Geni somos todos nós

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    06-Apr-2016

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Para o psicanalista Jorge Forbes, preciso pa-rar de atirar pedras no que est errado com o pas e assumir a parcela de responsabilidade que cabe a cada um.

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<ul><li><p>Geni somos todos ns </p><p>1 </p><p>COLEO NOVO SABER Entrevista </p><p>GENI SOMOS </p><p>TODOS NS </p><p> Compilao de Felix J Lescinskiene </p><p>Publicao desenhada para ser lida tambm em dispositivos mveis. </p><p>2014 </p><p>Crditos na ultima pagina </p></li><li><p>Geni somos todos ns </p><p>2 </p><p>Para o psicanalista Jorge Forbes, preciso pa-rar de atirar pedras no que est errado com o pas e assumir a parcela de responsabilidade </p><p>que cabe a cada um. Os preparativos para a Copa do Mundo trou-xeram tona um modo bem brasileiro de li-dar com os prprios problemas: atribu-los a terceiros. Segundo o psicanalista e mdico psiquiatra Jorge Forbes, a frase Se est ruim agora, i-magine na Copa, que se tornou to popular nos ltimos meses, um bom exemplo dessa postura. Para ele, a chave para vencer o atual momento de crise uma miscelnea de gre-ves, protestos e crimes brbaros passa por todos se sentirem responsveis pelo que a-contece. A questo est presente em seu mais recente livro, Inconsciente e Responsabilida-de Psicanlise do Sculo XXI (editora Mano-le), vencedor da edio do ano passado do prmio Jabuti na categoria psicanlise. For-bes doutor em Teoria Psicanaltica pela U-FRJ, mestre em Psicanlise pela Universidade </p></li><li><p>Geni somos todos ns </p><p>3 </p><p>Paris VIII e doutor em Cincias pela USP. um dos principais introdutores do ensino do psicanalista francs Jacques Lacan no Brasil, de quem frequentou os seminrios em Paris de 1976 a 1981. Em trs encontros em seu consultrio, ele conversou com a reportagem de VEJA sobre as transformaes do papel de governantes, da polcia e at dos sentimentos num mundo globalizado em que ainda nos debatemos para tentar compreender. H uma sucesso de greves e protestos em vrias cidades brasileiras. Ao mesmo tempo, crimes brbaros tornaram-se mais frequentes. O que est havendo? O sistema inteiro est doente, berrando e produzindo excrescncias. Sejam os casos horrorosos de linchamento ou greves feitas ao deus-dar, em que h o minigrupo, o sub-grupo, o contra grupo, sem nenhum tipo de legitimidade dentro das normas estabeleci-das pela sociedade civil e que param cidades na maior tranquilidade. Nossa vida virou um bingo. Samos de manh e no sabemos se se-</p></li><li><p>Geni somos todos ns </p><p>4 </p><p>remos escolhidos. Estamos num momento em que as pessoas esto indiferentes. Quando uma pessoa quer roubar um celular e para isso decide matar sua vtima, no mata por raiva, mas por indiferena. No h mais uma competio entre o bandido e o no bandido, no existe mais essa diviso. O que existem so mundos que no se tocam, mundos par-te, mundos que o futebol no une mais. Nem o apelo da Copa do Mundo est funcionando. Sob a ditadura, o povo brasileiro uniu-se em torno do futebol, mas agora, sob um governo democrtico, no se une. Estamos em crise? Sem dvida. Sigmund Freud [1856-1939] di-zia que um analista no deve atender pessoas em crise, porque na crise no possvel ana-lisar ningum, mas apenas remediar, no sen-tido de tapar buracos. S que quando todos os dias surgem novos fatores de crise, h a premncia de uma resposta imediata. No se-r possvel evitar medidas do tipo tapa-buracos, mas o governo tem de adequar-se e </p></li><li><p>Geni somos todos ns </p><p>5 </p><p>ser muito mais rpido, flexvel e enrgico nas suas intervenes. Os lderes brasileiros hoje so todos de um tempo ultrapassado. Lide-ranas atuais devem tocar na vergonha de cada um, no no orgulho. Na vergonha de di-zer eu sou brasileiro e este outro brasileiro linchou esta mulher, para lembrar o recente caso do linchamento daquela moa no Guaru-j, entre tantos outros crimes horrendos que ocorrem. Hoje, o lder tem de fazer com que cada um se engate nas suas escolhas, e no que todos escolham a mesma coisa. Falta uma liderana capaz de tocar na vergonha de cada um, e no no orgulho. Se no nos envergo-nharmos, continuaremos dizendo no sou eu, o outro. Comumente afirmamos que aquele brasileiro que faz coisas horrorosas, que estoura prazo, que no simptico o outro, e nunca ns mesmos. Temos de, por exemplo, parar com essa brincadeira de dizer Imagine na Copa. Imagine quem? O brasilei-ro continua numa posio externa ao seu prprio pas e sua gente. uma separao irresponsvel. Temos de lanar o movimento do Eu sim. Seno vai haver um secciona-</p></li><li><p>Geni somos todos ns </p><p>6 </p><p>mento cada vez maior da sociedade e daqui a pouco seremos 200 milhes de grupos do eu sozinho. Por que essa coisa do Brasil Geni? O brasileiro faz do pas sua Geni e com isso fica sem cidadania. Geni somos todos ns. Nesse cenrio, que papel cabe aos gover-nantes? Os pases costumavam ser liderados por grandes homens, De Gaulle, Churchill, Getlio Vargas. Eram grandes personagens, que con-centravam neles a representao do pas. Quando Charles de Gaulle morreu, ficou cle-bre a frase A Frana ficou viva. Diga-me se hoje a Frana poderia ficar viva do Franois Hollande. Se amanh Barack Obama morrer, no ser possvel dizer que a Amrica ficou viva -- mas com Keneddy era possvel. Hoje, pode at haver a pessoa, mas no h o trono para ela ocupar. Ento acho que os lderes atuais deveriam primeiro parar de consultar o marqueteiro que os elegeu, mas que no os mantm no poder. O marketing da eleio uma esperana, o do governo uma presen-</p></li><li><p>Geni somos todos ns </p><p>7 </p><p>a. Uma coisa esperar a viagem e a outra estar na viagem. Ningum viaja pensando na prxima viagem. Precisamos de um governo j, estamos sem governo. preciso mudar. No estou dizendo depor, estou dizendo mu-dar. O governo de um pas moderno no go-verna um pas que ps-moderno. Quem o senhor apontaria como exemplo de liderana? Vou citar algum que no vejo como um mo-delo propriamente, mas como um novo tipo de lder, que o presidente do Uruguai Jos Mujica. Sua postura leva cada cidado a se perguntar sobre qual sua cota de responsabi-lidade no lao social. Independentemente da minha apreciao ou no da sua poltica, uma nova forma de liderana. E qual a funo da polcia nesse contexto de crise? A populao espera da polcia algo que ela no pode dar. Pedimos a proteo policial e, </p></li><li><p>Geni somos todos ns </p><p>8 </p><p>quando ela entra em cena, criticada pela forma como nos protege. Nem nossos pais conseguiram nos proteger completamente, por que a polcia conseguiria? Se insistirmos nas coisas como esto, a populao vai conti-nuar sendo infantilizada, e a polcia massa-crada. A proteo do homem no pode ser feita externamente. Essa obrigao tem que ser dada a cada um. O Bope e a Rota [polcias de elite do Rio e de So Paulo, respectivamen-te] reiteram a figura arcaica do pai protetor, aquele que vai resolver no meu lugar. No vai. No h contingente policial que v d conta da barbrie atual. H uma sensao de complexidade cres-cente. Como a psicanlise explica isso? Cunhei um termo para explicar isso, que o homem desbussolado, ou seja, sem norte. Vi-vemos a ps-modernidade, que muito dife-rente da modernidade. Antes havia uma soci-edade piramidal. Na famlia, as pessoas se o-rientavam pelo pai. Nas empresas, pelo chefe. Na sociedade civil, pela ptria. Esses trs e-</p></li><li><p>Geni somos todos ns </p><p>9 </p><p>lementos foram deslocados na passagem des-sas duas eras, que marcada pela globaliza-o. O pai no representa mais o caminho disciplinar a ser seguido. Nas empresas, h lderes de projeto que se alternam conforme a tarefa. Na sociedade civil, os mercados co-muns sacudiram a noo de ptria. Samos do vertical e entramos num mundo horizontal, em rede. Isso est acontecendo no mundo to-do. O curioso que, entre os povos ociden-tais, quem melhor tem suportado essa transi-o o brasileiro. Por qu? Srgio Buarque de Holanda j dizia que a raiz do Brasil a cordialidade. Ns damos crdito amizade, por exemplo. At para brigar. No Brasil, voc s briga com os seus amigos, se-no fica indiferente. E o grande afeto do mundo horizontal a amizade. Ns no te-memos a exposio nas redes sociais, no a-chamos que porque algum sabe quem so meus pais eu vou ter minha intimidade inva-dida e me sentir pssimo. O brasileiro no se </p></li><li><p>Geni somos todos ns </p><p>10 </p><p>sente pssimo, ele acha graa. Sabe que mesmo que o outro saiba tudo isso sobre ele, na verdade no sabe nada dele. Ele pode se deixar viver a ps-modernidade mais facil-mente. Como fica a cordialidade quando h tantos crimes horrendos ocorrendo no pas? Ser cordial no ser bonzinho. no ser formal. Pense no uso que fazemos dos dimi-nutivos: Se eu me atrasar um pouquinho, voc vai tomando um chopinho e comendo alguma coisinha ou ento voc me d uma li-gadinha (risos). a maneira de fazer tudo mais acessvel, menor, prximo, uma vida que caiba na palma da mo. O que eu quero extrair dessa cordialidade no a marcao que se faz de que somos legais, e sim dizer que este o cimento do lao social brasileiro. At mesmo a faco criminosa PCC cordial. uma fratria. Experimente trair os princpios dessa fratria. </p></li><li><p>Geni somos todos ns </p><p>11 </p><p>Quanto aos crimes, so aes de pessoas doentes? Esses fatos todos mostram que o ser humano muito perigoso. Somos muito esquisitos e muito perigosos a ns mesmos. No h mais explicaes de causa e efeito. Mas j deva-mos saber disso, afinal o filsofo Friedrich Nietzsche [1844-1900] explicou isso em 1870. Freud acompanhou esse pensamento, mas em dado momento ps o p no freio. O psicanalista Jacques Lacan [1901-1981] ace-lerou-o, dizendo que o real teria uma posio de supremacia sobre o simblico imaginrio. Bom, estamos nesse momento. E o real no exatamente a realidade, mas aquilo que no tem nome nem nunca ter. O futuro no uma projeo do presente, como foi para as geraes anteriores, o futuro uma inveno do presente. Houve uma flexibilizao da dis-ciplina de modo geral e ainda no h uma resposta quilo que foi desmontado. S que, motivados pela angstia de no saber o que fazer, utilizamos respostas que no servem mais. E o problema continua e estoura de </p></li><li><p>Geni somos todos ns </p><p>12 </p><p>maneiras assustadoras: meninas que cortam os braos, pais que matam os filhos, filhos que matam os pais, sempre nessa caracters-tica de curto-circuito, como se fossem atos cometidos durante ataques epilticos. Nesse sentido, todo mundo precisa saber que epi-ltico. Em vez de dizer voc e eu no sou, saiba que voc tambm e todos ns somos. E, portanto, todos deveriam se precaver por-que tambm so capazes de fazer. As amea-as tm de ser tratadas de maneira mais s-ria. Se em vez de tentarmos descobrir qual a doena que levou fulano a fazer tal coisa pen-sarmos que no h uma doena que explique aquilo, as pessoas aumentaro sua responsa-bilidade frente a todas as coisas. Mas as pessoas parecem seguir o caminho oposto, de tentar desvencilhar-se cada vez mais das responsabilidades. Sim, das responsabilidades padronizadas, da norma e do cdigo. Mas h um tipo de res-ponsabilidade da qual ningum escapa. Veja o amor, que passou por uma mudana muito </p></li><li><p>Geni somos todos ns </p><p>13 </p><p>grande. Antes, o amor era intermediado: es-tou com voc porque prometi na igreja, ou prometi para o seu pai, ou por causa dos nos-sos filhos, enfim, sempre uma terceira razo. O que existe hoje um amor direto: estou com voc porque eu quero estar com voc. Esse novo amor, no explicado, direto, o principal elemento que vai legitimar um novo lao social que vai levar a modificaes im-portantes tais como racismo. A nova gerao muito mais responsvel nesse sentido do que as anteriores -- embora as anteriores fos-sem muito mais responsveis sob o ponto de vista do cumprimento das normas. A questo que as pessoas precisam ter uma responsa-bilidade maior frente ao seu desejo. Na medi-da em que diminumos a expectativa de ex-plicar o amor, aumentamos a responsabilida-de frente a esse sentimento. um novo amor. A globalizao chegou, criou uma baguna monumental e estamos correndo atrs para tentar ocupar esse novo mundo. Isso significa rever todos os nossos critrios: de amor, de educao, de justia. No se trata de reformar o Judicirio, e sim de reinvent-lo. </p></li><li><p>Geni somos todos ns </p><p>14 </p><p> A psicanlise foi reinventada. </p><p> Como assim? Antigamente, o paciente vinha se tratar para tentar saber mais de si, para ter uma ao mais garantida, fazer menos besteiras. S que a subjetividade da ps-modernidade dife-rente. Hoje, eu tenho de dar condies ao meu analisando para que ele tome decises baseadas no no saber, e no na expectativa de saber mais. Vou mexer no boto da angs-tia e transformar a angstia paralisante em angstia criativa, como se transformasse o colesterol ruim em bom. Mas a angstia no deixa de existir. O senhor diz que o mundo olha para o brasileiro como modelo de ps-modernidade. O que temos para mostrar? Todos esto apavorados, numa sensao de salve-se quem puder. Pais me procuram di-zendo que no entendem seus filhos, pessoas </p></li><li><p>Geni somos todos ns </p><p>15 </p><p>de cinquenta anos sofrem revezes profissio-nais e no sabem mais o que fazer, casais querem ter filhos, mas no sabem quando nem como... E o brasileiro algum que his-toricamente sabe conviver com a variao de padro. O tal do jeitinho significa que por meio da amizade possvel encontrar uma outra forma de fazer as coisas. Isso era mal-visto at pouco tempo atrs, mas hoje tor-nou-se fundamental. Suponha que voc tra-balhe em uma empresa e fique sabendo de uma vaga. H dez anos voc diria: Olha, co-nheo um cara incrvel para essa vaga e estou falando isso no porque ele meu amigo. Hoje voc diz: E alm de tudo o cara meu amigo. A amizade virou uma chancela. Isso quer dizer que a meritocracia ficou em segundo plano? No exatamente. O mrito o bvio, gen-rico. A amizade um algo a mais que s o afe-to d. Entre duas pessoas de nota oito, eu vou contratar o amigo do fulano. E o cara que contratou o seu amigo sabe que voc ser a </p></li><li><p>Geni somos todos ns </p><p>16 </p><p>primeira a falar caso ele pise na bola. Sabe aquela coisa V se te manca, eu te trouxe nesta festa, no v tomar porre? Isso conta muito. As pessoas se vigiam umas s outras? No, as pessoas no se vigiam, elas se neces-sitam. Vigiar seguir um conjunto de normas do que certo e do que errado, algo de uma sociedade moralista. O que eu entendo que temos necessidade uns dos outros porque o ser humano se inventa a partir do contato com o outro. Eu necessito do outro para sa-ber de mim. Por exemplo, antes mesmo de nascermos, nossos pais j haviam formado uma imagem a nosso respeito. Quando cres-cemos um pouco, tornamo-nos escravos da expectativa do outro, que tem origem nessa expectativa de nossos pais. Ser que fui bem? Ser que deu certo? Ser que estou legal? Vo-c me ama? Cheguei na hora certa? No estou incomodando? Voc est bem? So infinitas formas que ns temos de saber se estamos correspondendo ao que foi esperado de ns. </p></li><li><p>Geni somos todos ns </p><p>17 </p><p>O problema que a gente nunca corresponde, e no s porque no sabemos corresponder, mas tambm porque aquele que espera algo da gente tambm no sabe bem o que quer. No processo de anlise, descobre-se que o outro de quem voc ficou escravo tentando dar uma resposta no sabe de voc. Isso sig-nifica que voc no pode mais pedir descul-pas e, portanto, tem de se responsabilizar pe-los seus atos. Isso deve ser libertador. No . Porque no dia em que voc descobre isso, percebe que est sozinho. Quando a gen-te descobre que o outro no sabe nada a nos-so respeito, no podemos mais pedir descul-pas. Temos, portanto, de nos responsabilizar...</p></li></ul>