Monografia Alone Pedagogia 2011

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    15-Jun-2015

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Pedagogia 2011

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  • 1. 10INTRODUO Na sociedade atual, as necessidades sociais, culturais e profissionais ganhamnovos contornos, exigindo que tenhamos competncia no s enquanto profissionalqualificado, mais acima de tudo, como aquele que se relaciona de forma harmoniosade modo a contornar desafios, isto porque, fazemos parte de uma sociedade quecontempla uma grande diversidade social e cultural, e paradoxalmente esta mesmasociedade por muitas vezes mostra-se massificada, classificando categorias egneros, como se tivssemos uma medida de valor. Neste caso podemos ou noser excludos desta sociedade como se nada de anormal esteja acontecendo nestecenrio. H de se admitir que normalmente esta viso no seja aceita por todos, erealmente no se pode generalizar tais afirmaes dentro desta realidadepresenciada hoje na sociedade, apenas podemos atravs de um estudo maissistemtico, detectar pontos de um preconceito que permeou toda nossa histria,desde o seu incio, atravessou pocas e, inquietamente mesmo que de formasmenos acentuadas, continua presente, numa era em que prima-se por uma ticasublime, isto , mais civilizada. Nesta pesquisa, expomos aqui o preconceito racial, e pretendemos levantaresta questo, pois sabemos que as discusses no se esgotam, pelo contrrio, oaprofundamento nos torna mais conscientes e sensveis sobre as relaes maisamplas e os fatores sociais, polticos e econmicos que movem a dinmica social,at porque, segundo Fernandes (1972, p.9), ainda persiste em nosso pas umimaginrio tico racial que privilegia a brancura e valoriza principalmente as razeseuropias da sua cultura, ignorando ou pouco valorizando as outras. Apesar de acultura brasileira ter sido fermentada em um caldeiro multitnico, convive no Brasil,de maneira tensa, a cultura e padro esttico negro e africano e um padro estticoe cultural branco europeu. Embora, a presena da cultura negra corresponda hoje a45% da populao brasileira, esse fato no tem sido suficiente para eliminarideologias, desigualdades e esteretipos racistas. (FERNANDES, 1972, p.10) O Brasil no seria o mesmo sem o legado da cultura africana e quandofalamos na influncia cultural que os negros tiveram no Brasil quase sempre

2. 11ignorado, o que parece ter havido, pelo menos em certas reas do pas, quase tosomente uma adaptao dos padres de comportamento dos escravos s novascondies de vida a que foram submetidos. E, to logo eles se estabeleceram, osdemais povos que se viram na contingncia de absorver e adotar inmerastradies africanas. (FERNANDES, 1972, p.15).Os cidados que fazem parte hoje do Movimento Negro no Brasil tmexperienciado o quanto foi difcil para os negros terem sido julgados negativamentepor sua cor, comportamento, modo de ser. E chegam a comprovar que ainda se teminsistido no quanto alienante a experincia de fingir ser o que no para serreconhecido, de quo dolorosa pode ser a experincia de deixar-se assimilar poruma viso de mundo que pretende impor-se como superior e, por isso, universal eque os obriga a negarem a tradio do seu povo. (LOPES, 2005)Para reeducar as relaes tnico-raciais no Brasil, necessrio fazer emergiras dores e os medos que tem sido gerado, entender que muitas vezes o sucesso deuns tem o preo da marginalizao e da desigualdade impostos a outros, e, decidir apartir de ento que tipo de sociedade queremos construir daqui pra frente, atporque, nenhum descendente de mercadores de escravos na atualidade tem culpadas atrocidades cometidas por seus antepassados, mas, todos ns temos simresponsabilidade moral, e poltica de combater o racismo, as descriminaes eempenharmos em estabelecer relaes raciais e sociais sadias, em que todoscrescem se realizam e se complementam enquanto seres humanos e cidados.Tais reflexes que nos levaram a tratar aqui neste trabalho deste assunto,buscar entender como ainda nos dias atuais esto as relaes dentro dadiversidade, em especial a racial. Aprofundar-nos especificamente nesta pesquisadentro do mbito escolar, onde indivduos negros convivem na sala de aula comoutros e analisar como se encontram hoje esta relao. Levando-nos a questionar:qual o significado do ser negro hoje numa sociedade massificada e o papel que aescola tem desempenhado enquanto instituio de formao humana.Assim pretendemos abordar como tem sido encarado o preconceito hoje, queexperincias passam estes sujeitos no cotidiano da sala de aula e como a escolatem tratado desse assunto no sentido de contribuir para uma significativa mudanano comportamento, isto , mais tico e humano. 3. 12Torna-se conveniente acreditar na necessidade de uma reconstruo desentidos dessa convivncia, isto , o negro e o branco, visando estabelecer relaesde dignidade, afeto e igualdade entre estes, a escola, e a sociedade. A escola deveprocurar priorizar valores de atitudes e aproveitar as experincias desses alunos,seus saberes, suas limitaes e desejos, a fim de obter um melhor aproveitamentodessa aprendizagem.Sendo assim esta pesquisa vem ressaltando a importncia de uma mudananessas relaes onde, embora prevaleam as diversidades, o convvio pacfico e dedignidade humana devem ser prioridade, principalmente dando nfase aqui nestetrabalho, relao aluno negro com seu semelhante, como ser aceito, comoindivduo que merece respeito e dignidade como qualquer outro sem distino ouparcialidade e a escola como contribuio para transformao da realidade desses,em especial a dignidade como pessoa humana.O presente trabalho est estruturado em quatro captulos:No primeiro captulo apresentamos os aspectos que motivaram investigao do tema, a problemtica, as questes norteadoras, os objetivos e ajustificativa, isto , sua relevncia no campo scio-educacional.No segundo captulo abordamos as concepes referentes relao escola ea criana negra, suas caractersticas, seu papel, suas reaes e a interao entreseus diferentes membros, descrevendo a convivncia diria neste mbito.Apresentando uma breve reviso da leitura, do preconceito e discriminao nocenrio brasileiro que por consequncia chega escola de diversas formas. Parafundamentar este estudo contou-se com a contribuio de grandes tericos comoBernd (1988), Ceert (2006), Da Matta (1983), Fernandes (1972), Guimares (1999),Inocncio (2004), Martinez (1992), Munanga (1988), Rufino (2003), Silvrio (2002),Valente (1987), dentre outros que em suas pesquisas contriburam para aconstruo desse conhecimento.No terceiro captulo, desenvolvemos sobre a atividade prtica de investigaoutilizada para coleta de dados, a metodologia qualitativa, onde focamos aimportncia deste mtodo, que permite uma maior troca de informaes entrepesquisadores e pesquisados. 4. 13O quarto captulo esboa a anlise de dados segundo a metodologia adotadano captulo anterior, confrontando com os aportes tericos, para chegarmos concluso. E por ltimo, nas consideraes finais, ressaltada a importncia damudana na postura para possveis solues dos problemas encontrados nessamodalidade de ensino.Acreditamos que embora a caminhada ainda seja lenta, nunca tarde parabuscar a igualdade e mais que isso: o respeito. No existe pessoa melhor nem pior,existem apenas pessoas diferentes, que e cada um deve ser respeitado dentro destadiversidade e acreditar que todos podem e devem ser includos na sociedade comocidados, com os mesmos direitos que o dignifica. Desta forma, reconhecemos quedeve haver uma preocupao por parte dos professores mediadores em provocarsituaes que levem os alunos negros a se perceberem como participantes dahistria dentro e fora da escola mobilizando-os a se posicionarem firmemente comointegrantes de uma etnia que pode fazer diferena no sentido de manifestarsegurana no falar, no agir, no pensar e sobretudo no proceder. 5. 14 CAPTULO I1. PROBLEMATIZAO1.1 INFLUNCIA DA CULTURA AFRICANA NO BRASILNo Brasil, desde o seu passado histrico at no mundo moderno, o negro,permanece apontado como ser inferior, discriminado e marginalizado. Asmensagens de inferioridade que vivencia, muitas vezes no dia-a-dia, fazem comque, sem perceber, os prprios negros as assuma como verdadeiras.Lentamente o vasto territrio do Brasil foi povoado pela contribuio de trsgrupos raciais, ou seja, foi composto de diferentes etnias: o indgena, o africano, e obranco europeu. Os indgenas aqui se encontravam enquanto o europeu e o africanoforam trazidos ou vieram para desenvolveras atividades de colonizao. Somos umpais mestio, de uma forma ou de outra, somos todos afro-descendentes ou afro-brasileiros. Sabemos muito sobre a presena europia em nosso pais, sabemos umpouco sobre a etnia negra que tanta contribuio trouxe para o Brasil.A escravido j era praticada entre os prprios africanos na sua terra natal,quando alguns grupos negros eram subjugados a favor de outros. Neste sentido, aSecretaria de Educao a distancia do MEC(2000), informa que os escravoseram obtidos de diferentes maneiras, desde o seqestro ate as guerras que eramespecificas para caar e aprisionar gente, tornando-se a principio, o negro escravodo prprio negro. Por mais irnico que venha ser, no sculo XX, a escravido nafrica veio a acabar.As influncias notrias da presena africana e afro-descente na formao dacultura e da sociedade brasileira tm inicio desde os primrdios da nossacolonizao. Estima-se que durante todo o perodo do trafico de escravos, de acordocom a Secretaria de Educao a distancia do MEC (2000), foram trazidos da fricapara os nossos pais, cerca de 3,6 milhes de africanos escravizados. E no apenas 6. 15alm-mar: Os escravos pululam por toda parte, escreveu o cronista Clenardo (1535apud BUENO, 1972, p. 114). Se a esse nmero somarmos os seus descendentes devarias geraes, no preciso nenhum esforo intelectual, para confirmarmos queessa presena tem algo de bastante significativo e que no deve ser negligenciadose quisermos compreender com mais profundidade as caractersticas especificas dasociedade brasileira e influirmos de forma mais eficaz nos seus processos deaperfeioamento educacional, social, poltico e cultural.Como nos faz ver Kikuchi (2003):Os conceitos dos grupos tnicos vindo para o Brasil, mesmo sendodiscutvel, so considerados pelas literaturas histrica e antropolgica coma seguinte composio: Bantu 40% a 60% - Regies mais meridionais dafrica. Benin 40% - Regies da baia de Benin, noroeste da frica.Senegmbia Contingente muito restrito noroeste da frica. Em SoPaulo, a ascendncia africana originaria predominantemente de Angola eMoambique ( grupo lingstico Bantu). Os Benin, provenientes da baia deBenin, concentraram-se mais na Bahia. Quanto ao grupo tnico Senegal, raro ou constitui contingente muito restrito (p. 130).Hoje, quando falamos da populao negra, estamos falando de 45,3% dapopulao brasileira, de acordo com o Censo do IBGE de 2002. A maior populaonegra do mundo depois da Nigria. Os africanos foram trazidos de varias naes,regies e culturas diferentes.No sculo XV, a Amrica foi descoberta, a frica sem defesa apareceuento como reservatrio humano apropriado, com o mnimo de gastos e de riscos,sendo o negro escravizado por diversas partes do planeta, merecendo destaque nopresente trabalho, o territrio brasileiro, no qual o elemento negro se encontrapresente desde o inicio de sua formaoSobre isso Bueno (2003) afirma que:Embora a escravido seja quase to velha quanto a prpria humanidade,jamais o trafico de escravos fora um negocio to organizado, permanente evultuoso quanto se tornou depois que os portugueses estabeleceram, emmeados do sculo XVI, uma vasta rota triangular que uniu a Europa, africa, e a Amrica e transformou milhes de africanos em lucrativa moedade troca. (p. 114).. Um dos maiores pases mestios do mundo, o Brasil foi gerado tambm emventre escravo, escreveu Bueno (2003, p. 1119). Funcionando como um dosmaiores colaboradores, sobretudo do ponto de vista do trabalho rduo e ativo, parao grau desenvolvimento no qual o nosso pais se encontra. Os negros no apenas 7. 16foram as mos e os ps de seus senhores como tambm do Brasil, Europa,Inglaterra e outras naes do globo.Complementando, Bueno (2003) ainda acrescenta: Mas, no Brasil, os escravos foram ainda mais do que isso: foram os olhos e os braos dos donos de minas; foram os pastores dos rebanhos e as bestas de carga; foram os ombros, as costas e as pernas que fizeram andar a Colnia e, mais tarde, o Imprio. (p. 118)A maior utilizao do negro como mo-de-obra escrava bsica na economiacolonial, deve-se principalmente ao trafico negreiro, atividade altamente rentvel,tornando-se uma das principais fontes de acumulao de capitais para metrpole.Exatamente o contrario ocorria com a escravido indgena, j que os lucros com ocomercio dos nativos no chegavam ate a metrpole.Para os portugueses, o trafico negreiro no era novidade, pois, desde meadosdo sculo XV, o comercio de escravos era regular em Portugal, sendo que durante oreinado de D. Joo II o trafico negreiro foi institucionalizado com a ao direta doEstado Portugus, que cobrava taxas, e limitava a participao de particulares. Osescravos que abasteciam o Brasil eram controlados de acordo com a necessidade ecom a demanda. Diante de enorme necessidade os navios eram abastecidos com odobro de sua capacidade real. O transporte de escravos para o Brasil a bordo dosnavios negreiros no oferecia boas condies higinicas, pois devido a falta de guae alimentos estragados, velhos, jovens, homens, mulheres e crianas, um monte degente, umas sobre as outras, presas num mesmo espao durante dias e dias,perecia miseravelmente na travessia.Pois como nos afirma Bueno (2003): Aps a apreenso do tumbeiro, o capito do Fawn anotou, no dirio de bordo, a cena com a qual se deparou nos pores da embarcao: Os vivos, os moribundos e os mortos amontoados numa nica massa. Alguns desafortunados no mais lamentvel estado de varola, doentes com oftalmia, alguns completamente cegos; outros esqueletos vivos (...). Seus membros tinham escoriaes (...). No compartimento inferior o mau cheiro era insuportvel. Parecia inacreditvel que seres humanos sobrevivessem naquela atmosfera. (p. 112)A vida dos africanos como escravos para o Brasil comeou logo aps oestabelecimento das Capitanias, visando atender a lavoura de cana-de-acar.Chegando ao Brasil, eles eram postos a venda nos mercados de carne humana,parecendo objetos medonhos, esperando comprador. Ate mulheres iam as 8. 17compras. Vo enfeitadas, escreveu o Walsh ( 1828 apud BUENO, 1972, p. 114). (...) Sentam-se, manipulam e examinam suas compras, e levam-na embora com amais perfeita indiferena, como se estivessem comprando um co ou uma mula. Osfatos acima referidos so reforados por Valente ( 1987, p. 14): Na colnia, osescravos eram postos a exposio dos compradores, como nas feiras de gado. Seusdentes eram examinados, como se faz com os cavalos... Examinavam seus corpos,como se fossem animais.Algum tempo depois, os negros j estavam trabalhando duro na lavoura, e emoutras atividades, para os seus proprietrios, a bases do chicote do feitor. Comonos faz ver Valente (1987): Os aoites, os grilhes, a violncia sexual e a atribuio de qualidades negativas aos negros faziam parte de um conjunto de instrumento...