dellarte, bem como o teatro contemporneo, observamos

    que a arte do ator se funda mais na ao do que na verbalizao propriamente dita.

    Sendo assim, para a Arte do Movimento no h grande diferena entre atores e

    bailarinos e pessoas comuns. Ela trata do movimento em sentido geral e sempre o

    relaciona atitude interna do executante. A Arte do Movimento tambm se ocupa da

    forma pela qual o movimento executado, uma vez que as diferenas visveis no

    modo de faz-lo lhe conferem caractersticas expressivas. Como exemplo, imagine

    um mesmo movimento sendo executado rpida ou lentamente.

    Ora, ento a dramaturgia contempornea procura captar as intenes

    humanas sempre expressas por aes, visveis ou no, e baseia-se na possibilidade

    de apreenso dos impulsos vitais e, portanto, do seu veculo maior de expresso

    que o corpo que age. Da que, para chegar a ele, bem como s aes fsicas,

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    preciso ao ator (ou pessoa comum) entrar em contato consigo mesmo por meio do

    vazio, da calma e do silncio. Ou seja, a introspeco se mostra necessria para

    que o contato com o seu/nosso interior resulte em uma ao externa. Alm do mais,

    diz-se que as aes fsicas ocorrem porque a musculatura canta e, como a alma se

    expressa corporalmente, o ator (ns) alcana(mos) a calma introspectiva, as aes

    fsicas e, finalmente, a alma. Ou seja, ele, assim como ns, parte do corpo, do

    concreto e do profano para atingir o esprito, o transcendente e o sagrado (JAN,

    1986; MARTIN, 2007).

    5 ARTE DO MOVIMENTO, PAZ E RESOLUO DE CONFLITOS

    Para ilustrar tal relao, refiro-me ao blog Embody Peace (Incorpore a paz).

    Trata-se de um centro internacional de recursos voltados para a paz, que tambm

    um frum em que profissionais, estudantes e o pblico em geral podem compartilhar

    uns com os outros com perguntas, ideias e experincias.

    O blog do instituto existe desde fevereiro de 2007, e comeou com a

    inspirao, conhecimentos e recursos de Martha Eddy.

    Como parte de sua pesquisa de doutorado no Columbia Universitys Teachers

    College, Martha Eddy trabalhou por mais de uma dcada para reunir informaes

    sobre pessoas e organizaes com anos de experincia em educao somtica,

    artes e assim como grande atividade na resoluo de conflitos, na preveno de

    violncia, e na construo de comunidades em nvel local ou internacional.

    O blog foi iniciado com uma lista dessas organizaes, e desde ento tem

    recebido quaisquer mensagens ou links que incluem o entendimento de como

    percebemos nossos corpos e de que forma, por meio deles, interagimos uns com os

    outros. A Dra. Eddy considera que nosso estado fsico afeta nossos sentimentos,

    nossos comportamentos, e nosso trabalho criativo no mundo. Alm disso, rene em

    seu blog relatos de abordagens fsicas voltadas para a paz, resoluo de conflitos e

    preveno da violncia e que so acessadas por meio das artes, dos esportes, da

    educao somtica, da comunicao no verbal, e das cincias biolgicas (EDDY,

    2007).

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    6 TEATRO, CINEMA E COMUNICAO NO VERBAL

    No obstante os exemplos prticos j dados sobre a relao da linguagem

    no verbal com a comunicao, tomo a liberdade de citar mais dois.

    Lembro-me de que h alguns anos foi feita uma pea sobre um conto de

    Guimares Rosa e um dos atores da montagem recebeu o prmio por sua atuao

    pela Associao Paulista dos Crticos de Arte. O ator premiado foi justamente aquele

    que fazia o papel da cachorra Baleia e no falava nem uma s palavra durante a

    pea. Em vez disso, da mesma forma que uma cachorra, ele apenas se coava,

    andava de quatro, se encolhia embaixo da mesa, e, por meio de aes corporais

    no verbais, demonstrava estados de alegria, medo e prontido.

    Outro exemplo mais recente o filme estrelado por Tom Cruise, O ltimo

    Samurai. O filme retrata um soldado americano que foi ao Japo pra liderar a luta

    do governo local contra rebeldes samurais. Apanhado, foi levado vila em que os

    samurais viviam e ficou preso no lugar durante todo o inverno. Recluso ao local pela

    neve que abundava naquela regio montanhosa, foi-lhe permitido andar livremente

    pelo vilarejo e se comunicar com o povo de seus captores. Entretanto,

    impossibilitados de se comunicarem pela palavra, o que permitia que se

    conhecessem, eram, por exemplo, os olhares, os gestos, as roupas, as aes e a

    arquitetura local. Enfim, foi o que viam no outro e o que deduziam a partir dessa

    observao dos elementos no verbais, que possibilitou aos inimigos originais o

    incio de um relacionamento que, veio a se transformar em grande e respeitosa

    amizade. E no reconhecimento do fato de que gestos e aes acabam por

    expressar mais do que aparentemente o fazem que, penso eu, reside a riqueza do

    filme.

    7 SURDOS E COMUNICAO NO VERBAL

    H cerca de quinze anos venho pensando na afinidade dos Surdos2 com a

    arte do movimento. A esse respeito, minha indagao principal tem sido no que h

    2 A palavra surdo(a) me parecia pejorativa, porm as pessoas da comunidade surda indicam a sua condio tnica (um povo com uma lngua distinta, com sensibilidade e cultura prprias) por meio de uma conveno na qual a Surdez com s maisculo uma entidade lingustica e cultural ao

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    de comum entre ouvintes e eles. importante observar aqui, que ao pensar em

    pessoas surdas e movimento, no me fio no domnio da lngua de sinais. Embora ela

    tambm seja formada por movimentos que ocorrem no espao, os sinais da lngua

    so rigidamente fixos e codificados como precisam ser para que possam embasar

    uma lngua estruturada (REVISTA DA FENEIS, 1999; SACKS, 1988).

    No entanto, visto que muitas vezes, os prprios familiares (pais, avs, irmo e

    outros parentes) marginalizam as pessoas surdas por falta de domnio e

    compreenso da lngua de sinais, para romper as fronteiras da ilha de

    incomunicabilidade em que esto inseridas, elas se utilizam intensamente do

    movimento. Sua experincia anloga quela que ns, ouvintes, temos quando

    visitamos um pas estrangeiro onde a comunicao verbal impossibilitada por

    nosso desconhecimento total ou parcial da lngua estrangeira.

    Porm, a linguagem no verbal, ao contrrio da lngua de sinais, no

    exclusiva aos surdos; pertence, isto sim, humanidade em geral e tambm est

    presente na comunicao. Como estudioso do movimento humano, reconheo que

    os surdos, principalmente os de nascena, lanam mo dela maravilhosamente bem

    e observ-los, portanto, torna-se um rico...