Monografia Cristiane Pedagogia 2010

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    06-Jun-2015

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Pedagogia 2010

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<ul><li> 1. 1UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA-UNEBDEPARTAMENTO DE EDUCAO CAMPUS VII COLEGIADO DE PEDAGOGIAMEMRIA DE VELHOS CRISTIANE BATISTA PINTOSENHOR DO BONFIM - BA2010</li></ul><p> 2. 2UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA-UNEBDEPARTAMENTO DE EDUCAO CAMPUS VII COLEGIADO DE PEDAGOGIA CRISTIANE BATISTA PINTOMEMRIA DE VELHOSMonografia apresentada ao Departamentode Educao-Campus VII, da Universidadedo Estado da Bahia, como parte dosrequisitos para obteno de graduao noCurso de Pedagogia com Habilitao emEducao Infantil e Sries Iniciais do EnsinoFundamental.Linha de Pesquisa: Memria, Cultura eHistria da Educao.Orientadora: Prof Dr Maria Glria da PazSENHOR DO BONFIM - BA2010 3. 3 CRISTIANE BATISTA PINTOMEMRIA DE VELHOS Monografia apresentada ao Departamento de Educao- Campus VII, da Universidade do Estado da Bahia, como parte dos requisitos para obteno de graduao no Curso de Pedagogia com Habilitao em Educao Infantil e Sries Iniciais do Ensino Fundamental.Aprovada em 24 de maro de 2010. BANCA EXAMINADORA _______________________________________________________ Prof Dr Maria Glria da Paz Universidade do Estado da Bahia UNEB Orientadora_____________________________________________________Prof Ana Maria CamposUniversidade do Estado da Bahia UNEBExaminadora____________________________________________________ Prof Beatriz Barros Universidade do Estado da Bahia UNEBExaminadora____________________________________________________Prof Sandra Fabiana Almeida Franco Universidade do Estado da Bahia UNEBExaminadora 4. 4A Maria Amlia Pinto, minha me. Com ela aprendi muitas coisas... Desaprendi muitas coisas tambm...Somos cmplices na vida. A Raimundo Batista Pinto, meu pai. Contador de estrias, cordelista... Aprendi com ele o gosto pela palavra e pelas coisas simples, como uma pedra colhida no rio, como o perfume lils da flor de setembro.Aos meus irmos: Tarcsio, Vgner, Jorbson, Wilton e Carolinaque tm me incentivado e apoiado em todas as horas. A Rodrigo Gomes Wanderley, porque compartilhamos prosaicamente de tudo, mas, sobretudo, compartilhamos coisas que se situam no reino do indizvel,tocadas apenas pela poesia. Aos meus amigos: Jcia Pereira, Bruna Pamponet,Mara Arajo, Priscila Pereira, Masa Borges, Laryssa Andrade, Joana Dias, Jaqueline Oliveira, Hilda Maria Vieira, Joel Porto, gda Solene Braga, Mrcia Xavier, Dan Loureiro, Fabiana Lima, Jacira Souza e Ana Lcia Barbosa.E a voc... 5. 5 AGRADECIMENTOS Universidade do Estado da Bahia UNEB Campus VII;Ao Colegiado de Pedagogia do Campus VII;Aos professores que contriburam para a minha formao, nomeadamente AnaMaria Campos, Beatriz Barros, Elizabete Santos, Fani Rehem, Gilberto Lima, JoanitaMoura, Masa Lins, Norma Leite, Ozelito Cruz, Paulo Batista Machado, Rita Braz,Rita Carneiro, Rubens Antonio da Silva Filho, Simone Wanderley, Suzzana AliceLima e, especialmente, minha dedicada orientadora e parceira de tear, professoraMaria Glria da Paz;Aos Servidores da UNEB Campus VII;Ao Centro Esprita Discpulos de Jesus;Aos funcionrios e voluntrios do Lar dos Idosos Fabiano de Cristo, pela acolhida ecolaborao durante a realizao dos trabalhos;Aos velhos, sujeitos desta pesquisa: Edvalda Maria de Jesus, Joo Xavier Dias,Joselita Roque da Silva e Raul Gomes, que, com suas vozes, compuseram estetrabalho;A Jcia Pereira, Joel Porto, Priscila Pereira, Rodrigo Wanderley e Rubens Antonioda Silva Filho pela colaborao tcnica e pelo incentivo durante a realizao destetrabalho. 6. 6EPGRAFE A histria aqui tecida,como uma renda, feita de fios, ns, laadas, mas tambm de lacunas,de buracos, que, no entanto,fazem parte do prprio desenho,so partes da prpria trama.Michel Foucault 7. 7RESUMONeste trabalho foram colhidas e analisadas memrias de velhos. Utilizamos aabordagem da Histria Oral como metodologia. Foram realizadas entrevistas comquatro depoentes, o Sr. Joo Xavier Dias, o Sr. Raul Gomes, a Sr Edvalda Maria deJesus e a Sr Joselita Roque da Silva, moradores do Lar dos Idosos Fabiano deCristo, localizado em Senhor do Bonfim, em maro de 2009. Dentre as lembranasevocadas figuraram as referentes famlia, destacando-se pais, irmos econvivncia, infncia, especialmente espaos, amigos e brincadeiras, e escola,citadamente localizao, professores, colegas, atividades de ensino, brincadeirascastigos e festas. Para a anlise nos valemos especialmente das propostas deHalbwachs (2006), Bosi (1994) e Pollak (1989).Palavras- chave: Memria, Histria Oral, Velhos. 8. 8 LISTA DE FIGURASFIGURAHISTRICOPGINA01 Joo Xavier Dias (1928) ..............................................................3002 Raul Gomes (1932) ..................................................................... 3103 Edvalda Maria de Jesus (1936) ..................................................3204 Joselita Roque da Silva (1932) ...................................................3305 Fachada do Lar dos Idosos Fabiano de Cristo ........................... 39 9. 9LISTA DE MAPASMAPAHISTRICOPGINA 01Mapa do Territrio de Identidade 25- Piemonte Norte do Itapicur, Bahia, 2004............................................................... ............38 10. 10LISTA DE ABREVIAESCEDJCentro Esprita Discpulos de JesusCNASConselho Nacional de Assistncia SocialCNPJCadastro Nacional de Pessoa JurdicaCPDOC Centrode Pesquisa e Documentaode HistriaContempornea do BrasilCRASCentro de Referncia de Assistncia Social (Casa da Famlia)GPS Publicidade Giosvaldo Porto Silva (Proprietrio)IBGEInstituto Brasileiro de Geografia e EstatsticaSEI Superintendncia de Estudos Econmicos e SociaisUNEBUniversidade do Estado da Bahia 11. 11SUMRIO1.INTRODUO........................................................................................................12 1.1.Tecendo as minhas lembranas: um encontro com a memria de velhos....12 1.2. Entrelaando ns: Histria e Memria de Velhos.........................................172. A COSTURA: PONTO A PONTO..........................................................................22 2.1. A pesquisa....................................................................................................222.1.1.Os instrumentos......................................................................................23 2.2. As Fontes......................................................................................................29 2.2.1.Fontes orais ( e a biografia dos entrevistados)......................................29 2.2.2. Caracterizao dos Depoentes.............................................................30 2.2.3. Fontes escritas......................................................................................352.3.Local da pesquisa: O Municpio de Senhor do Bonfim.................................38 2.3.1. A localizao do municpio....................................................................382.3.2. O Asilo: O Lar dos Idosos Fabiano de Cristo.........................................39 3. CAPITULO I - A Famlia ......................................................................................42 3.1. Lembranas da Famlia................................................................................42 3.2. Os Pais.........................................................................................................433.3. Os Irmos ...................................................................................................464. CAPITULO II - A Infncia......................................................................................504.1. Lembranas da Infncia...............................................................................504.2. A casa, o quintal, e os outros espaos revisitados.......................................514.3. As Brincadeiras............................................................................................534.4. Os Amigos....................................................................................................545. CAPITULO III- A Escola.......................................................................................56 5.1. Lembranas da Escola.................................................................................56 5.2. Os Professores.............................................................................................575.3. As Atividades de Ensino...............................................................................57 5.4. Os Castigos..................................................................................................58 5.5. Festas...........................................................................................................596. ARREMATE.......................................................................................................... .60REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS..........................................................................63 12. 12FONTES ELETRNICAS..........................................................................................65FONTES ORAIS........................................................................................................66 13. 13 1. INTRODUO1.1. Tecendo as minhas lembranas: Um encontro com a memriade velhos Quando criana, no perodo de alfabetizao, eu fui considerada, na entoEscola Nuclear Belarmino Pinto, em Itiba, Bahia, uma menina inteligente, pormmuito inquieta, hiperativa, diriam hoje. que D. Amlia, minha me, j havia mealfabetizado em casa mesmo, usando uma cartilha antiga, um quadrado recortadode papel de po perfurado no meio, lpis, papel e as coisas do meu mundo, do meumundo de criana, a casa, o quintal, as pessoas, enfim... Por causa disso,geralmente, conclua as atividades antes dos meus colegas. O problema que,respondendo as lies antes da turma, era inevitvel que comeasse a conversar, aquerer sair da carteira, da sala. Assim, acabava por atrapalhar o andamento da aula. Contudo, a minha professora, D. Mariazinha Freitas, que costumava levarpara a sala de aula novelos e agulhas de tric, percebera os meus olharescobiosos e, em consenso com a minha me, resolveu, no intervalo das lies, meensinar a tecer. Os meus primeiros sapatinhos foram encomendados por minha avpaterna. Ela havia me presenteado com um novelo vermelho belssimo. Aindarecordo do cheiro, da textura daquela l. Fora mainha quem comprara as agulhas.No lembro se, por um tempo, fiquei mais quietinha. Mas que aprendi a tecer, ahisso eu aprendi direitinho. Por sua vez, com o meu pai, Seu Raimundo, cordelista, poeta, contador dehistrias, aprendi a ouvir. Os causos, as histrias populares da tradio oral, osrecitais de cordel da coleo do meu av, com as cantigas e cantorias, onde seres,personagens humanos e/ou no humanos, existiam. Misturadamente, por vezes, ou,em outras ocasies separadamente. No dava pra saber o que era e o que no erareal, mas tudo era maravilhoso nas narrativas do meu pai. Ele ainda as recontaalgumas, para o divertimento da meninada da rua, sempre convidado para 14. 14participar de eventos nas escolas e na cidade de modo geral.Ah... Infncia. E, afinal, quem jamais se curou de sua infncia? Mas esta outra histria e talvez seja tecida em outra ocasio... Cabe dizer, agora, que foi ela,a minha infncia, que me trouxera aqui. Sim. Ela me guiara tal qual Teseu foraguiado pelo novelo de Ariadne para fora de um labirinto. Porm, de modo inverso, eufora atrada por um casaco de tric exposto numa arara, para ser vendido no Brechdo Lar dos Idosos Fabiano de Cristo, para o labirinto de minhas reminiscncias.Sei que isto no explica a necessidade de voltar quele casaco... Aquele quemeus olhos, numa mistura de surpresa e encanto, descobriram no Brech... Masreitero que necessrio. Neste momento, basta saber que era lindo, incomum.Porm, agora, racionalizando, penso que apenas o que resta de pueril em meusolhos enxergara a beleza e intura a pureza do branco, que, pelo tempo, foraamarelecido.Entretanto, naquele instante, fui tomada por uma profuso de sentimentosconfusos, para mim desconhecidos, at ento... Quem o tecera? Algum doara?Quanto custava? Perguntei, quase num tom exaltado. As vendedoras sorriambenevolentemente... No. No sabiam o nome da tecel ou tecelo e, sim, haviasido doado e custava R$ 3,00. Achei esquisito e repeti, apenas para mim, franzindoo cenho de modo ctico: R$3,00.Tinha cincia de que era roupa velha, usada por outrem, e que, para muitos,isso deve, por certo, diminuir o valor das coisas. Eu no tinha tanta certeza.Meticulosamente, comecei a examinar com os dedos o casaco. Apesar da qualidadeaparente da linha, da trama bem feita, pude detectar um furo na manga, perto dopunho esquerdo... No pude disfarar, com meio sorriso, o meu desencanto, atporque, por experincia, sei que reparar mais difcil que fazer.Onde, alm da memria, guardara as minhas agulhas? Poderia compraragulhas novas, adequadas? A l tambm. Eu poderia compr-la? Quantos anos 15. 15haviam se passado? Duas dcadas, talvez... Fiquei perdida num amaranhado depensamentos, segurando o casaco por mais um tempo, desolada. Uma dasvendedoras, a fim de me consolar, pontuou reticente: Talvez D. Ermnia... Olhou desoslaio para a outra vendedora, que, num ar de complacncia, arrematou: ... Elatem as agulhas. Poderemos falar com ela.. Certas palavras e expresses so mgicas, polvocas. Realizam desejos,abrem portas Abracadabra! Abre-te Ssamo! - Inauguram tempos e espaos.No meu caso, o tempo era de espera. Espera pelo reparo do casaco. Espera pelohorrio de visitas ao Lar dos Idosos Fabiano de Cristo. Quais as palavras que medeixaram to esperanosa? D. Ermnia tem as agulhas. Contudo, no toa, os gregos, em sua Mitologia, colocaram a Esperanaentre os males, reservados Humanidade, guardados na Caixa de Pandora. Dissoeu no esquecera. Mas a Esperana, ao longo dos tempos, ganhara novossignificados... Restava saber qual deles estava a mim reservado. E isso no tardou. Voltei minha casa com a garantia de que reparariam ocasaco. Guardariam-no para mim e eu poderia conhecer no apenas D. Ermnia,como os outros internos do referido Lar. Quando regressei ao Brech, descobri queo casaco havia sido vendido a algum menos exigente e mais inteligente que euhavia sido naquele dia - compreendi isto depois - pois quem o comprou, comprou-odaquele modo, sem reparos. Oh... Esperana! Nesse dia, eu conheci uma das tuasfaces! Bem... Porm era horrio de visitas. Cheguei logo aps a hora da refeiovespertina e fora acolhida tanto pelos internos quanto funcionrios/voluntrios.Sobre o Lar, adianto apenas que h espao para vinte e cinco internos. Havia 20idosos internados at o incio de dezembro de 2008. Conheci a rea comum e a alafeminina. Apesar disto, alguns possuem quartos individuais. A maioria dos idosos, jque tinha ingerido a refeio, estava dormindo. Eu no quis importun-los, comminha presena, naquele dia. Entretanto, conversei com os funcionrios e algumas 16. 16das internas. Certamente, em momento oportuno, voltarei a oferecer detalhes doreferido ambiente.Estive l outras vezes para visit-los, ainda em dezembro do referido ano, trsou quatro vezes... Por que? Saber, eu no sei, mas desconfi...</p>