Leminskiada Sarduy Haroldo

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Text of Leminskiada Sarduy Haroldo

  • Aparencia.Meraaparencia.Afinal,bemexaminadas,acompletude,a perfei~o,sonostalgiasc1ssicas,substan-cialistas,deharmoniae reconcilia~o,nummundocomoonosso,!!jcoedilacerado,s6habitadopelasaleg6ricasrunasb~njaminianas(tra~oinsinuantedaDer~stenciamodernaecontemporaneadoBarroco...).

    Numcertosentido(numsentidoadmonit6rio,quecon-jura asveleidadese convidaa reflexo),prefirorecapitularaspalavrasdeGottfriedBenn,nasuaconferenciade1951,Prob/emederLyrik (GottfriedBenn,o nietzscheanopoetadasDesti//ationen,fascinadopelo"complexoJigrico"~umpoetaquepartilhavacomo nossoFaustino"umaamizadepeloazul" / eineBefreundungfrB/au):

    Nenhum,mesmodentreos maioreslricosdenossotempo,deixoumaisdoqueseisa oitopoemasperfeitos;osrestantespodemserinteres-santesdopontodevistadabiografae daevolu~aodoautor,masaquelesqueencerramemsi mesmose desi irradiamumfascnioplenamentedu-radouroso poucos- e no entanto,paraessesseispoemas,trintaacinqentaanosdeascese,sofrimentoseluta.

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    16.UMA LEMINSKADA BARROCODLICA'"

    o Catatau,de PauloLeminski,estsendorelan~ado.Publicadoem1975,emCuritiba,porumapequenaeditora,teve,porassimdizer,umexitodecamera.O quesecostu-machamar"sucessodeestima",juntoaumpequenocrcu-lo deaficcionados.A seuredorcriou-se,comoseriadees-perar,a legendanegradailegibilidade.Paraissocontribuiuo pr6prioautor,que,numaadvertenciainicial,proc1amava:"Me negoaministrarc1areirasparaa inteligenciadesteca-tatauque,poroitoanos,agora,passoumuitobemsemma-pas.Virem-se".E houvequemsevirasse,comoprovaape-quenamasexpressiva"FortunaCrtica"queacompanhaes-ta reedi~o,naqualsedestaca,pelodetalheanaltico,o en-saio "Catatau:Cartesanato",de AntonioRisrio.Mas opr6prioLeminski,antesdeserfulminadopelacirrosepro-meticaqueo rouboudenossoconvvio,tevetempodere-considerarsuaprimeiraatitudededesafioaoleitor.Prepa-rouparaa novaedi~oumaintrodu~oaolivro,sobo ttulo

    I Publicado originalmente em Letras, Folha de S. PauJo, 02.09.1989.213

  • "DescordenadasArtesianas",na qualabreo jogo e contaumpoucodahistriadesuahistria."Por fimacobramor-deo prpriorabo",dizele.E passaareferirquea"intui~aobsica"do CatatauIhevieraem1966,enquantoministravaurnaaulasobreos holandesesnoBrasil,o estabclecimentodeMaurciodeNassauemPernambuco,apoiadocmforteaparatonavale militar.Discorriasobrea urbaniza~aodoRecife;a.Mauritzstad("cidadede Maurcio")na ilha deAntonioVaz;o palciodeVrijburg,ondeoprncipeinvasorinstalarasuacorteilustradadeartistasesbios.Nessecen-rio real,irrompea fic~ao.Oeorreu-Iheurnahiptese(falsa,masverossmil):queaconteceriase RenDescartes,queserviraaNassaunaHolanda,o filsofoCartesiusdoDiscur-so sobreo Mtodo,o fsicoempenhadoemdarurnaexpli-ca~aomecanicista,unae sistemtica,ao Universo,tivesseacompanhadoo conquistadoremsuaempreitadanostrpi-cos?HypotlJesesnonjiflgo ("Nao elaborohipteses"),ex-clamouNewton,numaclebrerefuta~aoa Descartes,aquemnaorepugnavao raciocniohipottico,desdequeasdedu~esnelefundadasfossemconvalidadaspelaexperien-cia.LeminskinaoconcordacomNewtone vaielaborandosuahipteseficcionale laborandonelaatravsdasduzentase tantaspginasdo Catatau,confiadonaotantonaexpe-rienciaquantonoverbo...E eisCartsionaMauriciolandia,no parquedo pa~ode Vrijburg,soburnarvorefolhuda,ele,o expertoemDioptria(refra~aoda luz),co",suaslen-tese lunetas,observandoa paisagem,asnausnoportoeosbichosnozoooua solta.Ei-Io, fumandomarijuana("taba-quea~odetoupinambaoults")e fundindoacucanadesme-sura nao geometrizveldas formasvegetaise animais,quandournapregui~aIhealvejao cocurutocomumdisparofecal,comofez o urubucomMacunama."Ora, senhorapregui~vaicagarnacatapultadeParis!",reclamao filso-fo,embarcando,agostoouacontragosto,noseusonhopsi-codlico.Melhordizendo,barrocodlico,poisdeumcome-timentoneobarroco,deumensaiodeliqefa~aodomtodoe deprolifera~odasformasemenormidadesdepalavra,quesetrata1.

    l. 00010 ensaio de Roberto Romano, "A Razo Sonhadora", Revisla USP. n9

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    A Lenga/engagemdo DeUrio

    Catatu,segundoo CaldasAuleteeo Aurlio,significa:."Discursoenfadonhoe prolongado;discurseira,bstia".sinnimode "pancada"ou de "calhama~o".ReconciliaasnO\rescontraditriasde "sujeitode pequenaestatura"e"coisagrandee volumosa".Tambmquerdizer"catana"(espadacurva),urnapalavraqueos portuguesesimporta-ramdoOriente(dojapones,katan)."Ir numcatataomesmoque"falarsozinho",como"meteracatana"equiva-le a "dizer mal de outrem".DessapolissemiaestbemenscioLeminski,quearrolavriasdessasacep\resemsuaintrodu~o.De todaselaSpareceter tiradopartido,literalou metafrico,no quechamaumaego-trip:suadelirante"lengalengagem".Pois tantoo narrador,Cartesius,o pen-sadorpuroexcedidopeloabsurdotropical,comoseualterego,parceiroambguoe depositriodaexplica~odotexto,o artimanhosoArtysehewsky(figurainspiradana de umherticofidalgopolones,generalaservi\rodeNassau),am-bostemmuitoavercomo prprioLeminski..Soregistroscomplementaresdesuavozescritura!.

    o Catatau- argumentaLeminski- a histriadeumaespera.Opersonagem(Cartsio)esperaumexplicador(Artyschewsky).Esperare-dundAncia.O leitoresperaumaexplica\;o.EsperaredundAncia,talcomoo personagem(isomorfismoleitor/personagem).Mass6recebeinfor-ma\;Oesnovas.TalcomoCartsio.

    o verdadeiroprotagonistado texto,no entanto, Oc-cam(Ogum,Oxum,Egun,Ogan),umaespciede"monstrosemitico",infladoe vorazcomoOrca,a baleiaassassina,e poucodispostoa submeter-sea disciplinamet6dicadeseu homnimo,o monge-fil6sofoGuilhermede Occam(1280-1349),cujanavalhaafiadasepropunharasourartodae qualquerentidadeintil,hipoteticamentecomplexae noavalizadapelaexperiencia.Ao invs,daparal6gica,dopa-radoxo,dasassocia\resdesomesentido,dasfrasesfeitasedesfeitas,doscontgiospseudo-etimoI6gicos,dosjogospo-

    8, So Paulo, dez.-jan.-fev. 1990-1991,enfocando a pn:sell9l do "caos barroco" em

    Descartes,poderia n:spaldar,por um vis filosfico, a fabula~o leminskiana...

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  • lilnges,quesealimentao OccamdoCatatau.Um insaci-vel abantesmagrafomanaco,quereduzao absurdoo dis-cursometdiconotachofumegantedotrpico.

    SrgioBuarquedeHolanda,emRa(zesdoBrasil,refereurnacuriosaexplica~aoantropolgicaparao insucessodapoderosaempreitadaholandesaemnossasterras.

    Ao contrriodoquesucedeucomosholandeses,o portuguesentrouemcontactontimoe freqentecoma popula~odecoroMaisdoquene-nhumoutropovodaEuropa,cediacomdocilidadeaoprestgiocomunica-tivodoscostumes,da linguageme dasseitasdosindgenase dosnegros.Americanizava-seouafricanizava-se,conformefossepreciso.

    E mestreSrgioprossegue:

    A proprialnguaportuguesapareceter encontrado,emconfrontocoma holandesa,disposi~oparticularmentesimpticaemmuitosdesseshomensrudes.Aquelaobserva~o,fOrmuladasculosdepoisporumMar-tius,de que,paranossosndios,os idiomasnrdicosapresentamdificul-dadesfonticaspraticamenteinsuperveis,aopassoqueo portugues,co-moo castelhano,Ihes muitomaisacessvel,puderamfaz-Iabemcedoosinvasores.

    Mesti~gem.Miscigena~aode corpose lnguas.Eis odispositivoqueteriaanimadoa "guerradeguerrilhas"con-tra a qualo exrcitoorgulhosoe bemaparelhadodaNovaHolandaacaboupor deixar-seabater.Leminskitentade-monstrarissona linguagem.Ou comoelemesmoresume:"O Catatau o fracassodalgicacartesianabrancanoca-lor, o fracassodo leitorementende-Io,emblemadofracas-sodoprojetobatavo,branco,notrpico".

    UmaFeiraLivre Maca"onica

    As influenciasnessaLeminsk{ada,comoeuaquiabati-zo,saomuitas.Algumasbvias.ComoJoyce.Maisqueo doUlysses,o doFinnegansWake,ouFiniciusRevm,j frag-mentariamenteabrasileiradoporAugustodeCamposepormimna antologiaPanaroma(111edi~ao,1962).Nadaa es-tranhar,diga-sede passagem,nessaaclimata~aodo fine-ganesjoyceanoaobrasilricoportugues.BastadizerqueomesmoSrgioBuarque,emVisaodoParafso,quemregistra

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    a presen~dasperegrina~esde SaoBrandale da para-disacailhaBrasil,HighBrazilou O'Brazil,emtrechosdaobramximadoirlandesecumenico.Evidente,tambm,ocontributodo GrandeSertaorosiano:modosdedizer,cir-cunlquiqs,cadencias.Mas outros condimentossaoigual-menteimportantesnosarapatelleminskiano.O sermonriobarrocodeumVieira,porexemplo,cujoestiloengenhoso,a contrapelodo"bomsenso"cartesiano,foi tiobemestu-dadoporA. J. Saraiva("No discursoengenhoso,aspalavrasnaosao representantesmasseresautanomos,quecomomatriapodemser recortadosparaformaroutros,e tememsi rela~esquelembrammuitomaisos elementosdacomposi~aomusicaL"). O latimescolsticoe o latinriodastertliascoimbrastambmnaoIhesaoestranhos.Esteltimodeu em nossaliteraturaas abstrusascomposi~esburlescasdaMaca"oneaLatino-Portuguesa,limita~odobeneditinoFolengo.Sobretudo,porm,meparecepresente,naprosatravadadearmadilhasdeLeminski,umlivroinse-minador,aFeiradosAnexins,do seiscentistaD. FranciscoManueldeMelo. Essaobra,AlexandreHerculanoreputa-va-aum verdadeiromanualparaos escritoresdo "generocamico".Trata-sedeumfascinanterepertriodemetforase locu~espopulares.Divididoemtresse~es,comsubttu-loscomo"Em metforadecabelos","detesta","deolhos"etc.,temcoisasdesabusadascomoesta:"Issodeo/hotra-zeiro,naomecheira;porqueosmalvistostemcincoo/hos;eosqueenxergambem,comoso//zosquetemnacara,teraotres:master no trazeiroumo//tO,e outrono rosto, serPolifemoa tortoe a direito".A fun~aodoprovrbio,comoo principalrecursodeengendramentoe articula~iodo li-vro, j foi alissalientadapor Regis Bonvicino("ComQuantosPausseFazumCatatau",artigode1979).

    Urnacoisa,porm,certa.Quaisquerquesejamasex-travagancias,anomaliasou disrup~esdo projetolemins-kiano,trata-se,fundamentalmente,deumprojetodeprosa.Um projetoambicioso,levadominuciosamentelconse-cu~ao,no quala poesia(parafalarcomoW. Benjamin)apenaso mtodo(nao-cartesiano)daprosa.Urnaprosaquependemaisparao significantedo queparao significado,masqueregurgitadevontadefabuladora,deapetenciapi-

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  • ca,deestratagemasretricosdedila~onarrativa.A poesia,ao contrrio,aindaquandosesirvada prosacomo"exci-piente",parecedar-semelhorcoma imagem,coma visao,como epifnico. umadistin~otendencial,ressalve-se,naocategrica.As fronteirassaomveis,podendotornar-semaisemaisrarefeitas.

    o BardoUbaldoeoRapsodoLeminski

    Escrevendosobreo Catatau,meveioamenteumpara-lelo quepoderparecersurpreendenteparaalguns,masque,paramim,seim