Intercom Sociedade Brasileira de Estudos ... ?· As Redes Socias: entre a Informação Compartilhada,…

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  • Intercom Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicao XXXVIII Congresso Brasileiro de Cincias da Comunicao Rio de Janeiro, RJ 4 a 7/9/2015

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    As Redes Socias: entre a Informao Compartilhada, o Ativismo Poltico e a

    Crise da Visibilidade1

    Sara Lemes Perenti Vitor2

    Universidade Estadual Paulista, Bauru, SP

    Resumo

    O artigo apresenta observaes sobre o comportamento dos internautas nas redes sociais

    virtuais, como recebem as informaes e as compartilham, destacando os temas relacionados

    a poltica. A proposta surge ao observar o papel das redes online em 2013 na organizao das

    Manifestaes, e a reao dos internautas aps as eleies de 2014, quando as redes sociais

    deixam de ser um local de dilogo poltico para disseminar averso a opinies diferentes,

    evitando assim reais discusses polticas. Tal situao ocorre em meio a uma avalanche de

    informaes que chegam a todo instante, tornando possvel observar uma crise da

    visibilidade, onde se compartilha, mas no se averigua ou reflete sobre o contedo antes de

    ser repassado.

    Palavras-chave

    Redes Sociais Virtuais; Compartilhamento; Poltica Cultural; Crise da Visibilidade.

    Introduo

    A internet passou a fazer parte da vida de muitas pessoas, tendo como destaque as

    redes sociais virtuais, que do opes de entretenimento desde relacionamentos online e

    expresso de opinies, a compras de diversos tipos de produtos; alm de ser uma grande fonte

    de comunicao. Propaganda, exposio pessoal, momentos cotidianos e vrios tipos de

    informaes chegam a todo instante nas redes, seja pelo facebook, o twitter, os blogs ou tantas

    outras, por meio de computadores e tambm pelos aparelhos celulares. Essa cultura digital se

    expande e passa a ter grande importncia e destaque na sociedade, inclusive na discusso de

    assuntos veiculados na mdia, no entanto a velocidade das informaes maior do que a que

    precisamos para assimilar todo contedo recebido.

    Das trivialidades dos dia a dia e bate-papo entre amigos, comeam a surgir

    assuntos relacionados a poltica no Brasil, principalmente a partir de 2013 com o Movimento

    Passe Livre, onde milhares de pessoas passaram a falar da revolta de se viver em uma nao

    1 Trabalho apresentado no GP Mdia, Culturas e Tecnologias Digitais na America Latina, no XV Encontro dos Grupos

    de Pesquisas em Comunicao, evento componente do XXXVIII Congresso Brasileiro de Cincias da Comunicao.

    2 Mestre em Comunicao Miditica pela Universidade Estadual Paulista, email: saralemes.j@gmail.com

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    com servios pblicos precrios, pouco investimento na infraestrutura bsica, corrupo na

    poltica, aumento das tarifas de transportes pblicos e gastos excessivos no governo, surgindo

    ativistas polticos digitais. Com a liberdade de expor sua opinio e reproduzir o contedo

    observado, surge um processo de conscientizao poltica, em que algumas pessoas

    publicam em suas pginas3 crticas ao governo, se organizam e do incio s Manifestaes de

    2013 por todo o pas, quando foi possvel perceber o poder das redes sociais no cenrio

    poltico atual, ao organizarem online os atos pblicos que levaram cerca de 1,5 milho de

    manifestantes s ruas em aproximadamente 120 cidades brasileiras.

    Porm nem sempre os receptores querem discutir realmente sobre o assunto

    exposto, nem adquirir mais conhecimento sobre o tema, mas apenas mostrar sua insatisfao.

    Aps as eleies presidenciais de 2014, ocorreram ainda novas manifestaes pedindo

    inclusive o impeachment da recm reeleita presidente Dilma Roussef; esses movimentos

    iniciaram-se nas redes sociais, porm, sem uma discusso poltica sobre o momento,

    apresentando apenas uma revolta contra o Partido dos Trabalhadores por um determinado

    grupo. Nesse momento, a internet comeou a ser usada como instrumento de divulgao e

    militncia, dando mais visibilidade a uma onda de dio4, pois se observa que no se quer

    realmente discutir poltica, nem analisar e refletir sobre o processo poltico como um todo, e

    ainda, no h aceitao de uma opinio diferente da que compartilhada.

    As redes sociais no so exclusividade da internet, os seres humanos se

    relacionam e participam de determinados grupos desde os primrdios. No entanto, na anlise

    proposta, o termo rede social utilizado especificamente ligado internet e s redes virtuais,

    devido a seu destaque na vida social atual e a recepo de informao a todo o momento,

    independente de onde o receptor esteja. A proposta observar qual a reflexo sobre a

    mensagem recebida e o compartilhamento das mesmas, em muitos casos, sem averiguao

    alguma, alm da no aceitao de opinies diferentes a respeito de determinados assuntos

    ligados poltica, notando o surgimento de uma crise da visibilidade em que se olha mas no

    se v alm da mensagem superficial, no se reflete sobre a informao recebida.

    3 Entenda-se aqui pginas online nas redes sociais, como o local onde se expe a opinio, no facebook por

    exemplo, no caso a publicao de ideias na rede.

    4 dio aqui exposto no sentido dos ataques a quem discordava da opinio apresentada.

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    Poltica das redes sociais

    Os organismos sociais se manifestam de acordo com o ambiente em que vivem,

    acompanhando suas modificaes; o que ocorre nos sistemas culturais, com as formas de

    expresso da linguagem. Assim, quando as informaes so repassadas na mdia, esta pode

    construir um imaginrio social aps os receptores receberem as notcias e refletirem sobre

    elas, formando uma opinio pblica e uma viso dos fatos de acordo com o que apresentado.

    , portanto, nesse quadro que florescem interpretaes da vida cotidiana voltadas para a

    valorizao do saber prtico das pessoas simples, que costumam ter grande receptividade

    (MORETZSOHN, 2007, p.39). Com a expectativa de interatividade entre as pessoas e

    democratizao do conhecimento, a cultura passa a ser baseada em uma srie de iluses; pois

    a troca de informaes permite ver, mas no compreender o outro.

    No atual cenrio das redes sociais, em que a poltica torna-se tema constante,

    nota-se a construo de uma Cultura Politica, que em sentido amplo, verificada atravs do

    conjunto de ideias, crenas e prticas que organizam o relacionamento entre as pessoas no

    interior de um grupo; o que gera uma representao ou imaginrio poltico formado por

    imagens (dinmicas, simblicas e afetivas) e por verses dessas imagens com o objetivo de

    promover o equilbrio social do grupo, compreendendo o modo pelos quais tais grupos

    relacionam-se com o governo e com os concidados (COELHO, 2012, P.137).

    A internet proporciona uma liberdade de expresso jamais vista em nenhum

    outro meio de comunicao de massa. As pessoas se relacionam, trocam

    experincias e valiosas informaes sobre os mais variados assuntos. Essa

    juno de vrios ao redor de um tema ou interesse o que forma uma rede

    social (FERNANDES; ROSENO, 2013, P.15).

    O espao de discusso de temas de carter poltico pode ser tratado como esfera

    pblica, onde so expostas as ideias formadoras de opinio a respeito de determinados temas,

    especialmente ligados poltica, surgindo uma opinio pblica. Na internet h uma avalanche

    de ideias sobre diversos assuntos e temas, mas nem todas as interaes polticas se

    caracterizam pela democracia, discusses sobre temas de interesse pblico muitas vezes

    perdem seu foco, tornando-se espaos de disputas e intrigas pessoais (MARTINO, 2015,

    p.90). necessrio ressaltar que uma discusso no uma briga, mas um debate de pontos de

    vista diferentes com objetivo de algum entendimento, sendo que quando a discusso desvia o

    assunto e passa a ter ataques pessoais, deixa de existir nos moldes da esfera pblica, que seria

    a busca pelo entendimento, no pela vitria do debate.

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    Ao observar as redes sociais, nota-se uma tentativa de discutir determinados temas

    de carter poltico e interesse pblico, no entanto, em diversos casos, no h esse

    entendimento sobre a discusso em si ou aceitao da opinio do outro, o mais comum a

    disputa de opinies em busca de impor o que pensa sobre determinado assunto, muitas vezes

    sem nenhum argumento fundamentado. Opinies comuns a um determinado grupo de pessoas

    surgem, mas sem buscar aprofundar o assunto ou ouvir propostas diferentes; tais opinies so

    compartilhadas na rede conforme so recebidas. Intermediadas por telas digitais, a relao

    das pessoas com a realidade se torna, de alguma maneira, um vnculo com imagens e

    aparncias (MARTINO, 2015, p.248). O que postado uma imagem de si que se pretende

    mostrar, uma construo prpria.

    Compartilhar significa participar de algo, tomar parte em alguma coisa,

    e tambm partilhar, dividir com outros. Indiretamente, nos remete s

    prticas instauradas pelas redes sociais na Internet de socializao de

    contedos on-line e amplamente difundidas na rede (ZANETTI, 2011,

    p.62).

    Nas redes sociais, a cultura do compartilhamento amplamente utilizada,

    produzindo mais contedo. Segundo Jenkins (2009), a cultura da convergncia ocorre nas

    redes pelo fato do indivduo compartilhar seus comentrios a respeito do que v, das

    informaes que recebe seja por meio da televiso ou outras mdias. Ao compartilharem

    ideias, valores e mensagens, acrescentam suas contribuies, deixando de ser um ato de

    apenas ver televiso, mas passando a discutir e reimaginar a informao, que ser recriada e

    compartilhada com outras pessoas. Uma das premissas mais importantes do conceito de

    Cultura da Convergncia diz respeito possibilidade de cada indivduo ser potencialmente um

    produtor de mensagens (MARTINO, 2015, p. 37).

    Por outro lado, esse compartilhamento desenfreado, junto grande torrente de

    informaes que chega nas redes sociais a todo momento leva a uma hipertrofia da viso, a

    uma crise da visibilidade devido a rarefao de sua capacidade de apelo necessitando de cada

    vez mais imagens5 para alcanar o efeito desejado. O ideal de visibilidade estaria

    perfeitamente justificado, caso no derivasse para a superexposio que substitui a cegueira

    pela treva cegueira pelo excesso de luz (MORETZSOHN, 2007, p.29). necessria a

    oferta de informaes confiveis para que o pblico tire suas prprias concluses, mas a

    5 Entenda-se a ideia de Imagem como a construo imagtica na memria a partir da informao apresentada.

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    considerada falta de tempo para pensar e esse excesso de informao faz com que os

    receptores no questionem as mensagens recebidas.

    O termo imagem aqui utilizado est ligado memria, considerando que ao ver ou

    ler determinada notcia, o receptor resgata em sua memria uma relao ao assunto e reflete

    sobre o mesmo a partir de sua vivncia ou conhecimento; quando h um conjunto de imagens

    acumuladas e transmitidas por meio de diversas manifestaes em um determinado grupo

    denominado cultura. Para Baitello (2005), os meios de comunicao que dependem de

    aparelhos para existir e repassar suas mensagens so chamados de imagens tcnicas, os quais

    transmitem a informao pronta, o fato sem necessitar refletir alm do que apresentado,

    tornando indispensvel as explicaes cientficas e tcnicas, a viso superficial a desejada e

    comumente utilizada.

    A produo ilimitada, o excesso de imagens e a distribuio irrestrita das mesmas

    tem levado a comunicao a essa hipertrofia da viso, provocando a escassez atravs da

    abundncia, pela overdose de informao. Com a popularizao da mdia, onde a maioria das

    pessoas tem acesso internet e pode produzir contedo e repass-lo a diversas outras pessoas

    sem nenhum tipo de filtro da informao, surge uma descontrolada reprodutibilidade, mas na

    maioria das vezes sem nenhuma reflexo sobre o que est sendo passado, um processo onde

    se recebe muito contedo, mas no o v realmente, apenas o olha rapidamente.

    Mquinas lidam com informaes; seres humanos, com o significado dessas

    informaes. No entanto, na medida em que a torrente de dados cada vez

    maior, o resultado um predomnio da informao sobre o significado boa

    parte das informaes que as pessoas recebem todos os dias, em aplicativos,

    e-mails e redes sociais no significam absolutamente nada. No vo alm da

    superfcie da informao (MARTINO, 2015, P.42).

    O potencial democrtico da internet vem do fato de mais pessoas terem a

    possibilidade de expressarem suas opinies. Pensando a poltica como um processo social,

    desenvolvido a partir de conflitos e tenses entre seres humanos, no h tecnologia que

    garanta maior ou menor participao das pessoas; pois quem garante que o engajamento

    poltico seja maior ou melhor na rede? Essa postura decorre de uma perspectiva que coloca

    na mdia, e no no ser humano, a responsabilidade pelos processos sociais e histricos da sua

    vida (MARTINO, 2015, p.270). Torna-se necessrio criar pontes e vnculos entre as

    diferenas, construir a comunicao entre seres humanos dispostos tanto a falar como a ouvir,

    buscando a compreenso do outro.

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    Os aparelhos tem o propsito de criar, preservar e transmitir informao e

    imagens, Flusser apresenta as imagens criadas pelos aparelhos como a serem imaginadas pelo

    receptor, onde o termo imaginar significa a capacidade de concretizar o abstrato (2008,

    p.55). Para ele, as imagens tcnicas so produzidas por imaginadores que no tem uma viso

    profunda do que fazem e constroem as imagens de forma superficial, de forma que no

    necessitem que o receptor busque novas interpretaes para as mesmas, tendo-as como

    verdadeiras.

    Imaginar fazer com que aparelhos munidos de teclas computem os

    elementos pontuais do universo para formarem imagens e destarte,

    permitirem que vivamos e ajamos concretamente em um mundo tornado

    impalpvel, inconcebvel e inimaginvel por abstrao desvairada. A

    definio visa captar a situao na qual estamos; captar o clima espectral do

    nosso mundo; mostrar como tendemos atualmente a desprezar toda

    explicao profunda e a preferir superficialidade empolgante

    (FLUSSER, 2008, p. 60).

    As imagens tcnicas apontam o significado que querem apresentar, querem

    provocar determinadas vivncias, conhecimentos, valores e comportamentos, querem

    programar seus receptores, j trazem pronto o sentido a ser dado informao, dispensando

    interpretaes de quem as recebe; que, por outro lado, necessita de conhecimento mais amplo

    para com...

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