Universidade Federal do Rio de Janeiro Escola de Comunicação Cultura Brasileira Prof.: Micael Herchmann Fichamento do texto “A Identidade em Questão”, Stuart Hall. Argumenta-se, atualmente, que as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno, visto até aqui como um sujeito unificado. As identidades modernas estão sendo deslocadas ou fragmentadas, juntamente com os indivíduos, descentrados tanto de seu lugar no mundo social e cultural quanto de si mesmos. Essa crise de identidade vivida atualmente deve-se às mudanças estruturais sofridas pelas sociedades modernas no final do século XX. Isso está fragmentando as paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade que antes eram responsáveis por nos localizar como indivíduos sociais. Além disso, essas transformações estão mudando nossas identidades pessoais, abalando a idéia que temos de nós próprios como sujeitos integrados. Assim como o mundo pós-moderno em que vivemos, somos “pós” relativamente a qualquer concepção existencialista ou fixa de identidade. Ao longo da História da sociedade moderna, pode-se identificar três concepções distintas de identidade. A primeira, relacionada ao sujeito do iluminismo, caracteriza um indivíduo totalmente centrado, unificado, dotado das capacidades de razão, de consciência e de ação. Seu centro consistia em um núcleo interior surgido no nascimento e que se desenvolvia com o sujeito, permanecendo essencialmente o mesmo ao longo de sua vida. Era uma concepção individualista, na qual o sujeito era descrito como masculino. Com a crescente complexidade do mundo moderno, emerge a concepção do sujeito sociológico, na qual seu núcleo interior já não era mais autônomo nem auto-suficiente. A identidade é formada na interação entre o eu e a sociedade. O sujeito ainda tem um núcleo, que é o “eu real”, mas este é formado e modificado através de um diálogo contínuo entre os mundos culturais exteriores e as identidades que eles oferecem. A identidade nesse caso, fixa o sujeito ao mundo em que vive, tornando ambos mutuamente unificados e predizíveis. Atualmente, o sujeito, previamente vivido como tendo uma identidade única e imutável, está se tornando fragmentado; composto de várias identidades, algumas vezes contraditórias e até mesmo não resolvidas. O próprio processo de identificação, através do qual nos projetamos em nossas identidades culturais, tonou-se mais provisório. A identidade torna-se uma celebração móvel. O sujeito, agora sujeito pós-moderno, assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um “eu” coerente. À medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade de identidades possíveis. Essa questão da identidade está relacionada ao caráter da mudança na modernidade tardia, em particular ao processo da globalização. As sociedades modernas são, por definição, sociedades de mudança constante, rápida e permanente. A modernidade é, além disso, caracterizada por transformações do tempo e o do espaço e por uma extração das relações sociais dos contextos locais de interação e sua restruturação ao longo de escalas indefinidas de espaço-tempo. A modernidade tardia implica em descontinuidades, ou seja, um rompimento com toda e qualquer condição precedente, um processo sem-fim de rupturas e fragmentações internas no seu próprio interior. A sociedade atual está constantemente sendo descentrada ou deslocada por forças foras de si mesma. E esse deslocamento desarticula as identidades estáveis do passado, além de abrir a possibilidade de novas articulações: a criação de novas identidades e a produção de novos sujeitos. Ou seja, permite que os diferentes elementos e identidades de tais sociedades sejam conjuntamente articulados. Universidade Federal do Rio de Janeiro Escola de Comunicação 2001/1 Cultura Brasileira Prof.: Micael Herchmann Aluno: Luana Rocha DRE: 100107219 Turma: Eca Fichamento do texto “A Mídia e o lugar da história”, Ana P. Goulart Ribeiro. A História não estuda todos os fatos ocorridos no passado, mas apenas os fatos históricos. E para ser considerado histórico, um fato deve estabelecer inúmeras relações com outros eventos, considerados num encadeamento causal. Só em um contexto amplo, ele pode manifestar-se e tornar-se inteligível. Não existe fato histórico bruto, já que ele é sempre produto de algum tipo de elaboração teórica, que o promove à categoria de histórico. O conhecimento histórico nunca supera a subjetividade. Por isso, suas conclusões são sempre provisórias, mas isso não significa cair em um relativismo. O conhecimento é um processo prático e infinito, no qual o sujeito desempenha um papel ativo. O homem, sendo um um ser histórico, não consegue se livrar dos condicionamentos socioculturais. A disciplina História sempre cria relatos escritos (descritivos e/ou explicativos): são as obras históricas, que produzem sentidos e instauram inteligibilidade sobre o passado. Ou seja, é uma prática discursiva. Toda pesquisa historiográfica é articulada a partir de um lugar de produção socioeconômico, político e cultural, a partir do qual se instaura um método, se precisa uma tipologia de interesses, se fazem indagações aos documentos, se define, enfim, o que é ou não é histórico. O estudo histórico é uma fabricação específica e coletiva. O fazer histórico também é uma prática, porque o historiador sempre trabalha a partir de um objeto material (as fontes) para construir o seu objeto teórico (os fatos). O passado é, antes de tudo, uma forma de representar a alteridade, algo que já não é. A separação entre passado e presente não é simples, pois o presente não pode se limitar como um instante. Ele é definido como atualidade, como algo que se distingue de seu outro (o passado) em relação ao qual marca uma certa distância. E o que possibilita isso é a noção de mudança, de transformação. Portanto, a História deve ser definida como a ciência que estuda o processo de transformação da realidade social. O tempo não é independente, mas uma forma de existência da matéria vinculada à mudança. O tempo histórico é concebido como múltiplo, definido em três níveis: - tempo da longa duração: das estruturas, da história quase imóvel, lenta. - tempo da média duração: das conjunturas, da história social dos grupos. - tempo da curta duração: história ocorrencial, dos eventos, tempo rápido e instantâneo. O tempo social, concebido desta forma, constitui a substância da memória. O passado é a referência comum que mantém a coesão interna dos grupos, permitindo a formação dos quadros de representação simbólica que lhes permitem significar o presente. A memória social funciona e se constitui como instrumento de poder. Há duas formas de estruturação da memória coletiva: a memória oficial, dominante, e, opondo-se a esta, várias memórias coletivas subterrâneas, que transmitem as lembranças proibidas ou ignoradas pela visão dominante. A História sempre manteve uma certa cumplicidade com o discurso do poder, o que permite caracterizá-la como uma memória de caráter oficial. Mas ela ocupou esse papel, sobretudo, porque sempre se apresentou como o principal discurso semantizador das ações e das transformações da realidade social. Mas hoje, a história vem perdendo esse papel, sendo a Mídia o principal lugar de memória das sociedades contemporâneas, principalmente no âmbito do discurso jornalístico. A História passou a ser aquilo que a parece nos meio de comunicação de massa. Talvez isso se deva ao mito da neutralidade que surgiu com a idéia do jornalismo informativo e com o desenvolvimento do conceito de objetividade. O desenvolvimento técnico do jornalismo buscou no espírito científico o cuidado com os fatos. O jornalismo passa a ser o espelho da realidade. O ato jornalístico passa a se assemelhar ao fato histórico. Isso acontece não só porque indica aqueles que, dentre todos os fatos da realidade, devem ser memoráveis no futuro - ou seja, que têm relevância histórica - mas também porque se constitui ele mesmo em um dos principais registros objetivos do seu tempo. A Mídia é a testemunha ocular da história. A referência à Mídia é constante também no ensino de História. Por isso, o papel de formalizador da memória oficial não passa despercebido aos produtores de notícia. Nenhum registro é ingênuo ou descomprometido. Assim, as mensagens midiáticas não são tratadas pelos pesquisadores como meros suportes de transmissão de informações ou como lugar de revelação, de descrição de eventos. A apreensão do Real pela Mídia pressupões ação transformadora da linguagem e de produção do real. A linguagem também constitui o real. Não há separação entre a realidade material e o processo de significação. Falar em construção do Real significa negar qualquer tipo de separação entre a linguagem e sua exterioridade constitutiva. Não existe uma realidade prévia a algum tipo de enunciação lingüística. O meios de comunicação vêm sendo cada vez mais utilizados pelos próprios historiadores como uma das principais fontes de suas pesquisas. Isso deve-se à mudança da concepção do fato histórico, quando se admite que ele é produzido e não dado. Mas, para ser percebido pelo historiador, o texto jornalístico deve ser submetido a uma crítica radical. Como discurso, este texto deve ser considerado nas condições certas em que foi produzido, em seu contexto social. Isso porque os discursos de determinadas épocas históricas, principalmente os midiáticos, são espaços privilegiados, nos quais se travam as lutas sociais. Apesar de cada veículo construir um real diferente, há neles um fundo comum de referência. A coerência da Mídia é exatamente o que lhes dá credibilidade e aceitação. Universidade Federal do Rio de Janeiro Escola de Comunicação 2001/1 Cultura Brasileira Prof.: Micael Herchmann Aluno: Luana Rocha DRE: 100107219 Turma: Eca Fichamento do texto ”Isso não é um filme? Ídolos do Brasil contemporâneo”, Micael Hershmann e Carlos Alberto Messeder Pereira. Nas últimas décadas, pode-se observar a grande expansão do culto às celebridades. Mas estas não exibem, necessariamente, realizações extraordinárias no seu currículo. Por exemplo, Adriane Galisteu e Sacha tornaram-se celebridades pela proximidade que suas trajetórias de vida têm ou tiveram com grades ídolos. Para entender como e porque isso acontece, parte-se do ponto de que a cultura contemporânea está profundamente marcada pela produção biográfica. Com a difusão da narrativa biográfica cada vez maior nos meios de comunicação, nas novas tecnologias, a vida estaria se tornando um entretenimento, um espetáculo grandioso e ininterrupto. Essas narrativas nãopresenciais e midiáticas nos abastecem de sentidos e significados, orientam em grande medida as nossas vidas. Por uma lado, elas representam um pouco de voyerismo, bisbilhotice da vida alheia, mas, por outro, um intensa preocupação em se produzirem referências num mundo cada vez mais desterritorializado. Tornamo-nos cada vez mais dependentes de uma memória exterior, mecânica e artificial. A Mídia emerge como principal espaço de produção de experiência do biográfico, podendo se constituir num importante “lugar da memória” na cultura contemporânea. Além de serem entretenimento, as narrativas biográficas podem, também, estar atendendo a uma carência, a uma demanda social: a) função pedagógica, tendo um caráter exemplar e/ou heróico ou sugerindo estilos de vida; b) capacidade de nos pôr em contato com alteridades. Isso vai de pender do que cada um elabora a partir dessas narrativas, pois os significados associados a essa trajetórias são em grande medida determinados pelo agenciamento do público. A fragmentação da identidade também pode explicar a relevância e o crescimento do biográfico. A identidade deixou de ser um território bem demarcado e passou a delinear um espaço social transitório, gerando uma crise de orientação no indivíduo. Dessa forma, as narrativas biográficas surgem como uma forma de, num mundo fragmentado e plural, estabelecer coerência, dar sentido à vida e às identidades. E é no ciberespaço que essa questão emerge com maios intensidade. Em certa medida, este é o espaço que abre possibilidades de construção de trajetórias de vida virtuais que se articulam com aquelas construídas na vida real. Nele, expande-se a visibilidade das celebridades, ampliam-se os laços da comunidade de consumidores e de fãs. Pode-se dizer que a Internet é hoje um grande laboratório para se experimentarem construções e desconstruções. Diferentemente da vida real, em que precisamos ser minimamente coerentes quando adotamos uma preferência, na rede somos múltiplos, contraditórios, com menos pudores e preocupações morais. O processo de formação do self cada vez mais depende do acesso às formas mediadas e menos dos recursos simbólicos disponíveis no contexto local. A intimidade da celebridade se constituiria tanto em uma importante forma de entretenimento quanto em um referencial para construção daquilo que chamamos de nossa trajetória de vida. Nossas biografias ultrapassam os ambientes em que vivemos, há cada vez mais uma construção do eu menos presa ao local. O acesso à intimidade das pessoas evidencia, por um lado, a crise do modelo burguês de família e intimidade e, por outro, a ascensão de estilos de vida populares. Os astros são modelos deste novo estilo de vida: seus corpos são desnudados, erotizados e influenciam o consumo. De certo modo, a Mídia recria a idéia de comunidade pequena, localidade. Mas esta comunidade, agora, engloba contextos distantes, construindo-se o acesso a uma “intimidade à distância”. As características que se exigem das celebridades não são necessariamente sacrifícios ou virtudes do caráter (moral, unidade, sinceridade) - como geralmente se exigia dos heróis - mas que tenham personalidade, que possuam a capacidade de representar do ator, que sejam um espetáculo. O sucesso depende tanto de uma avaliação meritocrática quanto de um processo publicitário bem sucedido. Convivemos, portanto, com uma constelação de ídolos que só alcançam alguma projeção social porque desenvolvem características típicas do repertório das celebridades. Pode-se caracterizar as celebridades da seguinte forma: a) celebridades heróicas - aquelas que possuem algumas das características dos antigos heróis, mas já adaptadas à “sociedade do espetáculo”; b) celebridades do showbusiness - por uma lado, aquelas que possuem mais talento artístico e, por outro, aquelas que conseguiram alcançar sucesso em função de estratégias midiáticas bem sucedidas; c) celebridades efêmeras - trajetórias de vida de anônimos que protagonizam temporariamente o filme-vida. Cada vez mais, não obter algum tipo de visibilidade temporária ou não fazer parte eventualmente do filme-vida ganha uma enorme dramaticidade. E em países como o Brasil, marcados pela desigualdade e pela exclusão social, em que as possibilidades de visibilidade e ascensão social são menores, o anonimato é interpretado pelas camadas menos privilegiadas como mais uma comprovação da sua falta de cidadania. Portanto, sua participação em realityshows e similares, quase sempre desempenhando, aos olhos das camadas médias, papéis constrangedores, deve ser vista como uma forma, ainda que limitada, de serem protagonistas do filme-vida. No mundo contemporâneo, todos nos tornamos potencialmente celebridades. Ao lado de heróis típicos do passado, como políticos, artistas, esportistas, etc, vem emergindo uma constelação de astros constituída por apresentadores de TV, modelos e personagens das colunas sociais. Para concluir, deve-se ressaltar a potencialidade da “ilusão” que este tipo de narrativa promove. Essas narrativas são cruciais para a atribuição de sentido e significado ao passado, à realidade.
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Universidade Federal do Rio de Janeiro Escola de Comunicação Cultura Brasileira Prof.: Micael Herchmann Fichamento do texto “A Identidade em Questão”, Stuart Hall. Argumenta-se, atualmente, que as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno, visto até aqui como um sujeito unificado. As identidades modernas estão sendo deslocadas ou fragmentadas, juntamente com os indivíduos, descentrados tanto de seu lugar no mundo social e cultural quanto de si mesmos. Essa crise de identidade vivida atualmente deve-se às mudanças estruturais sofridas pelas sociedades modernas no final do século XX. Isso está fragmentando as paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade que antes eram responsáveis por nos localizar como indivíduos sociais. Além disso, essas transformações estão mudando nossas identidades pessoais, abalando a idéia que temos de nós próprios como sujeitos integrados. Assim como o mundo pós-moderno em que vivemos, somos “pós” relativamente a qualquer concepção existencialista ou fixa de identidade. Ao longo da História da sociedade moderna, pode-se identificar três concepções distintas de identidade. A primeira, relacionada ao sujeito do iluminismo, caracteriza um indivíduo totalmente centrado, unificado, dotado das capacidades de razão, de consciência e de ação. Seu centro consistia em um núcleo interior surgido no nascimento e que se desenvolvia com o sujeito, permanecendo essencialmente o mesmo ao longo de sua vida. Era uma concepção individualista, na qual o sujeito era descrito como masculino. Com a crescente complexidade do mundo moderno, emerge a concepção do sujeito sociológico, na qual seu núcleo interior já não era mais autônomo nem auto-suficiente. A identidade é formada na interação entre o eu e a sociedade. O sujeito ainda tem um núcleo, que é o “eu real”, mas este é formado e modificado através de um diálogo contínuo entre os mundos culturais exteriores e as identidades que eles oferecem. A identidade nesse caso, fixa o sujeito ao mundo em que vive, tornando ambos mutuamente unificados e predizíveis. Atualmente, o sujeito, previamente vivido como tendo uma identidade única e imutável, está se tornando fragmentado; composto de várias identidades, algumas vezes contraditórias e até mesmo não resolvidas. O próprio processo de identificação, através do qual nos projetamos em nossas identidades culturais, tonou-se mais provisório. A identidade torna-se uma celebração móvel. O sujeito, agora sujeito pós-moderno, assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um “eu” coerente. À medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade de identidades possíveis. Essa questão da identidade está relacionada ao caráter da mudança na modernidade tardia, em particular ao processo da globalização. As sociedades modernas são, por definição, sociedades de mudança constante, rápida e permanente. A modernidade é, além disso, caracterizada por transformações do tempo e o do espaço e por uma extração das relações sociais dos contextos locais de interação e sua restruturação ao longo de escalas indefinidas de espaço-tempo. A modernidade tardia implica em descontinuidades, ou seja, um rompimento com toda e qualquer condição precedente, um processo sem-fim de rupturas e fragmentações internas no seu próprio interior. A sociedade atual está constantemente sendo descentrada ou deslocada por forças foras de si mesma. E esse deslocamento desarticula as identidades estáveis do passado, além de abrir a possibilidade de novas articulações: a criação de novas identidades e a produção de novos sujeitos. Ou seja, permite que os diferentes elementos e identidades de tais sociedades sejam conjuntamente articulados. Universidade Federal do Rio de Janeiro Escola de Comunicação 2001/1 Cultura Brasileira Prof.: Micael Herchmann Aluno: Luana Rocha DRE: 100107219 Turma: Eca Fichamento do texto “A Mídia e o lugar da história”, Ana P. Goulart Ribeiro. A História não estuda todos os fatos ocorridos no passado, mas apenas os fatos históricos. E para ser considerado histórico, um fato deve estabelecer inúmeras relações com outros eventos, considerados num encadeamento causal. Só em um contexto amplo, ele pode manifestar-se e tornar-se inteligível. Não existe fato histórico bruto, já que ele é sempre produto de algum tipo de elaboração teórica, que o promove à categoria de histórico. O conhecimento histórico nunca supera a subjetividade. Por isso, suas conclusões são sempre provisórias, mas isso não significa cair em um relativismo. O conhecimento é um processo prático e infinito, no qual o sujeito desempenha um papel ativo. O homem, sendo um um ser histórico, não consegue se livrar dos condicionamentos socioculturais. A disciplina História sempre cria relatos escritos (descritivos e/ou explicativos): são as obras históricas, que produzem sentidos e instauram inteligibilidade sobre o passado. Ou seja, é uma prática discursiva. Toda pesquisa historiográfica é articulada a partir de um lugar de produção socioeconômico, político e cultural, a partir do qual se instaura um método, se precisa uma tipologia de interesses, se fazem indagações aos documentos, se define, enfim, o que é ou não é histórico. O estudo histórico é uma fabricação específica e coletiva. O fazer histórico também é uma prática, porque o historiador sempre trabalha a partir de um objeto material (as fontes) para construir o seu objeto teórico (os fatos). O passado é, antes de tudo, uma forma de representar a alteridade, algo que já não é. A separação entre passado e presente não é simples, pois o presente não pode se limitar como um instante. Ele é definido como atualidade, como algo que se distingue de seu outro (o passado) em relação ao qual marca uma certa distância. E o que possibilita isso é a noção de mudança, de transformação. Portanto, a História deve ser definida como a ciência que estuda o processo de transformação da realidade social. O tempo não é independente, mas uma forma de existência da matéria vinculada à mudança. O tempo histórico é concebido como múltiplo, definido em três níveis: - tempo da longa duração: das estruturas, da história quase imóvel, lenta. - tempo da média duração: das conjunturas, da história social dos grupos. - tempo da curta duração: história ocorrencial, dos eventos, tempo rápido e instantâneo. O tempo social, concebido desta forma, constitui a substância da memória. O passado é a referência comum que mantém a coesão interna dos grupos, permitindo a formação dos quadros de representação simbólica que lhes permitem significar o presente. A memória social funciona e se constitui como instrumento de poder. Há duas formas de estruturação da memória coletiva: a memória oficial, dominante, e, opondo-se a esta, várias memórias coletivas subterrâneas, que transmitem as lembranças proibidas ou ignoradas pela visão dominante. A História sempre manteve uma certa cumplicidade com o discurso do poder, o que permite caracterizá-la como uma memória de caráter oficial. Mas ela ocupou esse papel, sobretudo, porque sempre se apresentou como o principal discurso semantizador das ações e das transformações da realidade social. Mas hoje, a história vem perdendo esse papel, sendo a Mídia o principal lugar de memória das sociedades contemporâneas, principalmente no âmbito do discurso jornalístico. A História passou a ser aquilo que a parece nos meio de comunicação de massa. Talvez isso se deva ao mito da neutralidade que surgiu com a idéia do jornalismo informativo e com o desenvolvimento do conceito de objetividade. O desenvolvimento técnico do jornalismo buscou no espírito científico o cuidado com os fatos. O jornalismo passa a ser o espelho da realidade. O ato jornalístico passa a se assemelhar ao fato histórico. Isso acontece não só porque indica aqueles que, dentre todos os fatos da realidade, devem ser memoráveis no futuro - ou seja, que têm relevância histórica - mas também porque se constitui ele mesmo em um dos principais registros objetivos do seu tempo. A Mídia é a testemunha ocular da história. A referência à Mídia é constante também no ensino de História. Por isso, o papel de formalizador da memória oficial não passa despercebido aos produtores de notícia. Nenhum registro é ingênuo ou descomprometido. Assim, as mensagens midiáticas não são tratadas pelos pesquisadores como meros suportes de transmissão de informações ou como lugar de revelação, de descrição de eventos. A apreensão do Real pela Mídia pressupões ação transformadora da linguagem e de produção do real. A linguagem também constitui o real. Não há separação entre a realidade material e o processo de significação. Falar em construção do Real significa negar qualquer tipo de separação entre a linguagem e sua exterioridade constitutiva. Não existe uma realidade prévia a algum tipo de enunciação lingüística. O meios de comunicação vêm sendo cada vez mais utilizados pelos próprios historiadores como uma das principais fontes de suas pesquisas. Isso deve-se à mudança da concepção do fato histórico, quando se admite que ele é produzido e não dado. Mas, para ser percebido pelo historiador, o texto jornalístico deve ser submetido a uma crítica radical. Como discurso, este texto deve ser considerado nas condições certas em que foi produzido, em seu contexto social. Isso porque os discursos de determinadas épocas históricas, principalmente os midiáticos, são espaços privilegiados, nos quais se travam as lutas sociais. Apesar de cada veículo construir um real diferente, há neles um fundo comum de referência. A coerência da Mídia é exatamente o que lhes dá credibilidade e aceitação. Universidade Federal do Rio de Janeiro Escola de Comunicação 2001/1 Cultura Brasileira Prof.: Micael Herchmann Aluno: Luana Rocha DRE: 100107219 Turma: Eca Fichamento do texto ”Isso não é um filme? Ídolos do Brasil contemporâneo”, Micael Hershmann e Carlos Alberto Messeder Pereira. Nas últimas décadas, pode-se observar a grande expansão do culto às celebridades. Mas estas não exibem, necessariamente, realizações extraordinárias no seu currículo. Por exemplo, Adriane Galisteu e Sacha tornaram-se celebridades pela proximidade que suas trajetórias de vida têm ou tiveram com grades ídolos. Para entender como e porque isso acontece, parte-se do ponto de que a cultura contemporânea está profundamente marcada pela produção biográfica. Com a difusão da narrativa biográfica cada vez maior nos meios de comunicação, nas novas tecnologias, a vida estaria se tornando um entretenimento, um espetáculo grandioso e ininterrupto. Essas narrativas nãopresenciais e midiáticas nos abastecem de sentidos e significados, orientam em grande medida as nossas vidas. Por uma lado, elas representam um pouco de voyerismo, bisbilhotice da vida alheia, mas, por outro, um intensa preocupação em se produzirem referências num mundo cada vez mais desterritorializado. Tornamo-nos cada vez mais dependentes de uma memória exterior, mecânica e artificial. A Mídia emerge como principal espaço de produção de experiência do biográfico, podendo se constituir num importante “lugar da memória” na cultura contemporânea. Além de serem entretenimento, as narrativas biográficas podem, também, estar atendendo a uma carência, a uma demanda social: a) função pedagógica, tendo um caráter exemplar e/ou heróico ou sugerindo estilos de vida; b) capacidade de nos pôr em contato com alteridades. Isso vai de pender do que cada um elabora a partir dessas narrativas, pois os significados associados a essa trajetórias são em grande medida determinados pelo agenciamento do público. A fragmentação da identidade também pode explicar a relevância e o crescimento do biográfico. A identidade deixou de ser um território bem demarcado e passou a delinear um espaço social transitório, gerando uma crise de orientação no indivíduo. Dessa forma, as narrativas biográficas surgem como uma forma de, num mundo fragmentado e plural, estabelecer coerência, dar sentido à vida e às identidades. E é no ciberespaço que essa questão emerge com maios intensidade. Em certa medida, este é o espaço que abre possibilidades de construção de trajetórias de vida virtuais que se articulam com aquelas construídas na vida real. Nele, expande-se a visibilidade das celebridades, ampliam-se os laços da comunidade de consumidores e de fãs. Pode-se dizer que a Internet é hoje um grande laboratório para se experimentarem construções e desconstruções. Diferentemente da vida real, em que precisamos ser minimamente coerentes quando adotamos uma preferência, na rede somos múltiplos, contraditórios, com menos pudores e preocupações morais. O processo de formação do self cada vez mais depende do acesso às formas mediadas e menos dos recursos simbólicos disponíveis no contexto local. A intimidade da celebridade se constituiria tanto em uma importante forma de entretenimento quanto em um referencial para construção daquilo que chamamos de nossa trajetória de vida. Nossas biografias ultrapassam os ambientes em que vivemos, há cada vez mais uma construção do eu menos presa ao local. O acesso à intimidade das pessoas evidencia, por um lado, a crise do modelo burguês de família e intimidade e, por outro, a ascensão de estilos de vida populares. Os astros são modelos deste novo estilo de vida: seus corpos são desnudados, erotizados e influenciam o consumo. De certo modo, a Mídia recria a idéia de comunidade pequena, localidade. Mas esta comunidade, agora, engloba contextos distantes, construindo-se o acesso a uma “intimidade à distância”. As características que se exigem das celebridades não são necessariamente sacrifícios ou virtudes do caráter (moral, unidade, sinceridade) - como geralmente se exigia dos heróis - mas que tenham personalidade, que possuam a capacidade de representar do ator, que sejam um espetáculo. O sucesso depende tanto de uma avaliação meritocrática quanto de um processo publicitário bem sucedido. Convivemos, portanto, com uma constelação de ídolos que só alcançam alguma projeção social porque desenvolvem características típicas do repertório das celebridades. Pode-se caracterizar as celebridades da seguinte forma: a) celebridades heróicas - aquelas que possuem algumas das características dos antigos heróis, mas já adaptadas à “sociedade do espetáculo”; b) celebridades do showbusiness - por uma lado, aquelas que possuem mais talento artístico e, por outro, aquelas que conseguiram alcançar sucesso em função de estratégias midiáticas bem sucedidas; c) celebridades efêmeras - trajetórias de vida de anônimos que protagonizam temporariamente o filme-vida. Cada vez mais, não obter algum tipo de visibilidade temporária ou não fazer parte eventualmente do filme-vida ganha uma enorme dramaticidade. E em países como o Brasil, marcados pela desigualdade e pela exclusão social, em que as possibilidades de visibilidade e ascensão social são menores, o anonimato é interpretado pelas camadas menos privilegiadas como mais uma comprovação da sua falta de cidadania. Portanto, sua participação em realityshows e similares, quase sempre desempenhando, aos olhos das camadas médias, papéis constrangedores, deve ser vista como uma forma, ainda que limitada, de serem protagonistas do filme-vida. No mundo contemporâneo, todos nos tornamos potencialmente celebridades. Ao lado de heróis típicos do passado, como políticos, artistas, esportistas, etc, vem emergindo uma constelação de astros constituída por apresentadores de TV, modelos e personagens das colunas sociais. Para concluir, deve-se ressaltar a potencialidade da “ilusão” que este tipo de narrativa promove. Essas narrativas são cruciais para a atribuição de sentido e significado ao passado, à realidade.
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