Ferreira 2003 Extase-e-ic Ic

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O xtase e a Transformao daImagem CorporalO xtase e a Transformao daImagem Corporal

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  • O xtase e a Transformao da Imagem Corporal

    Pedro Peixoto Ferreira

    Doutorando em Cincias Sociais no Instituto de Filosofia e Cincias Humanas da Unicamp. Desenvolve atualmente pesquisa sobre as relaes entre as tcnicas do xtase na msica eletrnica e no xamanismo (apoio FAPESP).

    dezembro, 2003

    INTRODUO

    Entende-se por imagem do corpo humano a figurao de nosso corpo formada em nossa mente, ou seja, o modo pelo qual o corpo se apresenta para ns. (Schilder, 1999:7)

    om estas palavras Paul Schilder abriu a Introduo de seu livro A Imagem do Corpo: As Energias Construtivas da

    Psique (1999 [1935]). Alm de definir sinteticamente o conceito de imagem corporal, ele nos ofereceu tambm uma tima porta de entrada para o estudo da experincia exttica. Poderamos perguntar para Schilder: Onde se situa a mente, palco da figurao de nosso corpo? Onde estamos ns quando o corpo se apresenta enquanto imagem corporal? Schilder possivelmente pediria que no interpretssemos to literalmente assim as suas palavras, buscando compreender apenas que a imagem corporal no coincide com o corpo em suas inmeras partes, sendo antes a nossa forma de nos relacionarmos com ele enquanto totalidade. Mas mesmo sabendo das complexidades relacionais que o ns introduz na mediao corpo /mente proposta por ele, como no perceber o dualismo implcito em suas palavras? Evidentemente, como bem notou o filsofo francs Maurice Merleau-Ponty (1908-1961), existe uma verdade do dualismo, pois nem sempre possvel achar um sentido em nosso corpo e nossos pensamentos nem sempre na timidez, por exemplo atingem nele sua mxima expresso (1967:209). Mas exatamente o que ocorre com esta imagem corporal que se coloca entre ns e o nosso corpo quando nos deparamos com tal verdade? Toda sociedade tem suas prprias teorias sobre as relaes entre o corpo e aquilo

    que poderamos chamar de alma, esprito , mente etc. Todos ns j tivemos experincias de ruptura dualista entre nossas intenes subjetivas e nossas capacidades objetiva s, nem que seja em nossos sonhos. No foi Descartes quem inventou o dualismo. Ele apenas o axiomatizou, transformando em princpio algo que antes era apenas fato contingente: a distino entre a res extensa material e a res cogitans espiritual. Assim, se existe uma verdade do dualismo e se esta disjuno entre o corpo e a alma um exemplo de experincia exttica, no se pode da concluir que o dualismo seja a nica verdade (um axioma universal) ou a nica forma possvel de se conceber o xtase. Muito pelo contrrio, apesar de a experincia exttica poder produzir um dualismo corpo/mente, este no seu nico produto, e nem o mais interessante. Neste texto investigaremos as transformaes por que passa a imagem corporal quando entramos em descompasso com aquilo que era at ento vivido como o nosso corpo e entramos em uma relao modulativa e metaestvel com um exterior desconhecido. O xtase, nesta perspectiva, seria aquilo que se coloca entre a destruio de uma imagem corporal e a constituio de outra. Ele pode ter duraes variveis e ter conseqncias muito diversas para quem o experiencia, podendo inclusive ser mantido indefinidamente, controlado ou provocado intencionalmente atravs de tcnicas especficas. Mas antes de nos aprofundarmos nestas complexidades, consideremos brevemente o conhecimento j existente sobre o fenmeno. A experincia do xtase j foi bastante pesquisada a partir das mais diversas perspectivas, e uma rpida excurso por dicionrios e enciclopdias especializados pode

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    revelar algumas tendncias dominantes: os de Psicologia, por exemplo, tendem a definir o xtase a partir de uma contradio entre traos comportamentais (tendncia imobilidade) e psicolgicos (intensa agitao mental, alegria e angstia) configurando um estado potencialmente patolgico (histeria, delrio, perda de contato com o mundo exterior, rompimento das relaes) (cf. Cabral e Nick, 1974; Piern, 1977); os de Filosofia, por outro lado, quando no repetem a tendncia dos de Psicologia, lhes acrescentam elementos cognitivos (a conservao das capacidades cognitivas, a incomunicabilidade da experincia), religiosos (sentido neoplatnico da comunho e identificao com Deus, clmax religioso, Nirvana), extraordinrios (ruptura com a experincia cotidiana), afetivos (amor, prazer), estticos (a contemplao da beleza absoluta), epistemolgicos (unio da alma com seu objeto) e propriamente filosficos (definies de Heidegger e Sartre para a temporalidade) (cf. Runes, 1942; Abbagnano, 1982; Legrand, 1986; Japiass e Marcondes, 1991; Lalande, 1993; Blackburn, 1997); os de Religio , por sua vez, apesar de tambm indicarem as tendncias encontradas nos de Psicologia, tendem a se ater s manifestaes mais especificamente religiosas e msticas (arrebatamento, contato com Deus, transe proftico, experincia mstica) (cf. Pike, 1958; Knig, 1998); por fim, os de Cincias Sociais raramente dedicam verbetes ao xtase (e quando o fazem, apenas reproduzem definies de psicologia e filosofia), preferindo tratar do fenmeno apenas em verbetes dedicados a fenmenos religiosos e rituais (cf. Thines e Lempereur, 1984). Evidentemente, esta pesquisa de verbetes no esgota o conhecimento atual sobre o tema. Ela nos basta, no entanto, visto que aponta algumas tendncias gerais que, mesmo matizadas e complexificadas, sero encontradas na maioria das pesquisas especficas. Dentre estas tendncias gerais, nos interessam principalmente a religiosa que enfatiza a experincia de comunho e de identificao com Deus e a psicolgica que enfatiza a tenso entre a imobilidade do corpo e a agitao mental e o problema da perda de contato com o

    mundo externo, de rompimento das relaes. Veremos nas duas sees seguintes deste texto exemplos de xtases mstico e patolgico que se encaixam nestas duas tendncias, assim como as suas particularidades. Alguns elementos da tendncia filosfica sero considerados nas partes dedicadas ao xtase esttico e ao xtase xamnico, dando especial ateno s tcnicas que permitem ao artista e ao xam controlarem suas prprias experincias extticas. Mas mesmo retomando estas tendncias (psicolgica, religiosa e filosfica), nos esforaremos para problematizar o dualismo que elas propem ou pressupem, apontando outras possibilidades conceituais e interpretativas.

    A etimologia da palavra xtase nos leva ao grego ekstasis, estar fora. Assim, normalmente interpretamos a experincia de sair do corpo ou sair de si como um xtase. Mas o dualismo interior/exterior implicado no estar fora no precisa ser esttico muito pelo contrrio, a estase (stasis) precisa ser abandonada para produzir o xtase (ekstasis). Sair do corpo no precisa ser apenas uma operao do interior para o exterior, mas tambm uma operao do conhecido para o desconhecido, do ser para o devir. O exterior pode ser concebido como o desconhecido (mesmo dentro de mim mesmo, em meu interior: um exterior do interior) e o xtase como um devir da imagem corporal, sua construo/transformao permanente verdadeiramente criadora. Os relatos de experincias extticas aqui oferecidos, assim como as reflexes realizadas sobre eles, tm como principais objetivos enriquecer o conhecimento sobre o prprio fenmeno do xtase e possibilitar, atravs da reflexo sobre elas, uma compreenso mais complexificada da

    dimenso relacional da imagem corporal1.

    1 Para maiores esclarecimentos sobre os conceitos de devir, metaestabilidade e processo de individuao no contexto da imagem corporal, remeto o leitor ao texto Sociologia da Imagem Corporal neste mesmo volume.

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    O XTASE MSTICO

    oderamos dizer que o mais tradicional e difundido caso documentado de experincia exttica foi aquele vivido e

    detalhadamente descrito por Santa Teresa dvila (1515-1582). Teresa de Cepeda y Ahumada, tambm conhecida como Santa Teresa de Jesus e Santa Teresa dvila (vila, na Espanha, foi sua cidade natal), foi canonizada em 1622 por sua dedicao Igreja e seus feitos extraordinrios, como: a sua inabalvel f apesar das doenas e das inimizades na igreja; a suposta realizao de milagres; e seus xtases msticos de comunho com Deus. A vida de Santa Teresa j foi bastante pesquisada e sabe-se que seu trajeto at as primeiras experincias extticas foi repleto de perdas (morte da me aos 14 anos), frustraes afetivas e doenas (na pior delas ficou de cama por trs anos e quase morreu).

    Segundo Teresa, seus xtases eram experincias de curta durao, de total alheamento em relao ao mundo terrestre, de supresso da sensibilidade cotidiana e de ausncia de pensamento consciente e de intencionalidade. Eram instantes de total entrega a uma sensao de prazer e alegria que suprimia toda espcie de propriocepo, autoconscincia e intencionalidade, que anulava totalmente o corpo e dissolvia a alma em uma total identificao com Deus. Nas palavras de Teresa, a alma se torna totalmente morta para as coisas mundanas, e vive apenas em Deus (cf. James, 1902:400). Esta morte terrestre como contrapartida de um nascimento divino parece estar diretamente relacionada s dores mortais que assolavam Teresa antes de sua alma se desprender de seu corpo, impresso de que se naquele momento seu corpo devesse ser cortado em pedaos por desgnio divino, ela sentiria

    nada alm do mais vivo conforto (cf. James, 1902:405). Em seu xtase mais famoso, transformado em escultura por Gianlorenzo Bernini (1598-1680)2, Teresa conta:

    Ao meu lado surgiu um anjo [...] Ele no era

    alto, mas baixo, e muito bonito; o calor que emanava de seu rosto sugeria que ele vinha dos mais altos escales de anjos, que parecem estar todos em

    chamas [...] Em suas mos eu vi uma grande lana dourada, em cuja ponta de ferro acredito ter visto um ponto de fogo. Ele cravou diversas vezes a lana em meu corao e ela penetrou em minhas entranhas, que foram levadas quando ele a retirou, deixando-me totalmente consumida pelo grande amor de Deus. Eu gemia, to severa era