Expressões Não Verbais No Diálogo Interreligioso

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    26-Dec-2015

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<ul><li><p> PARALELLUS, Recife, Ano 3, n. 6, jul./dez. 2012, p. 139-151. ISSN: 2178-8162 </p><p> ARTE DO MOVIMENTO E EXPRESSO NO VERBAL </p><p>NO DILOGO INTER-RELIGIOSO </p><p>Rogrio Costa Migliorini1 </p><p>Resumo </p><p>Este trabalho discorre sobre a afinidade entre Arte do Movimento e expresso no verbal no dilogo inter-religioso, entendendo que esse dilogo, mais do que uma conversa verbal, uma forma de entrar em relao com o prximo por meio de todos os recursos possveis e imaginveis. Por conseguinte, acreditamos que, por meio de exerccios e vivncias baseadas em trocas e relacionamentos no verbais intermediadas pelo movimento, seja plausvel desenvolver a capacidade de enxergar, ouvir, tocar, bem como de se relacionar fsica, espacial, emocional e espiritualmente com o outro diferente, uma vez que pode esquecer todo o pensamento racional e argumentao lgica. Para embasar essa abordagem, associamos fora do movimento e a comunicao no verbal, reflexes de telogos como Aloysius Pieris e Lieve Troch. Tambm recorremos aos pensamentos de Maurice Bejart e Rudolf Laban, o primeiro um coregrafo francs que criou e dirigiu uma das maiores e mais importantes companhias de dana da atualidade, e o segundo, um artista e terico do movimento morto em meados do sculo passado. </p><p>Palavras-chave: Ecumenismo. Religies. Fronteiras. Relacionamentos. Artes performticas. </p><p>O homem est s diante do incompreensvel: angstia, medo, atrao, mistrio. As palavras de nada servem. Para que dar a isso nomes como Deus, Absoluto, Natureza, Acaso? O que preciso entrar em contato. O que o homem busca, para alm da compreenso, a comunicao. A dana nasce dessa necessidade de dizer o indizvel, de conhecer o desconhecido, de estar em relao com o outro. </p><p>Maurice Bjart O movimento a experincia fsica mais elementar da vida humana. No apenas encontrado no movimento funcional e vital do pulso e em todo o corpo na tarefa de manter-se vivo, mas tambm na expresso de toda experincia emocional; e nesse aspecto que reside o seu valor para o bailarino. O corpo o espelho do pensamento. Quando nos assustamos o corpo reage com movimentos rpidos, curtos e intensos; quando envergonhados, o sangue vai para o rosto e coramos; se estamos abalados, o sangue </p><p> 1 Mestre em Cincias da Religio pela Universidade Metodista de So Paulo, especialista em Arte-terapia pelo Instituto Sedes Sapientiae e graduado em dana pela Universidade Estadual de Campinas. </p></li><li><p>~ 140 ~ MIGLIORINI, Rogrio Costa. Arte do movimento e expresso no verbal... </p><p>PARALELLUS, Recife, Ano 3, n. 6, jul./dez. 2012, p. 139-151. ISSN: 2178-8162 </p><p>nos foge da face e empalidecemos; quando tristes, lgrimas chegam em nossos olhos e surge o que denominamos de um n na garganta. Quando temos qualquer uma dessas experincias, os msculos contraem-se ou relaxam-se e todos os membros do corpo so afetados. Essas ilustraes so to comuns que dispensam maiores comentrios. O movimento fsico o primeiro efeito normal de qualquer experincia mental ou emocional. </p><p>John Martin O que Cristo est sempre dizendo, o que ele nunca deixa de dizer, o que ele diz mil vezes e de mil formas diferentes, mas sempre com uma unidade central, isto: Eu sou o filho do meu pai, e vocs so os meus irmos. E o que nos une; o que faz dessa terra uma famlia, e todos os homens irmos, portanto filhos de Deus; o amor. </p><p>Thomas Wolfe </p><p>1 INTRODUO </p><p>Acredito que o termo dilogo inter-religioso surgiu porque a humanidade </p><p>presenciou em larga extenso o seu contrrio, a intolerncia e a violncia, ambas </p><p>justificadas pelas religies, crists ou no. At hoje posies religiosas </p><p>fundamentalistas dificultam ou mesmo impedem o dilogo entre naes ou pessoas </p><p>de uma mesma famlia ou vizinhana. </p><p>No obstante, com a globalizao, uma situao religiosa pluralista deixa de </p><p>ser uma opo e passa a ser uma realidade cotidiana. Nas palavras de Lieve Troch </p><p>para vivermos de verdade nessa realidade e no nos fecharmos em ns mesmos, </p><p>temos de fazer um salto para o dilogo (PIERIS, 2008, p. 12), sendo que o dilogo </p><p>implica, no mnimo, na capacidade de ouvir verdadeiramente o outro. </p><p>Graas minha formao bsica em Arte do Movimento e, tambm, ao meu </p><p>fascnio de uma vida toda pela expresso no verbal, quando reflito sobre a </p><p>observao feita acima penso no trecho de autoria de Maurice Bejrt citado como </p><p>epgrafe. </p><p>Ele decorrente de uma experincia que o coregrafo teve em viagem de </p><p>frias a uma ilha do Mediterrneo. L ele teve oportunidade de viver durante </p><p>algumas semanas a vida de pescadores e assinala: quando, aps o dia de trabalho, </p><p>os homens se agrupavam e comeavam a conversar, acabavam discutindo. </p><p>Entretanto, quando, em vez de conversar comeavam a danar, celebravam a vida </p><p>sem necessidade de palavras. Nessas ocasies, ao contrrio do que ocorria em </p></li><li><p>MIGLIORINI, Rogrio Costa. Arte do movimento e expresso no verbal... ~ 141 ~ </p><p>PARALELLUS, Recife, Ano 3, n. 6, jul./dez. 2012, p. 139-151. ISSN: 2178-8162 </p><p>situaes como a anterior quando reinava a incompreenso e o debate acalorado, </p><p>imperavam a harmonia e a unio (GARAUDY, 1973). </p><p>O relato dessa experincia sugere a importncia do movimento e o fato de </p><p>que, por vezes, ele muito mais eficaz para a harmonia e unio dos homens do que </p><p>a palavra verbal. Tal ocorre, creio eu, porque ao ser capaz de prescindir de </p><p>argumentaes racionais, a interao intermedida pelo movimento possibilita um </p><p>dilogo baseado em sentimentos e emoes, o que faz que essa troca ocorra de </p><p>forma fluida. </p><p>Em outras palavras, esse tipo de intercmbio permite que pessoas de </p><p>religies diferentes baixem suas defesas ao enxergar, ouvir, tocar, bem como se </p><p>relacionar fsica, espacial, emocional e espiritualmente com o outro diferente. Em um </p><p>segundo momento, o dilogo verbal at pode ocorrer mais tranquilamente, pois uma </p><p>forma no substitui a outra, e ambas coexistem no ser humano. </p><p>Alm disso, procuro seguir a abordagem das antigas civilizaes que davam a </p><p>justa importncia expresso no verbal e no separavam, como fazem as </p><p>civilizaes modernas, o verbal e racional do misterioso e inexprimvel por palavras </p><p>(AMARAL, 2003; GUERRA, 2007). </p><p>2 A ARTE DO MOVIMENTO E ALGUMAS DE SUAS APLICAES </p><p>O sistema de anlise do movimento criado pelo hngaro Rudolph Laban </p><p>(1879-1958), e introduzido no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial pela </p><p>tambm hngara, Maria Duchenes, professora com a qual tive o privilgio de estudar </p><p>por cinco anos. O sistema permite a descrio, o registro e a anlise dos aspectos </p><p>corporais, espaciais e dinmicos do movimento, de forma que, uma vez observados, </p><p>novas possibilidades de ao possam ser sugeridas. Esse mtodo j foi utilizado no </p><p>treinamento de atletas e empresrios, bem como na interpretao de estilos de </p><p>comunicao no verbal de polticos, religiosos e at no exame de comportamentos </p><p>de animais como o dos golfinhos, ursos e lobos. </p><p>Na sua vertente denominada arte do movimento, o sistema pode ser aplicado </p><p>a uma srie de situaes. A seguir veremos alguns dos empregos mais pertinentes </p><p>aos objetivos deste artigo. </p></li><li><p>~ 142 ~ MIGLIORINI, Rogrio Costa. Arte do movimento e expresso no verbal... </p><p>PARALELLUS, Recife, Ano 3, n. 6, jul./dez. 2012, p. 139-151. ISSN: 2178-8162 </p><p>3 A ARTE DO MOVIMENTO APLICADA TERAPEUTICAMENTE </p><p>A arte do movimento fornece os meios para a organizao do corpo, dos </p><p>sentimentos, das emoes e dos pensamentos, </p><p>levando o indivduo a relacionar suas atitudes internas com suas formas externas de movimento, aumentando seu vocabulrio expressivo e dando-lhe capacidade para transformar suas aes em smbolos de emoo, atravs de padres e ritmos ordenados (MIRANDA, 1980, p. 12). </p><p>Em outras palavras, </p><p>o movimento considerado at agora pelo menos em nossa civilizao como um servial empregado para se atingir um propsito prtico estranho a ele, veio luz como uma fora independente capaz de criar estados mentais frequentemente mais fortes que a vontade do homem (LABAN, 1975, p. 6). </p><p>Como para Laban, a ao por trs de TODAS as atividades humanas o </p><p>movimento, lgico o autor assumir que mente e corpo se relacionam por meio </p><p>dele. Portanto, o movimento permite a expanso e a modificao de padres </p><p>mentais que se tornaram ou se tornariam fixos e rgidos. </p><p>4 PALAVRA E AO </p><p>Levando em conta algumas razes orientais e ocidentais do teatro, como o </p><p>teatro N e a Commedia dellarte, bem como o teatro contemporneo, observamos </p><p>que a arte do ator se funda mais na ao do que na verbalizao propriamente dita. </p><p>Sendo assim, para a Arte do Movimento no h grande diferena entre atores e </p><p>bailarinos e pessoas comuns. Ela trata do movimento em sentido geral e sempre o </p><p>relaciona atitude interna do executante. A Arte do Movimento tambm se ocupa da </p><p>forma pela qual o movimento executado, uma vez que as diferenas visveis no </p><p>modo de faz-lo lhe conferem caractersticas expressivas. Como exemplo, imagine </p><p>um mesmo movimento sendo executado rpida ou lentamente. </p><p>Ora, ento a dramaturgia contempornea procura captar as intenes </p><p>humanas sempre expressas por aes, visveis ou no, e baseia-se na possibilidade </p><p>de apreenso dos impulsos vitais e, portanto, do seu veculo maior de expresso </p><p>que o corpo que age. Da que, para chegar a ele, bem como s aes fsicas, </p></li><li><p>MIGLIORINI, Rogrio Costa. Arte do movimento e expresso no verbal... ~ 143 ~ </p><p>PARALELLUS, Recife, Ano 3, n. 6, jul./dez. 2012, p. 139-151. ISSN: 2178-8162 </p><p>preciso ao ator (ou pessoa comum) entrar em contato consigo mesmo por meio do </p><p>vazio, da calma e do silncio. Ou seja, a introspeco se mostra necessria para </p><p>que o contato com o seu/nosso interior resulte em uma ao externa. Alm do mais, </p><p>diz-se que as aes fsicas ocorrem porque a musculatura canta e, como a alma se </p><p>expressa corporalmente, o ator (ns) alcana(mos) a calma introspectiva, as aes </p><p>fsicas e, finalmente, a alma. Ou seja, ele, assim como ns, parte do corpo, do </p><p>concreto e do profano para atingir o esprito, o transcendente e o sagrado (JAN, </p><p>1986; MARTIN, 2007). </p><p>5 ARTE DO MOVIMENTO, PAZ E RESOLUO DE CONFLITOS </p><p>Para ilustrar tal relao, refiro-me ao blog Embody Peace (Incorpore a paz). </p><p>Trata-se de um centro internacional de recursos voltados para a paz, que tambm </p><p>um frum em que profissionais, estudantes e o pblico em geral podem compartilhar </p><p>uns com os outros com perguntas, ideias e experincias. </p><p>O blog do instituto existe desde fevereiro de 2007, e comeou com a </p><p>inspirao, conhecimentos e recursos de Martha Eddy. </p><p>Como parte de sua pesquisa de doutorado no Columbia Universitys Teachers </p><p>College, Martha Eddy trabalhou por mais de uma dcada para reunir informaes </p><p>sobre pessoas e organizaes com anos de experincia em educao somtica, </p><p>artes e assim como grande atividade na resoluo de conflitos, na preveno de </p><p>violncia, e na construo de comunidades em nvel local ou internacional. </p><p>O blog foi iniciado com uma lista dessas organizaes, e desde ento tem </p><p>recebido quaisquer mensagens ou links que incluem o entendimento de como </p><p>percebemos nossos corpos e de que forma, por meio deles, interagimos uns com os </p><p>outros. A Dra. Eddy considera que nosso estado fsico afeta nossos sentimentos, </p><p>nossos comportamentos, e nosso trabalho criativo no mundo. Alm disso, rene em </p><p>seu blog relatos de abordagens fsicas voltadas para a paz, resoluo de conflitos e </p><p>preveno da violncia e que so acessadas por meio das artes, dos esportes, da </p><p>educao somtica, da comunicao no verbal, e das cincias biolgicas (EDDY, </p><p>2007). </p></li><li><p>~ 144 ~ MIGLIORINI, Rogrio Costa. Arte do movimento e expresso no verbal... </p><p>PARALELLUS, Recife, Ano 3, n. 6, jul./dez. 2012, p. 139-151. ISSN: 2178-8162 </p><p>6 TEATRO, CINEMA E COMUNICAO NO VERBAL </p><p>No obstante os exemplos prticos j dados sobre a relao da linguagem </p><p>no verbal com a comunicao, tomo a liberdade de citar mais dois. </p><p>Lembro-me de que h alguns anos foi feita uma pea sobre um conto de </p><p>Guimares Rosa e um dos atores da montagem recebeu o prmio por sua atuao </p><p>pela Associao Paulista dos Crticos de Arte. O ator premiado foi justamente aquele </p><p>que fazia o papel da cachorra Baleia e no falava nem uma s palavra durante a </p><p>pea. Em vez disso, da mesma forma que uma cachorra, ele apenas se coava, </p><p>andava de quatro, se encolhia embaixo da mesa, e, por meio de aes corporais </p><p>no verbais, demonstrava estados de alegria, medo e prontido. </p><p>Outro exemplo mais recente o filme estrelado por Tom Cruise, O ltimo </p><p>Samurai. O filme retrata um soldado americano que foi ao Japo pra liderar a luta </p><p>do governo local contra rebeldes samurais. Apanhado, foi levado vila em que os </p><p>samurais viviam e ficou preso no lugar durante todo o inverno. Recluso ao local pela </p><p>neve que abundava naquela regio montanhosa, foi-lhe permitido andar livremente </p><p>pelo vilarejo e se comunicar com o povo de seus captores. Entretanto, </p><p>impossibilitados de se comunicarem pela palavra, o que permitia que se </p><p>conhecessem, eram, por exemplo, os olhares, os gestos, as roupas, as aes e a </p><p>arquitetura local. Enfim, foi o que viam no outro e o que deduziam a partir dessa </p><p>observao dos elementos no verbais, que possibilitou aos inimigos originais o </p><p>incio de um relacionamento que, veio a se transformar em grande e respeitosa </p><p>amizade. E no reconhecimento do fato de que gestos e aes acabam por </p><p>expressar mais do que aparentemente o fazem que, penso eu, reside a riqueza do </p><p>filme. </p><p>7 SURDOS E COMUNICAO NO VERBAL </p><p>H cerca de quinze anos venho pensando na afinidade dos Surdos2 com a </p><p>arte do movimento. A esse respeito, minha indagao principal tem sido no que h </p><p> 2 A palavra surdo(a) me parecia pejorativa, porm as pessoas da comunidade surda indicam a sua condio tnica (um povo com uma lngua distinta, com sensibilidade e cultura prprias) por meio de uma conveno na qual a Surdez com s maisculo uma entidade lingustica e cultural ao </p></li><li><p>MIGLIORINI, Rogrio Costa. Arte do movimento e expresso no verbal... ~ 145 ~ </p><p>PARALELLUS, Recife, Ano 3, n. 6, jul./dez. 2012, p. 139-151. ISSN: 2178-8162 </p><p>de comum entre ouvintes e eles. importante observar aqui, que ao pensar em </p><p>pessoas surdas e movimento, no me fio no domnio da lngua de sinais. Embora ela </p><p>tambm seja formada por movimentos que ocorrem no espao, os sinais da lngua </p><p>so rigidamente fixos e codificados como precisam ser para que possam embasar </p><p>uma lngua estruturada (REVISTA DA FENEIS, 1999; SACKS, 1988). </p><p>No entanto, visto que muitas vezes, os prprios familiares (pais, avs, irmo e </p><p>outros parentes) marginalizam as pessoas surdas por falta de domnio e </p><p>compreenso da lngua de sinais, para romper as fronteiras da ilha de </p><p>incomunicabilidade em que esto inseridas, elas se utilizam intensamente do </p><p>movimento. Sua experincia anloga quela que ns, ouvintes, temos quando </p><p>visitamos um pas estrangeiro onde a comunicao verbal impossibilitada por </p><p>nosso desconhecimento total ou parcial da lngua estrangeira. </p><p>Porm, a linguagem no verbal, ao contrrio da lngua de sinais, no </p><p>exclusiva aos surdos; pertence, isto sim, humanidade em geral e tambm est </p><p>presente na comunicao. Como estudioso do movimento humano, reconheo que </p><p>os surdos, principalmente os de nascena, lanam mo dela maravilhosamente bem </p><p>e observ-los, portanto, torna-se um rico...</p></li></ul>