Henri Bergson - O Método Intuitivo - Uma Abordagem Positiva do Espírito

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    08-Jul-2015

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<p> BERGSON INTUITIVO: O MTODO INTUITIVO: ABORDAGEM POSITIVA UMA ABORDAGEM POSITIVA DO ESPRITO</p> <p>Astrid Sayegh</p> <p>UNIVERSIDADE DE SO PAULO Reitor: Prof. Dr. Jacques Marcovitch Vice-Reitor: Prof. Dr. Adolpho Jos Melfi FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CINCIAS HUMANAS Diretor: Prof. Dr. Francis Henrik Aubert Vice-Diretor: Prof. Dr. Renato da Silva Queiroz CONSELHO EDITORIAL ASSESSOR DA HUMANITAS Presidente: Prof. Dr. Francis Henrik Aubert Membros: Prof. Dr. Lourdes Sola (Cincias Sociais) Prof. Dr. Maria das Graas de Souza do Nascimento (Filosofia) Prof. Dr. Sueli Angelo Furlan (Geografia) Prof. Dr. Laura de Mello e Souza (Histria) Prof. Dr. Beth Brait (Letras)</p> <p>Endereo para correspondncia A AUTORA Rua Conselheiro Zacarias, 283 01429-020 So Paulo SP Brasil Tel: (011) 887-4321 / 887-1421 COMPRAS E/OUASSINATURAS</p> <p>HUMANITAS LIVRARIA FFLCH/USP Rua do Lago, 717 Cid. Universitria 05508-900 So Paulo SP Brasil Telefax: (011) 818-4589 e-mail: pubflch@edu.usp.br http://www.usp.br/fflch/fflch.html</p> <p> Copyright 1998 da autora. Os direitos de publicao desta edio so da Universidade de So Paulo Humanitas Publicaes outubro/1998</p> <p>ISBN 85-86087-35-1</p> <p> BERGSON INTUITIVO: O MTODO INTUITIVO: ABORDAGEM POSITIVA UMA ABORDAGEM POSITIVA DO ESPRITO</p> <p>Astrid Sayegh</p> <p>PUBLICAES FFLCH/USP</p> <p>1998</p> <p>SAYEGH, ASTRID. BERGSON </p> <p>O MTODO INTUITIVO.</p> <p>A SRIE TESES uma publicao da Humanitas e tem como objetivo criar um novo espao para a divulgao de teses e dissertaes produzidas no mbito da Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas, facilitando o acesso a nossa produo intelectual.</p> <p>S 284 Sayegh, Astrid Bergson: o mtodo intuitivo: uma abordagem positiva do esprito / Astrid Sayegh . So Paulo: Humanitas / FFLCH/USP, 1998 182 p. (Teses, 1) Originalmente apresentada como dissertao do autor (mestrado Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas USP) ISBN 85-86087-35-1 1.Bergson, Henri, 1882-1939 2. Filosofia 3. Memria I. Ttulo II. Srie CDD 194.91Ficha catalogrfica elaborada por Mrcia Elisa Garcia de Grandi CRB 3608 SBD FFLCH USP</p> <p>4</p> <p>Ficha catalogrfica</p> <p>TESES, SRIE TESES, N. 1, 1998</p> <p>A SRIE TESES</p> <p>publicao de teses e dissertaes produzidas no mbito da Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas da Universidade de So Paulo uma iniciativa indita, que responde a necessidades de vrias ordens. Apresentar e dar a conhecer comunidade acadmica a produo intelectual que, de outra forma, continuaria circunscrita ao crculo restrito de interessados nas disciplinas que praticamos, uma delas. Quer-se tambm facilitar o acesso dos vrios segmentos da sociedade civil, de organizaes no-governamentais e de entidades governamentais aos resultados mais acabados de nossas atividades de pesquisa, de crtica e de reflexo. Trata-se, nesse caso, de atender demanda crescente e, com freqncia, difusa por novas frmulas de interao e de interlocuo entre o mundo acadmico, a sociedade, os governantes e os meios de comunicao. H, alm disso, razes adicionais para dar incio a essa srie. Temos por compromisso criar espaos novos para a publicao de teses de valor analtico, seja descritivo, terico ou ainda propositivo, credenciadas por equipe de pareceristas externos: as quais, de outra forma, permaneceriam intra-muros ou simplesmente ignoradas por no atender a critrios mercadolgicos. O que ainda mais relevante quando se leva em conta um vis que pode ser mais facilmente corrigido nos limites de uma universidade pblica. A natureza de nosso mercado editorial, extremamente oligopolizado, ou o tipo de visibilidade, ocasional e precria, proporcionado pela midia, reforam a tendncia a entregar ao pblico, preferencialmente, a produo de autores j estabelecidos. Nesse sentido, a srie que apresentamos pensada como parte de uma poltica proativa e ao mesmo tempo compensatria de carncias que, de outra forma, seriam insuperveis complementar quela que vem sendo desempenhada pelas editoras universitrias. Com ela, pretende-se dar suporte material e construir um horizonte de incentivos morais aos alunos de ps-graduao e aos professores-orientadores, para que continuem se empenhando em tornar disponvel e a generalizar os conhecimentos produzidos em nossas disciplinas. Para que se disponham tambm a 5 tornar cada vez mais explcitos e transparentes os novos padres de excelncia e de</p> <p>A</p> <p>SAYEGH, ASTRID. BERGSON </p> <p>O MTODO INTUITIVO.</p> <p>produtividade que ambicionamos alcanar. Com um olho no estado das artes e no saber j acumulado, que nosso ponto-de-partida intelectual; e outro no interesse pblico, conforme tradio democrtica, firmada por um longa linhagem de professores, colegas e ex-alunos que o nosso legado. Com essa nova Coleo, que nossa editora Humanitas traz a pblico, pretende-se dar a a conhecer, +tambm, e a estimular a contnua participao dos nossos professores aposentados nas atividades da Faculdade, onde um nmero significativo continua exercendo suas funes didticas e, em particular, de orientao.</p> <p>Lourdes Sola.</p> <p>6</p> <p>TESES, SRIE TESES, N. 1, 1998</p> <p>Ao meu pai, Com inexcedvel gratido... Na ausncia... a saudade incontida Na interioridade... a sempre presena</p> <p>7</p> <p>TESES, SRIE TESES, N. 1, 1998</p> <p>Dois momentos marcam o itinerrio da perfectibilidade: No primeiro, os homens, enquanto tais, refletem de forma intelectiva, a imagem do universo exterior em si mesmos. No segundo, por uma auscultao interior, descobrem em si mesmos o objeto da verdade. Neste momento, no apenas homens, mas deuses, refletem, recriam, no prprio esprito, por intuio, a imagem da totalidade do ser.</p> <p>9</p> <p>TESES, SRIE TESES, N. 1, 1998</p> <p>NDICE</p> <p>Introduo ...................................................................................................................... 14 Cap. I INTUIO E MTODO ................................................................................ 191. Descrio do Mtodo ....................................................................................... 38</p> <p>Cap. II COLOCAO DO PROBLEMA ................................................................... 55 COLOCAO1. Problemas Mal Colocados ................................................................................ 58 2. Problemas Inexistentes .................................................................................... 62</p> <p>Cap. III INTEGRAO HUMANA: AS DIFERENAS NATURAIS ....................... 69 HUMANA: NATURAIS1. Inteligncia e Prxis ........................................................................................ 73 2. Inteligncia e Sistema Nervoso ........................................................................ 79 3. Momento de Diviso ....................................................................................... 81 4. Diferenas de Natureza ................................................................................... 83 5. Linha Objetiva ................................................................................................ 87 6. Nascimento da Subjetividade ........................................................................... 89 7. Integrao Humana: O Tournant................................................................ 104 a) Memria e Vida ............................................................................................. 106 b) Memria e Atividade Intelectual ..................................................................... 109 8. Patologia da Memria .................................................................................... 116</p> <p>Cap. IV INTEGRAO ESPIRITUAL: A UNIDADE ........................................... 129 ESPIRITUAL: UNIDADE1. Memria Ontolgica ..................................................................................... 133 2. Intuio Sensvel .......................................................................................... 140 3. Monismo ou Pluralismo? .............................................................................. 148 4. Intuio Vital ................................................................................................ 152 5. Intuio Criadora .......................................................................................... 154 6. Processo Intuitivo ......................................................................................... 160</p> <p>Concluso ..................................................................................................................... 171 11 Bibliografia ................................................................................................................... 179</p> <p>TESES, SRIE TESES, N. 1, 1998</p> <p>Abreviaes empregadas nas obras de Bergson</p> <p>E.C. E.D.I.C. E.S. D.S.M.R. D.S.M.R. M.M. M.M .M. P.M. P</p> <p> Lvolution Cratrice Essai sur les Donnes Immdiates de la Conscience Lnergie Spirituelle Les Deux Sources de la Morale et de la Religion La Pense et le Mouvant Matire et Mmoire</p> <p>13</p> <p>TESES, SRIE TESES, N. 1, 1998</p> <p>INTRODUO</p> <p>radicionalmente, a metafsica propunha-se resolver os grandes problemas, no que se refere natureza do esprito, com a ajuda do raciocnio puro. Sem apoio na experincia, a metafsica kantiana construa vastos sistemas, logicamente coerentes, porm incapazes de apresentar uma prova categrica para suas afirmaes. Afirmava-se, portanto, a impossibilidade de conhecer a realidade alm da experincia sensvel que o mundo nos revela. Contudo, ao lado da experincia que oferece cincia seu objeto concreto, no vivemos uma experincia interior, to direta, to irrecusvel quanto a primeira? O erro consiste em se fazer de faculdades estruturadas, em vista de uma vocao pragmtica, meio de se atingir a atividade espiritual. Ora, as operaes finitas do entendimento no se prestam a um conhecimento profundo da realidade infinita. A conscincia finita limita a si mesma o acesso ao ser infinito. O fato de se estabelecer relaes entre idias ou conceitos convencionais no nos autoriza uma afirmao de esprito em sua natureza original, pois uma verdade metafsica somente pode ser apreendida quando vivenciada no ntimo da conscincia, em si mesma, e tal experincia somente possvel atravs da intuio.O mrito de Bergson justamente ter colocado em evidncia esta fora intuitiva, que nos permite transformar o abstrato verbal em uma experincia slida e concreta. O esprito de sistema parte de idias e conceitos em direo realidade a ser conhecida, porm, um mtodo verdadeiro deve partir da realidade em si, vivenciada no ntimo do prprio ser, para em seguida transformar-se em representaes explicativas. Efetivamente, ao inserir-se na intuio, e a partir dela chegar inteligncia, a filosofia nos introduz na prpria vida espiritual. Se porventura o dogmatismo cientfico absorve o pensamento atual inteiramente no mundo sensvel, desinteressa-se, no entanto, da realidade do esprito, o qual a verdadeira fonte, a natureza original, ilimitada e anterior a prpria cincia.*</p> <p>T</p> <p>Dissertao apresentada ao Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas da Universidade de So Paulo, sob orientao do Prof. Dr. Franklin Leopoldo e Silva, como parte de requisito para obteno do ttulo de Mestre em Filosofia. 15</p> <p>SAYEGH, ASTRID. BERGSON </p> <p>O MTODO INTUITIVO.</p> <p>Contra essa demisso do esprito o pensamento de Bergson faz-se oportuno, enquanto forma de reabilitao da realidade do esprito e de sua natureza criadora. Importa nestes tempos de transio para a chamada civilizao do esprito uma cincia nova e restaurada, no a cincia das prticas rotineiras, dos mtodos acabados e envelhecidos, mas uma cincia aberta a todas as investigaes, cincia do invisvel, a fortalecer a conscincia e vivificar o esprito. O homem j est vitorioso no mundo visvel, mister que a atividade humana se dirija para os caminhos do esprito, no sentido de conhecer sua prpria natureza e o segredo de seu esplndido porvir. A cincia positivista ser sempre insuficiente, se no for completada pela intuio, qual um msico surdo buscando raciocinar a respeito das regras de uma melodia.</p> <p>Se a cincia nos promete o bem-estar, j a filosofia deve nos fornecer a alegria interior.1 Sendo o prprio objeto da filosofia a superao da condio humana, tal objeto somente torna-se possvel atravs de um modo de conhecimento que se d alm do ponto em que o esprito est inserido na matria, ou seja, atravs da intuio. O perfil adequado ao homem ps-moderno no mais apenas o sujeito lgico, mas o sujeito intuitivo. A experincia cognitiva deve consistir, portanto, no conhecimento do esprito pelo esprito, no conhecimento de realidades no sensveis, atravs de uma viso direta de seu objeto. Porm, ela vai mais alm, na medida em que implica no somente um modo de conhecimento, mas uma forma de transcendncia do prprio ser humano, o qual cede atravs dela a uma busca de iluminao interior, pela criao de si mesmo.A realidade do esprito no consiste no repouso em um absoluto inerte, mas na criao livre sob forma de especulao, assim como a vida animal criao livre sob forma de ao. Assim como existe um princpio vital, de cuja diferenciao surge a criao das espcies, h igualmente um princpio espiritual, que torna-se conscincia-de-si em ns. E o esforo intuitivo consiste, justamente, no movimento dessa conscincia-de-si, do esprito, que busca alcanar sintonia com uma realidade cada vez mais elevada, cuja viso imediata explicita-se em idias e conceitos. Desta forma, a filosofia, quando inserida nesse impulso criador gerado pelo prprio ser, imprime uma direo nova e transcendente a prpria reflexo. Enquanto ato de um pensamento puro, seu objeto consiste na intuio do absoluto, e suas idias passam a ser a forma reflexiva, na conscincia, da natureza original das coisas. No entanto, numerosos so os contra-sensos cometidos sobre a natureza da intuio. Se a prpria metafsica no conseguiu apreender a realidade do esprito,1</p> <p>P.M. (LInt. Phil.) p. 142.</p> <p>16</p> <p>TESES, SRIE TESES, N. 1, 1998</p> <p>assim como sua atividade intuitiva, isto deve-se ao fato de valer-se de operaes mentais estruturadas em funo de necessidades naturais, para explicar realidades que, no entanto, se do alm da condio humana. Conseqentemente, acaba-se por projetar a realidade espiritual e sua multiplicidade qualitativa em um espao homogneo e divisvel. A contradio que parece, portanto, minar o projeto da intuio metafsica simplesmente a traduo, a nvel de uma linguagem instaurada pela prxis, da tenso, do fluxo interior, da criao qualitativa, que caracterizam a vida do esprito. Numerosas so as referncias ao processo intuitivo, enquanto uma realidade inatingvel condio humana. Algumas a definem por uma espcie de simpatia confusa, uma inspirao, outros a tomam por um sentimento, uma espcie de adivinhao. Ora muito mais do que isso, a intuio, alm de consistir em um mtodo, um modo de conhecimento, cumpre com o fim superior da vida: a criao. Sem dvida, o prprio Bergson confessa dificuldade em explicitar o termo discursivamente, dada a realidade movente, e no espacial, que a caracteriza. Qualquer definio correria o risco de empobrec-la; efetivamente Bergson procura express-la atra...</p>