Imagem e memória - Henri Bergson e Paul Ricoeur ?· Imagem e memória - Henri Bergson e Paul Ricoeur…

  • Published on
    03-Aug-2018

  • View
    215

  • Download
    2

Embed Size (px)

Transcript

  • Imagem e memria - Henri Bergson e Paul Ricoeur

    Bruno Oliveira de Andrade1 (PUC-Rio Rio de Janeiro - RJ - Brasil)

    bruno.ufop.andrade@gmail.comOrientador: Prof. Dr. Mateus Henrique de Faria Pereira

    Resumo: Este texto pretende mostrar como uma investigao sobre o conceito de imagem em sua rica polissemia pode ser uma chave de leitura importante para se compreender a um s tempo: a relao entre a filosofia bergsoniana da memria e o confronto entre memria e imaginao em A memria, a Histria o Esquecimento de Paul Ricoeur, alem de possibilitar uma fundamentao terica para as discusses sobre elaborao do passado por meio de obras de arte. A primeira parte do trabalho dedicada a uma interpretao dos sentidos atribudos por Henri Bergson ao termo imagem em Matria e memria; posteriormente analisamos um momento decisivo da fenomenologia da memria empreendida por Paul Ricoeur em A memria, a histria, o esquecimento.

    Palavras-chave: Imagem; Memria; Imaginao.

    Trata-se de recuperar uma lembrana, de evocar um perodo de nossa histria? Temos conscincia de um ato sui generis pelo qual deixamos o presente para nos recolocar primeiramente no passado em geral, e depois numa certa regio do passado: trabalho de tentativa, semelhante busca do foco de uma mquina fotogrfica.

    Henri Bergson

    1. Consideraes iniciaisA epgrafe desse trabalho, extrada de Matria e Memria, to extraordinria quanto

    complexa, pois, em um pequeno trecho, Henri Bergson com a maestria que lhe caracterstica

    sintetiza grande parte de sua tese sobre o modo pelo qual temos acesso s nossas lembranas. Como

    se no estilo mimetizasse sua prpria metfora, o filsofo estabelece um recorte, incisivo e preciso

    como uma imagem, do amplo argumento que desenvolveu ao longo do livro. Embora o foco deste

    texto-imagem esteja muito bem ajustado, o resultado no uma imagem transparente dada

    facilmente ao nosso entendimento; essa passagem guarda uma obscuridade, uma dificuldade que

    decorre simultaneamente do estilo de escrita de Bergson e do prprio tema tratado pelo autor. O

    campo deste texto-imagem exige, portanto, que lhe restitumos seu fora-de-campo, ou seja, o

    espao maior em que est inserido para que possamos compreend-lo de forma adequada.

    Ao longo de Matria e Memria nos deparamos com uma srie de metforas imagticas

    (muitas delas referem-se pintura ou fotografia), sobretudo a partir do terceiro captulo que trata

    1 Graduado em Histria pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Mestrando em Histria Social da Cultura PUC-Rio. Esse artigo apresenta resultados de uma pesquisa de iniciao cientfica orientada pelo Prof. Dr: Mateus Henrique de Faria Pereira e financiada pela FAPEMIG e pelo CNPq.

    Revista Estudos Filosficos n 9/2012 verso eletrnica ISSN 2177-2967http://www.ufsj.edu.br/revistaestudosfilosoficos

    DFIME UFSJ - So Joo del-Rei-MGPg. 136 - 150

    mailto:bruno.ufop.andrade@gmail.com

  • da sobrevivncia das imagens. Essas metforas, nos parece, possuem um duplo significado, um

    mais imediato e funcional que consiste na sntese de um argumento complexo por meio de uma

    associao de elementos geralmente desconectados; e outro mais mediado e estrutural, se assim

    podemos dizer, cuja caracterstica dobrar a metfora sobre si mesma para extrair um contedo

    filosfico que seja capaz de desdobrar o argumento, ou seja, estabelecer relaes no mais entre

    aqueles elementos do discurso, o ato sui generis de se recolocar no passado e as tentativas

    semelhante busca de um foco, mas entre os conceitos que lhe so caros, nesse caso, o de

    lembrana e percepo. Se a filosofia essencialmente a inveno de conceitos, Bergson os

    inventa e os relaciona entre si por meio de metforas.

    A partir desse ponto, podemos dizer que a noo de imagem e seus correlatos no so

    utilizados de um modo simples por nosso autor, possuem esse duplo aspecto da metfora que

    descrevemos. Da, acreditamos, provm uma das dificuldades de se compreender a natureza do

    conceito de imagem em Matria e Memria ou, mais propriamente, qual sentido, dentre os vrios

    mobilizados ao longo texto, Bergson estabelece para esse conceito em uma passagem ou em outra;

    propriamente nos deslizamentos de sentido que poderemos compreender algo do conceito de

    imagem e, principalmente, que consiste no objetivo maior desse trabalho, investigar a

    funcionalidade desse conceito num mbito histrico-cultural.

    2. Bergson e a questo da imagem

    2.1. A matria, para ns, um conjunto de "imagens"

    com essa afirmao um tanto quanto desconcertante que Bergson insere, j no prefcio de

    seu livro, o primeiro ponto de reflexo sobre o que estamos denominando o conceito de imagem.

    O autor pretende mostrar que no se pode reduzir a matria representao que temos dela (como

    quer o idealista), nem tampouco, entender a matria como aquilo que produz em ns representaes

    (como pretende o realista). Mas o que, propriamente, Bergson denomina imagem nesse ponto?

    [...] por "imagem" entendemos uma certa existncia que mais do que aquilo que o idealista chama uma representao, porm menos do que aquilo que o realista chama uma coisa - uma existncia situada a meio caminho entre a "coisa" e a "representao" (BERGSON, 1999, p. 2).

    A existncia da imagem para alm de qualquer conscincia reivindicada muito embora sua

    facticidade, como coisa, limitada. Apesar de mostrar-nos algo do conceito de imagem, essa

    definio ainda negativa, pois define o conceito por aquilo que ele no , por meio do contraste

    Revista Estudos Filosficos n 9/2012 verso eletrnica ISSN 2177-2967http://www.ufsj.edu.br/revistaestudosfilosoficos

    DFIME UFSJ - So Joo del-Rei-MGPg. 136 - 150

  • com outros conceitos, nesse caso, representao e coisa. O objetivo do autor mostrar que no

    h dualidade entre imagem e coisa, como se a imagem fosse produto de nossa conscincia, produto

    este, produzido pelas prprias coisas. H somente imagens, que agem e sofrem reaes, se

    relacionando entre si no universo, e, portanto, fazem o universo girar como na expresso popular,

    atravs do movimento que elas produzem. Entretanto, no interior dessas imagens que constitui o

    universo, h uma privilegiada que funciona como um centro de irradiao de movimento, essa

    imagem, meu corpo. (Note-se que o corpo, sendo tambm uma imagem, no pode produzir

    imagens, assim como as coisas). O essencial de retermos nesse ponto que a relao entre as

    diversas imagens ocorre atravs do movimento, e que o corpo irradia movimento. Mas de que

    modo? Diz Bergson:

    Percebo bem de que maneira as imagens exteriores influem sobre a imagem que chamo meu corpo: elas lhe transmitem movimento. E vejo tambm de que maneira este corpo influi sobre as imagens exteriores: ele lhes restitui movimento (BERGSON, 1999. p. 14).

    A partir dessa citao podemos deduzir dois modos distintos pelos quais as imagens geram

    movimento; ao e contrao so esses modos. As imagens exteriores transmitem o movimento ao

    corpo sobre a forma de afeco; o corpo restitui movimento s imagens exteriores sobre a forma da

    ao. por meio de aes e reaes que o movimento opera. Mostramos o modo como nosso corpo

    se relaciona com as outras imagens: restituindo o movimento. Deveramos agora nos perguntar,

    porque, o corpo tem esse privilgio? que o corpo, nos diz o filsofo, :

    [...] no conjunto do mundo material, uma imagem que atua como as outras imagens, recebendo e devolvendo movimento, com a nica diferena, talvez, de que meu corpo parece escolher, em uma certa medida, a maneira de devolver o que recebe (BERGSON, 1999, p. 14).

    Essa pequena diferena: escolher...a maneira, distingue nosso corpo como um centro de

    irradiao de movimento, fundado na liberdade, pois poder escolher em ltimo caso, ter a

    liberdade de escolher. Evidentemente no se trata de uma liberdade absoluta, pois, agora podemos

    entender melhor, a ao escolhida por meu corpo limitada, e num certo sentido, determinada, pelo

    conjunto de afeces que as imagens nele produzem. Trata-se de uma escolha, como qualquer outra,

    num universo de possibilidades reduzidas. A ao de meu corpo sobre as outras imagens ocorre na

    medida em que percebo essas imagens, da que agora, pode-se distinguir mais claramente a

    Revista Estudos Filosficos n 9/2012 verso eletrnica ISSN 2177-2967http://www.ufsj.edu.br/revistaestudosfilosoficos

    DFIME UFSJ - So Joo del-Rei-MGPg. 136 - 150

  • diferena entre as imagens em geral, e essa imagem denominada corpo: Chamo de matria o

    conjunto das imagens, e de percepo da matria essas mesmas imagens relacionadas ao

    possvel de uma certa imagem determinada, meu corpo (BERGSON, 1999: 17. Grifo nosso).

    Percepo no nada alem do que a ao possvel do corpo, ou seja, a percepo uma faculdade

    que est diretamente relacionada com a ao. At aqui conseguimos distinguir de um modo mais

    claro o sentido da frase que a abre esse tpico, segundo a qual, a matria seria um conjunto de

    imagens.

    A noo de movimento central no primeiro captulo de Matria e Memria poderamos

    dizer que o movimento o operador que estabelece a relao entre as diversas imagens, e mais

    importante, entre o corpo e o esprito, pois atravs do movimento das imagens que aquele sofre

    afeco, e deste mesmo movimento que este percebe e devolve movimento s coisas. Nesse sentido,

    os conceitos de imagem e movimento se relacionam de tal modo, que torna difcil a distino do

    limite de cada um deles. Essa dificuldade no decorre certamente de uma impreciso conceitual do

    argumento bergsoniano, mas, antes, da prpria radicalidade desse argumento. De acordo com Gilles

    Deleuze, no argumento de Bergson:

    No h dualidade entre a imagem e o movimento, como se a imagem estivesse na conscincia e o movimento nas coisas. O que h? Somente imagens-movimento. em si mesma que a imagem movimento e em si mesmo que o movimento imagem. A verdadeira unidade da experincia a imagem movimento (DELEUZE, 1981, p. 4).

    De acordo com Deleuze essa seria uma das teses mais importantes de Matria e Memria,

    pois, a partir dela, seria possvel pensar as coisas para alm ou aqum da diviso clssica entre

    sujeito e objeto, numa tentativa, de restabelecer um contato imediato com as coisas, em certo

    sentido, semelhante proposta da fenomenologia. De todo modo o ponto essencial que nos interessa

    aqui, ou seja, entender o que significa imagem para Bergson esclarecido em seguida por Deleuze:

    Porque essa palavra imagem? muito simples...A imagem o que aparece. Denomina-se imagem aquilo que aparece. A filosofia sempre tem dito o que aparece o fenmeno. O fenmeno, a imagem o que aparece. Bergson nos diz ento, que o que aparece est em movimento [...] (DELEUZE, 1981, p. 5).

    Deleuze nota que o diferencial do argumento de Bergson decorre essencialmente das

    Revista Estudos Filosficos n 9/2012 verso eletrnica ISSN 2177-2967http://www.ufsj.edu.br/revistaestudosfilosoficos

    DFIME UFSJ - So Joo del-Rei-MGPg. 136 - 150

  • consequncias filosficas que ele extrai dessa constatao , ou seja, a tese de que a imagem no

    um suporte da ao e da reao, mas em si mesma e em todas suas partes, ao e reao, em

    outras palavras, movimento. A imagem , portanto, estremecimento, vibrao.

    2.2. A lembrana aparece duplicando a cada instante a percepo...

    Se voltarmos epgrafe, podemos nos questionar sobre o que ocorre quando aquele trabalho

    de tentativas, que se assemelha busca do foco por meio do aparelho fotogrfico, obtm sucesso?

    Ser que teremos uma imagem do passado? Se a resposta for afirmativa, essa imagem pode ser

    comparada a uma imagem fotogrfica? Para responder a essas questes necessrio,

    primeiramente, entendermos o conceito de memria segundo Bergson, e posteriormente identificar

    de que modo as lembranas se atualizam no presente, essa discusso nos levar, necessariamente, a

    relao entre percepo e lembrana, desse modo teremos subsdios para entender um outro sentido

    da noo de imagem em Matria e Memria.

    Uma das regras fundamentais do mtodo bergsoniano consiste em colocar e resolver os

    problemas em funo do tempo e no do espao. (DELEUZE, 1999, p.31-2) Nesse sentido, o

    conceito de durao o operador chave do filsofo, pois atravs dele, ou, atravs da submisso dos

    problemas s caractersticas da durao, ser possvel resolv-los temporalmente. O primeiro ponto

    a ser destacado em relao durao que devemos notar que no se trata de uma sucesso de

    instantes no tempo, durao no so os sucessivos cortes, pelos quais, na maioria das vezes, damos

    inteligibilidade ao tempo.

    Nossa durao no um instante que substitui outro instante: nesse caso, haveria sempre apenas presente, no haveria prolongamento do passado no atual, no haveria evoluo, no haveria durao concreta. A durao o progresso contnuo do passado que ri o porvir e incha medida que avana (BERGSON, 2006, p. 47).

    Durao, portanto, no corte, mas continuidade, assim como h continuidade entre passado

    e presente, a despeito da diferena de natureza entre os dois termos. O passado dura, sobrevive ao

    presente que ele foi, e por isso ri o porvir, debruando-se sobre ele. Mas como? A percepo do

    presente, que segundo o autor, obedece ateno vida, ou seja, utilidade da vida prtica, no

    pode existir sem a lembrana; essa formulao que garante a continuidade entre passado e

    presente.

    Revista Estudos Filosficos n 9/2012 verso eletrnica ISSN 2177-2967http://www.ufsj.edu.br/revistaestudosfilosoficos

    DFIME UFSJ - So Joo del-Rei-MGPg. 136 - 150

  • [...] na verdade o passado se conserva por si mesmo, automaticamente. Inteiro, sem dvida, ele nos segue a todo instante: o que sentimos, pensamos, quisemos desde nossa primeira infncia esta a, debruado sobre o presente que a ele ir se juntar, forando a porta da conscincia que gostaria de deix-lo de fora (BERGSON, 2006, 47).

    Para formular algo dessa natureza, Bergson precisou supor a existncia de um passado

    ontolgico, que garante a existncia dos diversos passados concretos, bem como da percepo do

    presente. Se recordarmos a epgrafe, ela dizia que primeiro nos recolocamos no passado em geral,

    esse passado em geral justamente o passado ontolgico que possibilita a conservao do passado

    em si mesmo, inteiro2. A ideia de se recolocar no passado em geral interpretada por Deleuze como

    um salto ontolgico3, no estaramos ainda numa dimenso psicolgica, justamente porque esse

    salto ontolgico significa antes de tudo despersonalizao, sada do mundo da utilidade e da

    ateno vida4.

    A partir desse ponto temos maiores condies de situar de um modo mais adequado a

    epgrafe de nosso trabalho devolvendo-a ao fora-de-campo que a compreende. Logo aps o trecho

    da epgrafe Bergson nos diz:

    Mas nossa lembrana continua em estado virtual; dispomo-nos assim apenas a receb-la adotando a atitude apropriada. Pouco a pouco aparece como...