Monografia Noêmia Pedagogia 2009

  • Published on
    06-Jun-2015

  • View
    2.624

  • Download
    0

Embed Size (px)

DESCRIPTION

Pedagogia 2009

Transcript

<ul><li> 1. 1APRESENTAOA democracia racial precisa fazer parte da proposta da escola em todo o seu processoeducativo, alcanando todas as relaes existentes em seus espaos. No entanto, essa viso naqual todas as etnias e culturas seriam contempladas com referenciais positivos de suaslegtimas histrias no material didtico e paradidtico usado diariamente na escola encontra-seapenas nos discursos e nas possibilidades tericas. Na prtica cotidiana percebemos muitascontrovrsias entre os discursos, fala, e as aes cotidianas.Pensar em referenciais tnicos positivos contemplando todas as etnias nos remete aimportncia desses referenciais no processo de construo da identidade tnica e cultural decada aluno, no qual h uma dependncia das relaes sociais e histricas desses sujeitos.Nessa perspectiva a escola contribui na elaborao da identidade dos sujeitos que a ela temacesso de vrias formas. Essa contribuio est presente em todo o material envolvido nesseprocesso como tambm em todas as relaes existentes.Diante disso, h uma necessidade de perceber melhor quais as intervenes causadas porelementos presente em alguns materiais trabalhados na escola no processo de construo daformao da identidade.Esse trabalho de pesquisa traz como maior objetivo identificar alguns elementos tnicosencontrados no trabalho dirio com literatura infanto-juvenil e suas interferncias na formaoda identidade negra da criana negra, explicitando alguns desses elementos e fazendo umarelao com o perfil dos profissionais que usam esses materiais paradidticos.O texto est dividido em quatro captulos: No primeiro captulo fazemos uma abordagemsobre as possibilidades proporcionada pela literatura infanto-juvenil e a formao daidentidade negra no espao escolar.No segundo captulo trazemos o que j se concebe com fundamentao terica sobre literaturainfanto-juvenil, identidade negra, criana negra e sua relao com a educao.</li></ul><p> 2. 2No terceiro captulo apresentamos a metodologia usada orientada por autores que legitima umtrabalho acadmico e a pesquisa reconhecida como cientifica.No quarto captulo temos a anlise de dados coletados atravs de alguns instrumentos taiscomo: a observao direta e sistemtica, o questionrio fechado e a anlise documental, quenos permitiu perceber alguns elementos tnicos presentes no trabalho com literatura infanto-juvenil que causam interferncia na formao da identidade negra da criana negra.Enfim, apresentamos nossas consideraes finais, as relevncias dessa pesquisa para ns,enquanto alunos do curso de pedagogia e futuros profissionais da educao. 3. 3 CAPTULO I1. LITERATURA INFANTO JUVENIL E FORMAO DA IDENTIDADE NEGRA:COMPREENDENDO AS POSSIBILIDADES NO ESPAO ESCOLARHistoricamente no processo de colonizao, a populao negra foi reduzida raa inferior nointuito de dominao poltica, monopolizao econmica, favorecendo aos colonizadores, quebuscavam suprir suas necessidades do momento, em que tinham como objetivo principalexpandir-se economicamente conquistando novos lugares atravs da explorao da mo deobra. Segundo Munanga, (1988, p.9):A ignorncia em relao histria antiga dos negros, diferenas culturais, ospreconceitos tnicos entre duas raas que se confrontam pela primeira vez tudo issomais s necessidades econmicas de explorao predispuseram o esprito do europeua desfigurar complementarmente a personalidade moral do negro e suas aptidesintelectuais.Considerando historicamente a realidade do Continente Africano, na chegada dos primeiroseuropeus quele continente, para explorao de riquezas naturais e conquista de outros povos,cabe enfatizar que j existia uma sociedade poltica, social e economicamente organizada. Noentanto os europeus em busca de mo de obra barata para serem levadas a recente Amricadescoberta, viam naqueles povos com tecnologia de guerra inferiores a dos povos europeusuma oportunidade de explorao de mo de obra.Essa realidade das circunstncias histricas permite compreender que as prioridadestecnolgicas dos europeus eram armamentos de guerra, no entanto para o africano isso eradesconsiderado como primazia. Os europeus para justificar os seus interesses e airracionalidade da dominao procuravam resumir essa realidade tecnolgica dos africanos afatores biolgicos, interpretando-os como grupos humanos inferiores. Como afirma Munanga(1988, p.8): O desenvolvimento tcnico includo a tecnologia de guerra, era menos acentuadaisto pode ser explicado pelas condies ecolgicas, scio econmico e histrico da fricadaquela poca, e no biologicamente, como queriam alguns falsos cientistas.Diante desse contexto os colonizadores buscaram transformar o africano em escravo, pessoasforam retiradas das suas terras, suas famlias, sua cultura; e de forma brbara, desumana, cruelforam levados para outros lugares, se configurando a dispora africana, ou seja, disperso 4. 4desses povos. Os africanos foram levados a outra realidade para serem explorados no contextode modelo econmico baseado na escravido. Esse processo foi marcado pela violncia fsicae simblica, sujeitando uma nao outra nao e consequentemente a sua cultura, religio, asua arte, em suma, a outra forma de vida que no era sua. Esse contexto de dominao,explorao e escravizao invalida e deslegitima o processo histrico, cultural, poltico ereligioso j vivenciado pelos africanos, nos territrios de suas origens.No Brasil, pas tambm colonizado, no foi diferente. As questes da histria do negro naformao tnica do pas sempre foram vista da tica do europeu sem muita preocupao coma realidade j vivida pelos africanos. Realidade essa que significa a histria de um povo comtodas as vivncias culturais, polticas, religiosas e artsticas que ganham significados baseadona perspectiva do europeu, tornando uma nao inteira susceptvel viso de mundo e aesteretipos que constitui o eurocentrismo. Nessa perspectiva Hernandez (2005, p.18), afirma:Quanto s diferenas, so tratados segundo um modelo de organizao social epoltico, bem como de padres culturais prprios da civilizao europia. Em outrostermos: aproximando por analogia o desconhecido ao conhecido considera-se que africa no tem povo, no tem nao e nem estado; no tem passado, logo, no temhistria.Consequentemente, os descendentes do continente Africano no teriam oportunidade de seafirmar enquanto povo sem histria na viso etnocntrica de outros pases, mesmo aps alibertao uma vez sendo visto como povo inferior, estereotipados, resultaria nasdesigualdades de oportunidades sociais, tnicas em todos os mbitos da sociedade edisseminaria ou reproduziria a violncia simblica. Para Hernandez (2005, p.131):Alm desses horrores em graus exacerbados, lembramos tambm de crueldadesderivados da violncia institucional e simblica como as referentes s questesraciais dos negros, por exemplo, dos Estados Unidos e no Brasil, e seusdesdobramentos que apenas indivduos, por vezes cidados, mas sempre de segundaclasse.No entanto, a histria da escravido do negro no Brasil, sempre foi marcada por lutas eresistncias em prol da garantia de liberdade, no apenas fsica, mas de sua identidade tnica ecultural. Essa identidade cultural se refere prpria forma do negro existir, da sua origem, doseu pertencimento. A ausncia da sua convivncia com sua terra, seu povo fazia com que oescravo afirmasse a resistncia degradao da sua identidade. Essa condio de identidadedegradada no mera forma de falar, mas refere-se desumanidade cultural, social, psquica 5. 5e fsica na qual o negro era submetido em prol do ideal imperialista. Essas resistncias foramrealizadas de vrias maneiras desde simples aes do dia-a-dia at aos grandes movimentosbem organizados de forma mais abrangente, como os quilombos, revolues, manifestaesculturais atravs das danas e msicas, entre outras. Segundo Sodr (1988, p.127): Entre osnegros, tanto na frica como nos territrios da dispora escrava, jogo de expresso, como adana e a msica, articulam-se simultaneamente com jogos de espaos em que se simulaparodicamente outra identidade.O processo de colonizao foi um perodo marcado pela violncia fsica e simblica para ospovos que despropositadamente eram retirados das suas terras e submetidos a trabalhosforados e compulsrios, a explorao e a diversas formas de excluso e a violnciacolonialista. As pessoas que eram submetidas a essa realidade cruel e desumana, a escravido,no aceitavam de forma passiva, eram movidos pelo desejo de luta e agiam de vrias maneirascom o intuito de no perder sua liberdade.Quando se fala em resistncia, cabe enfatizar que alguns desses movimentos foramsocialmente organizados pelos negros e pelas negras escravizadas, embora equivocadamenteas classes dominantes tentem negar esses fatos histricos, ou seja, os movimentos deresistncia. fato que os movimentos de resistncia existiram, para Hernandez (2005): Osexemplos histricos nos permitiram reconhecer o dinamismo das vrias dimenses da vidasocial dos africanos e identificar ideologias dos movimentos de resistncias. (p.125)Na mesma linha de raciocnio podemos perceber que em resultados desses grupos humanos deresistncias, surgiram muitos heris como, Nana Yaa Asantunaa (Rainha de Edweso), ojovem Kamba entre outros, que lideravam movimentos de resistncia no continente africano(HERNANDEZ, 2005). Tambm Zumbi dos Palmares (lder do Quilombo de Palmares) eMalunguinho, o principal lder do Quilombo de Catuc em Pernambuco (CARVALHO,1996), e entre outras centenas de heris no percurso da histria de resistncia explorao eao racismo com relao aos povos africanos e afros brasileiros. Entretanto negada a sualegtima histria. A negao da histria do negro e da frica no Brasil esteve semprevinculada a uma forma de controlar socialmente e dominar ideologicamente um povo paraalcanar objetivos econmicos, como tambm norteados pelo interesse de construir aidentidade brasileira dentro do chamado desejo de branqueamento de nossa sociedadedespindo-se do seu contedo tnico diversificado, prprio do contexto no qual o Brasil est 6. 6inserido, pautando essa construo de identidade em uma viso nica de referncia baseada naviso etnocntrica, ou seja, da perspectiva do branco. (LIMA, 2009).Mergulhando nesse contexto, no qual nossa cultura embasada no branqueamento, ou seja,no tipo de ideologia que atribui aos negros o desejo de se branquear, principalmente movidospelos valores culturais do branco, etnocentrismo, por imitao e falta de identidade tnicapositiva, buscando assemelhar-se tanto quanto possvel ao branco e s depois reclamar dele oreconhecimento de fato e de direito. Esse embranquecimento do negro era realizado namaioria das vezes pela assimilao dos valores culturais do branco, sua lngua, sua arte, suareligio, sua viso de mundo, seu padro de beleza (MUNANGA, 1988). Nessa perspectiva daideologia do embranquecimento entende-se que h uma presso cultural do branqueamento naesfera psicolgica do negro brasileiro. (CARONE, 2004).Esses valores culturais do branco so institudos em vrios segmentos da sociedade, como porexemplo, na religio, na mdia, na literatura, na moda e nas instituies de educao formal einformal, no qual s tem legitimidade e valor aquilo que est dentro dessa viso etnocntrica.Acultura-se uma nao por uma presso psicolgica, na qual no se dar oportunidade de umademocracia cultural e tnica. Cabe enfatizar que dentre essas instituies est escola comoum espao de diversidade tnica como em outros segmentos da sociedade brasileira.Entretanto so nesse espao que muitas relaes se do cotidianamente envolvendo materiaisdidticos e paradidticos, currculos, gestos, falas que podem contribuir tanto para afirmaoou reproduo de etnocentrismo como tambm para eliminao dos mesmos. Para Santos(2001, p.103): Nos ltimos anos, muitos olhares tm se voltado questo das relaes, dos cotidianos, das situaes surgidas em sala de aula, apontando o quanto ocorre de discriminao no espao escolar e as dificuldades dos agentes educativos em lidar com essas situaes.Nesta viso percebe-se a importncia da escola proporcionar nos seus espaos de formasistematizada, oportunidade de estmulo autoestima e afirmao positiva da identidade negrado afro-descendente e do povo brasileiro em geral. Para Nascimento (2001, p.115): Noconsideramos a identidade apenas como algo dado ou adquirido de forma passiva, mastambm algo que se constri com certa grande escolha. 7. 7Partindo dessa concepo de identidade como algo construdo, podemos pensar a escola comouma possibilidade de construo da identidade, como qualquer outro espao nas relaes queso vivenciadas, como tambm em todo o processo educativo realizado cotidianamente. Aescola, com o seu processo educativo, ao negar a histria de um povo e legitimar outra podefavorecer consequncias negativas formao da autoestima desses alunos tanto fisicamentecomo psiquicamente e culturalmente. medida que a escola no contextualiza o assunto proposto, trazendo a sua extenso histricapode estar colaborando para legitimao da negao de fatos histricos que de alguma formadesencadeia a normalizao da baixa autoestima desse povo estudado e da sua descendnciaou at a reproduo de estigmas e esteretipos de uma nao. Essa forma reducionista deestudar a histria de um povo favorece a afirmao de que a autoestima est na personalidadehumana e psquica. No entanto sabemos que a baixa estima no nata, mas sim resultado dacompreenso, do sujeito, de sua relao social e histrica (ROMO, 2001).Nessa perspectiva, podemos pensar a escola tambm como espao de vrias possibilidades econstrues da autoimagem, que interferem na formao da identidade do sujeito. Nessesentido, faz-se necessrio romper com esteretipos ligados s etnias minoritrias oucompreendidas como inferiores nos processos histricos visto pela tica dos europeus e quede forma sucinta tem sido reproduzida nos processos educativos.Assim sendo, o trabalho desenvolvido na escola como em todo o processo de educao deveser pensado e realizado na viso de que a escola composta pela diversidade tnica, cultural,de gnero, religio. Como afirma Romo, (2001, p. 163): Faz-se necessrio romper com ospreconceitos e esteretipos, rejeitar estigmas e valorizar a histria de cada um. A atitude doeducador diante da diversidade do alunado resultar em intervenes na construo do sujeitocomo um todo, tanto nos aspectos emocionais, psquicos, cognitivos, fsicos e culturais.Muitas vezes a escola tende a tornar homogneo o educando ou at mesmo quando se trabalhaa diversidade agrupa por estigma ou ranos dos colonizadores, como por exemplo: referir-seao negro como africano, esquecendo que a frica um continente e que existe tambm almdos negros de vrios pases desse continente existe tambm os negros afros brasileiros entreoutros (ROMO, 2001). Essa viso reducionista de conceber a diversidade dificulta a escolhade materiais didticos e paradidticos que atendam a necessidade da diversidade existente noespao escolar desfavorecendo o processo de construo da legitima democracia racial. 8. 8No contexto da escola essa grande escolha que possibilita a construo da identidade, deve serproporcionada atravs do seu material didtico e paradidtico como tambm em todo o seuprocesso educativo, repensando o currcul...</p>