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Lugar do lixo no lixo: estudo de assimilao daLugar do lixo no lixo: estudo de assimilao dainformaoinformao**

Carla TavaresCarla TavaresMestre em cincia da informao (CNPq/Ibict - UFRJ/ECO).Consultora da ONG Ecomarapendi, Rio de Janeiro, RJE-mail: caed@gbl.com.br

Isa Maria FreireIsa Maria FreireDoutora em cincia da informao (CNPq/Ibict - UFRJ/ECO).Professora-pesquisadora do Programa de Ps-Graduao emCincia da Informao (Convnio CNPq/Ibict - UFRJ/ECO)E-mail: isa@mtecnet.com.br

UM PROBLEMA AMBIENTAL NAUM PROBLEMA AMBIENTAL NAPERSPECTIVA DA CINCIA DAPERSPECTIVA DA CINCIA DAINFORMAOINFORMAO[O tear interdisciplinar]

Este artigo diz respeito a algo inserido em nosso dia-a-dia que nem sempre percebido como parte do meioambiente: o lugar do lixo. O tema alvo de preocupaoespecial em cidades grandes como o Rio de Janeiro, ondea capacidade de a populao sujar o espao urbano infinitamente maior do que a capacidade de o poderpblico limp-lo. Essa atitude ocorre pela dificuldade dapopulao em considerar preservao do meioambiente um conceito prximo do seu dia-a-dia oque inclui a rua, o bairro, a cidade , associando-osomente proteo de animais e florestas.

Nesse sentido, abordamos o problema na perspectiva dainformao a partir dos construtos agregados deinformao de Barreto (1996), com contribuies deFreire (1987) e Pereira (1998), e responsabilidade socialda cincia da informao de Wersig & Nevelling (1975),retomado por Freire (2001). Adotamos, para a rea dacincia da informao, sua definio como campo:

[de] investigao cientfica e prtica profissional quetrata dos problemas de efetiva comunicao deconhecimentos e de registros do conhecimento entreseres humanos, no contexto de usos e necessidadessociais, institucionais e/ou individuais de informao(Saracevic, 1992, apud Pinheiro, 1999).

Destarte, possibilitar o acesso informao atravs dosmais diferentes meios de comunicao torna-sefundamental na melhoria das condies de vida de nossopovo (Freire, 2000). A informao qualificada aquicomo um instrumento modificador da conscincia dohomem e de seu grupo social; mantm uma relao como conhecimento, que, por sua vez, s se realiza quando ainformao percebida e aceita como tal (Barreto, 1996).Pois, como lembra Freire (1995), a informao,

Resumo

O presente estudo investiga a assimilao da informao lugardo lixo no lixo por meio da anlise de depoimentos textuais egrficos de trs grupos de alunos da 4 srie do ensinofundamental. Para isso, foram utilizadas como base as oficinasde reciclagem artesanal de papel do Projeto Recicloteca daONG Ecomarapendi, transformadas em agregado de informaoe denominadas oficinas experimentais. Esse tipo de abordagemdefine sua insero na cincia da informao e suaresponsabilidade social na comunicao do conhecimento,tendo sido tecida uma rede conceitual unindo fios dainformao e da educao ambiental. Alm da constatao dapresena de barreiras de comunicao, os resultados dapesquisa apontaram que a informao foi assimilada por nmerosignificativo de crianas, revelando a coerncia e atualidadedessa pesquisa na problemtica dos resduos slidos [lixo].

Palavras-chave

Assimilao da informao; Estudo de usurios; Informaoambiental; Lixo; Educao ambiental; Oficinas de reciclagemartesanal de papel.

The place for trash is in the trash: Study of theassimilation of information

Abstract

This study investigates the assimilation of information: "theplace for trash is in the trash" through the analysis of reportsfrom three groups of students in the 4th grade of elementaryschool. Craft workshops of recycled paper of the ProjetoRecicloteca of a non-governmental organization - Ecomarapendi- were changed into aggregated information and named asexperimental workshops. This type of approach defines itsinsertion into Information Science and its social responsibility inknowledge communication. A conceptual web has been wovenjoining threads of information and environmental education.Although there were barriers of communication, the results of theresearch show that the information was assimilated by asignificant number of children, displaying coherence and up-to-dateness of this research regarding the issue of solid waste -trash.

Keywords

Assimilation of information; Users studies; Environmentalinformation; Trash; Environmental education; Craft workshops ofrecycled paper.

* Resumo da dissertao de mestrado de Carla Tavares, orientadapor Isa Maria Freire, no Programa de Ps-Graduao em Cinciada Informao - Convnio CNPq/Ibict - UFRJ/ECO. Rio deJaneiro, 2002.

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Carla Tavares / Isa Maria Freire

... enquanto fenmeno da comunicao humana,representa uma forma coerente e adequada de expressodo conhecimento cujo sentido somente ser decifradopor um receptor, se este transformar suas prpriasestruturas de percepo e conhecimento do mundo.

Nesse campo, abordaremos uma das ramificaesda informao a informao ambiental que temseu elemento-chave na busca do bem-estar coletivo.A informao ambiental um dos tipos de informaocientfica e tecnolgica, definida por Targino (1994) como

... dados, informaes, metodologias e processos derepresentao, reflexo e transformao da realidade, osquais facilitam a viso holstica do mundo e, ademais,contribuem para a compreenso, anlise e interaoharmnica dos elementos naturais, humanos e sociais.

Mueller (1992) atribui-lhe o papel de fornecer subsdiospara a abordagem apropriada dos impactos de fenmenosnaturais e das atividades humanas sobre o meio ambientee sobre a qualidade de vida do ser humano no sentidode prover informaes e anlises relevantes aoplanejamento e formulao de polticas sociais,econmicas e ambientais integradas. A informaoambiental poderia contribuir para a mudana de condutase comportamentos, tendo papel fundamental napreservao ambiental, como subsdio para nossa aono mundo e para diminuir a incerteza diante do meioambiente, quer seja natural ou construdo pelo homem,pois, para alm das necessidades do sistema produtivo,todos temos direito informao (Freire & Arajo,1999).

Entretanto, Vasconcelos (1998) observa um afastamentoprogressivo entre o campo cientfico e a sociedade civil,revelado pela baixa incorporao da varivel social noestabelecimento de prioridades e na definio de linhasde pesquisa ignorando reais necessidades, sinalizadaspelas dificuldades de transferncia de informao paraos demais atores sociais. A informao ambientalcircularia em esferas especializadas ampliadas, no seconectando com as populaes atingidas pelos problemasambientais (Gonzlez de Gmez, 1999).

Em contrapartida, as geraes futuras devem serincludas nas formulaes para o desenvolvimento, e osdireitos econmicos devem ser moderados pela justiaecolgica. Pois, se todos contribuem com a degradaoambiental, compartilham responsabilidades nessesentido. Assim, dentro desses processos participativos,deveriam ser realizados trabalhos de sensibilizao para

as questes ambientais. Nesse sentido, os profissionaisda informao podem se fazer ainda mais presentes noprocesso de desenvolvimento sustentvel da sociedadebrasileira (Tavares & Freire, 2002).

Os agregados de informao de BarretoOs agregados de informao de Barreto

Neste trabalho, a informao considerada comoestruturas significantes com a competncia e intenode gerar conhecimento no indivduo, em seu grupo, ouna sociedade (Barreto, 1999). Nesse quadro de referncia,utilizamos o conceito de assimilao da informaocomo sendo

... um processo de interao entre o indivduo e umadeterminada estrutura de informao, que vem gerar umamodificao em seu estado cognitivo, produzindoconhecimento, que se relaciona corretamente com ainformao recebida (Barreto, 1996).

Por sua vez, conhecimento definido pelo mesmo autorcomo toda a alterao provocada no estoque mental desaber acumulado do indivduo proveniente de umainterao positiva com uma estrutura de informao.Conhecer visto, portanto, como um ato deinterpretao, uma assimilao de estruturassignificantes [informao] pelo sujeito que percebe omeio com seus sentidos e seu aparato fisiolgico.

Barreto ressalta que a relao informao//conhecimentos se realiza se a informao percebida e aceita peloreceptor, de forma a acrescentar novo saber, ousedimentar saber j estocado, ou ainda modificar saberanteriormente estocado, colocando o indivduo em umestgio melhor de desenvolvimento. Se no houveralterao nas estruturas de conhecimento do receptor,no aconteceu a assimilao da informao econseqentemente no se efetivou, positivamente, arelao informao//conhecimento (Barreto, 1996).

O autor coloca que as estruturas de informao soarmazenadas ou estocadas nos chamados agregados deinformao. Os agregados atuam na produo dainformao por meio de atividades relacionadas reunio, seleo, processamento e armazenamento deestoques de informao em acervos de bibliotecas,arquivos, museus, bases de dados, redes ou sistemas deinformao. Diz, ainda, que, para sua efetivao comocomopossibilidade de gerar conhecimentopossibilidade de gerar conhecimento (grifo nosso),os estoques necessitam ser transmitidos para os diversostipos de usurios da informao, ocorrendo um processode transferncia da informao. na interao que

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ocorre durante a transferncia da informao entre osestoques e seus usurios (inseridos em uma dadasociedade) que essa possibilidade pode vir a se realizar, apartir de condicionantes de competncias cognitivas,sociais, polticas e culturais (Barreto, 1996) dos sujeitosque recebem as estruturas significantes.

Nesse quadro referencial terico, tecemos uma rede(Wersig, 1993, apud Freire, 2001) com fios conceituaisoriundos da abordagem de Barreto (1994) e da viso dosagentes de informao de Freire (1987), ambos adaptadospor Pereira (1998) ao caso particular dos professores darede de ensino pblico do municpio do Rio de Janeiro.

Sobre os agentes de informao, Wersig coloca que estesdevem

... procurar adequar sua mensagem (forma e contedo,apresentao e linguagem) s condies de compreensodo receptor qual se destina [e, nesse sentido, devem]conhecer [detalhadamente] os receptores [usurios] paraos quais mediam a informao (Wersig, 1970, apudFreire, 1987).

Assim, temos um fio para a urdidura da nossa rede,quando Barreto (1996) prope que as estruturassignificantes (como ele define informao) soarmazenadas em estoques estticos disponveis emagregados de informao. O outro fio da urdidura dadoquando Pereira (1998), baseado em Freire (1987), propeque o conhecimento armazenado nas estruturas cognitivasde um agente de informao seja considerado um estoquedinmico de informao operando, simultaneamente,as funes produo e transferncia de um agregado.Entretanto,

no basta ter acessoacesso (grifo nosso) informao, mas necessrio conhecer o seu significado, estar apto a re-elaborar esta informao em seu proveito e no dacomunidade em que ele vive a sua odissia individual(Barreto, 1997).

Para o autor, essa tarefa no simples, tendo em vistaque a realidade fragmentada por desajustes sociais,econmicos, polticos e culturais, pelas mltiplas facesdos habitantes em suas competncias para absorver ainformao, diferentes graus de instruo, nvel de renda,acesso aos cdigos formais de representao simblica,acesso e confiana aos canais de transferncia dainformao, estoque pessoal de conhecimentoacumulado, bem como competncia na decodificao eutilizao do cdigo lingstico comum.

Nesse sentido, Barreto (2002) coloca algumas premissaspara que um ato de comunicao entre um emissor eum receptor se efetive:

a mensagem necessita de um contexto de referncia, eeste contexto precisa ser acessvel ao receptor. Estecontexto deve ser verbal ou passvel de ser verbalizado. necessrio ainda um cdigo, total ou parcialmentecomum ao emissor e ao receptor e finalmente um contato,isto , um canal fsico e uma conexo psicolgica entreo emissor e o receptor que os capacitem a entrar epermanecer em contato.

Entretanto, como observa Freire (1987), no processo detransferncia da informao podem ser identificadasdiversas barreiras de comunicao, sendo a primeira delasa linguagem utilizada pelo emissor, considerada porArajo (1979) como o problema bsico para o uso timode todo recurso de informao disponvel. Wersig (1970,apud Freire (1987) classifica essas barreiras de informaoem vrias categorias, destacando-se, neste trabalho, asbarreiras:

ideolgicas (do usurio), por vivermos na era dodescartvel, em uma sociedade consumista em que amaioria da populao considera inesgotveis os recursosnaturais e no considera o espao pblico como partede seu meio ambiente, tornando grave a questo dodescarte de resduos slidos;

de conscincia e conhecimento da informao (doagente), que deve, necessariamente, conhecer ainformao para transmiti-la adequadamente.

Essas barreiras podem ser superadas de dois modos:

[atravs do] processo de socializao (educao geral)dos usurios; [e do] comportamento das agncias deinformao, que devem criar oportunidades paratransferncia efetiva da informao, seja atravs daidentificao das necessidades existentes nos grupos deusurios e das fontes de informao capazes de atend-las, seja atravs do reconhecimento da anlise dasbarreiras existentes e das estratgias capazes de superaressas barreiras... (Wersig, apud Freire, 1987).

Nesse contexto, Marteleto (1995) afirma que, naconstruo da idia de informao como forma de criaoe instituio de significados, devem ser considerados nosomente os sujeitos, suas prticas e representaes, mastambm suas estruturas culturais e situao sociais emque se encontram envolvidos, ou seja, sua realidadehistrica. Dessa forma, essencial que o agente de

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informao tenha conhecimento dos problemas dosusurios, suas necessidades e limitaes, [de modo acomunicar-lhes a informao] de que precisam e o quepodem utilizar (Freire, 1987).

INFORMAES RELEVANTES SOBREINFORMAES RELEVANTES SOBRERESDUOS SLIDOS (MAIS CONHECIDOSRESDUOS SLIDOS (MAIS CONHECIDOSCOMO COMO LIXOLIXO))[O padro que une]

As premissas da responsabilidade social da cincia dainformao e da relevncia da informao ambiental nasociedade contempornea formam um padro que uneos fios do texto, neste trabalho. Nesse sentido, levamosem considerao a afirmao de Barreto de que

as comunidades urbanas privilegiam as informaessobre o cotidiano em que vivem, e, para que a informaoprovoque um efeito inovador, deve ser respeitada estarelao da comunidade com o seu cotidiano (1995).

Esse princpio essencial tanto para a cincia dainformao, quanto para a rea da educao ambiental,cujos trabalhos tambm se referem maneira como conduzida a informao, para proporcionar

... os conhecimentos necessrios compreenso doambiente de modo a promover uma conscincia socialcapaz de gerar atitudes que alterem os comportamentos...que demonstre sensibilidade, responsabilidade,habilidades necessrias para buscar solues par...

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