Inscrição e Circulação

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    03-Dec-2015

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De Teresa Caldeira

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  • InscrIo e cIrculao*

    Novas visibilidades e configuraes do espao pblico em So Paulo**

    Teresa Pires do Rio Caldeiratraduo de Claudio Alves Marcondes

    RESUMO

    Uma srie de intervenes produzidas por homens jovens

    esto transformando os espaos pblicos de So Paulo e rearticulando as profundas desigualdades sociais que sempre

    marcaram a cidade. O artigo analisa dois modos de interveno: a produo de inscries e o deslocamento pelo espao

    urbano. A produo de inscries referese proliferao de grafites e pixaes, ambos em estilos tpicos de So Paulo.

    J o deslocamento espacial alude s novas prticas de circulao pela cidade, como o motociclismo, o skate e o parkour.

    Essas intervenes garantem uma nova visibilidade a jovens vindos das periferias, desafiam noes prvias sobre o

    funcionamento dos espaos pblicos, e revelam novas contradies da esfera pblica democrtica.

    PALAVRASCHAVE: Espao pblico; grafitti; pixao; deslocamentos

    urbanos.

    ABSTRACT

    A series of interventions by young men are transforming

    public spaces in So Paulo and articulating anew the profound social inequalities that have always marked them. The

    new urban practices include graffiti, pixao (So Paulos style of tagging), and new modes of moving around the city

    (motorcycling, skateboarding and parkour). They give young men from the peripheries a new visibility in the city and

    thus challenge previous understandings about the functioning of public spaces. However, these interventions are con

    tradictory: they affirm rights to the city while fracturing the public; expose discrimination but refuse integration. They

    test the limits of the democratization process by simultaneously expanding the openness of the democratic public

    sphere while challenging it with transgressive actions ranging from the mildly illicit to the criminal.

    KEYWORDS: Public space; grafitti; pixao; urban mobility.

    NOVOS ESTUDOS 94 NOVEMBRO 2012 31

    So Paulo uma cidade com grafites surpreendentes e extraordinria profuso de pixaes1, imensas manifestaes pblicas e intensa produo artstica. Estriada pela rpida movimentao das motos por entre as filas de carros em avenidas congestionadas, assim como pela prtica do skate e do parkour, do rap e do break, a prpria cidade local e tema de uma variedade de atividades pblicas que se apropriam do espao urbano e o produzem de maneiras inusitadas. So essas intervenes em reas pblicas que vm transformando e rearticulando as profundas desigualdades sociais que sempre marcaram esses espaos. Expressas simultaneamente como produo

    [*] Publicado originalmente em Public Culture, vol. 24, n- 2, pp. 385-419, 2012. Direitos de reproduo: Duke University Press (www.dukeupress.edu). Republicado com permisso.

    [**] Gostaria de agradecer a todos que partilharam comigo sua paixo pelo grafite, a pixao, o parkour, o skatismo e a cidade de So Paulo, e me ajudaram nessa pesquisa, sobre-tudo Srgio Miguel Franco e Carlos Augusto Calil. Tambm agradeo o apoio representado por duas bolsas de pesquisa concedidas pela Univer-

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  • 32 INSCRIO E CIRCULAO Teresa Pires do Rio Caldeira

    sidade da Califrnia, Berkeley, Co-mit de Pesquisas da Universidade da Califrnia em Berkeley (2009-10, 2010-11) e pelo Instituto de Pesquisas em Humanidades da Universidade da Califrnia. Agradeo ainda a An-toni Muntadas e Sylvia Masini, por permitirem a reproduo de algumas imagens, e David Theo Goldberg e Hun Kim, pela ajuda na produo da verso final deste ensaio e de suas ilustraes. Sou grata, ainda, a Gau-tam Bhan e a James Holston, por suas leituras crticas em uma etapa crucial do trabalho. Verses anteriores deste ensaio foram apresentadas em sim-psios na Universidade de Chicago e na Universidade Americana de Beiru-te, no Lbano.

    [1] A grafia oficial da palavra em portugus pichao. No entanto, seus praticantes e as pessoas associa-das arte de rua em geral a empregam com x, em vez de ch. Adoto aqui essa grafia, e tambm pixador, pois estou me referindo a essa prtica especfica, e no a outras formas de inscries grficas em paredes.

    artstica e interveno urbana, elas conferem s camadas subalternas uma nova visibilidade e refletem novas formas de atuao poltica. Por outro lado, tais intervenes so contraditrias, pois, ao mesmo tempo que afirmam o direito cidade, elas fragmentam a esfera pblica; e, ainda que tornem explcita a discriminao, tambm recusam a integrao. Elas pem prova os limites do processo de democratizao, ao expandir a abertura da esfera pblica democrtica, e os contestam por meio de atos transgressivos que vo desde aqueles no limiar da ilegalidade at os patentemente criminosos.

    Meu propsito aqui analisar algumas das transformaes e tenses geradas em So Paulo por dois modos especficos e sobrepostos de interveno: a produo de inscries e o deslocamento pelo espao urbano. A produo de inscries referese proliferao de grafites e pixaes, ambos em estilos tpicos de So Paulo. J o deslocamento espacial alude no s s novas prticas de circulao pela cidade, que incluem o uso de motos e skates, assim como o parkour, mas muito mais amplo, uma vez que tais deslocamentos so cruciais para a sociabilidade e o lazer de grupos juvenis, e tambm constituem aspecto relevante da grafitagem e da pixao. Os praticantes de ambas as modalidades de interveno so quase exclusivamente jovens do sexo masculino, que, medida que recriam o espao pblico, acabam ainda por configurar hierarquias de gnero. Tais prticas, sem dvida, no esgotam as atuais possibilidades de constituio do espao pblico urbano, e seus adeptos representam uma minoria entre os moradores da metrpole. No entanto, hoje elas esto incorporadas rotina da cidade, afetam a vida dos cidados para alm do grupo estrito de seus adeptos e ocasionam mudanas paradoxais no ambiente urbano. Essas intervenes pressupem a desigualdade e, portanto, a naturalizam. Elas privilegiam a agressividade e a transgresso como modos de articulao, ao mesmo tempo que recorrem linguagem dos direitos e das liberdades, e ainda revelam um prazer genuno na livre circulao pela cidade. Colocam em questo certo modus vivendi, mas no evocam alternativas reconhecidas, como as articuladas em termos de cidadania e igualdade. Por tudo isso, essas prticas requerem uma nova concepo tanto do espao pblico democrtico, como do papel dos grupos subalternos na produo da cidade.

    TERREnO MOvEdiO: nOvAS ARTiCUlAES

    dA dESigUAldAdE E dO ESpAO pBliCO

    A desigualdade social provavelmente a caracterstica mais saliente das cidades brasileiras. Todavia, nas ltimas dcadas, ocorreram mudanas significativas, seja na forma e no significado da desigualdade, seja nas relaes e espaos nos quais esta se manifesta e se re

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    [2] Ver captulo 6 de Caldeira, Teresa P. R. Cidade de muros: crime, segregao e cidadania em So Paulo. So Paulo: Editora 34/Edusp, 2000; Marques, Eduardo e Haroldo Torres (orgs.). So Paulo: segregao, pobreza e desigualdades sociais. So Paulo: Se-nac, 2005.

    produz. Notamse hoje configuraes inusitadas e muitas vezes contraditrias da desigualdade em cidades como So Paulo. Em funo de tais configuraes que se podem entender os modos de interveno urbana apropriados por grupos de jovens.

    Certos indcios dessas novas configuraes so bvios e consensuais. A despeito da persistncia da pobreza, no decorrer das ltimas dcadas registrouse considervel melhoria na infraestrutura e na qualidade fsica do espao urbano em So Paulo, com reflexos diretos e positivos nas condies de vida nas periferias. Mesmo com a sucesso de planos econmicos e o alto nvel de desemprego, sobretudo na dcada de 1980, houve notvel ampliao no consumo de massa e no acesso a bens antes de acesso restrito. Alguns produtos, como celulares e televisores, agora so encontrados por toda parte, enquanto outros, como casas autoconstrudas e carros, tornaramse muito mais comuns. A organizao dos movimentos sociais urbanos nas dcadas de 1970 e 1980 trouxe os moradores das periferias para o centro da arena poltica. Suas manifestaes ocuparam as principais praas, suas reivindicaes por direitos foram incorporadas Constituio, e suas formas de organizar e influenciar as polticas pblicas tornaramse rotineiras. Alm disso, esses movimentos foram cruciais para mudanas qualitativas no espao urbano, uma vez que levaram instalao de infraestrutura e servios pblicos em todas as reas perifricas2. A democracia se consolidou e passou a ser vista como algo normal. Todos esses avanos resultaram tanto na expanso da esfera pblica e da cidadania como na melhoria da qualidade de vida e dos espaos dos trabalhadores pobres.

    Mas tambm ocorreram mudanas na direo oposta. Enquanto a democracia se institucionalizava, aumentaram os crimes violentos. E a violncia gerou uma proliferao de narrativas uma fala do crime , articulando preconceitos, justificando a intolerncia e dando origem a um novo modo de produo do espao urbano. A cidade tornouse cada vez mais segregada medida que seus habitantes erguiam enclaves fortificados para viver, trabalhar, consumir e se divertir. Enquanto os moradores se recolhiam a espaos privados e modelados por tecnologias de proteo e vigilncia, e esse aparato de controle e encerramento transformavase em indicador de status e estilo de vida, os espaos pblicos acabaram sendo relegados condio de territrios abandonados, percebidos como reas de tenso e perigo.

    Isso no impediu a expanso e a consolidao da democracia nem, tampouco, a recuperao do espao pblico. Na ltima dcada, a democracia continuou a se difundir por todos os nveis da sociedade brasileira, para alm das esferas previsveis das eleies e da poltica partidria. Na realidade, as prticas urbanas inovadoras que hoje estampam sua