Hetero Gene i Dade

  • Published on
    02-Feb-2016

  • View
    215

  • Download
    0

Embed Size (px)

DESCRIPTION

verbete enciclopdico

Transcript

<p>RELAES LITERRIAS INTERAMERICANAS</p> <p>1</p> <p>HeterogeneidadeIn: Figueiredo Eurdice (org.). Conceitos em literatura e cultura. Niteri: EDUFF; Juiz de Fora: editora da UFJF, 2005. </p> <p>GRACIELA RAQUEL ORTIZ</p> <p> UNIVERSIDAD NACIONAL DE ROSARIO</p> <p>No mbito da crtica literria e cultural, deve-se o conceito de heterogeneidade ao trabalho de reflexo desenvolvido, desde o comeo dos anos 70, pelo crtico peruano Antonio Cornejo Polar, que encaminhou suas pesquisas elucidao dos processos de produo das literaturas, sobretudo andinas, pensadas sempre em relao com os problemas sociopolticos e econmicos dos pases envolvidos.</p> <p>Nos anos 70, diante do sucesso que a crtica imanentista tinha alcanado nos mbitos universitrios latino-americanos, e apesar de reconhecer o avano que ela significou pelo seu grau de formalizao e objetivao nas anlises feitas quando comparadas com o impressionismo ou a estilstica utilizados at ento, Cornejo Polar salientava os limites que tal aproximao impunha ao texto literrio ao consider-lo desligado do processo histrico da cultura. </p> <p>A necessidade de elaborar uma teoria literria que, com seus princpios e mtodos, fosse capaz de dar conta da especificidade da literatura produzida na Amrica Latina se constituiu, naquela poca, em um dos temas centrais na agenda de um grupo de intelectuais latino-americanos, entre os quais se achavam Angel Rama, Roberto Fernandez Retamar, Antonio Candido e Antonio Cornejo Polar. Tal atitude estava determinada pela necessidade de tomar distncia crtica dos pressupostos tericos elaborados na Europa e dominantes nos mbitos acadmicos e intelectuais latino-americanos.</p> <p>No ensaio Problemas atuais da crtica publicado em 1977, Cornejo Polar chama a ateno para a necessidade de elaborar uma crtica aberta e interdisciplinar para poder dar conta do conflito implcito numa literatura produzida por sociedades internamente heterogneas, inclusive multinacionais dentro dos limites de cada pas, ainda marcadas por um processo de conquista e uma dominao colonial e neocolonial (CORNEJO, 2000, p.21).</p> <p>No ano seguinte, Cornejo Polar publica o ensaio fundamental, O indigenismo e as literaturas heterogneas: Seu duplo estatuto sociocultural, onde apresenta uma leitura crtica de textos indigenistas interpretados numa tica da duplicidade dos mundos socioculturais que intervm na produo literria, insistindo na idia de conflito j assinalada no ensaio de 1977: As literaturas heterogneas, [ao contrrio,] se caracterizam pela duplicidade ou pluralidade dos signos socioculturais do seu processo produtivo: trata-se, em sntese, de um processo que tem pelo menos um elemento no coincidente com a filiao dos outros, e que cria necessariamente uma zona de ambigidade e conflito (CORNEJO 2000, p.162).</p> <p>O conceito de heterogeneidade parte do reconhecimento como a priori epistemolgico que a realidade andina em particular e latino-americana em geral est marcada pelas diferenas radicais das culturas indgenas, europias e africanas, que se confrontaram desde a descoberta e a conquista da Amrica. Alm disso, Cornejo Polar leva em conta a existncia de trs sistemas na literatura andina: o culto, o popular e o indgena, que tm a particularidade de estarem instalados no mesmo espao literrio e de estabelecerem imprevisveis relaes de natureza contraditria. Nessa perspectiva, Cornejo segue de perto as reflexes feitas por Jos Carlos Maritegui nos Siete ensayos de interpretacin de la realidad peruana, quando em 1928 defendia a necessidade de procurar um mtodo crtico que considerasse a coexistncia do quchua e do espanhol, com o intuito de definir uma literatura nacional que no ignorasse a situao da conquista. </p> <p>Apesar de visar a compreenso da literatura andina e do mundo andino ao elaborar o conceito de heterogeneidade, Cornejo Polar amplia a possibilidade de compreender vastas produes simblicas da Amrica Latina nessa perspectiva baseada na diversidade. </p> <p>O indigenismo das naes andinas, o negrismo centro-americano e caribenho, mas tambm, de certo modo, a literatura gauchesca do Rio da Prata, e a ligada ao conceito do real maravilhoso podem entender-se como variveis do fenmeno que preocupava Jos Carlos Maritegui. Em todos esses casos trata-se de literaturas situadas no conflituoso cruzamento de duas sociedades e duas culturas (CORNEJO, 2000, p.158).</p> <p>Vises homogeneizadorasConvencido que a realidade andina estava conformada por uma multiplicidade de universos socioculturais diversos, como j foi assinalado, Cornejo confrontou o conceito de heterogeneidade com o conceito de literatura nacional, ao considerar que este estava alicerado no pressuposto da unicidade. Com a maioria dos movimentos de emancipao ocorridos durante o sculo XIX na Amrica Latina, surgiram e se fortaleceram no final do sculo os discursos que homogeneizavam as diferenas apagando-as, com o intuito de consolidar as representaes que organizavam de maneira coesa a comunidade em torno da idia de nao. Nesse sentido, a crtica literria configurou seu objeto a partir da delimitao do que era a literatura nacional: tratava-se, no caso do Peru, da literatura culta escrita em espanhol e produzida segundo o cnone das elites dominantes que, por sua vez, seguiam os padres europeus. </p> <p>Na segunda metade do sculo XIX, Ricardo Palma leva adiante o projeto lingstico-literrio de introduzir nos seus textos expresses populares e coloquiais, com o intuito de tornar sua escrita representativa de uma linguagem nacional pelo fato de ela integrar tanto a expresso culta quanto a fala popular estilizada. Cornejo afirma que, diluindo as fronteiras entre o oral e a escrita, o culto e o popular, Palma elaborou uma poltica da lngua que deu como resultado a aceitao sem questionamentos dessa linguagem literria, como se fosse realmente a conciliao feliz das diversas lnguas. O espao lingstico assim criado, regido pela norma culta permevel a ponto de se apropriar dos usos populares, apresentava-se como homogneo.</p> <p>O modernismo hispano-americano continuou na linha de Palma em relao inegvel representatividade e legitimidade nacional da linguagem literria mas de um ponto de vista hierrquico, isto , tratava-se da linguagem que melhor pudesse representar a nao ou, em ltima anlise, o setor culto.</p> <p>Quanto historiografia literria, ela levou em conta os textos literrios escritos em espanhol culto, fato que significou um recorte que escamoteou as produes populares orais ou escritas em espanhol e excluiu, claro, as literaturas orais em lngua quchua ou aimar, confinadas, como afirma Cornejo, ao espao do folclore. Alm disso, ao organizar a sua matria numa concepo linear do tempo, a historiografia impunha uma sucessividade que deixava fora a perturbadora simultaneidade de opes literrias contraditrias na busca de uma unidade que sacrificava a diversidade.</p> <p>Essas razes, entre outras, levam o crtico a afirmar de maneira enftica que a delimitao do objeto [nossa literatura] no depende s de uma opo prpria da teoria literria mas tambm, e sobretudo, de uma opo inocultavelmente poltica sobre quem (e quem no) formamos parte de nossa Amrica(CORNEJO, 1992, p.11).</p> <p>Debate Cornejo Polar/Roberto PaoliNo fim da dcada de 70 houve um interessante debate entre o crtico italiano latino-americanista Roberto Paoli e Antonio Cornejo Polar, que foi publicado na Revista de Crtica Literria Latinoamericana n. 12 e, aps, retomado no livro Asedios a la heterogeneidad cultural que importante lembrar pois permite acompanhar as precises que o crtico peruano fez a respeito do conceito de heterogeneidade. A questo central levantada por Paoli se relaciona no pertinncia epistemolgica desse conceito para caracterizar a essncia do indigenismo, pois ele serviria tambm para definir toda uma srie de universos que no necessariamente tm a ver com a cultura, a produo ou a recepo do texto literrio. Ao atingir tal abrangncia de referentes e fenmenos, o conceito de heterogeneidade perde a eficcia e se faz desnecessrio. Paoli assinala tambm a possibilidade de pensar a literatura produzida por escritores urbanos do norte da Itlia, cujo tema era o mundo arcaico dos camponeses do sul do pas, como heterognea. Alm disso, ele argumenta que, ao postular a concepo do mundo indgena como impenetrvel para os escritores indigenistas, Cornejo Polar estaria contradizendo o que se d de fato na histria dos homens: a diferena e a ininteligibilidade tm a ver com situaes histricas que se modificam com o tempo, o que faz com que o que era ininteligvel num dado momento do passado possa ser compreensvel a posteriori, afirma Paoli.</p> <p>Partindo do esclarecimento que o seu campo de estudo a literatura e no as questes sociais, Cornejo Polar concorda com Paoli que o escritor indigenista que no ndio e produz a sua literatura fora do sistema sociocultural indgena tem a possibilidade de conhecer o mundo indgena, mas isso no significa que na sua prtica de escrita, ele possa express-lo de dentro, do interior. O conceito de heterogeneidade utilizado justamente para definir uma produo literria complexa e plural, fruto da convergncia conflitiva de pelo menos dois universos socioculturais diferentes.</p> <p>Cornejo salienta que a heterogeneidade um conceito terico que abrange vrias literaturas alm da indigenista aspecto que de fato ele mesmo assinala em seus ensaios em relao ao negrismo, gauchesca e ao real maravilhoso entre outras mas as particularidades que esse conceito adquire em cada uma dessas expresses literrias s podem ser reconhecidas quando estudadas em seus processos histricos especficos. A esse respeito, ao considerar o indigenismo, o crtico peruano utiliza um duplo critrio de elucidao: por um lado, o grau de assimilao dos interesses sociais autnticos dos ndios (no oposto, o modo em que esses interesses so apagados ou tergiversados); por outro lado, a assuno de certas estruturas temtico-formais indgenas e a sua eficcia produtiva no discurso literrio indigenista, como por exemplo recursos da oralidade quchua utilizados numa estrutura narrativa ocidental como o romance (e no oposto, como essa forma ocidental rejeita tais estruturas). </p> <p>Alm disso, o conceito de heterogeneidade permite fazer uma leitura da literatura indigenista que vai alm das leituras tradicionais centradas nos textos, ao levar em conta os processos sociais conflitivos os dois universos socioculturais que esto envolvidos na sua produo. Ele afirma:</p> <p> interessante sublinhar, em todo caso, que a complexa trama do indigenismo no se esgota na difcil vinculao de duas culturas, pois abarca, ao mesmo tempo, a no menos difcil ligao entre duas formaes sociais to dissmiles que, por vezes, ao longo da histria, fundam-se em contrapostos modos econmicos de produo. A categoria de heterogeneidade procura cobrir ambos os campos, o cultural e o social. Por isso, preferida categoria mais recortada de transculturao (CORNEJO, 2000, p.194).</p> <p>Manifestaes da heterogeneidadeAs Crnicas do Novo Mundo constituem, na perspectiva de Cornejo Polar, as primeiras manifestaes da heterogeneidade, donde decorre seu carter fundador, pois nelas se inscrevem dois universos em confronto. Por um lado, o produtor do texto se dirige a um leitor europeu que ignora ou conhece muito mal a realidade americana, por outro lado, esse mundo desconhecido e enigmtico tem que ser apresentado de maneira inteligvel para o pblico receptor, situao que leva os cronistas a compar-lo permanentemente com as referncias europias.</p> <p>Cornejo Polar dedicou longos perodos de sua vida intelectual ao estudo do indigenismo e particularmente do romance indigenista por ser ele um dos espaos privilegiados de manifestao da heterogeneidade. Nas primeiras dcadas do sculo XX houve uma renovao dos cdigos literrios atravs das criaes das vanguardas e do novo indigenismo que muitas vezes atuaram de maneira relacionada, renovao que deu lugar ao surgimento de um novo sujeito produtor de cultura oriundo, em geral, das cidades provincianas e pertencente camada social mdia. Escritores como Csar Vallejo e Jos Carlos Maritegui se preocuparam em refletir no que estava envolvido no uso de uma nova linguagem para que no fosse s uma casca ou um mero artifcio, inquietao que tinha provavelmente sua origem na conscincia do enorme atraso das sociedades andinas em contraste com a modernizao das formas artsticas proposta pelas vanguardas. Cornejo salienta que, grande parte do trabalho potico de Vallejo consistiu no confronto de uma viso e umas palavras contemporneas com uma ordem referencial pouco menos que primitiva, e no uso de uma linguagem que situa o antigo num horizonte semntico que o transmuda sem o extraviar, em experincias e em palavras pontualmente contemporneas (CORNEJO, 1994, p.167).</p> <p>Uma outra maneira de mudar a linguagem artstica consistiu em trazer o quotidiano forma escrita. Os esforos de incluir nas narraes formas que remetiam oralidade, sobretudo fala das classes populares, das camadas mais baixas da sociedade, inclusive do quchua, traduziam a necessidade de oralizar a escrita como tentativa de ampliar a abrangncia do literrio. Contudo, tal projeto estava atravessado pelas tenses produzidas, por um lado, pelo fato dessas narrativas estarem afastadas das prticas comunicativas das massas representadas atravs de suas prprias falas, j que o analfabetismo lhes impedia o acesso leitura; por outro lado, ao no saber escrever, essas camadas eram escritas pelos intelectuais que assumiam o papel de representantes de algo que eles mesmos no eram. Porm, Cornejo Polar salienta que tal perspectiva no anula a legitimidade ou condena a intencionalidade do projeto dos vanguardistas e dos indigenistas mas evidencia a complexidade das relaes entre a voz e a letra numa sociedade que, nas primeiras dcadas do sculo XX, estava conformada por uma populao em sua maioria analfabeta e bilnge.</p> <p>Com efeito, para o crtico peruano, todos os indigenistas dessa poca assim como alguns vanguardistas reivindicavam, como uma das estratgias para se opor s oligarquias, a origem indgena das naes andinas que tinha sido abafada, at ento, pela minoria dominadora. Colocaram em foco a questo indgena, ao mostrar que os ndios tiveram o triste papel histrico de serem a maioria da populao e, ao mesmo tempo, os mais marginalizados, designando os ndios como a origem e como o componente primordial da nacionalidade. </p> <p>No ensaio intitulado O indigenismo andino publicado em 1994, Cornejo afirma:</p> <p>A definio do indigenismo como literatura heterognea aponta, principalmente, para a evidncia de que se trata de uma produo discursivo-imaginria sobreposta entre dois universos socioculturais diversos e mesmo opostos e beligerantes, quando se incorpora o dado histrico da conquista e a subseqente dominao de um deles sobre o outro. bvio que na Amrica Latina o indigenismo no a nica literatura heterognea... Assim, deve ficar claro que se trata de uma categoria crtica, de certo modo terica, cujo uso tem de recorrer histria para distinguir uma heterogeneidade de outra... (CORNEJ...</p>