Identidades de Fronteiras

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    28-Sep-2015

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Identidades de Fronteiras

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<ul><li><p>IDENTIDADES DE FRONTEIRAS: ESCRITURAS HBRIDAS </p><p>Maria Nazareth Soares FONSECA 1 </p><p> RESUMO: O trabalho prope uma discusso sobre imagens da Amrica Latina, construdas por movimentos de nomeao da identidade do continente, e procura esta-belecer a aproximao entre o real maravilhoso, de Alejo Carpentier, as sonoridades criollas da poesia de Nicolas Guillen e a pintura de Wifredo Lam. Essas diferentes vises da cultura latino-americana so associadas s metamorfoses de Caliban, visto como smbolo da "nossa Amrica mestia", e energia de Exu, o orix das encruzilha-das. Todos esses movimentos so considerados processos de res is tncia descaracterizao, fortalecidos na era das grandes redes de contato do mundo globalizado. </p><p> PALAVRAS-CHAVE: Identidade cultural; mestiagem cultural; metamorfose; resistncia. </p><p>Mediante os cruzamentos entre sincretismos, dialgica e polifonia, a identidade nunca idntica a si prpria. Ela varia constantemente: a viagem a grande metfora da identidade, e ao seu fim no voltamos forma anterior. (Massimo Canevacci) </p><p>Uma das questes que tm freqentado os debates dos Estudos Culturais ressalta a mudana de focalizao dos estudos latino-americanos que se transferem dos chamados centros hegemnicos para a circulao em "novas avenidas crtico-deolgicas", como bem o assinalou Mabel Moraria (1995). Novos mapas de investigao terica se traam, procurando alcanar territrios que, de algum modo, pareciam ter ficado deriva enquanto se discutiam, do exterior, imagens do continente pensado sempre como uma totalidade. Uma das marcas desses novos estudos seria a preocupao com as chamadas identidades localizadas ainda que j integradas conscincia de que, cada vez mais, nos situamos em encruzilhadas em que o local se confronta com o geral. </p><p>Nesse processo de afirmao de movimentos redefinidos pela globalizao, de insistncia nos aspectos que configuraram os fenmenos de (des)territorialidade, parece ser pertinente voltar a refletir sobre este processo mesmo de pensar o continente, reafirmando suas particularidades. Talvez assim se possa compreender que muitos dos valores defendidos como padro de uma especificidade latino-americana continuam a circular, fundando, no entanto, uma nova maneira de estar no mundo. Da que o mesmo movimento de mundializao, que elimina fronteiras e alarga territrios antes bem demarcados, no consegue evitar que questes localizadas exponham a urgncia de uma reestruturao territorial e apontem as fraturas que se expem no paradigma da era atual. Nesse sentido, atento s complexidades do novo modelo seletivo de </p><p>1 Pontifcia Universidade Catlica de Minas Gerais - PUC/Minas Gerais. </p><p>Itinerrios, Araraquara, 15/16:109-120,2000 109 </p></li><li><p>Maria Nazareth Soares Fonseca </p><p>incorporao/excluso de reas, Pablo Ciccollela chama a ateno para o fato de que o fenmeno da globalizao deve ser pensado como plural, ainda que aspire a construir redes mundializadas: </p><p>...este proceso de transformacin acelerada (globalizacin-modernizacin via integracin) no es homogneo, sino que estaria produciendo una nueva fragmentacin social-territorial, donde aparecen regiones, sectores sociales y sectores productivos que se modernizan, que se incorporan al sistema mundializado de relaciones econmicas y culturales, que en trminos reales se integran con economias vecinas; y regiones, sectores sociales y productivos que quedan excludos de este processo. (Ciccolella, 1997, p.60) </p><p>Desse modo, o mesmo movimento que visa a edificar a nation-ness globalizada n o pode impedir que as identidades emergentes e os novos movimentos de cunho social intensif iquem os confl i tos do mundo em que vivemos, impulsionando processos de r e d e f i n i o de fronteiras e uma nova terr i torial idade para os f e n m e n o s s c i o - c u l t u r a i s . E certo que as macro-identidades, de alguma forma, e sga ram-se nas malhas da g loba l izao , mesmo que o f i m das barreiras ao l ivre c o m r c i o n o modif ique o ca r te r nacional da propriedade das empresas transnacionais (Lahorgue, 1997). Paralelamente, um movimento de a f i r m a o de micro identidades se afirma em busca da re func iona l i zao de lugares e da redef in io de e s p a o s . Sobre esse processo, interessante lembrar que M i c h e l Foucault, j na d c a d a de oitenta, referia-se s heterotipias, aos e s p a o s h e t e r o g n e o s de l o c a l i z a e s e r e l a e s , e destacava o papel dos m i c r o e s p a o s , v is tos como uma espacia l idade efetivamente v iv ida e socialmente criada, na c o n c r e t i z a o de mecanismos de v i g i l n c i a e poder discipl inar (Apud Soya, 1993). Ou mesmo perceber os movimentos que se afirmam em regies f ronteir ias como as zonas de c o m r c i o entre duas margens, duas reg ies , dois pa ses ou nos processos de rev i t a l i zao de movimentos de feio ident i tr ia que se c o n s t r e m no l imiar entre o privado e o p b l i c o . E o caso bem particular da a f l unc i a de q u e s t e s localizadas no e s p a o dos media onde se exibem os problemas particulares, sem nenhuma profundidade, sem nenhuma re f l exo . Somos cada vez mais prisioneiros dos mecanismos da velocidade que nos impede de d is t inguir o que e o que n o . Na tela de T V ou na p g i n a do j o rna l as imagens cada vez mais perdem a in t ens idade , pois n o p r o v o c a m nem espanto nem grande in teresse (Sarlo,1997). </p><p>E com a inteno de refletir sobre a diferena cultural mais do que reconhecer a diversidade do continente latino-americano que o presente trabalho procura retomar alguns textos considerados fundantes da identidade do continente, buscando inseri-los em percursos mais amplos, abertos por novos i t inerr ios t raados na poca atual. A proposta mapear algumas p rodues - ter icas , </p><p>110 Itinerrios, Araraquara, 15/16:109-120,2000 </p></li><li><p>Identidades de fronteiras: escrituras hbridas </p><p>artsticas, culturais - significativas em momentos decisivos do processo de busca da identidade latino-americana e com elas refletir sobre as novas identidades culturais que se configuram por encontros, choques e t rans ies . Com alguns textos revisitam-se pontos de vista e espaos em t r ans fo rmao e indaga-se sobre processos de descarac te r i zao /ca ra te r i zao de novas identidades que se efetivam no mundo atual, quando se acirram os conflitos inevi tveis no aparato dos Estados-nacionais. A o se repensar a di ferena cultural pelo vis dos atuais processos de t rans formao dos espaos , toma-se a impureza como significante de entrecruzamentos e inter-relacionamentos que explici tam os atuais "e spaos vivenciais de hibridao cultural" bem caracterizados por Ciccolella, quando reflete sobre as mu taes da economia capitalista tal como se mostra no momento atual (Ciccolella, 1997, p.62). </p><p>Um trao dessa impureza, todavia, j se mostra na pintura do cubano Wifredo Lam, no entrecruzamento das heranas advindas de sua identidade "criolla" e de sua formao europia, perceptvel, em muitos de seus quadros, no forte apelo linguagem surrealista. Nessa encruzilhada poss vel perceberem-se diversos elementos da ritualidade atvica de ascendncia africana, vivida na pequena aldeia cubana onde nascera o pintor, sob a tutela de curanderos y sacerdotes de la santera, para compor outros dilogos, novas transgresses. Deixando aflorar, em sua pintura, o componente africano, este ganha outra dimenso e ultrapassa tanto os estratos populares negros cubanos, como a ruptura surrealista de que freqentemente se vale. E sobretudo por explorar as metamorfoses e os hibridismos to peculiares cultura latino-americana que os quadros de Lam criam, como observa Fernando Ortiz, "un nuevo gnero", o da "naturaleza viva", muito claro em criaes como "La Jungla"(fig.01), com seus seres hbridos nos quais a separao entre o vegetal, o animal e o humano mostra-se dissolvida, deixando aflorar o repertrio das tradies culturais de origem africana. Lam transfere para seus quadros a re tr ica da proliferao tpica do real maravilhoso, visto por Alejo Carpentier como um recurso esttico capaz de reproduzir a especificidade da cultura americana e de salientar os seus contrastes com relao Europa. O conceito em Carpentier procura identificar a profuso de elementos dspares, prprios de culturas heterogneas, e o potencial de prodgios que se fazem refrao lgica cartesiana. Essas mesclas podem ser certamente encontradas em vr ios quadros de Lam, quando mergulham na diversidade americana e dissolvem os traos rgidos, inadequados figurao do real maravilhoso, para apreender as pulsaes da natureza, vista como um espao de concretudes msticas e mitolgicas. Por essa via muitos quadros do pintor cubano fazem-se "narrativas da identidade hbrida americana" porque neles esto em interao - no distanciados mas interrelacionados - diferentes significantes culturais. </p><p>Itinerrios, Araraquara, 15/16:109-120,2000 111 </p></li><li><p>Maria Nazareth Soares Fonseca </p><p>Figura 1. Wifredo Lam. La jungia, 1942-1944 (detalhe). </p><p>U m contraponto aos painis hbridos de Lam poderia ser buscado no "ralisme merveilleux" haitiano, visto por Jacques Stphen Alxis como uma esttica intuitiva, assumida pelo povo para apreender a realidade, filtrada j por tendncias prprias s culturas americanas. Ainda que essas tendncias apontem para a in teno de (re)nomear espaos do Novo Mundo a partir da diferena que os constitui, cada uma delas enfatiza significantes mltiplos e feies plurais, pois o ideologema buscado sem dvida o da mest iagem. </p><p>112 Itinerrios, Araraquara, 15/16:109-120,2000 </p></li><li><p>Identidades de fronteiras: escrituras hbridas </p><p>O mesmo ideologema configuraria a "expresso americana", de Lezama Lima, principalmente quando o terico cubano acentua, no barroco americano, as feies ndia e negride, vendo-as enquanto reterritorializao de traos culturais trazidos pelos colonizadores ou como uma apetncia diablico-simblica, conforme expresso de Irlemar Chiampi (1998, p.7). Tambm as sonoras criaes da poesia afro-cubana de Nicolas Guillen, evidentes em poemas de Motivos de son (1930) e em outros de Sngoro cosongo (1931) feitos com a recolha de elementos do substrato africano j transculturados na ilha de Cuba, para explorar as potencialidades sonoras da l ngua oral. Vejam-se os versos de "Negro bembn": "Po qu te pone tan brabo,/ cuando te disen negro bembn,/si tiene la boa santa,/negro benbn" e outros construdos com a apropriao de ritmos e sonoridades prprios s camadas populares em Cuba, para ressaltar o legado musical advindo das t rad ies africanas, em processo de t ransformao, todavia. Por isso seus "versos mulatos" produzem-se com os significantes que entram na composio tnica de Cuba, pensada j como metonmia da Amrica mestia, da "nuestra Amrica mestiza", como bem denominou Jos Marti , para acentuar as transformaes, as mutaes culturais hbridas do continente. </p><p>Uma discusso mais recente da mest iagem cultural foi encaminhada por Jos Fernandes Retamar, quando retoma a figura do Caliban, criada por Shakespeare para nomear o escravo selvagem e deformado em The Tempest (1611). Essa figura disforme, em diversas releituras da pea, passa a simbolizar o mundo americano e, principalmente, os movimentos em defesa de traos de sua diferena cultural. O corpo deformado de Caliban, em criaes de autores como Renan, {Caliban, 1878), Jean Guhenno, {Caliban habla, de 1928), ou na identificao, feita pelo argentino Anibal Ponce, de Caliban com as massas sofridas do continente latino-americano, transita entre verses que degradam ou supervalorizam a diferena, pensando-a sempre em comparao com a Europa. </p><p> importante, nesse sentido, rever, j sem as paixes polticas que marcaram a sua publicao, o texto Psychologie de la colonisation, de Octave Mannoni, escrito em 1950. Nessa obra, Mannoni salienta o que chama de disposies neurticas inconscientes que induzem o dependente a se adequar imagem que dele faz o opressor. Ao cunhar a expresso "Complexo de Prspero" e nomear com ela o desejo do dominado de se submeter ao poder do dominador, Mannoni acaba por patologicizar as relaes colonizador/colonizado e alocar, no colonizado, o que poderia ser definido como um grmen de inferioridade. Essa viso determinista rechaada por Frantz Fanon no clebre "Du prtendu complexe de dpendance du colonis" (1952) e tambm, de maneira indireta, pela reflexo atual de Homi Bhabha (1990), quando explicita os processos de produo do discurso colonial e os aparatos que legitimam esse discurso, acentuando o carter de recusa de diferenas raciais/culturais/histricas desse discurso. </p><p>Itinerrios, Araraquara, 15/16:109-120,2000 113 </p></li><li><p>Maria Nazareth Soares Fonseca </p><p>Noutra direo, fortalecendo-se a identificao da mestiagem cultural pelos traos de Caliban, o livro Los placeres dei exlio, de 1960, de George Lamming, destaca alguns movimentos de afirmao da identidade calibanesca da Amrica. O traado da identidade americana pelas feies de Caliban assume os pressupostos da negritude com a pea Une tempte; adaptationpour un thtre ngre, de Aim Csaire, escrita em 1969, a qual traz para a cena a figura de um Caliban negro e insere, na histria criada por Shakespeare, a figura de Exu, atribuindo a esse orix a energia advinda dos negros marrons, que constmram com seus atos uma forma de resistncia opresso colonial, na histria das Antilhas francesas. Essa energia prpria de um Caliban-Exu pode ser percebida no texto de Jos Fernandez Retamar, "Caliban", publicado na Revista Casa de las Amricas, de 1971. Retomando diversos movimentos de afirmao da identidade do continente, Retamar reafirma com a figura de Caliban as expresses culturais que expressam modos de ser do continente e, ao mesmo tempo, faz da personagem emblema da transgresso que desloca o ato de Prspero - que deu a palavra e um nome a Caliban - e o silenciamento imposto expresso natural do escravo. Assim Caliban, como j apontaram vrios crticos, falou antes mesmo de ganhar de Prspero o direito palavra pois sempre se mostrou resistente ao controle que o dominador lhe imps. </p><p>Pode-se dizer, portanto, que em todos esses textos onde se discute a questo identitria tal como se mostra em diferentes reflexes produzidas na Amrica Latina, delineia-se j uma viso em que limites e fronteiras mostram-se esgarados por significantes de culturas comps i tas , detalhadas em mosaico. Tomados como indicadores de transgresso, ainda que se quisessem fixados numa tradio, viabilizam interaes e ressemantizam traados de uma ordem consolidada em pontos fixos. A potica da Relao (1990), de Edouard Glissant, da Martinica, retoma esses pontos numa construo em rede, rizomtica, para aludir s interrelaes culturais. A metfora do rizoma, em seu pensamento minimiza a idia de enraizamento porque acentua os deslocamentos em direo ao outro, as ligaes, os contatos intra e interculturais: " com a imagem do rizoma que se pode descrever a identidade, que no se relaciona com raiz, mas com a relao" (Glissant, 1990, p.31). </p><p>Muitos dos textos referidos at aqui e que de algum modo foram entendidos apenas enquanto valorizao das origens culturais do continente americano podem ser relidos a...</p></li></ul>